Algumas peculiaridades anatômicas das serpentes

A anatomia das serpentes é bem especializada, dispondo todos os órgãos num corpo alongado e fino. Por isso, quase todos os órgãos internos também são alongados, acompanhando o formato do corpo do animal.

Algumas peculiaridades anatômicas podem ser observadas começando pelos pulmões, que se dividem em duas partes. A porção anterior, que é vascularizada, é o pulmão propriamente dito, pois é a porção funcional. E a porção posterior, que não é vascularizada, é chamada de saco aéreo por ter aspecto de membrana transparente e funcionar como um reservatório de ar (Gomes et al., 1989; Gomes e Puorto, 1993). Nos boídeos (jiboias, salamantas e sucuris são seus representantes mais conhecidos), o pulmão esquerdo também é desenvolvido, porém reduzido. E nos viperídeos (jararacas, cascavéis e surucucus), o pulmão direito é funcional enquanto o esquerdo é vestigial. Neste último grupo, é conhecido como pulmão traqueal (Figura 1), pois a traqueia se estende dentro do pulmão direito onde continua como um brônquio intrapulmonar. A membrana vascularizada do pulmão encontra-se apoiada entre os anéis cartilaginosos semicirculares incompletos da traqueia (Gondim et al., 2016).

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Fig 1. Vista ventral de Bothrops erythromelas após dissecação, evidenciando órgãos internos. A – Esôfago; B – Pulmão traqueal; C – Coração; D – Fígado; E – Estômago; F – Intestino anterior; G – intestino posterior; H – Ovários; I – Oviduto; J – Vesícula biliar; K – Rins; L – Vaso deferente; M – Testículos. Fotografia por Patrícia Gondim (Fonte: Gondim et al., 2016, versão colorida)

 

O fígado está isolado da vesícula biliar em boa parte das serpentes. Essa distância é importante para que não haja interferência nas funções da vesícula quando há o aumento do volume do estômago no período em que a cobra se alimenta (Brasil, 1911; McDowell, 1979). Lembre-se que elas engolem suas presas inteiras! Aproximando-se da parte mais posterior do corpo do animal, temos os rins e gônadas (testículos ou ovários) (Figura 01), que como todos os órgãos pares, se posicionam com o lado direito mais anterior do que o esquerdo. Lá no final também está o hemipênis nos machos (leia também: “Curiosidades: Sobre o hemipênis, o órgão reprodutor dos machos das serpentes“). É um órgão sexual diferente, pois é dividido em dois lobos e ornamentados por espinhos, alojando-se dentro da cauda juntamente com os músculos retratores (Figura 02). Devido a isso, a cauda é mais longa em machos do que em fêmeas (King, 1989; Greene, 2000).

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Fig 2. Vista ventral de Bothrops erythromelas, evidenciando hemipênis. Fotografia por Patrícia Gondim

Quando no final do parágrafo anterior mencionamos a diferença no tamanho da cauda entre machos e fêmeas, estamos falando de dimorfismo sexual, ou seja, características físicas não sexuais marcadamente diferentes. As fêmeas geralmente são maiores do que os machos, provavelmente para garantir espaço e recursos nutricionais para grandes proles. Elas também podem possuir formato e tamanho da cabeça maiores em algumas espécies (Vincent et al., 2004; Matias et al., 2011; Gondim, 2016). Isso pode ser resultado de glândulas grandes de veneno e produção de maiores quantidades de veneno (Faria e Brites, 2003; Mesquita e Brites, 2003) ou diferenças nos tipos de presas que elas consomem (Shine et al., 2002; Krause et al., 2003; Vincent et al., 2004).

Saiba mais sobre o tema acessando a publicação completa de Gondim et al. (2016), membros do NUROF-UFC (Topographic anatomy and sexual dimorphism of Bothrops erythromelas Amaral, 1923 (Squamata: Serpentes: Viperidae).

Por: Patrícia de Menezes Gondim, colaboradora do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAZIL, V. 1911. A defesa contra o ophidismo. São Paulo, Pocai e Weiss.152p.

FARIA, R. G.; BRITES, V. l. C. 2003. Aspectos taxonômicos e ecológicos de Bothrops moojeni Hoge, 1966 (Serpentes: Crotalinae) do Triângulo e Alto Parnaíba, Minas gerais, Brasil. Biologia Geral e Experimental, Manaus; 3 (2): 25-32.

GOMES, N.; PUORTO, G. 1993. Atlas anatômico de Bothrops jararaca Wield, 1824 (Serpentes: Viperidae). Memórias do Instituto Butantan, São Paulo; 55: 69-100.

GOMES, N.; PUORTO, G.; BUONATO, M.A & RIBEIRO, M. de F.M., 1989. Atlas Anatomico de Boa constrictor Linnaeus, 1758. Memórias do Instituto Butantan, São Paulo; 2: 1-59.

GONDIM, P. M.; RODRIGUES, J. F. M.; BORGES-LEITE, M. J.; BORGES-NOJOSA, D. M. 2016. Topographic anatomy and sexual dimorphism of Bothrops erythromelas Amaral, 1923 (Squamata: Serpentes: Viperidae). Herpetozoa, 28 (3/4): 133-140.

GREENE, H. W. 2000. Snakes: The evolution of mystery in nature. Berkeley (University of California Press), 365p.

KING, R. B. 1989. Sexual dimorphism in snake tail length: sexual selection, natural selection, or morphological constraint? Biological Journal of the Linnean Society, London; 38: 133-154.

KRAUSE, M. A.; BURGHARDT, G. M.; GILLINGHAM, J. C. 2003. Body size plasticity and local variation of relative head and body size sexual dimorphism in garter snakes (Thamnophis sirtalis). Journal of Zoology, London; 261: 399-407.

MATIAS, N. R.;  ALVES, M. L. M.; ARAÚJO, M. L.; JUNG, D. M. H. 2011. Variação morfométrica em Bothropoides jararaca (Serpentes, Viperidae) no Rio Grande do Sul. Iheringia, Porto Alegre; (Série Zoologia) 101: 275-282.

MCDOWELL, S. B. 1979. A catalogue of the snakes of New Guinea and the Solomons with special reference to those in the Bernice P. Bishop Museum. Part III. Boinae and Acrochordoidea (Reptilia, Serpentes). Journal of Herpetology, Salt Lake City; 13: 1-92.

MESQUITA, D. O.; BRITES, V. L. C. 2003. Aspectos taxonômicos e ecológicos de uma população de Bothrops alternatus Duméril, Bibron e Duméril, 1854 (Serpentes, Viperidae) das regiões do Triângulo e Alto Paranaíba, Minas gerais. Biologia Geral e Experimental, Manaus; 3: 33-38.

SHINE, R.; REED, R. N.; SHETTY, S.; COGGER, H. G. 2002. Relationships between sexual dimorphism and niche partitioning within a clade of sea snakes (Laticaudinae). Oecologia, Berlin; 133: 45-53.

VINCENT, S. E.; HERREL, A.; IRSCHICK, D. J. 2004. Sexual dimorphism in head shape and diet in the cottonmouth snake (Agkistrodon piscivorus). Journal of Zoology, London; 264: 53-59.

Aniversário do criador do soro antiofídico

Vital Brazil Mineiro da Campanha (28/04/1865 – 8/05/1950) foi um médico e sanitarista muito importante para o país, pois foi um conhecido pesquisador de toxinologia e trabalhou no combate de várias epidemias no país. Mas nossa homenagem hoje para ele, no dia de seu aniversário, é pela imensa contribuição no estudo das serpentes.

Figura 1. Vital Brazil. Créditos: Instituto Vital Brazil

Figura 1. Vital Brazil. Créditos: Instituto Vital Brazil

Vital Brazil foi o homem que criou os soros antiofídicos, para o tratamento contra o veneno de cobras e outros animais peçonhentos. Mesmo tendo direito à patente, deu ela ao governo brasileiro, sempre preocupado com a saúde pública. Além disso ainda foi responsável pela criação do Instituto Butantan e do Instituto Vital Brazil.

Figura 2. Foto atual do Instituto Vital Brazil.

Figura 2. Foto atual do Instituto Vital Brazil.

Notícia: Teyujagua, uma nova espécie fóssil da região Sul do Brasil

Um grupo de pesquisa multinacional, incluindo cientistas de três universidades brasileiras e um pesquisador do Reino Unido, identificou uma nova espécie de réptil fóssil (Fig. 1) que viveu há 250 milhões de anos no Rio Grande do Sul. A descoberta ajuda a explicar como foi a evolução inicial do grupo de animais que originou os dinossauros, pterossauros, jacarés e aves.

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Fig. 1. Reconstrução de exemplar e provável habitat de Teyujagua paradoxa. Ilustração por Voltaire Paes 

A nova espécie, identificada a partir de um crânio (Fig. 2) bastante completo e bem preservado, foi batizada de Teyujagua paradoxa. O trabalho foi publicado no periódico científico Scientific Reports, do grupo Nature, em 11 de março de 2016,

“O Teyujagua é bem diferente de outros fósseis de mesma idade. Sua anatomia mostra que este animal era um intermediário entre répteis primitivos e os arcossauriformes, grupo bastante diversificado que inclui todos os dinossauros extintos, além das aves e jacarés atuais”, explica Felipe Pinheiro, professor da Unipampa (Universidade Federal do Pampa) Co-autor do trabalho.

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Fig. 2. Fóssil de crânio de Teyujagua paradoxa

A descoberta de Teyujagua comprova que os arcossauriformes se tornaram diversos após um grande evento de extinção em massa que ocorreu há 252 milhões de anos. Esta extinção eliminou cerca de 90% de todas as espécies de seres vivos, sendo desencadeada pelo efeito estufa causado por imensas erupções vulcânicas que ocorreram no leste da Rússia. Depois da extinção, o planeta estava despovoado, o que deu oportunidade para que alguns grupos de animais crescessem em número e diversidade. Após essa diversificação inicial, os arcossauriformes se tornaram animais dominantes nas faunas terrestres do planeta, originando incontáveis formas carnívoras e herbívoras. Teyujagua foi encontrado em rochas do início do período Triássico, testemunhando a recuperação da diversidade biológica após a extinção do período Permiano.

O nome do animal, Teyujagua, significa “réptil feroz” na língua Guarani. Faz referência a Teyú Yaguá, um personagem mitológico indígena, representado por um lagarto com cabeça de cachorro.

Leia mais em Scienceblogs

Notícia: Descoberta nova espécie de calango na Caatinga

Endêmico do semiárido, na Caatinga baiana, o Tropidurus sertanejo é a mais nova espécie de calango descrita, homenageando os habitantes da região.

O calango tem por volta de 8cm, corpo amarronzado com pequenos pontos e a cabeça numa cor bronze.

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Tropidurus sertanejo. Foto retirada da figura 2 do artigo de Carvalho et al, 2016.

A espécie foi coletada pela primeira vez na década de 90, mas apenas com o advento da genética e da morfologia é que foi possível descrever uma nova espécie. Mais de 70% das espécies desse gênero foram descobertas nos últimos 35 anos.

O artigo que descreve a nova especie de calango do semiarido nordestino foi publicado no periodico American Museum Novitates, e foi conduzido pelo pesquisador Andre Luiz Carvalho em sua tese de doutorado.

Leia a reportagem completa aqui:

http://www.museu-goeldi.br/portal/content/nova-esp-cie-de-calango-descoberta-no-sert-o-nordestino

Consulte o artigo original aqui:

http://www.museu-goeldi.br/portal/sites/default/files/noticias/arquivos/2016_Carvalho_etal_Tropidurus%20sertanejo.compressed.pdf

 

Calango-verde, Ameiva ameiva

O Ameiva ameiva (Linnaeus, 1758), conhecido popularmente como calango-verde ou ainda tijubina é um lagarto que ocorre em quase todo território nacional. Tem ampla distribuição geográfica, sendo encontrado em áreas abertas na América do Sul e em Galápagos (Vanzolini et al, 1980), no Panamá e em Ilhas do Caribe (Schwartz et al, 1991). Geralmente abundante nos locais onde ocorre e apresenta alta densidade tanto em ambientes naturais quanto antropicamente alterados (Vitt e Colli, 1994).

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Ameiva ameiva forrageando em ambiente de Caatinga. Foto por John A. Andrade

O A. ameiva possui aproximadamente 30 cm e os machos apresentam geralmente tamanho maior que as fêmeas. É um lagarto terrícola e habita diversos (veja também: origem e diversificação dos lagartos) locais como áreas de bordas de mata, clareiras no interior de matas, e em áreas que foram alteradas pelo homem, como jardins, quintais e roçados.

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Ameiva Ameiva região amazônica. Foto por Paulo Sérgio Bernarde

Alimentam-se principalmente de invertebrados artrópodes (Vitt, L. J. & Colli G. R. 1994.), mas também podem se alimentar de algumas frutas. É um animal de hábitos diurnos. Sua reprodução é ovípara e pode ocorrer durante todo o ano havendo uma redução no período de seca. O tamanho da ninhada varia de 1 a 11 ovos por desova. Sua cor chama bastante atenção, pois apresenta um dorso verde brilhante.

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Ameiva ameiva. Foto por Paulo Sérgio Bernarde

Texto por Rafaela Moura, estagiária NUROF-UFC 


REFERÊNCIAS:

Silva, T. F., et al. “Ecologia de Ameiva ameiva (Sauria, Teiidae) na Restinga de Guriri, São Mateus, Espírito Santo, sudeste do Brasil.” Boletim do Museu de Biologia Mello Leitão 15 (2003): 5-15.

Schwartz, A. & Henderson, R. W. 1991. Amphibians and reptiles of the West Indies: Description, Distribution and Natural History. University of Florida Press. Gainesville.

Vanzoline, P.E., Ramos-Costa, A.M.M., & Vitt, L.J. 1980. Repteis das caatingas. Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro.

Vitt, L. J. & Colli G. R. 1994. Geographical ecology of a neotropical lizard: Ameiva ameiva (Teiidae) in Brazil. Canadian Journal of Zoology, 72: 1986–2008.

SITE ACESSADO:

Herpetofauna

Bonita, nadadora e cheirosa!

Thamnophis sirtalis

 

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Essa é a Thamnophis sirtalis (Serpentes: Colubridae), uma típica serpente de jardim nativa da América do Norte. Com hábitos diurnos, essas serpentes de até um metro e meio de comprimento podem ser encontradas em muitos ambientes, de florestas e pradarias a ambientes urbanos, embora prefiram áreas úmidas, como as margens de lagoas, pântanos e córregos.  

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Quanto à aparência, elas capricham! Extremamente variáveis e coloridas, sua região dorsal pode variar de preto, marrom ou cinza ao verde, azeitona ou vermelho, e há normalmente três listras claras ao longo do seu comprimento. Mas ela não é só um rostinho bonito não! A serpente de jardim é uma excelente nadadora e frequentemente caça nadando lentamente ao longo das margens de lagos, muitas vezes varrendo de boca aberta de um lado para outro, aproveitando aquela presa descuidada. E nessa dieta de atleta ela tem uma gama diversificada de refeições, incluindo peixes, anfíbios e seus girinos, minhocas, sanguessugas e outros invertebrados aquáticos e terrestres, além de pequenos mamíferos e aves. 

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A saliva da serpente de jardim é levemente tóxica, possivelmente ajudando a imobilizar presas, no entanto, a sua mordida é geralmente inofensiva para os seres humanos. Elas ainda possuem outra característica especial: ser tolerante ao frio, fato pouco incomum no grupo das serpente. É uma das últimas espécies de serpentes a entrar em hibernação em regiões mais frias e uma das primeiras a surgir novamente na primavera.

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As serpentes de jardim podem ser lindas e ter várias peculiaridades, mas nada se compara a sua vida sexual! Quando a fêmea sai da hibernação, libera um feromônio que atrai todos os machos das proximidades ao mesmo tempo (ver também: Anaconda), resultando em grandes ninhos de acasalamento com até 30.000 cobras ao mesmo tempo. E não bastasse a acirrada disputa pelo sexo com a fêmea, na qual apenas um macho irá fecundá-la, em meio ao grupo pode haver também alguns machos que mimetizam o tamanho, os comportamentos e os feromônios de fêmeas para poderem atrair outros machos e, assim, obter aquecimento e proteção, garantindo a esses machos maior sucesso reprodutivo.

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Texto por Jamile Lima, estagiária NUROF-UFC

REFERÊNCIAS:

Larsen, K.W., Gregory, P.T. and Antoniak, R. (1993) Reproductive ecology of the common garter snakeThamnophis sirtalis at the northern limit of its range. American Midland Naturalist, 129(2): 336-345.

Mason, R.T. and D. Crews. (l985). Female mimicry in garter snakes. Nature, 316: 59‑60. [PDF]

U.S. Fish and Wildlife Service (1985) Recovery Plan for the San Francisco Garter Snake (Thamnophis sirtalis tetrataenia). U.S. Fish and Wildlife Service, Portland, Oregon. Available at:  http://ecos.fws.gov/docs/recovery_plan/850911.pdf

U.S. Fish and Wildlife Service (2006) San Francisco Garter Snake (Thamnophis sirtalis tetrataenia). 5-Year Review: Summary and Evaluation. U.S. Fish and Wildlife Service, Sacramento, California. Available at: http://ecos.fws.gov/docs/five_year_review/doc774.pdf

SITES ACESSADOS:

Arkive.org

FlMNH

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Caninana

Spilotes pullatus (Linnaeus 1758) (Serpentes, Colubridae), a famosa Caninana (Fig. 1), é uma das serpentes mais amplamente distribuída na América  do Sul (Marques et al. 2014; Guedes et al. 2014) e no Brasil ela é encontrada na Caatinga, Cerrado, Pantanal e florestas Atlântica e Amazônica (Guedes et al. 2014). Na nossa Caatinga habita todos os tipos de fitofisionomias, preferindo vegetações mais arbóreas e enclaves florestais, até 1000m de altitude (Guedes et al. 2014). Adapta-se bem a áreas de florestas degradadas também (Martins e Oliveira, 1999), para ela não tem tempo ruim.

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Figura 1. Spilotes pullatus, a famosa Caninana. Créditos da foto: Willianilson Pessoa.

É uma serpente semi-arborícola, diurna e se alimenta principalmente de pequenos mamíferos, aves e seus ovos, as quais procura forrageando no chão ou na vegetação (Marques et al. 2014), mas pode comer também sapos e lagartos (Martins e Oliveira, 1999). Quando capturam presas pequenas as engole rapidamente ainda vivas, ao passo que quando as presas são maiores as constringe ou pressiona contra o substrato antes de serem devoradas (Marques et al. 2014).

 A Caninana é um dos maiores colubrídeos da América do Sul (Fig. 2), com tamanho médio de 1,5 m (igualmente para machos e fêmeas) mas com alguns indivíduos chegando a 2,5 m (Marques et al. 2014). Comportamentos de coorte podem exibir combates entre machos, os quais ficam com a porção anterior e cabeça em posição vertical, se entrelaçando e tentando alcançar a máxima altura quanto possível (Marques et al. 2014). Provavelmente, a fêmea prefere aquele que alcança a maior altura, assim como acontece com outras espécies de serpentes. A ninhada das Caninanas podem ter de 5 a 12 ovos, os quais nascem por volta do mês de março, depois de 3 a 4 meses após a postura (Amaral, 1930; Marques et al. 2014).

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Figura 2. A Caninana é um dos maiores colubrídeos da América do Sul. Créditos da foto:  Willianilson Pessoa.

Sua popularidade está intimamente ligada a seu comportamento agressivo, o que faz com que pessoas a chamem de Cobra-Voadora, vingativa e perseguidora. Tais crendices podem ser justificadas pelo repertório comportamental que essa serpente exibe ao se deparar com seres humanos, que envolve elevação da cabeça e parte anterior do corpo, enrodilhamento em forma de S, inflação gular (Fig 3) e, em algumas situações, pode perseguir o observador humano por alguns metros, mas de repente se vira e foge rapidamente. Quando manuseadas, elas podem se debater e girar o corpo, frequentemente tentando morde o manipulador (Martins e Oliveira 1999).

A Caninana  é uma das serpentes mais notáveis e emblemáticas nas áreas onde ocorre, tornando-se alvo de admiração e medo por parte da população que a conhece. Sempre surgem  crenças sobre essa serpente. Contudo, na maioria das vezes, infelizmente, acabam gerando um ódio cego, o que leva muitos indivíduos à morte simplesmente pela ignorância e falta de informação. Ressaltamos aqui que essa serpente é áglifa, não peçonhenta e não oferece perigo significativo aos seres humano. Portanto, por mais agressiva que possa parecer quando alguém se deparar com alguma Caninana, não precisa ficar com medo e matar o animal, apenas se afaste dele, pois é nosso dever respeitar todas as formas de vida.

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Figura 3. Caninana apresentando o comportamento de defesa de inflação gular. Créditos da foto:  Willianilson Pessoa

Por: Castiele Holanda Bezerra, bióloga do NUROF-UFC.

Referências:

Amaral, A. 1930. Notes on Spilotes pullatus. Bull. Antiv. Inst. America 3:96-99.

Guedes, T. B.; Nogueira, C.; Marques, O. A. V. 2014. Diversity, natural history and geographic distribution of snakes in the Caatinga, Northeastern Brazil. Zootaxa 3863 (1): 1 – 93. DOI: http://dx.doi.org/10.11646/zootaxa.3863.1.1.

Marques, O. A. V.;  Muniz-Da-Silva, D. F.;  Barbo, F. E.; Cardoso, S. R. T.; Maia, D. C.; Almeida-Santos, S. M. 2014. Ecology of the Colubrid Snake Spilotes pullatus from the Atlantic Forest of Southeastern Brazil. Herpetologica 70(4):407-416.

Martins, M.; Oliveira, M.E. 1998. Natural history of snakes in forests of the Manaus Region, Central Amazonia, Brazil. Herpetological Natural History 6:78–150.

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