Os números de 2012

Se 2012 foi um ano muito bom para os herpetólogos de plantão, aguardem por textos, curiosidades e discussões ainda melhores em 2013! Ótimo 2013 para todos nós e para toda a herpetologia! Lá vamos nós!

Aqui está um excerto:

19,000 people fit into the new Barclays Center to see Jay-Z perform. This blog was viewed about 120.000 times in 2012. If it were a concert at the Barclays Center, it would take about 6 sold-out performances for that many people to see it.

Clique aqui para ver o relatório completo

Lagartos brasileiros: peçonhentos não, mas nem tão inofensivos!

Sendo historicamente responsável pela 3ª postagem mais acessada do blog do NUROF-UFC e figurando entre os 10 termos de busca pelos quais mais visitam nosso blog, a temática “lagartos peçonhentos/venenosos” é indubitavelmente curiosa e importante de ser discutida.

Conforme visto em Lagartos peçonhentos (Lagartos venenosos no Brasil?), NÃO existe nenhuma espécie de lagarto naturalmente estabelecida em território nacional que produza toxinas em seu corpo (ou seja, venenosa), ou muito menos que seja capaz de inocular veneno em presas ou predadores (isto é, peçonhenta). Apesar disto, sou frequentemente indagado acerca dos perigos potenciais dos lagartos aos seres humanos. Como resposta, informo que, em geral, os lagartos brasileiros não provocam riscos relevantes, mas que são dotados de ferramentas naturais e estratégias defensivas para se proteger de ameaças.

Figura 1. Indivíduo adulto de Tupinambis merianae do plantel NUROF-UFC. Faça-nos uma visita para conhecer nosso Tejo!

Entre as táticas defensivas de lagartos, a mais primária é evitar ser detectado por seu predador, através da combinação de comportamentos crípticos, como camuflagem, coloração disruptiva e imobilidade. Após ser encontrado por um predador, o comportamento mais amplamente executado por lagartos é a fuga, na tentativa de escapar da ameaça. Entretanto, algumas vezes o lagarto está encurralado e, nestes casos, alguns comportamentos de intimidação podem ser exibidos no sentido de dissuadir seu potencial predador, como abrir a boca, inflar o corpo e agitar a cauda (Martins, 1996). Mesmo após todas estas tentativas de defesa, o predador pode persistir em sua investida e então, os lagartos podem se utilizar de ferramentas para atacar e agredir seu oponente. Na perspectiva dos lagartos, existem três principais tipos de dispositivos de ataque (neste caso para se defender): a cauda, as garras e a boca.

Neste âmbito, apresento os possíveis, embora pequenos, riscos da aproximação e manipulação de lagartos por leigos. Em especial, me detenho a duas espécies de grande porte que ocorrem no Brasil, a Iguana-verde (Iguana iguana) e o Tejo (Tupinambis merianae), ambas podendo atingir mais de um metro e meio de comprimento.

Figura 2. Datealhe da cabeça de Tupinambis merianae.

Obs: Vale frisar que as duas espécies citadas algumas vezes são criadas domesticamente como pets e podem tornar-se bastante dóceis, fornecendo pouco ou nenhum risco aos seus proprietários.

A longa e robusta cauda das Iguanas e dos Tejos, mecanicamente utilizada para locomoção e equilíbrio, constitui um tipo de arma de longo alcance que evita a aproximação exagerada do potencial predador. Ao ser agitada bruscamente, a cauda pode ser usada como um “chicote” para golpear o adversário, causando bastante dor no local atingido.

As fortes garras afiadas, usadas pelas Iguanas para se fixar e se locomover nas árvores e pelos Tejos para forragear e escavar tocas, quando os lagartos são manipulados, podem atingir a pele, causando danos físicos e provocando hemorragias locais.

A boca, ornamentada com fortes dentes, é pouco utilizada com fins defensivos por Iguanas, mas é uma das mais importantes armas dos Tejos. No caso dos Tejos, sua dentição é caracterizada pela heterodontia (presença de vários tipos de dentes), podendo desempenhar funções de corte, perfuração e esmagamento (Brizuela & Albino, 2010).

Recentemente, foi publicado um caso de mordida de Tejo em humanos. A vítima levou uma mordida no dedo indicador da mão direita ao tentar separar a briga entre seu cão e um Tejo com cerca de 1,5 m de comprimento. A lesão provocou perda de tecido, fratura óssea na falange distal, intensa hemorragia, inflamação local e dor intensa por mais de 10 horas. A intensidade da injúria foi tamanha que necessitou de intervenção cirúrgica, com a aplicação de enxerto cutâneo para reabilitação funcional e benefícios estéticos ao paciente (Haddad et al, 2008).

Figura 3. Crânio de Tupinambis merianae.

Portanto, embora a maioria dos lagartos cause pouco ou nenhum risco à saúde dos seres humanos, algumas espécies de grande porte merecem maior atenção. A lida com animais selvagens exige conhecimento biológico, prudência e responsabilidade, assim espero que esta postagem sirva como um alerta aos leitores que por ventura desejem se aproximar demais ou até manipular grandes lagartos como as Iguanas e os Tejos. Estejam cientes: Lagartos brasileiros: peçonhentos não, mas nem tão inofensivos!

 Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRIZUELA, S. & ALBINO, A. M.. 2010. Variaciones dentarias en Tupinambis merianae (Squamata:Teiidae). Cuadernos de Herpetología, 24(1): 5-16.

HADDAD JR., V.; DUARTE, M. R.; GARRONE NETO, D. 2008. Tegu (Teiu) Bite: Report of Human Injury Caused by a Teiidae Lizard. Wilderness and Environmental Medicine, 19: 111-113.

 MARTINS, M. 1996. Defensive tactics in lizards and snakes: the potential contribution of the neotropical fauna. Anais do XIV Encontro Anual de Etologia, 14:185-199.

Notícia: Apesar do medo, cobras devem ser preservadas, ensina biólogo

Animal cercado de medos e superstições é importante predador de ratos.
Matar cobras é crime ambiental e a recomendação é chamar os bombeiros.

A cobra é um animal cercado de medos e superstições. Como para muitas pessoas elas são malignas, geralmente são mortas, mas ao eliminar as cobras, também eliminamos um predador importante dos ratos, considerados uma praga nociva. Dependendo da cobra, ela pode comer até 15 ratos em uma semana.

O biólogo Ed Carlos Soares, especialista em cobras, é referência no salvamento de espécimes em risco em Mogi Guaçu, na região de Campinas, e hoje mantém 20 desses animais na casa onde mora, entre elas uma jiboia que chegou com queimaduras graves. A cobra passou por tratamento e, após 45 dias, está quase pronta para voltar à natureza.

Na casa também estão uma urutu, espécie ameaçada de extinção, e uma cascavel, que chegou quase morta e, após três meses, exibe os sinais de saúde.Cobra levada para o Projeto Serpentes do Brasil para tratamento em Mogi Guaçu (Foto: Reprodução EPTV)

Cobra encontrada ferida foi levada para tratamento em Mogi Guaçu (Foto: Reprodução EPTV)

Quando estão completamente saudáveis, as cobras são levadas até o município deEspírito Santo do Pinhal, também na região de Campinas, onde a soltura é feita em uma área autorizada.

O trabalho é supervisionado pelo veterinário Paulo Roberto Martim, da Universidade de Pinhal, que explica que preservar a espécie é uma forma de controle de doenças e pragas como os ratos.

O biólogo Miguel Carlos Mattar reforça a necessidade de preservação das cobras como predadores dos ratos, que transmitem doenças.O perigo para o ser humano realmente existe, já que, em média, a cada mil pessoas picadas, uma morre da vítima. Mas além da necessidade de preservação, matar uma cobra é crime ambiental, já que elas são animais silvestres. Quem encontrar uma cobra deve chamar o Corpo de Bombeiros 193.

Quem quiser conhecer mais sobre as cobras pode entrar no site do projeto Serpentes do Brasil.

Para ver a notícia completa acesse: http://migre.me/81scI

Notícia: Receita caseira para se livrar de cobras quase causa um incêndio

Princípio de incêndio assusta moradora de Jaraguá do Sul
Maria Tomio fazia receita para se livrar das cobras e acidentalmente quase pôs fogo na própria casa

Uma receita caseira para afastar cobras causou um princípio de incêndio na última residência da rua 781, no bairro Estrada Nova. O fogo iniciou por volta das 10h desta quinta-feira. Proprietária da casa, a servente Maria Janete Tomio, 49 anos, ouviu de uma conhecida que queimar osso e alho ajudaria a espantar o animal peçonhento do terreno. Maria colocou os ingredientes na churrasqueira e ateou fogo. Em poucos minutos, em função do tempo seco, as chamas se alastraram e queimaram uma pequena parte do telhado. “O susto foi grande”, comenta. Maria mora com a filha, mas estava sozinha no momento do incêndio.
(Notícia Completa: O CORREIO DO POVO)

As chamas queimaram uma parte do telhado da casa Foto: Marcele Gouche, dispoível em: http://www.ocorreiodopovo.com.br

NOTA:

Mas então o que fazer no caso de um encontro com uma serpente no ambiente urbano ou rural?
O recomendado é que você entre em contato com os bombeiros (através do telefone 193) ou a Polícia Florestal (através do telefone 190) de seu estado para que eles possam fazer a devida remoção do animal e encaminha-lo para a autoridade competente. Deste modo não há nenhum risco de ocorrer um acidente ofídico caso a espécie seja venenosa ou da pessoa incorrer em um crime ambiental ao matar o animal.

Aproveitamos aqui para lembrar que segundo artigo 29 da Lei nº 9.605/1998 matar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização é passível de punição com detenção de seis meses a um ano, e multa.

Receitas caseiras não são aconselhadas, muitas delas surgem como relatos, mitos ou lendas. Além de não resolverem o problema com as serpentes da vizinhança, podem acabar causando outros problemas graves como no caso do princípio de incêndio mostrado na reportagem acima.

Em casos de indícios de aparecimento de animais peçonhentos no seu terreno, previna-se evitando o acúmulo de lixo ou entulhos e controlando o número de roedores próximo a residencia. Se precisar andar pelo terreno, é importante usar calçados seguros e que protejam o tornozelo e se possível, perneiras. Nunca colocar as mãos em tocas, buracos na terra ou ocos de árvores sem a proteção de luvas de couro. Prestar MUITA atenção no caminho a ser percorrido é fundamental já que as serpentes se camuflam bem no ambiente onde vivem e não é possível enxerga-las sem muito cuidado e atenção.

Em breve postaremos mais dicas de cuidado e prevenção de acidentes com animais peçonhentos, aguardem!

Veja como é feito soro contra veneno de cobra

Da captura da serpente à fabricação do antídoto para sua picada, acompanhe o processo.

Do Tudo a Ver

O Brasil é o país que tem a maior população de cobras do mundo.Com isso, há também, muitos estudos e diversos procedimentos de extração de soro venenoso para a produção de antídoto (o soro antiofídico). Para mostrar como funciona esse processo, a equipe do programa Tudo a Ver (Record) visitou o laboratório de extração de veneno do Instituto Butantã, na capital paulista.

Mas todo esse procedimento, que salvará vidas de milhares de pessoas, começa com a busca da matéria-prima dos venenos: as serpentes vivas. Para isso, uma equipe especializada é encaminhada para um local um tanto quanto perigoso: a ilha das Cobras.Localizado na Ilha de Queimada Grande, o local possui mais de 3.000 víboras peçonhentas.

São necessários muitos profissionais trabalhando oito horas diariamente, durante cinco dias por semana, para produzir antídoto para picadas em quantidade suficiente. Na hora da extração, é preciso manusear a serpente venenosa com cuidado, pois o risco de ser picado é maior.

Antes de ter seu veneno retirado, a cobra é colocada em um recipiente com gás carbônico durante cinco minutos. Lá, acaba adormecendo.
O efeito sonífero permanece por dois minutos, tempo suficiente para a extração.Porém, a cobra pode acordar antes do tempo determinado.

Imagens da reportagem

Para o procedimento, são necessários dois responsáveis: um pressionara cabeça da serpente (local onde está a glândula de veneno) e outro segura o corpo da cobra. O líquido venenoso, depois, é encaminhado para uma sala de processamento e passará por uma centrífuga, onde as impurezas ( como muco ou células de sangue) serão removidas. Em seguida, o veneno é pipetado em frasco e levado para um refrigerador, onde ficará a uma temperatura de 20°C negativos.

A substância, então, é transformada em vacina e encaminhada para uma fazenda, onde será injetada em um cavalo, para a criação de anticorpos (que resultarão no antídoto).

Imagens da reportagem

Ao contrário do que parece, especialistas afirmam que esse procedimento não envenena o cavalo contaminado. Após ter o veneno já processado injetado na sua veia, o cavalo passa por um exame de sangue. Em seguida, será separado o plasma do animal.

Esse plasma será enviado para a capital paulista, purificado e transformado, finalmente, em soro antiofídico (o antídoto contra picada de serpentes peçonhentas).

Assista a reportagem completa em:
http://videos.r7.com/r7/service/video/playervideo.html?idMedia=4dd2f1e13d31329ecc732bba&idCategory=197&embedded=true

Fonte: R7

O veneno do rabo (cauda) da lagartixa (taruíras)

Quem nunca em algum momento da vida escutou pessoas que afirmavam que o rabo das lagartixas, também chamadas de taruíras, essas que vira e mexe à noitinha estão sempre em nossas casas, tem veneno no rabo? Me recordo de um caso em que o contador dizia que uma pessoa havia, sem perceber, colocado pó de café no coador sobre o rabo de uma lagartixa e o resultado foi a trágica morte dos familiares do personagem da história que me era contada. Por também já terem escutado algo semelhante, existem pessoas que não tardam em correr atrás desses bichinhos, chinelo à mão, para matá-los com medo de que o fato possa se repetir com as pessoas de sua família.

Pretendo aqui dar bons motivos para que os leitores parem de temer esse tipo de estória. Comecemos por falar que esses animais são lagartos pertencentes à família Gekkonidade, uma família da qual fazem parte muitas espécies de beleza rara. Não é à toa que muitos herpetofilos pelo mundo adoram criar os famosos geckos em seus terrários. Essa lagartixinha que vive em nossas casa, sítios, fazendas e até em sofisticados apartamentos das grandes cidades possui o nome científico Hemidactylus mabouia sendo originária do continente africano. Essa espécie de lagartixa foi provavelmente trazida para o Brasil nos navios negreiros portugueses que faziam a rota de tráfico de escravos da áfrica para a américa.

Não há na literatura científica nenhuma informação que dê conta de que na composição da cauda dos lagartos exista alguma substância tóxica. Até vá lá que algumas espécies desenvolveram ao longo de sua evolução caudas atrativas que chamam a atenção de seus predadores, mas mesmo nessas espécies não há nenhum relato de que elas tenham algum ingrediente tóxico em suas caudas. As caudas, ou rabo, como queiram, dos lagartos são compostas pelos ossos que compõe as vértebras, por musculatura, vasos sanguíneos, inervação e gordura. A cauda e todo o corpo de um lagarto são recobertas por escamas constituídas quase que na totalidade por queratina, isso mesmo, a substância que compõe os cabelos e unhas de você, que está lendo esta postagem. Então porque esperar que as caudas das belas lagartixas possam conter substâncias venenosas? Não há motivos para os humanos temerem ser envenenados por uma cauda de lagartixa doméstica mais do que por exemplo de ser envenenado ao roer os cantos de suas própria unhas! Esta é mais uma lenda popular que nada contribui para o verdadeiro conhecimento da natureza e que você, a partir de agora, pode ajudar a desmistificá-la.

Há uma propriedade interessante na cauda das lagartixas e de outros lagartos que é a capacidade de perda (voluntária ou não) de partes da cauda com posterior regeneração da parte perdida, mas vamos deixar esta curiosidade para uma outra postagem! :)

Formspring: Sapos e gias soltam um “leite” como defesa? É seu veneno?

Os anfíbios armazenam veneno em glândulas volumosas espalhadas por toda a pele. Ao sofrerem tentativa de predação, a pressão feita nas glândulas leva a liberação de uma substância tóxica “branco leitosa”, vulgarmente chamada de “leite”. Tais substâncias podem causar apenas um gosto desagradável ou mesmo o envenenamento propriamente dito, constituindo um mecanismo de defesa contra a ameaça de predadores.

Esse “leite” pode ser encontrado em boa parte das espécies de anuros, e não apenas em sapos (Família Bufonidae) e jias ou rãs (Família Leptodactylidae). Há também registros de venenos leitosos nas Famílias Leiuperidae e Hylidae, em alguns casos constituindo substâncias bastante grudentas que não saem fácil com água.

SAPO; Foto: Crizanto B. De-Carvalho

Até agora sabe-se apenas do sapo amazônico Rhaebo guttatus que foge a esta regra, e tem a capacidade de lançar ativamente o veneno de suas glândulas na forma de jatos.

Notícia: Proteína de veneno de serpente destrói célula de tumor em teste

Obtida da jararacuçu, molécula leva a suicídio celular do câncer durante experiência in vitro
Pesquisadoras da PUC do Paraná consideram abordagem promissora, mas caminho até uso em pacientes ainda é longo

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA

É provável que o mero nome da jararacuçu (Bothrops jararacussu) cause arrepios em quem teme serpentes. O veneno do réptil, contudo, pode se revelar uma arma valiosa contra o câncer.
Os indícios, obtidos em laboratório, ainda são preliminares. Uma proteína isolada na peçonha da jararacuçu parece capaz de se ligar a células tumorais e forçá-las ao suicídio, por exemplo.
Os resultados vêm do trabalho de duas pesquisadoras da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), cujo próximo desafio é entender, em detalhes, a interação da proteína do veneno com as células do câncer.
“Ninguém ainda entrou na célula para ver como a molécula faz isso, onde ela se liga”, disse à Folha a bióloga Selene Esposito, que investiga o tema junto com Andréa Novais Moreno.
A dupla tem em comum o interesse pelo grupo de proteínas ao qual pertence a BJcuL (apelido da molécula de veneno). São as lectinas, cuja estrutura e função sugerem uma série de aplicações médicas, diz Esposito.

RECONHECE E GRUDA
“Elas são basicamente moléculas de reconhecimento”, conta a bióloga. O mais comum é que as lectinas estejam localizadas na superfície celular, embora também seja possível encontrá-las no interior das células.
De um jeito ou de outro, o papel das lectinas costuma ser o de reconhecer certos tipos de moléculas de açúcar e se ligar a elas, desencadeando sinais específicos, como a ativação do sistema imunológico (de defesa) do corpo.
Era razoável imaginar que as lectinas poderiam agir contra o câncer porque há anomalias nas moléculas de açúcar produzidas pelos tumores. Justamente por serem sensíveis a açúcares, as lectinas poderiam reconhecer a mudança e sabotar o câncer.
É justamente isso que a dupla da PUC-PR tem visto ao estudar alguns tipos de lectinas, como uma molécula produzida pela jaca e a BJcuL (sigla que significa “lectina de Bothrops jararacussu”).
Primeiro, a proteína do veneno consegue estimular várias facetas do sistema imunológico. O mais interessante, porém, veio com o efeito da substância contra células de câncer do estômago e de tumores do cólon (intestino grosso). Nesses casos, a BJcuL induz a apoptose, ou morte celular programada.
Além disso, a lectina também afeta a integridade da membrana que envolve a célula tumoral, ou causa danos a seu núcleo, o centro de comando celular, onde está aninhado o DNA.
A esperança é que a especificidade da ligação da lectina com as células de câncer impeça efeitos colaterais, como os da quimioterapia tradicional. Mas serão necessários muitos testes antes do possível uso em pacientes.

Evolução fez cobras virarem fábrica de droga

DO EDITOR DE CIÊNCIA

Não há nada mais lógico do que procurar substâncias de interesse médico no veneno produzido por serpentes.
Diversos medicamentos já foram inspirados pela peçonha dos bichos, e não é difícil entender o porquê disso. Em resumo, pode-se dizer que Darwin explica.
É que milhões de anos de evolução moldaram o veneno das cobras para interagir de forma bastante específica com as moléculas presentes no organismo de suas vítimas.
Quando melhor a serpente manipular o corpo da presa via veneno, mais fácil será devorar o jantar. É por isso que certas substâncias da peçonha, por exemplo, fazem cair a pressão da vítima, enquanto outras bagunçam o sistema nervoso do bicho que foi picado.
Ora, em alguns casos pode ser do interesse do médico fazer coisas parecidas. Não é à toa que o Captopril, remédio contra pressão alta, foi desenvolvido a partir do veneno de jararacas por cientistas nos Estados Unidos.
Por tudo isso, é de esperar que novos medicamentos de valor venham da pesquisa com veneno de serpentes. (RJL)
Fonte: FOLHA.com/Ciência

Lagartos peçonhentos (Lagartos venenosos no Brasil?)

Em algumas regiões do Brasil, há crenças de que alguns lagartos possuem veneno e, inclusive, são capazes de inoculá-lo, à semelhança das serpentes peçonhentas. Entre as espécies relacionadas a estas crenças estão: as lagartixas de parede (Hemidactylus sp.), os calangos-cegos (Polychrus sp.), os calangos-lisos (Diploglossus sp.), entre muitas outras. Abaixo, seguem alguns exemplos de concepções comuns sobre estes lagartos:

As bribas entram nas gaiolas, à noite, e envenenam a água dos passarinhos”.
Calango cego, quando morde uma pessoa, é pior que cobra cascavel”.
Calango-liso é tão mal, que quando cresce, vira cobra”.

A última concepção refere-se a Diploglossus lessonae, espécie de corpo alongado e cilíndrico, com acentuada redução apendicular (Rocha, 1994), que institui uma interessante crença nos sertões, citada por Vanzolini et al. (1980). Segundo Vanzolini et al. (1980), as características deste animal fazem com que o povo creia que, com o crescimento, este lagarto torne-se uma serpente. Acrescentam, ainda, que esta crença é reforçada pela ocorrência frequente de exemplares com mutilação cicatrizada de um ou mais membros. Além disso, estes lagartos, às vezes, locomovem-se comprimindo os membros junto ao corpo, serpenteando habilmente semelhante a uma serpente, o que poderia dar sustentação a esta crença.

Diploglossus lessonae - Ubajara - CE (MD)

Figura 1. Indivíduo jovem de Diploglossus lessonae. Fotografia de Daniel Passos.

Embora estas concepções figurem amplamente no imaginário popular de diversos grupos humanos, rurais e urbanos, por todo o país, a comunidade científica fornece evidências, substanciais, que desmistificam estas crenças.

Em todo o mundo, só existem três espécies de lagartos peçonhentos (que produzem e inoculam veneno): duas espécies do gênero Heloderma que ocorrem no Sudoeste da América do Norte, os renomados monstros de Gila (Beaman et al., 2006), e o famoso dragão de Komodo (Varanus komodoensis), a maior espécie de lagarto vivente, cuja distribuição natural é limitada a algumas ilhas na Indonésia (Fry et al., 2009).

As duas espécies de helodermatídeos peçonhentos viventes são o Monstro de Gila (Heloderma suspectum) e o Lagarto de Contas (Heloderma horridum), embora o registro fóssil apresente evidências de outras espécies co-relacionadas com a mesma capacidade, como o gênero Paraderma. É importante frisar que ao contrário das serpentes, em que o veneno é inoculado por dentes maxilares, nestes lagartos os dentes inoculadores são mandibulares, ou seja, são localizados na arcada dentária inferior. Outra importante curiosidade a respeito dos Monstros de Gila, é que estudos recentes descobriram frações específicas de sua saliva com propriedades para o tratamento de diabetes, estabelecendo benefícios diretos desta espécie para a sociedade humana.

O dragão de Komodo (Varanus komodoensis) pertencente à família dos lagartos monitores (Varanidae), foi descoberto e descrito há mais de cem anos e, ao longo deste tempo, tem se tornado uma das espécies de lagarto mais famosas do mundo. Até então, as conseqüências oriundas das mordidas dos dragões eram atribuídas apenas à atividade de bactérias simbiontes, que compunham sua microbiota oral, em especial Pasteurella multocida,uma espécie de bactéria altamente patogênica. Não obstante, somente em 2009, um grupo de pesquisadores encontrou evidencias factuais da produção e inoculação de veneno por estes animais (Fry et al., 2009), e assim, incluíram o dragão de Komodo no seleto grupo de lagartos verdadeiramente peçonhentos.

Por todo o exposto, verifica-se que não ocorre nenhuma espécie de lagarto peçonhento no Brasil. Deste modo, as concepções supracitadas são evidências da falta de informação e da existência de idéias equivocadas sobre os lagartos, na sociedade brasileira.

Assim, faz-se necessário que os conhecimentos científicos, especialmente aqueles mais relacionados à vida cotidiana da população “leiga”, sejam amplamente disponibilizados. A divulgação científica apresenta valor inestimável e precisa ser mais valorizada, afinal, um dos maiores objetivos da ciência é gerar informações sobre o mundo, que proporcionem o esclarecimento e a conscientização da sociedade, fornecendo-lhe subsídios para suas tomadas de decisão.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BEAMAN, K. R.; BECK, D. D.; MCGURTY, B. M. 2006. The beaded lizard (Heloderma horridum) and Gila monster (Heloderma suspectum): a bibliography of the family Helodermatidae. Washington: National Museum of Natural History, Smithsonian Herpetological Information Service.

FRY, B. G. et al. 2009. A central role for venom in predation by Varanus komodoensis (Komodo Dragon) and the extinct giant Varanus (Megalania) priscus. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America 1: 1-6.

ROCHA, C. F. D. 1994. Introdução à ecologia de lagartos brasileiros. In: NASCIMENTO, L. B.; BERNARDES, A. T.; COTTA, G. A. Herpetologia no Brasil, 1. Belo Horizonte:Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais; Fundação Biodiversitas; Fundação Ezequiel Dias.

VANZOLINI, P. E.; RAMOS-COSTA, A.; VITT, L. J. 1980. Répteis das caatingas. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Ciências.

Clipagem: As serpentes podem ser vítimas do próprio veneno?

Por: Antonio Alvez de Siqueira do Blog: Mundo Rastejante

Claramente que não. Isso é quase impossível de acontecer. Primeiro porque as serpentes – até onde sabemos – são imunes à própria peçonha; segundo, porque a língua delas é projetada (dardejamento) para realizar apenas movimentos para frente e para trás. Os movimentos laterais (para onde se localizam as presas inoculadoras de peçonha), não ocorrem, não havendo como picar a própria língua. É importante lembrar que, uma serpente pode ser imune à própria peçonha ou à peçonha de outra espécie, mas pode não o ser diante da peçonha de uma determinada espécie. Por exemplo, a muçurana é imune à peçonha da jararaca, mas é altamente sensível à peçonha da coral-verdadeira do gênero Micrurus. As serpentes ofiófagas podem matar por inoculação de peçonha, no caso da coral-verdadeira (Micrurus sp.), por exemplo; ou ainda por constrição no caso da Muçurana (Clelia clelia). Serpentes ofiófagas como a muçurana apresenta grande importância no controle de outras serpentes como a jararaca, sua principal presa, chegando a comer 17 espécimes por ano. As serpentes são, portanto de grande importância para a cadeia ecológica. Por isso, não devem ser mortas, mas, retiradas das áreas de risco às pessoas e outros animais e colocadas em seu habitat natural; um processo que deve ser feito por um herpetólogo.

O poder mortífero da peçonha das serpentes vem mudando devido à corrida evolucionária. As presas vêm desenvolvendo resistência à peçonha das serpentes e essas por sua vez, vêm desenvolvendo peçonha cada vez mais potente. A isso, a biologia chama “corrida de armas”.

Texto de: Antonio Alvez de Siqueira

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