As lagartixas e suas peculiaridades

As lagartixas congregam um grupo particular de lagartos, bem reconhecido popularmente por apresentar características típicas e pela proximidade que estes animais têm com os seres humanos, uma vez que podem ser encontrados em praticamente qualquer edificação antrópica, seja na zona rural ou urbana. Praticamente no mundo inteiro existem lagartixas e estas são internacionalmente conhecidas como geckos, gekkos ou mesmo gecos, como aqui no Brasil.

Esta convivência íntima entre seres humanos e lagartixas, em especial com Hemidactylus mabouia, espécie amplamente encontrada em construções humanas no Brasil, também tem consequências culturais, em especial, sob a forma de crenças e outros etnoconhecimentos acerca destes animais.

Biologicamente, estes animais pertencem à Infraordem Gekkota e, no Brasil, estão distribuídos em três famílias taxonômicas: Gekkonidae, Sphaerodactylidae e Phyllodactylidae. Em geral, são lagartos de pequeno porte, embora haja representantes que atingem cerca de 25 cm de comprimento total, como Phyllopezus periosus, espécie endêmica da Caatinga.

A pele das lagartixas é em geral constituída de pequenas escamas lisas, entremeadas por escamas modificadas em grânulos e tubérculos, o que lhes confere um aspecto relativamente delicado em comparação com outros lagartos (Figura 01). Devido a esta característica, poderíamos imaginar que estes animais fossem mais bem vistos pela sociedade, entretanto essa visão mais amigável em geral não ocorre e o que se vê, muitas vezes, são sentimentos de evitação, medo ou repulsa das pessoas em relação a estes lagartos.

Phyllopezus_pollicaris_DanielPassos

Figura 01. Detalhe para a textura lisa e aspecto delicado da pele do geco Phyllopezus pollicaris. Fotografia de Daniel Passos.

Uma das mais marcantes características das lagartixas consiste em suas especializações digitais, que pode ser evidenciadas pela diversidade de formas e complexidade estrutural dos seus dedos. Em geral, estas estruturas consistem em adaptações aos hábitos trepadores e incluem diversos tipos de dilatações digitais, além da presença de estruturas adesivas especiais, localizadas na superfície ventral dos dedos, denominadas lamelas (Figura 02). São as lamelas que possibilitam às lagartixas usar tão habilmente as paredes de nossas casas, inclusive subir sobre superfícies extremamente lisas e até ficar de cabeça para baixo.

lamelas

Figura 02. Detalhe das lamelas infra-digitais das lagartixas Hemidactylus agrius (esquerda) e Phyllopezus pollicaris (direita). Fotografias de Daniel Passos.

Outra interessante peculiaridade dos gecos diz respeito à capacidade de vocalização de algumas espécies, característica rara entre os lagartos. Além desta, diversos outros aspectos tornam as lagartixas lagartos particularmente diferenciados, como a ausência de pálpebras, sua extrema facilidade em romper a cauda, fenômeno denominado autotomia, e regenerá-la após a quebra, bem como a típica reprodução ovípara, na qual há oviposição de usualmente 2 ovos, esféricos ou ovalados, de casca dura e branca.

Diante do exposto, espero que a agilidade de andar pelas paredes, capacidade de regeneração caudal, comunicação vocal e as demais curiosidades possam tornar nosso leitor mais um admirador destes belíssimos lagartos.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

 

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Notícia: Receita caseira para se livrar de cobras quase causa um incêndio

Princípio de incêndio assusta moradora de Jaraguá do Sul
Maria Tomio fazia receita para se livrar das cobras e acidentalmente quase pôs fogo na própria casa

Uma receita caseira para afastar cobras causou um princípio de incêndio na última residência da rua 781, no bairro Estrada Nova. O fogo iniciou por volta das 10h desta quinta-feira. Proprietária da casa, a servente Maria Janete Tomio, 49 anos, ouviu de uma conhecida que queimar osso e alho ajudaria a espantar o animal peçonhento do terreno. Maria colocou os ingredientes na churrasqueira e ateou fogo. Em poucos minutos, em função do tempo seco, as chamas se alastraram e queimaram uma pequena parte do telhado. “O susto foi grande”, comenta. Maria mora com a filha, mas estava sozinha no momento do incêndio.
(Notícia Completa: O CORREIO DO POVO)

As chamas queimaram uma parte do telhado da casa Foto: Marcele Gouche, dispoível em: http://www.ocorreiodopovo.com.br

NOTA:

Mas então o que fazer no caso de um encontro com uma serpente no ambiente urbano ou rural?
O recomendado é que você entre em contato com os bombeiros (através do telefone 193) ou a Polícia Florestal (através do telefone 190) de seu estado para que eles possam fazer a devida remoção do animal e encaminha-lo para a autoridade competente. Deste modo não há nenhum risco de ocorrer um acidente ofídico caso a espécie seja venenosa ou da pessoa incorrer em um crime ambiental ao matar o animal.

Aproveitamos aqui para lembrar que segundo artigo 29 da Lei nº 9.605/1998 matar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização é passível de punição com detenção de seis meses a um ano, e multa.

Receitas caseiras não são aconselhadas, muitas delas surgem como relatos, mitos ou lendas. Além de não resolverem o problema com as serpentes da vizinhança, podem acabar causando outros problemas graves como no caso do princípio de incêndio mostrado na reportagem acima.

Em casos de indícios de aparecimento de animais peçonhentos no seu terreno, previna-se evitando o acúmulo de lixo ou entulhos e controlando o número de roedores próximo a residencia. Se precisar andar pelo terreno, é importante usar calçados seguros e que protejam o tornozelo e se possível, perneiras. Nunca colocar as mãos em tocas, buracos na terra ou ocos de árvores sem a proteção de luvas de couro. Prestar MUITA atenção no caminho a ser percorrido é fundamental já que as serpentes se camuflam bem no ambiente onde vivem e não é possível enxerga-las sem muito cuidado e atenção.

Em breve postaremos mais dicas de cuidado e prevenção de acidentes com animais peçonhentos, aguardem!

Philodryas nattereri: a cobra “corre-campo”

A serpente Philodryas nattereri, popularmente conhecida como “corre-campo” ou “tabuleiro”, é uma das mais comuns na Caatinga brasileira e em outras regiões semi-áridas. Se você já andou pelo sertão e viu uma cobra amarronzada ou cinzenta veloz atravessando a estrada durante o dia, é bem provável que tenha sido uma P. nattereri.

Foto: Carlos Cândido, Disponível em: http://ardobrasil.blogspot.com/

As fêmeas de “tabuleiro” são maiores que os machos, entretanto os machos possuem maior comprimento da cauda. Os motivos dessas diferenças estão relacionados principalmente à reprodução. Fêmeas grandes são capazes de gerar um maior número de descendentes e os machos com cauda mais longa são mais eficientes em segurar as fêmeas na hora da cópula, além do que, apenas nos machos existem músculos relacionados ao órgão copulador.

Por muitos anos esta espécie foi considerada como de hábito terrícola, mas evidências recentes mostram que também são capazes de utilizar ambientes arbóreos com muita eficiência. P. nattereri é uma espécie de hábito diurno, caçando variados tipos de presas como pássaros, mamíferos, lagartos, anfíbios, ovos de lagartos e até outras serpentes! Ao anoitecer elas se recolhem para repousar.

Esta espécie pode ser encontrada ao longo de todo o ano e sua temporada reprodutiva é praticamente contínua com as fêmeas depositando de 4 a 21 ovos por ninhada.

Seus principais predadores naturais são aves de rapina e mamíferos marsupiais. A invasão humana em áreas de ocorrência de P. nattereri tem acarretado um grande aumento no número de mortes de indivíduos da espécie, seja pela morte arbitrária provocada pelo homem, pela introdução de animais domésticos como galinhas e gatos e principalmente pela construção de rodovias. Para as serpentes, as rodovias são ótimos sítios de termorregulação, o que as deixam expostas e susceptíveis à atropelamentos acidentais ou mesmo propositais.

Como vemos, a “tabuleiro” é abundante, tem uma grande capacidade reprodutiva e é um predador importante, sendo assim uma espécie chave na maioria dos ecossistemas em que habita e por isso precisa ser preservada.

Por : Paulo Mesquita, colaborador NUROF UFC

Leitura recomendada:
Vitt, L.J. (1980). Ecological observations on sympatric Philodryas (Colubridae) in northeast Brazil. Papéis Avulsos de Zoologia 34, 87–98.
Mesquita, P. C. M. D. ; Borges-Nojosa, D. M. ; Passos, D. C. ; Bezerra, C. H. 2011. Ecology of Philodryas nattereri in the brazilian semi-arid region. Herpetological Journal 21, 193-198.

As lagartixas mudam de cor? Tem dias que estão mais claras e dias que estão mais escuras, por que isso acontece?

Diferentes colorações de um mesmo indivíduo. Fotos: Gabriela Melo

As lagartixas e outras espécies de lagartos como os anoles e os camaleões são sim capazes de alterar a coloração da pele.
Este é um processo mediado pela ação de hormônios (os chamados hormônios de estimulação dos melanóforos) que por sua vez é dependente da informação das condições de luminosidade captada pelos olhos (ou de fotorreceptores espalhados pela derme). Em répteis ocorre o processo chamado de “mudança de cor fisiológica.

Continue a leitura no formspring.me do NUROF-UFC

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