Os cágados sociais da Amazônia

Os cágados Podocnemis expansa (FIGURA 01), chamados de Tartaruga-da-Amazônia, são uma espécie de quelônios quase ameaçada de extinção no Brasil1, por conta da caça para diversos fins, como o medicinal2, por exemplo. Apesar disso, a espécie se encontra em menor perigo de extinção nos outros países da América Latina em que também está presente, como Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela3.

Nick Gordon - Podocnemis expansa

Figura 01. Podocnemis expansa, cágado conhecido como “tartaruga-da-amazônia”. Fonte: Nick Gordon, via Arkive.org.

Em sua temporada de fazer ninhos, as tartarugas-da-amazônia se comunicam debaixo d’água através de sons, a fim de que todos os cágados do grupo sincronizem suas atividades durante a época de nidificação4. A agregação de indivíduos diminui a chance de um predador capturá-los5, aumentando o sucesso reprodutivo do grupo. Além disso, a interação entre as fêmeas nos agregados pode permitir que elas obtenham informações sobre potenciais áreas para fazer seus ninhos (FIGURA 02), através do conhecimento dos movimentos e decisões de outras fêmeas6.

Jim Clare - Podocnemis expansa

Figura 02. Fêmea de Podocnemis expansa colocando seus ovos. Fonte: Jim Clare, via Arkive.org.

Ferrara et al. (2014) identificaram seis tipos de sons feitos pelas tartarugas-da-amazônia durante o período de nidificação, que se encaixaram nas seguintes categorias comportamentais: i) migração; ii) agregação em frente das praias de nidificação antes de saírem da água; iii) nidificação à noite; iv) espera na água sem haver nidificação ou após a nidificação; v) espera da chegada dos filhotes recém eclodidos (FIGURA 03). Os autores no final de seu artigo ressaltam que não sabem o significado exato dos sons que os cágados fazem, só sabem que eles fazem os sons quando estão fazendo diferentes atividades4.

Gerardo J. González - Podocnemis expansa

 Figura 03. Filhote de Podocnemis expansa. Fonte: Gerardo J. González, via Arkive.org.

Os autores presumem ainda que existem vocalizações que são usadas para estimular o nascimento e o deslocamento em grupo após o nascimento, já que foi visto que os filhotes vocalizam nos ovos e em diversos outros momentos. Também foi visto que as fêmeas vocalizam em resposta aos seus filhotes, e que ambos migram juntos pelo rio vocalizando em grandes grupos. Segundo os autores, esta é uma forma de proteger os filhotes de predadores e guiá-los aos habitats em que se alimentam4.

Já que esses cágados se comunicam em sons subaquáticos, qual será o impacto causado pelos barulhos dos humanos, principalmente os oriundos de embarcações motorizadas? Será que a formação dos grupos e a sua migração após o nascimento dos filhotes é afetada pelo barulho humano? Essas e muitas outras dúvidas ainda não possuem respostas.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

1 VOGT, R. C.; FAGUNDES, C. K.; BATAUS, Y. S. L.; BALESTRA, R. A. M.; BATISTA, F. R. W.; UHLIG, V. M.; SILVEIRA, A. L.; BAGER, A.; BATISTELLA, A. M.; SOUZA, F. L.; DRUMMOND, G. M.; REIS, I. J.; BERNHARD, R.; MENDONÇA, S. H. S. T.; LUZ, V. L. F. 2015. Avaliação do Risco de Extinção de Podocnemis expansa (Schweigger, 1812) no Brasil. Processo de avaliação do risco de extinção da fauna brasileira. ICMBio. Disponível em: <http://www.icmbio.gov.br/portal/faunabrasileira/estado-de-conservacao/7431-repteis-podocnemis-expansa-tartaruga-da-amazonia2 >.

2 ALVES, R. R. N.; SANTANA, G. G. Use and commercialization of Podocnemis expansa (Schweiger 1812) (Testudines: Podocnemididae) for medicinal purposes in two communities in North of Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, 2008. Disponível em: <https://ethnobiomed.biomedcentral.com/track/pdf/10.1186/1746-4269-4-3 >.

3 Tortoise & Freshwater Turtle Specialist Group. Podocnemis expansa. The IUCN Red List of Threatened Species, 1996 (Errata publicada em 2016). Disponível em: <http://www.iucnredlist.org/details/17822/0 >.

4 FERRARA, C. R.; VOGT, R. C.; SOUSA-LIMA, R. S.; TARDIO, B. M. R.; BERNARDES, V. C. D. Sound Communication and Social Behavior in an Amazonian River Turtle (Podocnemis expansa). Herpetologica, v. 70, n. 2, p. 149-156, 2014. Disponível em: < http://www.bioone.org/doi/abs/10.1655/HERPETOLOGICA-D-13-00050R2 >.

5 HUGHES, D. A.; RICHARD, J. D. The nesting of the Pacific ridley turtle Lepidochelys olivacea on Playa Nancite, Costa Rica. Marine Biology, v. 24, p. 97-107, 1974. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007%2FBF00389343 >.

6 DOODY, J. S.; SIMS, R. A.; GEORGES, A. Gregarious Behavior of Nesting Turtles (Carettochelys insculpta) Does Not Reduce Nest Predation Risk. Copeia, v. 2003, n. 4, p. 894-898, 2003. Disponível em: <http://www.bioone.org/doi/10.1643/h203-012.1 >.

 

Um lagarto corajoso do olho maior que a barriga

O lagarto Tropidurus torquatus, de ampla distribuição nas áreas abertas do Brasil (RODRIGUES, 1987), é um predador diurno que geralmente usa o comportamento de “senta-e-espera” para se alimentar de suas presas, indo algumas das vezes atrás da sua presa de forma ativa (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998)(FIGURA 01). T. torquatus se alimenta principalmente de formigas, mas também ingere frequentemente besouros, abelhas, cupins e aranhas, bem como flores e frutos (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998; CARVALHO et al. 2007).

Carlos Cândido - T. torquatus

Figura 01. Tropidurus torquatus, uma espécie de lagarto de ampla distribuição nas áreas abertas do Brasil. Fonte: Carlos Cândido, Biólogo.

Porém, em 2014, um Tropidurus torquatus de porte grande foi visto tentando se alimentar de uma falsa-coral (Phalotris matogrossensis), no município de Poconé, no estado de Mato Grosso (SANTOS et al., 2017)(FIGURA 02). Essa serpente possui hábitos noturnos e habita áreas abertas e galerias subterrâneas do sudoeste do Brasil ao oeste do Paraguai (LEYNAUD; BUCHER, 1999 apud LEMA; D’AGOSTINI; CAPPELARI, 2005; VANZOLINI, 1948 apud LEMA; D’AGOSTINI; CAPPELARI, 2005), e se alimenta de invertebrados, sapos, anfisbenas e lagartos (BERNARDE; MACEDO, 2006 apud SANTOS et al., 2017; SOUZA, 2014 apud SANTOS et al., 2017), justamente o tipo de animal que a levou a morte.

Pedro Guilherme - T. torquatus 2

Figura 02. O corajoso Tropidurus torquatus e sua predadora Phalotris matogrossensis, que praticamente virou sua presa. Fonte: Pedro Guilherme Alves Rodrigues, coautor da publicação original, presente no periódico Herpetology Notes.

Segundo Santos et al. (2017), o lagarto correu atrás da falsa-coral, que não percebeu sua presença, e a abocanhou e balançou vigorosamente até que a mesma falecesse. Porém, foi só depois disso que o lagarto notou que a mesma não seria um alimento adequado, e a soltou. Os autores sugerem que o lagarto possivelmente soltou a serpente porque percebeu que ela era grande demais e não conseguiria comê-la.

Apesar de ter sido a primeira vez que se é registrado formalmente que T. torquatus se alimenta de serpentes na natureza, já havia sido descrito que a espécie se alimenta de vertebrados de pequeno porte, como outros lagartos (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998). Outra espécie de seu gênero, Tropidurus hispidus, também já foi observada se alimentando de pequenos vertebrados, como sapos (VITT et al., 1996), outros indivíduos de T. hispidus (SALES et al., 2011) e até mesmo pássaros (GUEDES et al., 2017). Por isso, Santos et al. (2017) supõem que seja possível que outras espécies de Tropidurus de maior porte também se alimentem de pequenas serpentes. Qual será o próximo lagarto corajoso que iremos encontrar?

Para saber mais detalhes sobre o fato, e para ver as imagens com melhor qualidade, você pode consultar o artigo original aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

BERNARDE, P. S.; MACEDO-BERNARDE, L. C. Phalotris matogrossensis (False coral snake). Diet. Herpetological Review, v. 37, p. 234, 2006.

CARVALHO, André L. G. de; SILVA, Hélio R. da; ARAÚJO, Alexandre F. B. de; ALVES-SILVA, Ricardo; SILVA-LEITE, Roberta R. da. Feeding ecology of Tropidurus torquatus (Wied)(Squamata, Tropiduridae) in two areas with different degrees of conservation in Marambaia Island, Rio de Janeiro, Southeastern Brazil. Revista Brasileira de Zoologia, v. 24, n. 1, p. 222-227, 2007.

GUEDES, Thaís; MIRANDA, Fernanda; MENESES, Luciano; PICHORIM, Mauro; RIBEIRO, Leonardo. Avian predation attempts by Tropidurus hispidus (Spix, 1825)(Reptilia, Squamata, Tropiduridae). Herpetology Notes, v. 10, p. 45-47, 2017.

LEMA, T. de; D’AGOSTINI, F.; CAPPELLARI, L. Nova espécie de Phalotris, redescrição de P. tricolor e osteología craniana (Serpentes, Elapomorphinae). Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre, v. 95, p. 65-78, 2005.

LEYNAUD, Gerardo C.; BUCHER, Enrique H. La fauna de serpientes del Chaco sudamericano: diversidad, distribución geográfica y estado de conservación. Academia Nacional de Ciencias, v. 98, 1999.

RODRIGUES, Miguel Trefaut. Sistemática, ecologia e zoogeografia dos Tropidurus do grupo torquatus ao sul do Rio Amazonas (Sauria, Iguanidae). Arquivos de Zoologia, v. 31, n. 3, p. 105-230, 1987.

SALES, Raul Fernandes Dantas de; Jorge, Jaqueiuto da Silva; RIBEIRO, Leonardo Barros; FREIRE, Eliza Maria Xavier. A case of cannibalism in the territorial lizard Tropidurus hispidus (Squamata: Tropiduridae) in Northeast Brazil. Herpetology Notes, v. 4, p. 265-267, 2011.

SANTOS, Arthur de Sena; MENESES, Afonso Santiago de Oliveira; HORTA, Gabriel de Freitas; RODRIGUES, Pedro Guilherme Alves; BRANDÃO, Reuber Albuquerque. Predation attempt of Tropidurus torquatus (Squamata, Tropiduridae)on Phalotris matogrossensis (Serpentes, Dipsadidae). Herpetology Notes, v. 10, p. 341-343, 2017.

SOUZA, Dianne Cassiano de; MORAIS, Drausio Honório; SILVA, Reinaldo José da. Phalotris matogrossensis (Mato Grosso burrowing snake) diet. Herpetological Review, p. 712, 2014.

 TEIXEIRA, R. L.; GIOVANELLI, M. Ecology of Tropidurus torquatus (Sauria: Tropiduridae) of a sandy coastal plain of Guriri, São Mateus, ES, southeastern Brazil. Revista Brasileira de Biologia, v. 59, n. 1, p. 11-18, 1999.

VANZOLINI, Paulo Emílio. Notas sobre os ofídios e lagartos da Cachoeira de Emas, no município de Pirassununga, Estado de São Paulo. Revista Brasileira de Biologia, v. 8, n. 3, p. 377-400, 1948.

VITT, Laurie J.; ZANI, Peter A.; CALDWELL, Janalee P. Behavioural ecology of Tropidurus hispidus on isolated rock outcrops in Amazonia. Journal of Tropical Ecology, v. 12, n. 1, p. 81-101, 1996.

 

Uma grande surpresa – A adaga secreta das serpentes

As serpentes configuram-se como um grupo bastante diversificado, possuindo aproximadamente 3600 espécies catalogadas (UETZ, 2016). E de forma semelhante à sua grande diversidade, estes animais apresentam vários tipos de comportamentos de defesa demonstrados em situações naturais a partir da presença de um competidor ou predador.

Segundo Scudder & Brughardt (1983) e Carvalho & Nogueira (1988), ao se sentirem ameaçadas as serpentes podem:

  1. Buscar se esconder, ocultando a cabeça; fingindo-se de morta (tanatose) ou fugindo da ameaça.
  2. Quando o agressor se encontra mais próximo, as serpentes podem utilizar táticas de intimidação como, por exemplo, achatamento dorsoventral do corpo ou apenas da região do pescoço seguida ou não da elevação da cabeça.
  3. Retrair a parte anterior do corpo fazendo um “S” (armar bote), abrir bastante a boca, bufar ou desferir “falsos botes” (botes sem inoculação de peçonha).
  4. E por fim, se a ameaça ignorar esses comportamentos e ultrapassar certa distância de segurança da serpente, então ela irá picar ou morder.
Psomophis joberti - Samuel Ribeiro

Figura 01. Indivíduo adulto da Cobra-cadarço, Psomophis joberti. Fonte: Samuel Ribeiro, do blog Anfíbios e Répteis do Brasil.

Além desses já citados, um comportamento, no mínimo, peculiar foi observado em indivíduos de Cobra-Cadarço (Psomophis joberti) (FIGURA 01), serpente com ampla distribuição na região norte, nordeste e centro-oeste do Brasil (UETZ, 2016). O gênero dessa serpente é caracterizado por indivíduos pequenos e terrestres com corpo delgado, cauda curta e que termina em uma escama modificada na forma de espinho (FIGURA 02)(MYERS; CADLE, 1994).  Nos municípios de São Gonçalo do Amarante e Itapipoca, Ceará, indivíduos de P. joberti demonstraram um comportamento de defesa diferente após serem coletados, eles dobraram o seu corpo e pressionaram o espinho caudal contra a mão do coletor, causando dor leve, mas sem danos a pele (LIMA et al., 2010).

Psomophis joberti - Paula Hanna Valdujo

Figura 02. A Cobra-cadarço (Psomophis joberti) é uma serpente pequena, marrom pálida com coloração de cabeça escura contrastante. Note a ponta da cauda com formato de espinho. Fonte: Paula Hanna Valdujo, retirado de The Reptile Database.

Apesar de ser inusitado para essa espécie, a presença de espinho caudal e desse mesmo comportamento tem sido observado também em serpentes dos gêneros Typhlops (RICHMOND, 1955), Farancia e Carphophis (ERNST; ERNST, 2003 apud LIMA et al., 2010). Surpreendente, não é mesmo?! Isso demonstra que ainda conhecemos pouco sobre a ecologia das serpentes, e que ainda temos muito a aprender sobre os seus fascinantes hábitos comportamentais.

Texto escrito por Bruno Guilhon, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, M. A.; NOGUEIRA, F. Serpentes da área urbana de Cuiabá, Mato Grosso: aspectos ecológicos e acidentes ofídicos associados. Cadernos de Saúde Pública, v. 14, n. 4, p. 753–763, 1998.

LIMA, D. C.; BORGES-NOJOSA, D. M.; BORGES-LEITE, M. J.; PASSOS, D. Psomophis joberti (Sand snake). Defensive behavior. Herpetological Review, v. 41, n.1, p. 96-97, 2010.

MYERS, C. W.; CADLE, J. E. A New Genus for South American Snakes Related to Rhadinaea obtusa Cope (Colubridae) and Resurrection of Taeniophallus Cope for the “Rhadinaea” brevirostris Group. American Museum Novitates, v. 3102, n. 3102, p. 33 pp, 1994.

RICHMOND, N. D. The Blind Snakes (Typhlops) of Bimini, Bahama Islands, British West Indies, with Description of a New Species. American Museum Novitates, n. 1734, p. 1–8, 1955.

SCUDDER, R. M.; BURGHARDT, G. M. A comparative study of defensive behavior in three sympatric species of water snakes (Nerodia). Ethology, v. 63, n. 1, p. 17-26, 1983.

UETZ, P. How many species?. The Reptile Database, 2016. Disponível em: <http://www.reptile-database.org/db-info/SpeciesStat.html >. Acesso em: 07 jul. 2017.

 

O primeiro registro de homem adulto devorado por serpente e ponderações necessárias

Python reticulatus Wikimedia Commons

Fonte: Wikimedia Commons.

A imagem de uma cobra gigante engolindo um ser humano adulto sempre esteve presente no imaginário popular e, por consequência, virou cena de diversos filmes de ampla circulação. Apesar de estar bem difundido entre as pessoas, este fenômeno nunca foi oficialmente registrado e até então era considerado impossível, ainda mais depois de que todos os registros fotográficos de serpentes abertas com humanos dentro foram comprovados como obras de charlatanismo.

Acontece que, em março de 2017, na região de Sulawesi, na Indonésia, o corpo do agricultor AkbarSalubiro foi encontrado dentro de uma Píton Reticulada (Python reticulatus (FIGURA 01)), após esta ser caçada e aberta pelos moradores da região. Um vídeo da situação foi gravado e disponibilizado na internet (FIGURA 02). A serpente possuía aproximadamente 7 metros de comprimento e já fora vista pelos agricultores no entorno da plantação de palma na qual o agricultor devorado trabalhava. A região de Sulawesi já era conhecida pela presença de pítons de grande porte, em especial porque as plantações geralmente se desenvolvem à custa da destruição do território dessas serpentes.

Python reticulatus Arkive.org

Figura 01. A Píton Reticulada, Python reticulatus, é uma serpente nativa do sudeste da Ásia e seu entorno. Fonte: Arkive.org.

As pítons dividem com as sucuris o título de maiores serpentes do mundo, pertencendo a uma píton o título de primeiro lugar com seus mais de 13 metros registrados e tendo como maior representante das sucuris um indivíduo registrado pelo Marechal Rodon com 11,63 metros. Esses animais não-peçonhentos levam suas presas ao óbito através da constrição. Devido ao seu grande tamanho, tanto as sucuris quanto as pítons são capazes de abater presas de peso considerável, como bezerros, porcos, cachorros e cabras. Animais silvestres também são alimento desses grandes répteis, como veados, capivaras, porcos do mato e até jacarés.

Essas gigantes, assim como todas as outras serpentes, podem abocanhar e deglutir presas que são de maior diâmetro que as próprias predadoras, isso devido a uma série de adaptações anatômicas. Essas especificidades das serpentes vão desde o dentário com sínfise tendinosa frouxa (ausência de queixo na mandíbula) e que se articula com o crânio através de cartilagens móveis, até a presença da proteína elastina em seus tecidos que por isso se esticam de forma notável. Essas adaptações dão às serpentes a sua singularidade no hábito alimentar, contudo, sem o contato direto com o animal predado, as serpentes são incapazes de dilatar seus tecidos e abrir muito a sua boca por conta própria. É necessário o contato progressivo com o corpo cilíndrico do animal para que o mesmo imponha às serpentes a força necessária para tais modificações. Essa é uma das principais razões que tira o ser humano da dieta das serpentes: A aguda transição do pescoço para os ombros impossibilita a dilatação progressiva da boca da serpente.

É nesse ponto que está a singularidade desta notícia. As invasões aos territórios das pítons pelas plantações de palma tanto deixam suas presas escassas quanto subtraem sua área de vida e expõem os agricultores à vulnerabilidade. A população da região de Sulawesi é particularmente de baixa estatura, o que pode ter contribuído para a deglutição da serpente. Já havia registro de homens adultos mortos por píton, mas pela primeira vez algum foi devorado.

Vídeo Python reticulatus

Figura 02. Momento do vídeo que mostra a píton sendo cortada por moradores do local para verificação do seu conteúdo estomacal. Fonte: BBC/West Sulawesi Police.

Muito nos toca a morte de AkbarSalubiro, mas é fundamental que ponderemos que incidentes como esse são o resultado de nossas atividades inconsequentes. Além de invadirmos os habitats desses animais e removermos suas presas dos ecossistemas, ainda matamos sistematicamente qualquer serpente que aparece em nossa vista por considerarmos elas perigosas. Episódios como esse aqui relatado, por mais que seja singular como registro histórico, gera uma série de assassinatos de serpentes em vários países. As serpentes são peça fundamental nas dinâmicas ecossistêmicas e a sua caça pode trazer sérios impactos ambientais.

Texto escrito por Gabriel Aguiar, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

National Geographic. How This 23-Foot Python Swallowed a Man Whole. Disponível em: <http://news.nationalgeographic.com/2017/03/python-snake-swallows-man-whole-indonesia >.

BBC. How did an Indonesian python eat a man? Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-asia-39427462 >.

Notícia: Nova espécie de sapo recebe nome em homenagem à banda Pink Floyd

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Pesquisadores brasileiros descreveram recentemente uma nova espécie de sapo, que recebeu seu nome inspirado na famosa banda britânica Pink Floyd. A espécie recebeu o nome de Brachycephalus darkside (FIGURA 01), em homenagem ao álbum “The Dark Side of the Moon”, lançado em 1970 pela banda.

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FIGURA 01. Fotografias de Brachycephalus darkside, mostrando uma fêmea (A) e um macho (B) da espécie. Fonte: GUIMARÃES et al., 2017.

Essa escolha não foi feita só pelo gosto musical dos pesquisadores. A espécie descrita possui manchas nas costas causadas pela presença de um tecido conjuntivo de cor preta que cobre toda a musculatura dorsal do animal (FIGURA 01). Por esse motivo, esse lado escurecido do anfíbio deu a ideia para a escolha do nome “darkside”. Segundo a pesquisadora, Carla Silva Guimarães, o nome da espécie é muito importante para divulgar o local de pesquisa e o grupo de pesquisadores, bem como promover o Museu de Zoologia e o Departamento de Biologia Animal da Universidade Federal de Viçosa, instituição na qual a pesquisa estava vinculada.

B. darkside foi encontrado na floresta atlântica da Serra do Brigadeiro (MG), o tipo de floresta no qual o gênero Brachycephalus é endêmico. O gênero possui 31 espécies descritas, e cerca de 30% foram descritas nos últimos três anos, o que indica que a diversidade do gênero ainda está sendo descoberta.

Durante os meses secos da pesquisa, de Julho a Setembro, B. darkside foi encontrado escondido profundamente na serrapilheira, enterrado ou entre raízes de árvores (FIGURA 02). Durantes os meses de Outubro a Dezembro, período de atividade de B. darkside, os machos foram encontrados cantando em cima ou abaixo de folhas, e as fêmeas foram encontradas andando sobre a serrapilheira.

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FIGURA 02.  Fotografias do local onde B. darkside foi encontrado, mostrando um macho escondido abaixo de raízes (C) e as raízes onde o macho foi encontrado (D). Fonte: GUIMARÃES et al., 2017.

A cor amarelo-alaranjada brilhante de B. darkside (FIGURA 01), característica do seu gênero, é um tipo de coloração aposemática, que atua como um alerta para predadores, avisando-os que aquele indivíduo provavelmente possui toxinas.

A descoberta foi publicada na revista Zootaxa, em um artigo com o título “The dark side of pumpkin toadlet: a new species of Brachycephalus (Anura: Brachycephalidae) from Serra do Brigadeiro, southeastern Brazil”. A descrição foi embasada por estudos de morfologia, osteologia, histologia e vocalização da espécie. A análise molecular ainda será feita, em outra fase da pesquisa. A autora ainda planeja, em seu doutorado, explicar a origem química e função da pigmentação característica de B. darkside, e o motivo das outras espécies de seu gênero não a possuírem.

Para mais informações, você pode consultar o artigo original aqui, e uma matéria muito interessante publicada sobre a descoberta aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

GUIMARÃES, Carla Silva; LUZ, Sofia; ROCHA, Pedro Carvalho; FEIO, Renato Neves. The dark side of pumpkin toadlet: a new species of Brachycephalus (Anura: Brachycephalidae) from Serra do Brigadeiro, southeastern Brazil. Zootaxa: v. 4258, n. 4, p. 327-344, 2017.

Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFV. Nova espécie de sapo descrita por pesquisadores da UFV traz referência a grupo de rock. Disponível em: < http://www.ppg.ufv.br/?noticias=nova-especie-de-sapo-descrita-por-pesquisadores-da-ufv-traz-referencia-a-grupo-de-rock>. Acesso em: 20 jun. 2017.

 

É importante conservar as serpentes? Como a educação formal, contato prévio e percepção influenciam na interação do homem com as serpentes

Será que é eficaz pensar em conservação sem levar em conta as relações existentes entre as espécies animais e as comunidades humanas?  O estudo dessas relações parece ser um caminho cada vez mais importante na adoção de medidas efetivas de conservação (Alves 2012). A relação dos homens com alguns grupos de animais pode ser conflituosa, como exemplos desses grupos podemos citar aranhas, ratos, morcegos e serpentes. As serpentes têm sido historicamente perseguidas e mortas pelos homens em diversos países, chegando até mesmo a causar a diminuição de populações de espécies desse grupo em alguns locais (Figura 01). Recentemente, alguns estudos buscaram entender melhor a relação entre os homens e as serpentes no Brasil, focando seus esforços principalmente em aspectos descritivos dessa relação e em áreas rurais (Fernades Ferreira et al., 2011; Fita et al., 2010). Pouquíssimos abordaram essa relação testando hipóteses com as possíveis explicações para essa relação conflituosa.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Recentemente, colaboradores do NUROF-UFC publicaram um artigo na revista cientifica internacional Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine e trouxeram contribuições no sentindo de entender melhor a relação entre os homens e as serpentes em um grande centro urbano do nordeste brasileiro. Nesse trabalho, foram colhidas informações de 1142 visitantes do NUROF-UFC, localizado em Fortaleza, durante quatro anos (2010-2013) através dos projetos de educação ambiental desenvolvidos no núcleo. Dentre as informações colhidas, estavam dados sociodemográficos, como idade, sexo e escolaridade, além de perguntas referentes à percepção das pessoas ao se deparar com serpentes, o nível de medo em relação a esses répteis e se os visitantes tinham tido algum contato prévio com esses animais, seja na natureza, em ambientes urbanos ou em zoológicos.

Entre os resultados da pesquisa, os cientistas encontraram que quanto maior o nível de escolaridade dos entrevistados menos percepções negativas eles tinham sobre as serpentes, demonstrando a importância da educação formal na maneira como as pessoas percebem esses animais (Pinheiro et al., 2016). Além disso, foi mostrado que a percepção negativa das pessoas em relação às serpentes está associada à importância que elas dão à conservação destes animais. O que quer dizer que pessoas com percepções negativas em relação às serpentes tendem a não considerar importante ações para a conservação desses animais. Outro resultado do estudo foi que pessoas com algum tipo de contato prévio apresentaram menos medo e menos percepções negativas das serpentes. Os pesquisadores também encontraram que mulheres apresentaram mais medo e percepções negativas em relação às serpentes do que os homens.

As conclusões do estudo são importantes para entendermos melhor a relação entre os homens e as serpentes. Além de servir de base para adoção de medidas conservacionistas e de educação ambiental tendo como possíveis alvos prioritários pessoas com baixos níveis de escolaridade através de atividades que levem o público a interagir com esses animais.

Para mais informações acesse o artigo completo (Acesso Aberto – Open Access) disponível no link:  https://ethnobiomed.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13002-016-0096-9

 

Por Luan Pinheiro, colaborador do NUROF-UFC.

Referências

Alves RRN. 2012. Relationships between fauna and people and the role of ethnozoology in animal conservation. Ethnobiology Conservation. 1:1–69.

Fernandes-Ferreira H, Cruz R, Borges-Nojosa DM, Alves RRN. 2011. Crenças associadas a serpentes no estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Sitientibus. 11:153–63.

Fita DS, Costa-Neto EM, Schiavetti A. 2010. “Offensive” snakes: cultural beliefs and practices related to snakebites in a Brazilian rural settlement. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine. 6:13.

Pinheiro LT, Rodrigues JFM, Borges-Nojosa DM. 2016. Formal education, previous interaction and perception influence the attitudes of people toward the conservation of snakes in a large urban center of northeastern Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 12: 25. DOI 10.1186/s13002-016-0096-9

 

 

Cobra ou serpente? Existe mesmo um termo correto?

Na comunidade acadêmica, é bastante comum a prática do policiamento (muitas vezes de forma arrogante) do uso de termos populares em detrimento dos técnico-científicos por parte de muitos de seus membros. Entre alguns biólogos, por exemplo, há uma correção corriqueira sobre o uso do termo “cobra” (Fig. 1).

Philodryas olfersii,chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada . Foto: Luan Pinheiro

Figura 1: Philodryas olfersii,chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro

“O correto não é cobra (Fig. 2), é serpente. Cobra é nomenclatura para as serpentes do gênero Naja”. Quantas dezenas de vezes já não ouvimos isso? Pois bem, o post de hoje é fruto de conversas entre os dois autores – por sinal, dois mastozoólogos – e de pesquisas avulsas em momentos avulsos, que só aqueles que sofrem de insônia (todos os acadêmicos?) sabem como é. Tentaremos mostrar aqui que essa correção não faz muito sentido do ponto de vista etimológico e histórico.

Oxybelis_aeneus_PauloMesquita

Figura 2: Colubrídeo (Oxybelis aeneus), Cobra-cipó. Foto: Paulo mesquita.

1) A origem da palavra “cobra “

A palavra “cobra” em português vem do latim “coluber”/”colubra”. Coluber vem do proto-indo-europeu *(s)k(‘)ol-. e também significa “verme”. O Proto-Indo-Europeu deu origem a um monte de línguas, dentre elas as germânicas, que inclui o inglês. Já deu pra perceber que a origem da palavra é bem mais antiga do que qualquer estudo de descrição herpetológica, não é? Mas tem mais. Vejamos.

2) A origem da palavra “serpente”

“Serpente” também vem do latim “serpēns”, que significa “aquele que rasteja”. Assim como a palavras “hérpō” (de onde se origina herpetologia), do grego antigo e “sárpati”, do Indiano Antigo (ambas também significam “aquele que rasteja”). Todas elas tem a mesma origem, a palavra  proto-Indo-européia “*serpe-“.

Caudisona durissa

Figura 3: Serpente do grupo dos Viperídeos (Crotalus durissus). Foto: Hugo Fernandes

3) A origem da palavra “naja”

A palavra “naja” vem do Hindi antigo “nāgá, que significa serpente e é originária do Proto-Indo-Europeu “*(s)nēg-o-“, que deu origem à palavra do inglês antigo “snaca”, que no inglês moderno escreve-se como “snake”. Sendo assim, as palavras “naja” e “snake” tem uma mesma origem.

4) A origem da palavra “cobra” na língua inglesa

A palavra “cobra” realmente é utilizada na literatura de língua inglesa para designar alguns ofídios da Família Elapidae (Fig. 4), conhecidos também como “najas”, animais ainda hoje símbolos da Índia, país sob domínio da Coroa Britânica até 1950. Entretanto, é importante ressaltar que a Índia, antes do domínio britânico, era de domínio ibérico. A palavra “cobra” já era (e continua sendo) utilizada em Portugal para designar os ofídios de uma maneira geral. Além disso, os portugueses antes mesmo de chegarem à Índia, já sabiam da existência das chamadas “cobras-de-capelo” (é só lembrar que existem najas no Egito e que eram conhecidas desde a Idade Média e até antes disso). Quando viram que em terras hindus também havia “cobras-de-capelo”, assim as denominaram. Essa nomenclatura é uma referência à capacidade desses ofídios em expandirem suas costelas anteriores quando ameaçadas, o que lembra um “capelo”, que tem origem latina e significa “chapéu”. Ou seja, as najas seriam as “cobras-de-chapéu” ou “cobras-de-capuz”.

Figura 4: Elapídeo (Micrurus sp.), Cobra-coral verdadeira. Foto: Diego Soares. 

No entanto, com o advento do domínio britânico em território indiano, as primeiras literaturas de grande alcance mundial envolvendo descrições de répteis da Índia eram descritas em língua inglesa, as quais utilizaram traduções livres das denominações portuguesas (que já estavam disseminadas em bibliografias inclusive) e especificaram o termo “cobra” para as serpentes do gênero Naja.

Obs.: e nessas traduções, o “de-capelo” foi embora sabe-se lá o motivo.

5) E como nasceu essa história de que “cobra” é tecnicamente errado?

Agora vamos às divagações. Não se sabe ao certo, mas essa história de que o correto seria “serpente” e não “cobra” pode ter nascido do estudo de zoólogos brasileiros antigos sobre as bibliografias britânicas, aliado à existência de outro mito ainda bastante corrente: o de que, em 1500, os primeiros navegantes portugueses que aqui desembarcaram acharam que estavam chegando à Índia (sabemos bem hoje que isso não é verdade). A partir dessas premissas, começa a correr a afirmação de que os ofídios brasileiros foram chamados de “cobras” por uma possível associação errada dos portugueses ao achar que se tratavam de ofídios indianos. Por sinal, história bem parecida com aquela de que os nativos brasileiros são chamados de índios por esse motivo e blá, blá, blá.

Conclusão

Como vimos, o nome “cobra” é utilizado para designar os nossos queridos répteis ápodos, de corpo vermiforme e língua bífida há muito tempo. Desde antes dos ingleses encontrarem as temidas najas e desde antes dos nossos patrícios desembarcarem em terras tupiniquins. Se seria válido mudar a linguagem técnica? Não sabemos (e nem é essa a intenção do texto). No entanto, caso um dia alguém corrija você por ter chamado algum ofídio de cobra, não hesite em discutir a correção. Claro, desde que seja de forma educada, com rigor científico e dentro de todas as premissas da ética e do bom convívio profissional, não é mesmo?

Texto por: Hugo Fernandes Ferreira & Fábio Nascimento, originalmente publicado em Herpeto.org.

Para comentários de especialistas no assunto veja o texto na íntegra aqui.

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