Por Hugo Fernandes
Em outubro de 2010, o Blog do NUROF postou um texto sobre a Pseudoboa nigra, a “cobra-preta”, com comentários sobre a crença de que ela pudesse beber leite Cobra que bebe leite? Um pouco mais sobre a Pseudoboa nigra, a cobra preta!
A postagem foi um sucesso e, além de elucidar a ausência da enzima lactase e do músculo esfíncter bucal como fatores que impossibilitariam qualquer serpente de ingerir leite, fez também com que surgissem vários questionamentos interessantes. Seria só a Pseudoboa nigra a serpente responsável por essa crença? Seria só no Brasil? E o mais importante, como essa história teria surgido?
Serpentes que mamam é uma crença amplamente difundida em praticamente todas as regiões do planeta. Há documentos que apontam relatos idênticos em todo o território brasileiro, quase toda a América Latina, parte da Europa e Norte da África.
Entretanto, as espécies variam de acordo com cada região, mas a crença é praticamente a mesma em todas elas. Na região sudeste do país, por exemplo, a ingestão de leite é relacionada principalmente à cascavel (Crotalus durissus). Provavelmente, a Pseudoboa nigra é atribuída a essa questão apenas nos estados que abrangem a parte superior do bioma Caatinga (Ceará, Piauí, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte). E vale ressaltar que, nessa mesma região, as espécies Clelia clelia e Boiruna sertaneja ocorrem em diversas localidades e possuem morfologia muito parecida com a Pseudoboa nigra e, por conta disso, também são chamadas de “cobra preta” e acabam herdando a mesma crença.
Porém, um item que dá certo destaque a Pseudoboa nigra é o fato de que alguns indivíduos dessa espécie possam conter manchas brancas no seu dorso, o qual,na maioria dos casos, é todo negro. Essas manchas, além de obviamente não terem relação com a quantidade de leite ingerida, também não tem relação com albinismo, como previamente publicado. Trata-se apenas de uma variação de coloração individual comum.
Agora, partimos para o ponto mais peculiar. Como essa crença pode ter surgido de forma tão semelhante em lugares tão distantes no mundo? Pois bem. A origem pode ser explicada, já que o aniquilamento de uma serpente é geralmente realizado através de golpes de pedaços de madeira ou instrumentos agrícolas, dilacerando-a, fazendo com que se extravase um líquido espesso branco, com aspecto de leite coalhado. Esse líquido pode ser fruto do processamento metabólico da digestão do cálcio, proveniente das presas ingeridas que, ao juntar-se com o restante do material excretado, resulta em dejetos chamados de urato, com coloração que lembra bastante o leite. Outra possível explicação é que, no período reprodutivo, os machos secretam grande quantidade de um líquido esbranquiçado rico em albumina, que forma parte do líquido seminal e as fêmeas apresentam ovos com aspecto pastoso e branco. Juntam-se esses fatores com o grande potencial de circularidade cultural do ser humano e o resultado é a disseminação de uma história que, no caso, partiu de vários lugares no mundo e se espalhou para diversos outros lugares.
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Esta é uma híbrida, resultado do cruzamento entre a G. Becky e uma C. elephantopus, espécie considerada extinta e nativa da Ilha Floreana, que fica a mais de 320 quilômetros de distância. Análises genéticas da população de tartarugas na Ilha Isabela sugerem ainda há possibilidade de encontrar indivíduos puros C. elephantopus na Ilha Isabela. (Foto: Cortesia Yale University)


