Cobra ou serpente? Existe mesmo um termo correto?

Na comunidade acadêmica, é bastante comum a prática do policiamento (muitas vezes de forma arrogante) do uso de termos populares em detrimento dos técnico-científicos por parte de muitos de seus membros. Entre alguns biólogos, por exemplo, há uma correção corriqueira sobre o uso do termo “cobra” (Fig. 1).

Philodryas olfersii,chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada . Foto: Luan Pinheiro

Figura 1: Philodryas olfersii,chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro

“O correto não é cobra (Fig. 2), é serpente. Cobra é nomenclatura para as serpentes do gênero Naja”. Quantas dezenas de vezes já não ouvimos isso? Pois bem, o post de hoje é fruto de conversas entre os dois autores – por sinal, dois mastozoólogos – e de pesquisas avulsas em momentos avulsos, que só aqueles que sofrem de insônia (todos os acadêmicos?) sabem como é. Tentaremos mostrar aqui que essa correção não faz muito sentido do ponto de vista etimológico e histórico.

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Figura 2: Colubrídeo (Oxybelis aeneus), Cobra-cipó. Foto: Paulo mesquita.

1) A origem da palavra “cobra “

A palavra “cobra” em português vem do latim “coluber”/”colubra”. Coluber vem do proto-indo-europeu *(s)k(‘)ol-. e também significa “verme”. O Proto-Indo-Europeu deu origem a um monte de línguas, dentre elas as germânicas, que inclui o inglês. Já deu pra perceber que a origem da palavra é bem mais antiga do que qualquer estudo de descrição herpetológica, não é? Mas tem mais. Vejamos.

2) A origem da palavra “serpente”

“Serpente” também vem do latim “serpēns”, que significa “aquele que rasteja”. Assim como a palavras “hérpō” (de onde se origina herpetologia), do grego antigo e “sárpati”, do Indiano Antigo (ambas também significam “aquele que rasteja”). Todas elas tem a mesma origem, a palavra  proto-Indo-européia “*serpe-“.

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Figura 3: Serpente do grupo dos Viperídeos (Crotalus durissus). Foto: Hugo Fernandes

3) A origem da palavra “naja”

A palavra “naja” vem do Hindi antigo “nāgá, que significa serpente e é originária do Proto-Indo-Europeu “*(s)nēg-o-“, que deu origem à palavra do inglês antigo “snaca”, que no inglês moderno escreve-se como “snake”. Sendo assim, as palavras “naja” e “snake” tem uma mesma origem.

4) A origem da palavra “cobra” na língua inglesa

A palavra “cobra” realmente é utilizada na literatura de língua inglesa para designar alguns ofídios da Família Elapidae (Fig. 4), conhecidos também como “najas”, animais ainda hoje símbolos da Índia, país sob domínio da Coroa Britânica até 1950. Entretanto, é importante ressaltar que a Índia, antes do domínio britânico, era de domínio ibérico. A palavra “cobra” já era (e continua sendo) utilizada em Portugal para designar os ofídios de uma maneira geral. Além disso, os portugueses antes mesmo de chegarem à Índia, já sabiam da existência das chamadas “cobras-de-capelo” (é só lembrar que existem najas no Egito e que eram conhecidas desde a Idade Média e até antes disso). Quando viram que em terras hindus também havia “cobras-de-capelo”, assim as denominaram. Essa nomenclatura é uma referência à capacidade desses ofídios em expandirem suas costelas anteriores quando ameaçadas, o que lembra um “capelo”, que tem origem latina e significa “chapéu”. Ou seja, as najas seriam as “cobras-de-chapéu” ou “cobras-de-capuz”.

Figura 4: Elapídeo (Micrurus sp.), Cobra-coral verdadeira. Foto: Diego Soares. 

No entanto, com o advento do domínio britânico em território indiano, as primeiras literaturas de grande alcance mundial envolvendo descrições de répteis da Índia eram descritas em língua inglesa, as quais utilizaram traduções livres das denominações portuguesas (que já estavam disseminadas em bibliografias inclusive) e especificaram o termo “cobra” para as serpentes do gênero Naja.

Obs.: e nessas traduções, o “de-capelo” foi embora sabe-se lá o motivo.

5) E como nasceu essa história de que “cobra” é tecnicamente errado?

Agora vamos às divagações. Não se sabe ao certo, mas essa história de que o correto seria “serpente” e não “cobra” pode ter nascido do estudo de zoólogos brasileiros antigos sobre as bibliografias britânicas, aliado à existência de outro mito ainda bastante corrente: o de que, em 1500, os primeiros navegantes portugueses que aqui desembarcaram acharam que estavam chegando à Índia (sabemos bem hoje que isso não é verdade). A partir dessas premissas, começa a correr a afirmação de que os ofídios brasileiros foram chamados de “cobras” por uma possível associação errada dos portugueses ao achar que se tratavam de ofídios indianos. Por sinal, história bem parecida com aquela de que os nativos brasileiros são chamados de índios por esse motivo e blá, blá, blá.

Conclusão

Como vimos, o nome “cobra” é utilizado para designar os nossos queridos répteis ápodos, de corpo vermiforme e língua bífida há muito tempo. Desde antes dos ingleses encontrarem as temidas najas e desde antes dos nossos patrícios desembarcarem em terras tupiniquins. Se seria válido mudar a linguagem técnica? Não sabemos (e nem é essa a intenção do texto). No entanto, caso um dia alguém corrija você por ter chamado algum ofídio de cobra, não hesite em discutir a correção. Claro, desde que seja de forma educada, com rigor científico e dentro de todas as premissas da ética e do bom convívio profissional, não é mesmo?

Texto por: Hugo Fernandes Ferreira & Fábio Nascimento, originalmente publicado em Herpeto.org.

Para comentários de especialistas no assunto veja o texto na íntegra aqui.

Amor e guerra: Rã ‘Wolverine’

Rãs tem a morfologia das mãos e pés altamente conservados evolutivamente, possuindo quatro e cinco dedos respectivamente. Com exceção de duas espécies japonesas de rãs da família Ranidae, Babina subaspera (Fig. 1) B. holsti, que possuem uma estrutura semelhante a um dedão na pata dianteira, fazendo o animal parecer possuir cinco dedos na mão.

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Figura 1: Babina subasperaRã “Wolverine” por © Noriko Iwai

A espécie B. subaspera vive na região das Ilhas Amami, no Sul do Japão. Exemplares machos desta rã apresentam “pseudo-polegares” nas patas, o que intrigou o pesquisador Noriko Iwai, da Universidade de Tóquio. Esse dedo extra libera uma garra, que na verdade é um espinho; um complexo de elementos esqueletais, músculos, tecidos conjuntivos e pele. O esqueleto (ósseo ou cartilaginoso) que existe dentro do falso polegar é definido como “prepollex”, que seria literalmente um dedo extra, um rudimento, apresentando uma extremidade pontiaguda e curvada na direção oposta ao primeiro dedo, sendo definido como espinho prepolical (Fig. 2).

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Figura 2: Espinho prepolical em B. subaspera, © Noriko Iwai

O porquê desse “quinto dedo” existir em algumas espécies de vertebrados ainda permanece um mistério evolutivo, mas em B. subaspera (Fig. 3), trabalhos de campo demonstram que é usado em combates por território e possui papel importante acasalamento. Ambos, macho e fêmea, possuem esse espinho que fica recoberto por pele, porém, nos machos, os espinhos são tipicamente maiores. Apesar de ambos o possuírem, apenas os machos da espécie usam o espinho, achado que leva o Dr. Iwai a acreditar que estes estejam primariamente relacionados à ancoragem do macho na fêmea durante a cópula (amplexo).

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Figura 3:  Corte histológico corado e figura esquemática mostrando cartilagem (azul) e ossos (vermelho) da mão direita de B. subaspera , confira a posição dos metacarpais (I,II,III e IV) e espinho prepolical (*). (Tokita & Iwai, 2010)

As condições nas ilhas Amami tornam o combate, e a necessidade de armamento, um fator chave para o sucesso de acasalamento das rãs. Indivíduos lutam por lugares para construir os ninhos, assim a capacidade de lutar contra os concorrentes pode ser crucial. No combate, os machos primeiro se abraçam e depois golpeiam o oponente com o espinho prepolical exposto, causando ferimentos no dorso (Fig. 4).

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Figura 4: Macho de B. subaspera (acima) com marcas dorsais de combate e fêmea (abaixo) com cicatrizes localizadas apenas na região axilar. (Iwai 2012)

Este estilo de luta ajuda a confirmar a teoria de que os espinhos eram originalmente usados para abraçar o parceiro sexual (Fig. 5).

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Figura 5: Macho e fêmea em amplexo. Note a posição de fixação do espinho prepolical. (Iwai, 2012)

O fato é que por apresentar uma estrutura retrátil usada como arma de defesa fez muitas pessoas associarem o anfíbio ao personagem Wolverine, da franquia X-men, que possuía garras retrateis compostas por uma liga metálica fictícia, o Adamantium, e que confere grande poder ao personagem. Os combates entre os machos de B. subaspera podem ser vorazes, talvez não tão parecido com o estilo de luta do Mutante Logan, mas não menos empolgantes.

“Mais pesquisa é necessária para ver como o pseudo-polegar evoluiu e como ele veio a ser usado para a luta”, diz Dr. Iwai.O Dr. Iwai  tem estudado a rara espécie desde 2004, com o intuito de entender a distribuição e  hábitos reprodutivos; todos fatores que poderiam contribuir com a conservação da espécie. O uso da estrutura como uma arma, e o perigo das rãs que se prejudicam com ele, fazem do pseudo-polegar  uma contribuição intrigante ao estudo da morfologia da mão, conclui Dr. Iwai.

REFERÊNCIAS:

MailOnline

Natgeo

Iwai, N. (2012) Morphology, function and evolution of the pseudothumb in the Otton frog. Journal of Zoology 289 (2013) 127–133. (doi:10.1111/j.1469-7998.2012.00971.x)

Tokita, M. & Iwai, N. (2010) Development of the pseudothumb in frogs. Biol. Lett. (doi:10.1098/rsbl.2009.1038)

O veneno da Cobra-coral azul (Calliophis bivirgatus)

 

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Calliophis bivirgatus | © Tom Charlton

 

A ameaçadoramente bela Cobra-coral azul se alimenta de outras serpentes, incluindo outras serpentes ofiófagas, como os gêneros Bungarus e Ophiophagus. Para imobilizar suas presas essa serpente utiliza uma peçonha extremamente desagradável.

Encontrada no Sudeste Asiático, Calliophis bivirgatus caracteriza-se pela coloração vermelho chamativa da cabeça e cauda, e pelas linhas azuis brilhantes que percorrem o comprimento do corpo. Em um novo artigo publicado na revista científica Toxins, pesquisadores da Universidade de Queensland e várias outras instituições descrevem o único e mortal veneno dessa espécie – uma toxina que proporciona um grande choque no sistema fisiológico de suas presas.

A espécie é de interesse para anatomistas e toxicólogos no que diz respeito há evolução e diversificação do sistema de produção de venenos no grupo das serpentes, pois juntamente com a congênere C. intestinalis, apresentam alongadas glândulas de veneno (Fig. 1) que se estendem até um quarto do comprimento do corpo.

 

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Fig. 1: Setas indicam glândulas especializadas na produção e estocagem de veneno em Calliophis bivirgatus. Foto retirada do artigo.

De importância médica, apesar de poucos casos de acidentes com humanos envolvendo a espécie serem confirmados. Responsável por pelo menos uma fatalidade humana, e suspeitas de ter ocasionado pelo menos mais uma. Não há anti-soro para a picada da espécie.

Quase imediatamente depois de ser mordido, a vítima entra em um estado catatônico agonizante, com seus músculos presos em plena flexão. O veneno faz com que todos os nervos disparem simultaneamente, provocando espasmos no corpo inteiro. Paralisado, o animal pode ser posteriormente deglutido pela serpente.

Pode parecer cruel, mas a evolução equipou essa serpente com esse veneno particularmente poderoso por uma razão: este predador altamente especializado gosta de caçar outras cobras peçonhentas, que são tipicamente muito rápidas e também excepcionalmente perigosas.

Os cientistas já viram esse tipo de toxina antes, mas nunca em uma cobra, muito menos em qualquer outra espécie de vertebrado. Alguns animais, como alguns escorpiões e aranhas, desenvolveram toxinas semelhantes. O molusco gastrópode Conus geographus, por exemplo, injeta um tipo semelhante de toxina nos peixes, fazendo com que eles entrem em uma paralisia instantânea, deixando os músculos completamente tensos como em um espasmo parecido com tétano.

O veneno da Cobra-coral azul faz praticamente a mesma coisa, e os cientistas dizem que é um bom exemplo de evolução convergente (onde uma característica similar emerge de forma independente em diferentes espécies). Uma vez dentro do corpo, a toxina faz com que todos os nervos dentro do corpo de um animal liguem simultaneamente, fazendo com que o animal entre em um estado de dormência ou congelamento. Os pesquisadores referem-se a este estado como paralisia espástica, ao contrário da paralisia flácida induzida por outro veneno de cobra.

O veneno de C. bivirgatus mantém as toxinas do canal de sódio abertas, bloqueando o fechamento do canal que terminaria a transmissão do nervo e permitiria que o músculo voltasse ao estado de repouso.

As toxinas nas serpentes e outros grupos surgiram como uma forma rápida de subjugar suas presas, impedindo que estas causem danos à serpente na alimentação. Nos répteis do grupo toxicofera iniciais, os dentes pré-existentes eram suficientes para a causar uma ferida, permitindo a entrega de veneno por diferença de pressão através da “mastigação” e só posteriormente dentições mais especializadas evoluíram nos grupos. 

Ironicamente, este veneno apelidado de Calliotoxina poderia ser usado na farmacologia para desenvolver novos medicamentos. Os cientistas estão agora particularmente interessados em sua capacidade de agir como um analgésico em seres humanos.

Por: John A. Andrade, membro NuRof-UFC

REFERÊNCIAS:

GIZMODO   acessado 03.11.2016

Yang, D.C. et al: The Snake with the Scorpion’s Sting: Novel Three-Finger Toxin Sodium Channel Activators from the Venom of the Long-Glanded Blue Coral Snake (Calliophis bivirgatus)., Toxins 2016, 8, 303. (doi: 10.3390/toxins8100303 )

Rã-touro americana: alternativa à produção de carne ou ameaça à conservação?

Você já comeu carne de rã? Quem já provou afirma que seu gosto lembra o de frango.

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Fig.1: Rã-touro americana sendo devorada por serpente. © Michael Krabs 

Considerado um prato exótico, refinado e saboroso, é igualmente muito nutritivo e saudável. A carne de rã (Fig.2) é recomendada por médicos e nutricionistas, pois sua taxa de gordura é de 3%. É a única carne produzida em cativeiro que possui os 10 aminoácidos básicos para o ser humano e com alta digestibilidade por ser formada por moléculas de cadeias curtas. É especialmente indicada para a alimentação de crianças que possuem rejeição alimentar à proteína animal (Lima e Agostinho, 1988).

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Fig.2: Prato feito a base de carne de rã-touro. © Nelikz | Dreamstime.com

Os subprodutos do abate, embora pouco explorados, são bem diversificados. O fígado, por exemplo, é usado na fabricação de patê, considerado muito saboroso. A pele curtida é usada na confecção de roupas e artesanato, enquanto a gordura visceral é aproveitada na fabricação de cremes para a indústria cosmética. Na medicina, o intestino é utilizado como linha cirúrgica interna (catgut) e a pele in natura, na cicatrização de feridas provocadas por queimaduras de segundo e terceiro graus. Este curativo biológico foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília – UnB (Carraro, 2008).

O hábito de degustar carne de rã é muito antigo. Heródoto, um filósofo grego nascido nos anos de 484-425 a.C., já mencionava em seus escritos que a carne de rã era servida pelos gregos como fina iguaria aos nobres em comemorações da mais distinta e elevada sociedade. Nas migrações europeias do século XIX, italianos, franceses, alemães, suíços, belgas e outros povos difundiram o hábito do consumo da carne de rã como alimento nos Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Chile e Argentina. No Brasil, este costume não se deve exclusivamente ao imigrante europeu, uma vez que nossos índios já utilizavam os anfíbios em sua alimentação (Lima, 2004). O primeiro país a explorar rãs visando à comercialização de sua carne foi Cuba em 1917 (Lima e Agostinho, 1995). Esta atividade baseou-se na rã-touro (Lithobates catesbeianus), espécie nativa da América do Norte (Fig.3) que foi introduzida na ilha, onde se adaptou bem e rapidamente se expandiu em todo seu território (Carraro, 2008). No Brasil, a criação comercial de rãs teve início em 1935 com a vinda do técnico canadense Tom Cyrill Harrison, que trouxe os primeiros 300 casais de rãs-touro gigantes a fim de instalar o primeiro ranário, batizado de Aurora e localizado no Rio de Janeiro. (Longo, 1987; Ferreira et al., 2002).

 

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Fig.3: rã-touro americana (Lithobates catesbianus). © Thomas Marent

A rã-touro é a mais utilizada na ranicultura devido ao seu crescimento rápido, alto número de ovos por postura e facilidade de manejo. Por isso, ela foi introduzida em muitas regiões da América Latina e Europa com a finalidade de ser criada comercialmente (Carraro, 2008). Eventuais fugas ou solturas desses animais possibilitaram a invasão de diversos ambientes naturais. Hoje em dia, a rã-touro é considerada uma das cem piores espécies invasoras do mundo devido a sua alta capacidade de competir por recursos alimentares, predar uma grande diversidade de organismos e carrear patogenicidades altamente prejudiciais a outros organismos (Cunha e Delariva, 2009). Este último é outro grande problema ambiental envolvendo o seu comércio global com finalidades para consumo, bem como para compra e venda como pets.

A rã está disseminando um fungo letal que contribui para o declínio dos anfíbios em todo o mundo em uma taxa alarmante (Skerratt et al. 2007; Crawford et al. 2010; Schloegel, 2012). A rã-touro norte-americana é resistente ao fungo quitrídio e acaba sendo um excelente vetor da doença. Este fungo é inócuo para os seres humanos, no entanto, os seres humanos não tem sido inócuos para os anfíbios, que estão desaparecendo a olhos vistos! No caso específico dessa rã americana, não se pode negar sua importância econômica, inclusive na área médica. No entanto, os impactos ambientais para a fauna nativa devem ser levados em consideração na hora do manejo desses bichos. A atividade de ranicultura deve ser realizada com muito critério e responsabilidade, além de ser passível de licenciamento pelos órgãos ambientais competentes. Quanto aos danos já causados pelo manejo inadequado, só resta adotar políticas de conservação sérias e imediatas para conter a expansão geográfica desses animais.

Por: Patrícia de Menezes Gondim, colaboradora do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARRARO, K. C. 2008. Ranicultura: um bom negócio que contribui para a saúde. Rev. FAE, Curitiba, 11:111-118.

CRAWFORD, A.J.; LIPS, K.R.; BERMINGHAM, E. 2010. Epidemic disease decimates amphibian abundance, species diversity, and evolutionary history in the highlands of central Panama. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 107:13777-13782.

CUNHA, E. R.; DELARIVA, R. L. 2009. Introdução da Rã-touro, Lithobates catesbeianus (SHAW, 1802): uma revisão. SaBios: Rev. Saúde e Biol., 4:34-46.

FERREIRA, C.M.; PIMENTA, A.G.C.; PAIVA NETO, J.S. 2002. Introdução à ranicultura. Boletim Técnico do Instituto de Pesca, São Paulo, 33:1-15.

LIMA, S. L. et al. 2004. Manejo de anfigranja. Viçosa (MG): CPT.

LIMA, S. L.; AGOSTINHO, C. A. 1995. A tecnologia da criação de rãs. 2.ed. Viçosa (MG): Imprensa Universitária.

LIMA, S. L.; AGOSTINHO, C. A. 1988. A criação de rãs. Rio de Janeiro: Globo. (Coleção do Agricultor).

LONGO, A.D. 1987. Manual de Ranicultura: uma nova opção de pecuária. 1. ed. Rio de Janeiro: Ediouro do campo.

SCHLOEGEL, L. M. et al. 2012. Novel, panzootic and hybrid genotypes of amphibian chytridiomycosis associated with the bullfrog trade. Molecular Ecology, 21:5162-5177.

SKERRATT, L.F. et al. 2007. Spread of chytridiomycosis has caused the rapid global decline and extinction of frogs. EcoHealth, 4, 125-134.

Anatomia topográfica em serpentes: olhando além das escamas


As serpentes, como todos os répteis, possuem uma pele resistente, seca e revestida de escamas queratinizadas, que oferecem proteção contra o dessecamento e agressões (Hickman et al., 2003). A disposição das escamas (folidose) pode ser avaliada tanto na quantidade quanto nos tipos e formas, auxiliando na identificação taxonômica das espécies. As escamas ventrais, também chamadas de placas ventrais (Figura 01), são particularmente bastante utilizadas em estudos de anatomia topográfica de serpentes. Trata-se de posicionar os órgãos internos em relação ao intervalo das escamas ventrais que eles ocupam. Analogamente às placas de sinalização de trânsito, as placas ventrais nos dão o endereço do estômago, do fígado, do coração, dos rins e demais órgãos (Figura 02). O conhecimento prévio da localização topográfica do órgão de interesse tem grande utilidade prática no tratamento veterinário e em dissecações quando, por exemplo, auxilia em procedimentos cirúrgicos e aplicação de medicamentos.

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Fig.1: Vista ventral de Bothrops erythromelas evidenciando escamas ventrais. Foto por Patrícia Gondim

As escamas ventrais também levam a estudos ecomorfológicos de serpentes. No trabalho de Gondim et al. (2016), realizado por membros do NUROF-UFC, os autores estabeleceram  a anatomia topográfica para uma espécie de jararaca endêmica da Caatinga (acesso ao artigo). Com o nome científico de Bothrops erythromelas, ela é conhecida popularmente como jararaca-da-seca por ocorrer somente nesse bioma. Os pesquisadores constataram que a posição relativa do coração nessa espécie é semelhante à encontrada para outras espécies terrestres de Viperidae (Seymour, 1987; Gartner et al., 2010), família a qual pertencem as jararacas, cascavéis e surucucus. Estudos realizados com diferentes membros dessa família mostraram que o coração é posicionado mais posteriormente nas espécies terrestres e mais anteriormente nas arborícolas. Este é um padrão geral para as serpentes, pois essas diferenças refletem estratégias adaptativas aos efeitos particulares da gravidade nesses hábitats (Lillywhite, 1988; Aveiro-Lins et al., 2006; Guimarães et al., 2013).

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Fig.2: Vista ventral de B. erythromelas após dissecação evidenciando estômago, que nesta espécie está localizado entre as escamas ventrais 70 a 89. Foto por Patrícia Gondim.

Por: Patrícia de Menezes Gondim, membro do NUROF-UFC

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AVEIRO-LINS, G.; ROCHA-BARBOSA, O.; SALOMÃO, M. G.; PUORTO, G.; LOGUERCIO, M. F. C. 2006. Topographical anatomy of the Blunthead Tree snake, Imantodes cenchoa (Linnaeus, 1758) (Colubridae: Xenodontinae). International Journal of Morphology, Temuco; 24: 43-48.

GARTNER, G. E. A.; HICKS, J. W.; MANZANI, P. R; ANDRADE, D. V.; ABE, A. S & WANG, T.; SECOR, S. M.; GARLAND T. JR. 2010. Phylogeny, ecology, and heart position in snakes. Physiological and biochemical Zoology, Chicago; 83 (1): 43-54.

GONDIM, P. M.; RODRIGUES, J. F. M.; BORGES-LEITE, M. J.; BORGES-NOJOSA, D. M. 2016. Topographic anatomy and sexual dimorphism of Bothrops erythromelas Amaral, 1923 (Squamata: Serpentes: Viperidae). Herpetozoa, 28 (3/4): 133 – 140.

GUIMARÃES, M.; GAIARSA, M. P.; CAVALHERI, H. B. 2013. Morphological adaptations to arboreal habitats and heart position in species of the neo tropical whipsnakes genus Chironius. Acta Zoologica:Morphology and Evolution, Oxford; 95 (3): 341-346.

HICKMAN, JR. C. P.; ROBERTS, L. S.; LARSON, A. 2003. Princípios Integrados de Zoologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan S.A. 846p.

LILLYWHITE, H. B.1988. Snakes, blood circulation and gravity. Scientific American, New York; 256: 92-98.

SEYMOUR, R. S. 1987. Scaling of cardiovascular physiology in snakes. American Zoologist, Lawrence; 27: 97-109.

 

 

 

 

 

 

 

Algumas peculiaridades anatômicas das serpentes

A anatomia das serpentes é bem especializada, dispondo todos os órgãos num corpo alongado e fino. Por isso, quase todos os órgãos internos também são alongados, acompanhando o formato do corpo do animal.

Algumas peculiaridades anatômicas podem ser observadas começando pelos pulmões, que se dividem em duas partes. A porção anterior, que é vascularizada, é o pulmão propriamente dito, pois é a porção funcional. E a porção posterior, que não é vascularizada, é chamada de saco aéreo por ter aspecto de membrana transparente e funcionar como um reservatório de ar (Gomes et al., 1989; Gomes e Puorto, 1993). Nos boídeos (jiboias, salamantas e sucuris são seus representantes mais conhecidos), o pulmão esquerdo também é desenvolvido, porém reduzido. E nos viperídeos (jararacas, cascavéis e surucucus), o pulmão direito é funcional enquanto o esquerdo é vestigial. Neste último grupo, é conhecido como pulmão traqueal (Figura 1), pois a traqueia se estende dentro do pulmão direito onde continua como um brônquio intrapulmonar. A membrana vascularizada do pulmão encontra-se apoiada entre os anéis cartilaginosos semicirculares incompletos da traqueia (Gondim et al., 2016).

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Fig 1. Vista ventral de Bothrops erythromelas após dissecação, evidenciando órgãos internos. A – Esôfago; B – Pulmão traqueal; C – Coração; D – Fígado; E – Estômago; F – Intestino anterior; G – intestino posterior; H – Ovários; I – Oviduto; J – Vesícula biliar; K – Rins; L – Vaso deferente; M – Testículos. Fotografia por Patrícia Gondim (Fonte: Gondim et al., 2016, versão colorida)

 

O fígado está isolado da vesícula biliar em boa parte das serpentes. Essa distância é importante para que não haja interferência nas funções da vesícula quando há o aumento do volume do estômago no período em que a cobra se alimenta (Brasil, 1911; McDowell, 1979). Lembre-se que elas engolem suas presas inteiras! Aproximando-se da parte mais posterior do corpo do animal, temos os rins e gônadas (testículos ou ovários) (Figura 01), que como todos os órgãos pares, se posicionam com o lado direito mais anterior do que o esquerdo. Lá no final também está o hemipênis nos machos (leia também: “Curiosidades: Sobre o hemipênis, o órgão reprodutor dos machos das serpentes“). É um órgão sexual diferente, pois é dividido em dois lobos e ornamentados por espinhos, alojando-se dentro da cauda juntamente com os músculos retratores (Figura 02). Devido a isso, a cauda é mais longa em machos do que em fêmeas (King, 1989; Greene, 2000).

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Fig 2. Vista ventral de Bothrops erythromelas, evidenciando hemipênis. Fotografia por Patrícia Gondim

Quando no final do parágrafo anterior mencionamos a diferença no tamanho da cauda entre machos e fêmeas, estamos falando de dimorfismo sexual, ou seja, características físicas não sexuais marcadamente diferentes. As fêmeas geralmente são maiores do que os machos, provavelmente para garantir espaço e recursos nutricionais para grandes proles. Elas também podem possuir formato e tamanho da cabeça maiores em algumas espécies (Vincent et al., 2004; Matias et al., 2011; Gondim, 2016). Isso pode ser resultado de glândulas grandes de veneno e produção de maiores quantidades de veneno (Faria e Brites, 2003; Mesquita e Brites, 2003) ou diferenças nos tipos de presas que elas consomem (Shine et al., 2002; Krause et al., 2003; Vincent et al., 2004).

Saiba mais sobre o tema acessando a publicação completa de Gondim et al. (2016), membros do NUROF-UFC (Topographic anatomy and sexual dimorphism of Bothrops erythromelas Amaral, 1923 (Squamata: Serpentes: Viperidae).

Por: Patrícia de Menezes Gondim, colaboradora do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAZIL, V. 1911. A defesa contra o ophidismo. São Paulo, Pocai e Weiss.152p.

FARIA, R. G.; BRITES, V. l. C. 2003. Aspectos taxonômicos e ecológicos de Bothrops moojeni Hoge, 1966 (Serpentes: Crotalinae) do Triângulo e Alto Parnaíba, Minas gerais, Brasil. Biologia Geral e Experimental, Manaus; 3 (2): 25-32.

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Aniversário do criador do soro antiofídico

Vital Brazil Mineiro da Campanha (28/04/1865 – 8/05/1950) foi um médico e sanitarista muito importante para o país, pois foi um conhecido pesquisador de toxinologia e trabalhou no combate de várias epidemias no país. Mas nossa homenagem hoje para ele, no dia de seu aniversário, é pela imensa contribuição no estudo das serpentes.

Figura 1. Vital Brazil. Créditos: Instituto Vital Brazil

Figura 1. Vital Brazil. Créditos: Instituto Vital Brazil

Vital Brazil foi o homem que criou os soros antiofídicos, para o tratamento contra o veneno de cobras e outros animais peçonhentos. Mesmo tendo direito à patente, deu ela ao governo brasileiro, sempre preocupado com a saúde pública. Além disso ainda foi responsável pela criação do Instituto Butantan e do Instituto Vital Brazil.

Figura 2. Foto atual do Instituto Vital Brazil.

Figura 2. Foto atual do Instituto Vital Brazil.

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