Mimetismo de escorpiões por lagartos?

Lagartos podem ser presas de diversos predadores, incluindo invertebrados, serpentes, aves e mamíferos (Pianka and Vitt, 2003), bem como outros lagartos (Zanchi et al, 2012). Deste modo, é esperado que eles apresentem estratégias defensivas que intensifiquem sua sobrevivência durante o encontro com predadores (Rand, 1967).

Figura 1. Indivíduo adulto de Gymnodactylus geckoides. Fotografia de Daniel Passos.

O comportamento de curvar a cauda sobre o dorso é uma estratégia utilizada por alguns lagartos para reduzir as pressões da predação. Há duas hipóteses para a ocorrência deste comportamento: 1. A postura adotada pelo lagarto permitiria maior exposição da cauda para potenciais predadores, distraindo sua atenção de regiões mais vitais do corpo e favorecendo a ocorrência de autotomia caudal; e 2. A postura se configuraria como mimética a modelos de escorpiões (o mimetismo ocorre quando uma espécie possui características que evoluíram especificamente para se assemelhar com as de outra espécie), aos moldes do mimetismo batesiano, no qual indivíduos palatáveis (aceitáveis, agradáveis ao paladar) e/ou inofensivos se assemelham a modelos impalatáveis e/ou nocivos (Pianka and Vitt, 2003).

Evidências de estratégias defensivas em que lagartos possivelmente mimetizam escorpiões são sugeridas por alguns estudos. Há registros entre os gecos Coleonyx variegatus (Parker and Pianka, 1974), Teratoscincus roborowskii (Autumn and Han, 1989) e, no Brasil, há evidências deste comportamento para Gymnodactylus carvalhoi (Colli et all, 2003), Coleodactylus brachystoma (Brandão e Motta, 2005) e Gonatodes humeralis (Costa et all, 2009).

Figura 2. Detalhe da coloração ventral da cauda de Gymnodactylus geckoides, com padrão de listras transversais brancas e pretas. Fotografia de Daniel Passos.

Recentemente, a equipe do NUROF-UFC registrou a ocorrência deste comportamento para outra espécie de lagarto brasileiro, Gymnodactylus geckoides, uma lagartixa da Caatinga (Passos et al, 2012). Durante a exibição do comportamento, o lagarto curva sua cauda sobre o dorso do corpo, expondo o padrão de coloração ventral que consiste em listras transversais brancas e pretas intercaladas.

Alguns fatores observados no estudo reforçaram a hipótese de que este comportamento representa um mimetismo de escorpiões por G. geckoides: 1. A postura adotada pelo lagarto se assemelha à posição defensiva de escorpiões; 2. Lagarto e escorpiões simpátricos apresentam tamanhos corpóreos similares; 3. A coloração ventral da cauda do lagarto lembra o padrão de coloração intercalado do metassoma (pós-abdômen) de alguns escorpiões; 4. Existe uma elevada abundância de escorpiões vivendo sintopicamente (nos mesmos micro-habitats) com o lagarto; e 5. O lagarto compartilha o mesmo período de atividade diária dos escorpiões.

Figura 3. Indivíduo adulto de Gymnodactylus geckoides exibindo o comportamento defensivo.

Embora a hipótese da exposição da cauda para predadores não possa ser desconsiderada, os resultados encontrados no estudo corroboram com os registros deste comportamento para outras espécies, fortalecendo a possibilidade de ocorrência de mimetismo de escorpiões entre lagartos e reforçando a ocorrência deste comportamento na linhagem Gekkota, uma vez que este comportamento já foi descrito para pelo menos três famílias de lagartos (Gekkonidae, Sphaerodactylidae e Phyllodactylidae).

Esta foi mais uma contribuição à herpetologia brasileira realizada pela equipe de biólogos do Núcleo Regional de Ofiologia da Universidade Federal do Ceará. O trabalho original pode ser adquirido na íntegra através do site http://www.ssarherps.org/pages/HRinfo.php.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUTUMN, K., HAN, B. 1989. Mimicry of scorpions byjuvenile lizards, Teratoscincus roborowskii(Gekkonidae). Chinese Herpetological Research, 2: 60-64.

BRANDÃO, R., MOTTA, P.C. 2005. Circumstancial evidences for mimicry of scorpions by the neotropical gecko  Coleodactylus brachistoma(Squamata, Gekkonidae) in the Cerrados of central Brazil. Phyllomedusa, 4: 139-145.

COLLI, G. R.; MESQUITA, D. O.; RODRIGUES, P. V. V.,KITAYAMA K. 2003. Ecology of the Gecko  Gymnodactylus geckoides amaraliin a Neotropical Savana. Journal of Herpetology, 4: 694-706.

COSTA H. C.; SÃO PEDRO, V.A., SANTANA, D.J., FEIO, R.N. 2009. Gonatodes humeralis (NCN) Defensive behavior. Herpetological Review, 40: 221.

PARKER, W. S., PIANKA, E.R. 1974. Further ecological observations on the western banded gecko, Coleonyx variegatus. Copeia, 1974: 528-531.

PASSOS, D.C.; MESQUITA, P.C.M. de; BORGES-NOJOSA, D.M. 2012. Gymnodactylus geckoides. Defensive behavior. Herpetological Review, 43:486-487.

PIANKA, E. R., VITT, L.J. 2003. Lizards. Windows  to the Evolution of Diversity. Berkeley, University of California Press.

RAND, A. S. 1967. Predator-prey interactions and  the evolution of aspect diversity. Atlas do Simpósio sobre a Biota Amazônica.Zoologia, 5: 73-83.

ZANCHI, D.; PASSOS, D.C.; BORGES-NOJOSA, D.M. 2012. Tropidurus hispidus (calango). Saurophagy. Herpetological Review, 43: 141-142.

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Sobre a biologia da cobra verde: Philodryas olfersii

O gênero Philodryas compreende 18 espécies distribuídas ao longo dos ambientes da América do Sul. Nesta postagem tratarei da espécie Philodryas olfersii (Lichtenstein, 1823) (Figura 01), chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Possui ampla distribuição, ocorrendo em várias regiões do Brasil, além de países vizinhos, como Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Esta serpente é considerada uma serpente de porte médio, chegando a alcançar 1,5 m de comprimento total (Vitt, 1980; Marques et al 2001; Giraudo, 2001) e pertence à família dos colubrídeos possuindo coloração verde-escuro no dorso e claro no ventre, por isso estes animais  confundem-se facilmente com o verde da vegetação.

Figura 01: Philodryas olfersii,chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada . Foto: Luan Pinheiro

A cobra verde é ovípara (o embrião se desenvolve dentro de um ovo), pondo de 8 a 10 ovos por ninhada (Vanzolini, 1980). Seu olho é relativamente grande e sua pupila do tipo arredondada (típico de serpentes que são ativas durante o dia). Entretanto um recente trabalho, publicado por integrantes do NUROF-UFC, registra uma cópula de Philodryas olfersii realizada durante o período noturno no município de Pentecoste, Ceará. É o primeiro registro do comportamento de acasalamento dessa espécie na natureza (Mesquita et al, 2012) (Figura 02).

Figura 02: Philodryas olfersii no memento da cópula. Foto: Paulo Mesquita

Quanto a sua dentição, é do tipo opistóglifa (Veja: Sobre o tipo de dentição das serpentes). Machos e fêmeas dessa espécie diferem quanto ao tamanho do corpo, sendo as fêmeas maiores que os machos.  (Vitt, 1980). Alimentam-se de anfíbios, répteis, aves e pequenos mamíferos (Vanzolini, 1980).  O corpo esguio e a presença de cauda longa lhe conferem grande vantagem para a locomoção entre os galhos de árvores, pois isso facilita a distribuição do peso corporal, dando equilíbrio durante o deslocamento por entre a vegetação. Entretanto, P. olfersi é considerada uma serpente semi-arborícola, visto que também faz uso do solo para locomover-se (Lillywhite & Henderson, 1993; Martins et al., 2001 apud Hauzman 2009) (Figura 01) .

A íntima relação dessa serpente com a vegetação nos força lembrar a importância da preservação de nossas matas nativas, refúgio de tantas espécies interessantes como essa. Quem conhece… preserva.

Venha conhecer a cobra verde pessoalmente, agende uma visita ao NUROF-UFC (Link agendamento de visitas) e traga sua turma. Até mais!

Por: Luan Pinheiro, membro do NUROF-UFC.

Bibliografia consultada:

GIRAUDO, A. 2001. Serpientes de la Selva Paranaense y del Chaco Húmedo. Buenos Aires, L. O. L. A. 328 p.

HAUZMAN, EINAT. 2009. Estudo comparativo da densidade e topografia de neurônios de retinas de Philodryas olfersii e Philodryas patagoniensis (Serpentes, Colubridae).. 108. Dissertação (Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Área de concentração: Neurociências e Comportamento). Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

MARQUES, O.A.V., A. ETEROVIC AND I. SAZIMA. 2001. Serpentes da Mata

Atlântica: Guia Ilustrado para Serra do Mar. Holos, Ribeirão Preto.

MESQUITA, P. C. M. D. ; PASSOS, D. C. ; RODRIGUES, J. F. M. 2012. Philodryas olfersii (Serpentes, Dipsadidae, Squamata) Nocturnal Mating Behavior. Herpetologia Brasileira, Brasil, p. 41 – 42, 15.

VANZOLINI, P. E., A. M. M. RAMOS-COSTA & VITT, L.J.. 1980. Répteis da Caatinga. Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro.

VITT, L.J. 1980. Ecological observations on sympatric Philodryas (Colubridae) in northeastern Brazil. Papéis Avulsos de Zoologia, 34:87-98.

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