A muda de pele das serpentes

O desenvolvimento de um tegumento com um grau de queratinização mais elevado nos répteis foi um evento importante no processo de independência da água. Os répteis squamatas, em geral, passam por um processo chamado ecdise ou mudança de pele, momento crítico na vida desses animais, porém, necessário para auxiliar no crescimento e na renovação dos tecidos. A forma como se dá a ecdise varia conforme o tipo de tegumento. Por exemplo os lagartos apresentam diferentes formas de desprendimento da pele velha, geralmente em pedaços irregulares, diferente das mudas de serpentes que se desprendem inteiramente (SMITH 1946; ZUG 1993).

No caso das serpentes, a muda é especialmente interessante uma vez que a pele é trocada por inteiro, de uma só vez. Começando pela cabeça, a pele velha vai se soltando e saindo pelo avesso, como se fosse uma meia (veja o vídeo abaixo). Os casos onde isso não ocorre e a muda acontece irregular (muda imperfeita) podem indicar que algo está errado com a saúde do animal. Por isso, nos serpentários a muda das serpentes é um quesito que é bem observado.

Fatores como parasitas externos, dieta e condições físicas do ambiente inadequadas ou outras situações de estresse prejudicam o processo de muda das serpentes. Quando a muda não acontece por completo pode causar problemas no crescimento de novos tecidos ou levar ao “apodrecimento” de algumas regiões do corpo, agravando a saúde do animal.

O processo de muda das serpentes é de fácil reconhecimento, geralmente, o animal apresenta sintomas bem característicos. A cor dos olhos fica azulada ou esbranquiçada e turva prejudicando um pouco a visão do animal. As serpentes diminuem ou suspendem a alimentação neste período, voltando a alimentar-se somente depois que a muda se completa. O comportamento e a agressividade também sofrem alterações. Nos serpentários se evitam manusear as serpentes durante esse período.

Foto: Hugo Fernandes

A periodicidade com que as mudas ocorrem depende do estado de saúde do animal, do seu tamanho e idade e das condições do ambiente onde se encontram. Uma curiosidade que envolve a mudança de pele das cascavéis e que pouca gente sabe está relacionada ao tamanho do seu chocalho. Alguns ditos populares afirmam que cada unidade do chocalho de uma cascavél representa um ano a mais em sua idade, provavelmente tiram essa conclusão depois de observarem que cascavéis mais velhas possuem um chocalho maior, mas o que isso tem a ver com mudança de pele de serpentes? Você sabe como relacionar? Em breve postaremos sobre isso.

Por Gabriela Melo, membro NUROF UFC.

Um pouco sobre as jararacas

Jararaca Foto Roberta Rocha

É comum tanto nas grandes cidades quanto no campo encontrarmos alguém que tenha alguma história pra contar sobre algum acontecimento envolvendo as “cobras jararacas”. Estas serpentes despertam grande medo no homem mas tentaremos mostrar aqui o quão fascinante são as “jararacas”. As serpentes popularmente conhecidas como jararacas são incluídas nos gêneros Bothropoides, com 10 espécies, e Bothrops que, por sua vez, possui 22 espécies (além de Rhinocerophis, Bothrocophias, Bothriopsis e Porthidium). Como podem notar estamos falando de um universo de mais de 30 espécies diferentes! Como representantes da família viperidae as jararacas possuem características marcantes como a presença da fosseta e de pupila vertical além de dentição solenóglifa e claro a produção de veneno.

Grande parte das espécies de “jararacas” concentram a atividade durante o final da tarde e ao longo da noite. Durante o dia elas são encontradas protegidas sob pedras e troncos nas áreas naturais. Estas serpentes se alimentam de outros vertebrados e para a grande maioria, das quais se conhece a dieta, os jovens se alimentam de presas ectotérmicas, geralmente alguns invertebrados, anfíbios e lagartos e os adultos consomem mamíferos. Este fato é tecnicamente denominado de mudança ontogenética da dieta.

As serpentes dos gêneros Bothropoides e Bothrops são típicas de ambientes de mata vivendo entre as plantas e sobre a serrapilheira. Portanto os encontros desses animais com o homem ocorre em função de atividades em áreas naturais ou do desmatamento e transformação de áreas de mata em, por exemplo, campos de pastagens, expansão dos limites urbanos ou qualquer outro tipo de alteração. Como a defesa desses animais é a picada com inoculação de veneno quando o homem descuida acaba, por vezes, sofrendo com os efeitos do veneno inoculado. Hemorragia, necrose e dor são os principais sintomas da intoxicação por veneno das jararacas e por vezes culmina na amputação do local da picada caso o socorro não venha a tempo. Por isso quando estamos em atividade em áreas naturais é importante ficar atento ao local onde pisamos além de utilizar equipamentos de proteção como botas e perneiras.

Dentre as espécies de jararacas destacamos Bothropoides alcatraz e B. insularis ambas espécies endêmicas, a primeira exclusiva da ilha de Alcatrazes e a segunda da ilha da Queimada Grande em São Paulo. Estas espécies são insulares ou seja ocorrem em ambientes de ilhas ilhas que, por sua vez, sofrem com impactos que empobrece o ambiente no qual elas vivem, portanto essas são consideradas como ameaçadas de extinção.

Um dos principais centros de estudos sobre as jararacas no Brasil é o Laboratório de ecologia e evolução de vertebrados da USP comandado pelo Prof. M. Martins.

Hemipênis, o órgão reprodutor dos répteis squamatas

Uma das principais aquisições evolucionária que levou os “répteis” a conquistar o ambiente terrestre foi o ovo amniótico. Contudo, para a produção deste ovo foi necessário que a fecundação do ovócito pelo espermatozoide ocorresse no interior do corpo das fêmeas. Neste caso o desenvolvimento de um órgão copulador nos machos foi uma grande solução.

Hemipênis de Plesiodipsas perijanensis Fonte: Harvey et al. Herpetological Monographs 22: 06-132. 2008


Os crocodilianos e os testudíneos possuem somente um pênis constituído de tecido conjuntivo esponjoso que fica ereto em função da pressão vascular. Nestes casos ele possui semelhança estrutural e provavelmente compartilha de mesma origem embrionária do pênis dos mamíferos.

Entretanto, nos squamatas (anfisbenas, lagartos e serpentes) são encontrados órgãos copulatórios pareados, localizados na junção da base da cauda com a cloaca. Inicialmente acreditava-se que ambas estruturas seriam introduzidas simultaneamente na cloaca das fêmeas, daí a denominação hemipênis (hemi que no grego significa meio, metade). Contudo, sabe-se atualmente que apenas um hemipênis é evertido e usado durante a cópula.

Os hemipênis correspondem a dobras de tecido, como os dedos de uma luva, que são evertidas através de aberturas por pressão vascular, após o uso eles são recolhidos pela ação de músculos. Em muitos squamatas o hemipênis é dotado de espinhos que podem ajudar na transferência de esperma para dentro da cloaca da fêmea, em alguns casos esta estrutura pode ser bifurcada. Variações nestas características são importantes para o estudo da taxonomia dos squamatas. Por exemplo, sabe-se que os hemipênis encontrados nos squamatas não possuem a mesma origem embrionária que o pênis dos crocodilianos e testudíneos. Assim essas estruturas são mais uma evidência de que os squamatas tem mais características comuns entre si do que com os crocodilianos ou testudíneos, colocando-os em um grupo a parte.

Bibliografia:
POUGH, F. H. A vida dos vertebrados. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 1999

ZUG, G. R., VITT, L. J., and CALDWELL, J. P. Herpetology: An introductory biology of amphibians and reptiles (2a. ed.), Academic Press. Estados Unidos. 2001.

VEJA TAMBÉM:
»Curiosidades: Sobre o hemipênis, o órgão reprodutor dos machos das serpentes

Quem são as cobras-de-duas-cabeças? Cobras de duas cabeças?

Os lagartos da subordem Amphisbaenia são conhecidos popularmente como cobras-de-duas-cabeças, contudo estes animais estão longe de serem serpentes (‘cobras’)! Os anfisbenas pertencem à mesma ordem que os lagartos e as serpentes, a ordem Squamata. Entretanto são agrupados em uma subordem à parte dos lagartos, que por sua vez são distribuídos em cinco subordens e das serpentes que pertencem à subordem Ophidia. A subordem Amphisbaenia é bastante rica possuindo mais de 190 espécies. A forma do corpo alongado e a ausência de membros (‘braços e pernas’) na maioria das espécies, faz com que estes animais sejam chamados popularmente de cobras. Contudo, as serpentes e os anfisbenídeos são separados evolucionariamente por alguns milhões de anos, embora descendam de um mesmo ancestral.

Amphisbaena

Exemplar de Amphisbaena alba

Muito menos estes animais possuem duas cabeças! O que acontece é que a cabeça e a cauda destes animais possuem um formato que pode confundir o observador desatento. Algumas espécies, como por exemplo Amphisbaena alba, tiraram grande proveito disto quando encontram seus predadores. Neste caso os animais levantam a cauda e a cabeça deixando o corpo em posição de ferradura, assim o predador pode ser confundido e atacar a cauda, uma parte não vital do corpo do animal.
Estes animais vivem grande parte de suas vidas sob a terra, escavando túneis pelos quais se locomovem, o que os cientistas chamam de hábito fossorial, e se alimentando de pequenos invertebrados. Desta forma os anfisbenas possuem adaptações no crânio, na musculatura corporal e no tegumento (pele) que os permitem viver em um ambiente pouco utilizado por outros vertebrados terrestres.

A Natureza sempre nos mostra sua bela complexidade quando olhamos seus belos detalhes atentamente. O que você antes achava que era serpente é na verdade um outro grupo de organismos que possui mais de 190 espécies! Que bela descoberta ein!? :)

Sobre o tipo de dentição das serpentes

As serpentes formam um grupo bastante diverso ocorrendo em quase todos os ambientes da terra. Estes animais só não habitam os pólos do planeta que não são lá lugares muito convenientes à vida de um animal ectotérmico.

Os diferentes grupos de serpentes desenvolveram ao longo de suas histórias evolutivas diferentes táticas de captura de presas. Associado a isso houve o desenvolvimento de diferentes tipos de dentições, cada uma com diferentes características de mordida. Existem quatro tipos de dentições básicas nas serpentes: áglifa, opistóglifa, proteróglifa e solenóglifa. Vamos vê-las um pouco mais detalhadas agora.
Encontrada principalmente em serpentes da família dos boídeos (Boidae), a dentição áglifa (Figura 1) não conta com dentes especializados em inocular veneno, servindo somente para rasgar tecidos e orientar a entrada da presa para o estômago. Ao invés da presença de uma glândula com toxina, apresentam uma glândula de saliva que libera uma substância que lubrificará o inicio do trato digestório facilitando assim a deglutição.

A dentição opistóglifa (Figura 2) é encontrada principalmente em serpentes da família dos colubrídeos (Colubridae) e dos dipsadídeos (Dipsadidae). Além de dentículos especializados em rasgar os tecidos da presa, apresentam também um par de dentes localizados posteriormente na boca com intuito de perfurar profundamente o tecido da presa e inocular, através de escorrimento e por canais abertos, o veneno produzido pela glândula de Duvernoy. Alguns preferem chamar esse veneno de “saliva tóxica”, pois ele não oferece risco ao ser humano, atuando principalmente como um metabólito (proteolítico) que facilitará na digestão das proteínas presentes na presa.

Por sua vez, a dentição proteróglifa (Figura 3) é encontrada nas serpentes da família da Coral-Verdadeira, os elapídeos (Elapidae). Neste tipo de dentição o dente inoculador localiza-se na parte anterior da mandíbula. Seu mecanismo de mordida é simples, a serpente morderá ( não picará, visto que ela terá que se segurar na presa) e liberará a peçonha por um canal semi-aberto que escorrerá vindo da glândula de peçonha até o dente inoculador penetrado na presa. São serpentes que têm dificuldade para morder uma pessoa, uma vez que sua boca é pequena

No Brasil, os principais representantes das serpentes com dentição solenóglifa (Figura 4) são as aquelas pertencentes a família dos viperídeos (Viperidae), as jararacas, cascavéis e surucucus. Neste tipo de dentição existem duas presas especializadas, móveis e capazes de projetar uma mordida de grande abertura. As presas ficam guardadas por uma membrana fina quando não estão em uso. Quando a serpente está pronta para dar o bote em sua presa essa membrana se afasta, as presas se projetam 90 graus para frente de modo que a picada injetará o veneno através de canais fechados desde a glândula de veneno até o tecido da vítima. O mecanismo da picada é muito semelhante ao de uma seringa de injeção e muito eficaz também. Neste caso o veneno é inoculado ativamente no tecido da presa sem que seja necessário escorrer por um canal até o tecido da vítima como no caso das opistóglifas ou proteróglifas.

Por Rafael Cavalcante, membro NUROF-UFC

Sobre o veneno das jararacas

Uma hemorragia que pode levar à amputação é característica de picadas das jararacas, responsáveis por 90% dos acidentes com serpentes no Brasil… [Referência: Ciência e Ideias]

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