Notícia: Expedição à Amazônia peruana encontra novas espécies de lagartos

Animais foram encontrados próximos à bacia do Rio Huallaga.
Répteis foram descritos no periódico científico ‘Zookeys’

Cientistas descobriram em uma região da Amazônia peruana duas novas espécies de lagartos. Eles vivem em uma área quase inexplorada, próxima à bacia do Rio Huallaga. Os répteis foram descritos em um estudo científico publicado no periódico “Zookeys” da última semana.

De acordo com os pesquisadores, os lagartos pertencem ao gênero Enyalioides. Apenas dez espécies deste gênero foram descritas nas Américas do Sul e Central, sendo que nove delas foram achadas no Peru, de acordo com os pesquisadores.

Dois exemplares, um macho e uma fêmea, da espécie Enyalioides azulae. (Foto: Reprodução/Zookeys)

Dois exemplares, um macho e uma fêmea, da espécie Enyalioides azulae. Foto: Reprodução/Zookeys.

Os dois novos lagartos foram vistos durante expedições recentes feitas em áreas pouco exploradas da Amazônia, mais precisamente no Parque Nacional Cordilheira Azul.

As espécies foram batizadas de Enyalioides azulae, para lembrar que ele foi encontrado na Cordilheira Azul  e Enyalioides binzayedi, em homenagem ao xeque Mohamed Bin Zayed Al Nahyan, dos Emirados Árabes Unidos, um dos financiadores da expedição.

Exemplar da espécie Enyalioides binzayedi, um dos lagartos encontrados na Amazônia peruana (Foto: Reprodução/Zookeys)

Exemplar da espécie Enyalioides binzayedi, um dos lagartos encontrados na Amazônia peruana. Foto: Reprodução/Zookeys

O Parque Nacional Cordilheira Azul abrange áreas de várzea da floresta amazônica e também florestas em montanhas. A biodiversidade local é considerada rica. Em 2002, por exemplo, cientistas encontraram 58 novos anfíbios e 26 répteis.

 

Fonte: http://g1.globo.com

Parece, mas não é: Tuatara

Antes de conhecermos o personagem principal deste “Parece, mas não é”, eu gostaria de convidar o caro leitor a observar atentamente a imagem abaixo (Figura 1). Que animal é esse? Em que grupo podemos incluí-lo? Quais seus “parentes” (grupos biológicos) próximos?

tuatara 2

Figura 1. Tuatara adulta (Sphenodon punctatus). Fotografia de Cristiano Nogueira.

É provável que muitos leitores do blog do NUROF-UFC tenham pensado: “ora Daniel . . . é um lagarto, um réptil escamado, “parente” das serpentes!”. No entanto, eu informo a vocês que o animal em questão não se trata de um lagarto, pelo menos não da forma como costumamos caracterizá-los e reconhecê-los. Esta confusão é bem comum entre a população em geral, tendo em vista a imensa semelhança destes animais com os lagartos “verdadeiros”. Entretanto, os cientistas especialistas em répteis classificam esta criatura em um grupo distinto, os Sphenodontia.

Na verdade, este réptil lacertiforme que pode atingir  60 cm de comprimento é denominado Tuatara. Este nome é proveniente da língua indígena dos povos Maori e significa “espinhos nas costas”. De forma geral, estes animais têm aparência muito similar aos lagartos iguanídeos, compartilhando várias características morfológicas com os demais répteis lepidossauros (Lepidosauria), que agrupam os lagartos, as anfisbenas, as serpentes, além das próprias tuataras. Como exemplo, estes animais se assemelham pela presença da fenda cloacal transversal e a capacidade de trocar a camada externa da epiderme por inteiro periodicamente (ecdise).

Apesar das similaridades, diversas características permitem distinguir as Tuataras dos lagartos. Morfologicamente, as Tuataras são destituídas de ouvidos externos (Figura 2), bem como de órgãos copuladores. Além disso, o crânio destes animais apresenta várias particularidades como o tipo de dentição (acrodonte), o número de fileiras de dentes (duas na maxila superior) e a forma da fenestra temporal inferior (completamente delimitada). Ecologicamente, as Tuataras são tipicamente noturnas, apresentando temperaturas corpóreas relativamente baixas (entre 12 e 16 ºC) quando comparadas a outros répteis. Estes animais se alimentam principalmente de insetos e outros artrópodes, embora possam ocasionalmente consumir lagartos, aves e até outras Tuataras jovens. A reprodução das Tuataras também difere grandemente dos padrões encontrados nos demais répteis escamados. As fêmeas põem de 8 a 15 ovos em cada evento reprodutivo, o período de incubação dos ovos dura cerca de 15 meses e, além disso, as Tuataras levam mais de 10 anos para atingir sua maturidade sexual.

tuatara 1

Figura 2. Cabeça de um Tuatara (Sphenodon punctatus). Fotografia de Cristiano Nogueira.

Atualmente existem apenas duas espécies de Tuataras, Sphenodon punctatus (Gray, 1842) e Sphenodon guntheri (Buller, 1877). Ambas as espécies são endêmicas da Nova Zelândia, ocorrendo nos costões rochosos das ilhas costeiras ao norte do país. As Tuataras são legalmente protegidas desde 1895 e, embora S. punctatus ocorra em várias ilhas, S. guntheri ocorre em somente uma, demonstrando a relativa importância da conservação destas espécies.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

HUTCHINS, M.; MURPHY, J. B. & SCHLAGER, N. 2003. Reptiles. In: Grzimek’s Animal Life Encyclopedia. Thomsom Gale, Farmington Hills.

POUGH, H. F.; JANIS, C. M. & HEISER, J. B. 2008. A vida dos vertebrados. 4ª ed. São Paulo: Atheneu.

ZUG, G. R.; VITT, L. J. & CALDWELL, J. P. 2001. Herpetology: An introductory biology of amphibians and reptiles. 2nd ed. California: Academic Press.

Clipagem: O atendimento de animais silvestres em clínicas de pequenos animais

Com a crescente verticalização das moradias, é cada vez mais comum à criação de animais não convencionais nos lares, por estes ocuparem menor espaço, serem de fácil manejo e manutenção. Ainda, desde os tempos mais remotos, os animais silvestres sempre tiveram presentes nas casas, impulsionados pelo crescente número de criatórios registrados no IBAMA.

Com isso, é cada vez mais frequente a presença destes na clínica de pequenos animais e o clínico deve estar preparado para fornecer as corretas orientações de manejo, ambiente de criação, nutrição, biologia aplicada, entre outros; assim como saber como abordar, conter, examinar, tratar e manter internado este paciente tão diferente dos animais domésticos convencionais. O correto conhecimento dos tópicos apresentados é crucial para o sucesso do profissional que pretende oferecer a seus clientes um serviço pleno na clínica de pequenos animais.

A criação de animais não convencionais e silvestres tem se tornado uma prática comum nos lares. O que eleva a demanda de atendimento especializado para estes animais.

O animal silvestre é diferente de um cachorro e de um gato. Ele se estressa mais fácil, às vezes é difícil de segurar e ainda por cima pode bicar e morder.

A anatomia e fisiologia únicas dos répteis, aves e mamíferos silvestres, tornam os procedimentos cirúrgicos nestes animais bastante diferentes daqueles empregados em cães e gatos.

A abordagem cirúrgica requer equipamentos especiais de acesso e acompanhamento do paciente no transoperatório, como anestesia inalatória, monitores cardíacos, oxímetro de pulso, Doppler vascular, bomba de infusão e em alguns casos deve-se valer de serras cirúrgicas específicas para cascos e bicos.

As clínicas que atendem animais silvestres devem valer do maior número de métodos diagnósticos para descobrir as afecções que acometem aves, répteis e pequenos mamíferos, pois, muitas delas apenas podem ser descobertas com o uso de raios-X. Os posicionamentos radiográficos não são os mesmos adotados em cães e gatos e algumas vezes é preciso anestesiar os animais. E o profissional que vai prestar o atendimento precisa ser capacitado para poder lidar com as principais situações ocorridas na clínica de pequenos animais.

Leia também: Meu bichinho de estimação é silvestre

Fonte: CPT Cursos Presenciais

Adaptação: Revista Veterinária

Disponível em:  RevistaVeterinaria.com.br

Os números de 2012

Se 2012 foi um ano muito bom para os herpetólogos de plantão, aguardem por textos, curiosidades e discussões ainda melhores em 2013! Ótimo 2013 para todos nós e para toda a herpetologia! Lá vamos nós!

Aqui está um excerto:

19,000 people fit into the new Barclays Center to see Jay-Z perform. This blog was viewed about 120.000 times in 2012. If it were a concert at the Barclays Center, it would take about 6 sold-out performances for that many people to see it.

Clique aqui para ver o relatório completo

Lagartos canibais

O consumo de lagartos por outras espécies de lagartos, fenômeno conhecido como saurofagia, tem sido reportado para várias espécies Neotropicais. Estes eventos podem parecer raros, no entanto, nos últimos anos têm se registrado ocorrência deste comportamento para diversas famílias de lagartos, tais como Gekkonidae, Gymnophtalmidae, Liolaemidae, Phyllodactylidae, Scincindae, Teiidae e Tropiduridae (Siqueira & Rocha, 2008). Como exemplos de saurofagia, podemos citar o consumo da “lagartixa” (Hemidactylus mabouia) pelo “calango” (Tropidurus torquatus) (Galdino & Van Sluys, 2004; Figura 1) e a predação da “tijubina” (Cnemidophorus ocellifer) pelo “calango” (Tropidurus hispidus) (Zanchi et al., 2012; Figura 2).

Figura 1. Indivíduo macho, adulto de Tropidurus torquatus.

O canibalismo, por sua vez, consiste em um tipo específico de saurofagia, em que lagartos se alimentam de indivíduos de sua própria espécie. Esta tendência canibal parece ser particularmente mais comum em espécies de hábitos alimentares generalistas, estando associada ao comportamento predatório oportunista (Mayntz & Toft, 2006). No Brasil, diversas espécies de lagartos realizam canibalismo, geralmente envolvendo a predação de juvenis por indivíduos adultos (Siqueira & Rocha, 2008).

Figura 2. Indivíduo macho, adulto de Tropidurus hispidus.

Entre os lagartos brasileiros, os do gênero Tropidurus (Figuras 1 e 2) se destacam entre as espécies canibais, existindo registros para pelo menos 5 espécies: Tropidurus hispidus (Sales et al., 2011), Tropidurus hygomi (Dias & Rocha, 2004), Tropidurus torquatus (Kiefer et al., 2006; Figura 3), Tropidurus oreadicus (Araújo, 1987) e Tropidurus montanus (Kiefer & Sazima, 2002).

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Figura 3. Indivíduo fêmea, adulta de Tropidurus torquatus, consumindo um indivíduo juvenil da mesma espécie. Fotografia de Edicarlos Silva.

Com todo o exposto, eu espero ter transmitido aos leitores um pouco mais sobre os hábitos alimentares dos lagartos brasileiros, demonstrando que o canibalismo, em vez de estranho e raro, pode constituir um fenômeno mais comum e frequente do que se imagina.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARAÚJO, A.F.B. 1987. Comportamento alimentar dos lagartos: o caso dos Tropidurus do grupo torquatus da serra dos Carajás, Pará (Sauria: Iguanidae). Anais de Etologia, 5: 203-234.

DIAS, E. J. R. & ROCHA, C.F.D. 2004. Tropidurus hygomi. Juvenile predation. Herpetological Review, 35: 398-399.

GALDINO, C.A.B & VAN SLUYS, M. 2004. Tropidurus torquatus. Saurophagy. Herpetological Review, 35: 173.

KIEFER, M.C.; SIQUEIRA, C.C.; VAN SLUYS, M. & ROCHA, C.F.D. 2006. Tropidurus torquatus. Prey. Herpetological Review, 37: 475‑476.

KIEFER, M.C. & SAZIMA, I. 2002. Tropidurus montanus. Cannibalism. Herpetological Review, 33: 136.

MAYNTZ, D. & TOFT, S. 2006. Nutritional value of cannibalism and the role of starvation and nutrient imbalance for cannibalistic tendencies in a generalist predator. Journal of Animal Ecology, 75: 288-297.

SALES, R.F.D.; JORGE, J.S.; RIBEIRO, L.B. & FREIRE, E.M.X. 2011. A case of cannibalism in the territorial lizard Tropidurus hispidus (Squamata: Tropiduridae) in Northeast Brazil. Herpetology Notes, 4: 265-267.

SIQUEIRA, C.C & ROCHA, C.F.D. 2008 Predation by lizards as a Mortality source for Juvenile lizards in Brazil. South American Journal of Herpetology, 3: 82-87.

ZANCHI, D.; PASSOS, D.C.P & BORGES-NOJOSA, D.M.B. 2012. Tropidurus hispidus. Saurophagy. Herpetological Review, 43: 141-142.

O “terceiro olho” dos lagartos

Os leitores fascinados por lagartos, assim como eu, já devem ter observado, pelo menos uma vez, a presença de uma pequena abertura localizada no topo da cabeça dos lagartos, na região atrás dos olhos (Figura 1). Desde minha infância, esta característica tem me incitado a saber mais sobre seu nome, estrutura e função.

terceiro olho 1

Figura 1. “Terceiro olho” (ponto cinza no centro do círculo azul) de um indivíduo adulto de Tropidurus hispidus.

Em busca de sanar minha curiosidade, descobri, através da bibliografia específica, que o órgão em questão é chamado de “olho parietal”, “olho pineal” ou “terceiro olho” (Stebbins & Wilhoft, 1966). Este órgão não é exclusivo dos lagartos, estando também presente em organismos como lampreias (Petromyzontoidea), salamandras (Caudata) e outros répteis como as tuataras (Sphenodontia). Mesmo entre os lagartos, nem todas as espécies possuem este “terceiro olho”, apesar de ele estar presente em várias, senão na maioria das espécies.

Este órgão foi descrito pela primeira vez em 1872 por Leydig. Entretanto, a primeira evidência de sua sensibilidade à luz só foi reportada por Nowikoff em 1907. Devido a sua estrutura aparentemente simples, em comparação com olhos “verdadeiros”, por muito tempo o “terceiro olho” dos lagartos foi tido como um órgão vestigial. No entanto, hoje sabe-se que este órgão é funcional, desempenhando importante papel na sobrevivência dos lagartos que o possuem.

Quanto à estrutura deste órgão, embora mais simples, sua forma geral é similar a dos olhos laterais (córnea, lente e retina), com exceção de não apresentar pálpebras e musculatura associada (Figura 2). Além disso, estudos demonstraram a existência de células fotoreceptoras em sua retina, à semelhança dos cones encontrados nas retinas dos olhos laterais (Eakin & Westfall 1959). Posteriormente, também foi evidenciada a presença de fibras neuronais formando um nervo que interliga a retina do “terceiro olho” ao cérebro (Stebbins & Eakin, 1958, Eakin & Westfall, 1960), comprovando que este órgão é neurologicamente funcional nos lagartos (Miller & Wolbarsht, 1962).

terceiro olho 3

Figura 2. “Terceiro olho” (ponto cinza no centro do círculo azul) de um indivíduo adulto de Copeoglossum nigropunctatum.

O “terceiro olho” dos lagartos desempenha uma função fundamentalmente reguladora na atividade dos lagartos, atuando sobre os ciclos de atividade diária e sazonal (Stebbins & Wilhoft, 1966). Especificamente, o “terceiro olho” influencia o tempo de exposição à luz do sol, a taxa de deslocamento e a seleção de ambientes para termorregulação nos lagartos (Stebbins & Eakin, 1958). Assim, este órgão age indiretamente como um medidor de luz e temperatura, indicando se as condições ambientais estão ou não adequadas à atividade dos lagartos.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EAKIN, R. M & WESTFALL, J. A. 1959. Fine structure of the retina in the reptilian third eye. Journal of Biophysical and Biochemical Cytology, 6: 133-134.

EAKIN, R. M & WESTFALL, J. A. 1960. Further observations on the fine structure of the parietal eye of lizards. Journal of Biophysical and Biochemical Cytology, 8: 483-499.

LEYDIG, F. 1872. Die in Deutschland lebenden Arten der Saurier. Tünbingen, H. Laupp’sche Buchhandlung.

MILLER, W. H. & WOLBARSHT, M. L. 1962. Neural activity in parietal eye of a lizard. Science, 135: 316.

NOWIKOFF, M. 1907. Uber das parietalauge von Lacerta agilis und Anguis fragilis. Biologisches Centralblatt Erlangen, 27: 405-414.

STEBBINS, R. C. & EAKIN, R. M. 1958. The role of the “third eye” in reptilian behavior. American Museum novitates, 1870: 1-40

STEBBINS, R. C. & WILHOFT, D. C. 1966. The Galápagos: Proceedings of the Symposia of the Galápagos International Scientific Project. Berkeley, University of California Press.

Mimetismo de escorpiões por lagartos?

Lagartos podem ser presas de diversos predadores, incluindo invertebrados, serpentes, aves e mamíferos (Pianka and Vitt, 2003), bem como outros lagartos (Zanchi et al, 2012). Deste modo, é esperado que eles apresentem estratégias defensivas que intensifiquem sua sobrevivência durante o encontro com predadores (Rand, 1967).

Figura 1. Indivíduo adulto de Gymnodactylus geckoides.

O comportamento de curvar a cauda sobre o dorso é uma estratégia utilizada por alguns lagartos para reduzir as pressões da predação. Há duas hipóteses para a ocorrência deste comportamento: 1. A postura adotada pelo lagarto permitiria maior exposição da cauda para potenciais predadores, distraindo sua atenção de regiões mais vitais do corpo e favorecendo a ocorrência de autotomia caudal; e 2. A postura se configuraria como mimética a modelos de escorpiões (o mimetismo ocorre quando uma espécie possui características que evoluíram especificamente para se assemelhar com as de outra espécie), aos moldes do mimetismo batesiano, no qual indivíduos palatáveis (aceitáveis, agradáveis ao paladar) e/ou inofensivos se assemelham a modelos impalatáveis e/ou nocivos (Pianka and Vitt, 2003).

Evidências de estratégias defensivas em que lagartos possivelmente mimetizam escorpiões são sugeridas por alguns estudos. Há registros entre os gecos Coleonyx variegatus (Parker and Pianka, 1974), Teratoscincus roborowskii (Autumn and Han, 1989) e, no Brasil, há evidências deste comportamento para Gymnodactylus carvalhoi (Colli et all, 2003), Coleodactylus brachystoma (Brandão e Motta, 2005) e Gonatodes humeralis (Costa et all, 2009).

Figura 2. Detalhe da coloração ventral da cauda de Gymnodactylus geckoides, com padrão de listras transversais brancas e pretas.

Recentemente, a equipe do NUROF-UFC registrou a ocorrência deste comportamento para outra espécie de lagarto brasileiro, Gymnodactylus geckoides, uma lagartixa da Caatinga (Passos et al, 2012). Durante a exibição do comportamento, o lagarto curva sua cauda sobre o dorso do corpo, expondo o padrão de coloração ventral que consiste em listras transversais brancas e pretas intercaladas.

Alguns fatores observados no estudo reforçaram a hipótese de que este comportamento representa um mimetismo de escorpiões por G. geckoides: 1. A postura adotada pelo lagarto se assemelha à posição defensiva de escorpiões; 2. Lagarto e escorpiões simpátricos apresentam tamanhos corpóreos similares; 3. A coloração ventral da cauda do lagarto lembra o padrão de coloração intercalado do metassoma (pós-abdômen) de alguns escorpiões; 4. Existe uma elevada abundância de escorpiões vivendo sintopicamente (nos mesmos micro-habitats) com o lagarto; e 5. O lagarto compartilha o mesmo período de atividade diária dos escorpiões.

Figura 3. Indivíduo adulto de Gymnodactylus geckoides exibindo o comportamento defensivo.

Embora a hipótese da exposição da cauda para predadores não possa ser desconsiderada, os resultados encontrados no estudo corroboram com os registros deste comportamento para outras espécies, fortalecendo a possibilidade de ocorrência de mimetismo de escorpiões entre lagartos e reforçando a ocorrência deste comportamento na linhagem Gekkota, uma vez que este comportamento já foi descrito para pelo menos três famílias de lagartos (Gekkonidae, Sphaerodactylidae e Phyllodactylidae).

Esta foi mais uma contribuição à herpetologia brasileira realizada pela equipe de biólogos do Núcleo Regional de Ofiologia da Universidade Federal do Ceará. O trabalho original pode ser adquirido na íntegra através do site http://www.ssarherps.org/pages/HRinfo.php.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUTUMN, K., HAN, B. 1989. Mimicry of scorpions byjuvenile lizards, Teratoscincus roborowskii(Gekkonidae). Chinese Herpetological Research, 2: 60-64.

BRANDÃO, R., MOTTA, P.C. 2005. Circumstancial evidences for mimicry of scorpions by the neotropical gecko  Coleodactylus brachistoma(Squamata, Gekkonidae) in the Cerrados of central Brazil. Phyllomedusa, 4: 139-145.

COLLI, G. R.; MESQUITA, D. O.; RODRIGUES, P. V. V.,KITAYAMA K. 2003. Ecology of the Gecko  Gymnodactylus geckoides amaraliin a Neotropical Savana. Journal of Herpetology, 4: 694-706.

COSTA H. C.; SÃO PEDRO, V.A., SANTANA, D.J., FEIO, R.N. 2009. Gonatodes humeralis (NCN) Defensive behavior. Herpetological Review, 40: 221.

PARKER, W. S., PIANKA, E.R. 1974. Further ecological observations on the western banded gecko, Coleonyx variegatus. Copeia, 1974: 528-531.

PASSOS, D.C.; MESQUITA, P.C.M. de; BORGES-NOJOSA, D.M. 2012. Gymnodactylus geckoides. Defensive behavior. Herpetological Review, 43:486-487.

PIANKA, E. R., VITT, L.J. 2003. Lizards. Windows  to the Evolution of Diversity. Berkeley, University of California Press.

RAND, A. S. 1967. Predator-prey interactions and  the evolution of aspect diversity. Atlas do Simpósio sobre a Biota Amazônica.Zoologia, 5: 73-83.

ZANCHI, D.; PASSOS, D.C.; BORGES-NOJOSA, D.M. 2012. Tropidurus hispidus (calango). Saurophagy. Herpetological Review, 43: 141-142.

Notícia: Cientistas estudam mecanismo que faz as lagartixas grudarem na parede

Adesivo no dedo dos répteis permite fixação em superfícies verticais.
Força que prende os animais diminui quando as patas ficam molhadas.

Uma pesquisa feita pela Universidade de Akron, no estado americano de Ohio, analisa a estrutura adesiva nos dedos das lagartixas que permite que elas se fixem às superfícies verticais por onde passam, como árvores e paredes. Os resultados estão publicados na atual edição da revista “Journal of Experimental Biology”.

Os cientistas avaliaram como esses répteis se comportam em lugares secos e úmidos, e como se esforçam para se manter presos quando o local está molhado.

A equipe, formada pelos pesquisadores Alyssa Stark, Timothy Sullivan e Peter Niewiarowski, queria saber como os animais da espécie Tokay (Gekko gecko) se comportam em seu habitat natural, ou seja, em florestas tropicais, onde costuma chover muito.

Lagartixa tem adesivo nas patas que as faz grudar (Foto: Edward Ramirez/Journal of Experimental Biology)

Em ambientes secos, por exemplo, as lagartixas são capazes de aguentar uma força de até 20 vezes o próprio peso, mas, quando as patas se encharcam – após 90 minutos, no caso dos testes realizados –, os indivíduos se desprenderam após uma força quase igual ao próprio peso.

Isso indica que esses animais podem caminhar por superfícies molhadas, mesmo que seus pezinhos estejam razoavelmente secos. No entanto, assim que as patas se molham, os répteis mal conseguem se segurar, pois os dedos deles são hidrofóbicos, ou seja, repelem a água.

De acordo com os autores, a estrutura de aderência na sola das patas das lagartixas contém pelos microscópicos, que são atraídos pelo solo por meio de uma interação entre moléculas chamada “força de van der Waals”.

Esse mecanismo de fixação altamente desenvolvido permite, por exemplo, que os répteis não escorreguem nem caiam da copa das árvores, por exemplo. Mas, no caso de um vidro vertical, liso e molhado, eles têm mais dificuldade de controlar o adesivo e, após alguns passos, acabam se desgrudando.

Os cientistas agora estão ansiosos para entender quanto tempo as lagartixas levam para se recuperar desse “encharcamento” e voltar à capacidade total da cola sob as patas.

FONTE:
G1 Natureza

O raro e pouco conhecido Calango-Liso da Caatinga: Diploglossus lessonae

Entre as diversas espécies de lagartos da Caatinga existe uma particularmente bela, popularmente chamada de Calango-Liso ou Calango-Coral (Figura 1). Este animal, cientificamente denominado Diploglossus lessonae, pode atingir cerca de 30 cm de comprimento e é principalmente conhecido por sua típica forma do corpo (cilíndrico, alongado, com membros muito pequenos) e coloração chamativa (listrado de branco e preto).

Figura 1. Indivíduo jovem de Calango-Liso (Diploglossus lessonae), evidenciando o padrão de coloração listrado de preto e branco.

Já havíamos falado um pouco sobre Diploglossus lessonae no blog do NUROF-UFC, a respeito de uma crença que lhe é atribuída, que reza sobre a transformação deste lagarto em serpente quando adulto (reveja em: Lagartos peçonhentos (Lagartos venenosos no Brasil?)). No entanto, nesta postagem conheceremos um pouco mais sobre a biologia deste lagarto incrível!

Como o título menciona, esta espécie é rara em vários locais onde habita e talvez por isso sua biologia seja tão pouco compreendida. Neste sentido, são poucos os trabalhos especificamente relacionados à biologia de Diploglossus lessonae e muitos aspectos de sua história natural permanecem desconhecidos.

Sabe-se que este lagarto é terrícola e semi-fossorial, podendo ser encontrado forrageando sobre o solo ou escavando no sub-solo a até 2 m de profundidade (Vanzolini, 1972). Esta espécie ovípara se reproduz somente uma vez por ano, na estação seca, com uma ninhada de 1 a 7 ovos (Vitt, 1985). Quanto a sua alimentação, até pouco tempo achava-se que sua dieta era prioritariamente constituída de aranhas, opiliões e escorpiões (Vitt, 1985; Vitt, 1995), entretanto a equipe do NUROF-UFC descobriu, recentemente, que este lagarto se alimenta também de formigas e baratas (Passos et al., 2011).

Figura 2. Indivíduo jovem (acima) e adulto (abaixo) de Calango-Liso (Diploglossus lessonae), demonstrando a diferença de coloração ocorrida ao longo da vida.

Além disso, hoje sabemos que, quando jovem, este lagarto mimetiza (imita) uma espécie de artrópode, o milípede Rhinocricus albidolimbatus (Myriapoda: Diplopoda) (Vitt 1992). Com este comportamento, o Calango-Liso beneficia-se da impalatabilidade (gosto ruim) do artrópode e deixa de ser predado por animais que não se alimentam do milípede. A semelhança entre estes animais se dá justamente devido a suas semelhanças em forma e coloração corpórea, ambos sendo cilíndricos, alongados e com coloração de listras pretas e brancas. Vale ressaltar que apenas os indivíduos juvenis de Diploglossus lessonae apresentam este evidente padrão de coloração listrado, que vai lentamente sendo perdido ao longo do crescimento corpóreo (Figura 2).

Espero ter ajudado aos caros leitores a conhecerem um pouco sobre a biologia de mais um maravilhoso lagarto da Caatinga. Até a próxima!

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PASSOS, D. C.; ZANCHI, D.; BORGES-NOJOSA, D. M. 2011. Diploglossus lessonae (Brazilian Galliwasp) Diet. Herpetological Review, 42:94.

VANZOLINI, P. E. Miscelaneus notes on the ecology of some brazilian lizards (Sauria). Papéis Avulsos de Zoologia, 26:83-115.

VITT, L. J. 1985. On the biology of the little known anguid lizard Diploglossus lessonae in northeast Brazil.Papéis Avulsos de Zoologia, 36:69-76.

VITT, L. J. 1992. Lizards mimics millipede. National Geographic Research and Exploration, 8:76-95.

VITT, L. J. 1995. The ecology of tropical lizards in the Caatinga of Northeast Brazil. Occasional papers of the Oklahoma museum of natural history, 1:1-29.

Répteis: Dinossauros, Lagartos, Serpentes, Tartarugas, Crocodilos e … e … e … Aves?

Apesar da confusão que parece, a ideia central é super simples: Aves são répteis! Mas espera aí? Aves não são… aves? Tipo, passarinho, pena, voo e esse tipo de coisa? Sim! Mas nem por isso deixam de ser répteis! Vamos lá tentar explicar.

A verdadeira confusão está no fato que, a forma em que identificamos e classificamos os organismos (conhecido como sistemática), mudou várias vezes durante os anos. O termo “réptil” que temos na nossa mente são aqueles organismos com escamas e que precisam de calor pra se aquecer (ectotermia), alguns com cascos (tartarugas, cágados e jabutis), alguns sem patas (serpentes e alguns lagartos) e por aí vai (Fig. 1).

Figura 1: “Calango” Tropidurus hispidus em sua posição típica. Arquivo pessoal Heideger Nascimento

Pois bem, não é de hoje que esse termo está cientificamente em desuso. Não totalmente, dado a maneira simples de se trabalhar e o uso no cotidiano, mas na sistemática que temos hoje, o termo “réptil” abrange também as aves. Esse “réptil” que temos em mente pertence a uma antiga classificação que foi proposta por Carolus Linnaeus (Carol Lineu ou somente “Lineu”) em 1735 no seu trabalho intitulado “Systema naturae” onde ele propunha o agrupamento dos seres vivos de acordo com suas características como a morfologia externa. Por conta disso, “répteis” e aves ficaram em grupos separados, por serem – a princípio – visualmente bem diferentes.

Figura 2: Cladograma filogenético mostrando a posição das aves dentro de reptília. “Filogenia como base para a investigação da diversidade biológica; http://biofecunda.files.wordpress.com/2008/10/reptilia.jpg, acessado em 02/06/2012”

Hoje, de acordo com a classificação filogenética, tartarugas (e seus similares), crocodilos, lagartos, dinossauros (e seus similares), serpentes e as Aves(!) compartilham o mesmo ancestral basal em comum: Reptilia! (Fig. 2). Com base nas aves viventes é difícil se perceber isso, pois muito tempo se passou desde que divergiram do ancestral, daí muitas especializações mascaram esse parentesco, entretanto, se você observar bem o Archaepteryx lithographica (Fig. 3), um fóssil do período Jurássico do que hoje é a Alemanha, conhecido com “a primeira ave”, notará várias semelhanças para com os répteis como a presença de dentes, a cauda longa com várias vértebras, duas fenestrações (orifícios) no crânio na região atrás do olho, pescoço em “S” (presente nos dinossauros), dentre outras características. O famoso Thomas Huxley (1825-1895), já havia dito bem antes que as aves eram “répteis glorificados”, pela incrível semelhança e o fato de voarem. O voo por si já havia aparecido antes no pterossauros! E hoje acredita-se que as penas tenham surgido a partir de uma modificação das escamas! Incrível não?

Figura 3: Foto do fóssil de Archaeopteryx lithographica. “Mesosoic Era; http://www.lvmnh.org/6.html, acessado em 02/06/2012”

Pois bem, ainda vai precisar de bastante tempo até que isso – ave ser réptil – venha a ser uma concepção geral, uma vez que a classificação proposta por Lineu serviu historicamente por vários anos e por isso permitiu fixar-se até hoje os dias atuais. Todavia, essa concepção filogenética já é factual e bem esclarecida cientificamente. Talvez o fato de afirmarmos que o grupo vivente mais próximo às aves são os crocodilos, ou mesmo que as aves nada mais são que dinossauros voadores, seja ainda uma afirmação ainda mais bombástica!

Mas isso é uma conversa para outro post,  por hoje já está de bom tamanho. Espero que tenham gostado.

Até a próxima,

Abraços.

Por:  Heideger L. do Nascimento

Mestrando em Ecologia e Evolução – UERJ

Laboratório de Ecologia de Aves – IBRAG/UERJ

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 145 outros seguidores

%d bloggers like this: