Notícia: Ovos encontrados em areia de construção podem ser de tartarugas marinhas


Biólogos da UFC vão tentar incubar os ovos que resistiram; amostra de areia também foi enviada para exame

Os ovos de tartaruga encontrados na areia de uma construção no bairro Messejana foram encaminhados, ontem à tarde, pela equipe do Diário do Nordeste, para o Departamento de Biologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). No total, foram encontrados 10 ovos enterrados na areia usada na construção, mas dois deles haviam vazado, tendo a gema exposta.

Numa análise inicial, o biólogo Fabrício Rodrigues, especialista na área de ecologia reprodutiva de quelônios, acredita que estes sejam ovos de uma espécie de tartaruga marinha. Algo raro, se considerarmos que o Ceará não é uma área comum de desova de tartarugas.

Fabrício Rodrigues, biólogo, explica que ovos das espécies marinhas têm casca fina e de consistência mole. Foto: MARÍLIA CAMELO

“Pela textura da casca, que é fina e de consistência mole, é provável que seja uma espécie marinha. Os ovos de cágados e outras tartarugas de água doce têm uma casca calcárea, mais firme. O Ceará se configura mais como uma área de alimentação de tartarugas. Mas mostra que provavelmente esta areia, ou parte dela, tenha sido recolhida numa área onde não deveria haver extração”, explica.

Já a areia, segundo Fabrício, não parece ser de praia. “A areia de praia costuma ser mais fina. Pode ser uma areia de mangue ou mesmo uma mistura de diversos tipos de areia, já que ela estava sendo usada numa construção”, acredita. Uma amostra do material será enviado para pesquisadores da área de Ciências do Solo da instituição.

Os biólogos tentarão incubar os ovos que resistiram, mas é improvável que eles vinguem. “Os ovos de tartaruga são muito sensíveis. O simples gesto de virar o ovo pode matar o embrião. E como eles foram encontrados numa areia muito remexida, talvez não seja possível salvá-los. Mas vamos tentar”, afirma Fabrício.

Se a incubação não for viável, os pesquisadores vão tentar determinar a que espécie de tartaruga pertencem os ovos e qual o local mais provável onde ocorreu a desova. A análise pode demorar cerca de um mês.

Os ovos de tartaruga foram encontrados anteontem por um pedreiro, enquanto peneirava uma carrada de areia. Uma professora que passava pela Rua Barão de Aquiraz, onde ocorre a construção, viu a cena, recolheu os ovos e decidiu encaminhá-los para a UFC. O caso, publicado ontem em matéria exclusiva do Diário do Nordeste, evidencia a fragilidade da fiscalização dos órgãos competentes, já que a areia foi comprada em dois depósitos de construção do bairro.

O biólogo enfatiza que o ciclo reprodutivo das tartarugas é um dos mais frágeis na natureza, e a intervenção humana faz com que muitas espécies estejam ameaçadas de extinção. “De mil ovos que elas põem, apenas um chega à idade adulta. Por isso é tão importante proteger o ciclo reprodutivo das tartarugas”, destaca.

Comercialização legal

Extração de areia de praia ou lagoa sem autorização é crime. Mas vender areia clandestina, não. Pelo menos esta foi a justificativa dada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam) e pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Semace) sobre a venda.

Segundo o pedreiro que trabalha na obra, a areia foi adquirida em dois depósitos da região, o ´Dois Irmãos´ e o ´Maxicasa´. Os próprios donos dos estabelecimentos admitiram não saber a origem da areia, comprada de carroceiros que passam na rua.

Tanto a Semam quanto a Semace informaram que a legislação ambiental só condena a extração mineral de areia, argila ou pedra feita sem autorização ou licença ambiental. Com isso, eles não podem agir no tocante à comercialização.

Flagrante

Além disso, a fiscalização precisa flagrar uma retirada ilegal para punir. E isso só ocorre se houver denúncias. As multas para a infração variam de R$ 1.500 a R$ 3.000 por hectare ou fração, levando-se em consideração as características do local e do dano ambiental. A Semam e a Semace possuem canais para denúncias.

MAIS INFORMAÇÕES:
Denúncias podem ser feitas pelos telefones:(85) 3452-6923 e (0800-275-2233).Há também o site http://www.fortaleza.ce.gov.br/semam

Reportagem: KAROLINE VIANA
REPÓRTER. Diário do Nordeste

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Uma resposta

  1. Parabéns pra equipe do NUROF e ao Fabrício. É muito importante contarmos com um centro de referência em casos como esses.

    E o que aconteceu com os ovos? Deu certo?

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