O “terceiro olho” dos lagartos

Os leitores fascinados por lagartos, assim como eu, já devem ter observado, pelo menos uma vez, a presença de uma pequena abertura localizada no topo da cabeça dos lagartos, na região atrás dos olhos (Figura 1). Desde minha infância, esta característica tem me incitado a saber mais sobre seu nome, estrutura e função.

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Figura 1. “Terceiro olho” (ponto cinza no centro do círculo azul) de um indivíduo adulto de Tropidurus hispidus. Fotografia de Daniel Passos.

Em busca de sanar minha curiosidade, descobri, através da bibliografia específica, que o órgão em questão é chamado de “olho parietal”, “olho pineal” ou “terceiro olho” (Stebbins & Wilhoft, 1966). Este órgão não é exclusivo dos lagartos, estando também presente em organismos como lampreias (Petromyzontoidea), salamandras (Caudata) e outros répteis como as tuataras (Sphenodontia). Mesmo entre os lagartos, nem todas as espécies possuem este “terceiro olho”, apesar de ele estar presente em várias, senão na maioria das espécies.

Este órgão foi descrito pela primeira vez em 1872 por Leydig. Entretanto, a primeira evidência de sua sensibilidade à luz só foi reportada por Nowikoff em 1907. Devido a sua estrutura aparentemente simples, em comparação com olhos “verdadeiros”, por muito tempo o “terceiro olho” dos lagartos foi tido como um órgão vestigial. No entanto, hoje sabe-se que este órgão é funcional, desempenhando importante papel na sobrevivência dos lagartos que o possuem.

Quanto à estrutura deste órgão, embora mais simples, sua forma geral é similar a dos olhos laterais (córnea, lente e retina), com exceção de não apresentar pálpebras e musculatura associada (Figura 2). Além disso, estudos demonstraram a existência de células fotoreceptoras em sua retina, à semelhança dos cones encontrados nas retinas dos olhos laterais (Eakin & Westfall 1959). Posteriormente, também foi evidenciada a presença de fibras neuronais formando um nervo que interliga a retina do “terceiro olho” ao cérebro (Stebbins & Eakin, 1958, Eakin & Westfall, 1960), comprovando que este órgão é neurologicamente funcional nos lagartos (Miller & Wolbarsht, 1962).

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Figura 2. “Terceiro olho” (ponto cinza no centro do círculo azul) de um indivíduo adulto de Copeoglossum nigropunctatum. Fotografia de Daniel Passos.

O “terceiro olho” dos lagartos desempenha uma função fundamentalmente reguladora na atividade dos lagartos, atuando sobre os ciclos de atividade diária e sazonal (Stebbins & Wilhoft, 1966). Especificamente, o “terceiro olho” influencia o tempo de exposição à luz do sol, a taxa de deslocamento e a seleção de ambientes para termorregulação nos lagartos (Stebbins & Eakin, 1958). Assim, este órgão age indiretamente como um medidor de luz e temperatura, indicando se as condições ambientais estão ou não adequadas à atividade dos lagartos.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

EAKIN, R. M & WESTFALL, J. A. 1959. Fine structure of the retina in the reptilian third eye. Journal of Biophysical and Biochemical Cytology, 6: 133-134.

EAKIN, R. M & WESTFALL, J. A. 1960. Further observations on the fine structure of the parietal eye of lizards. Journal of Biophysical and Biochemical Cytology, 8: 483-499.

LEYDIG, F. 1872. Die in Deutschland lebenden Arten der Saurier. Tünbingen, H. Laupp’sche Buchhandlung.

MILLER, W. H. & WOLBARSHT, M. L. 1962. Neural activity in parietal eye of a lizard. Science, 135: 316.

NOWIKOFF, M. 1907. Uber das parietalauge von Lacerta agilis und Anguis fragilis. Biologisches Centralblatt Erlangen, 27: 405-414.

STEBBINS, R. C. & EAKIN, R. M. 1958. The role of the “third eye” in reptilian behavior. American Museum novitates, 1870: 1-40

STEBBINS, R. C. & WILHOFT, D. C. 1966. The Galápagos: Proceedings of the Symposia of the Galápagos International Scientific Project. Berkeley, University of California Press.

Notícia: Conheça o encantador de serpentes da USP

José Manuel Lourenço

A fala mansa com um falso sotaque mineiro e o jeito tranquilo do biólogo Luiz Henrique Pedrosa, natural de Mococa, nem de longe antecipam o que faz para ganhar a vida. Há 27 anos na Faculdade de Medicina de Ribeirão da Universidade de São Paulo, ele é o responsável pelo serpentário da USP.

Biólogo Luiz Henrique cuida do serpentário da USP à 27 anos Foto: Matheus Urenha- A Cidade

Trabalha diariamente com cerca de 250 cobras, sobretudo cascavéis e jararacas, répteis cujas picadas podem causar a morte de forma extremamente dolorosa. Tem com elas uma relação de carinho e respeito que a maioria das pessoas nem de longe deseja ou sonha ter. É um encantador de serpentes dos tempos modernos, mas também o provedor de uma matéria-prima vital para pesquisas na área da Toxicologia.

Nas três décadas dessa estranha e perigosa convivência, ele garante ter sido picado somente uma vez. Mesmo assim, fora do serviço. “Estava em casa quando apareceu uma pessoa com um saco e uma jararaca dentro. Quando fui pegá-la, a boca do saco estava meio solta e ela me picou”, conta. Sobreviveu, mas ficou quatro dias no hospital.

Apesar do susto, não ficaram maiores sequelas do ocorrido. Pelo contrário. “Não trocaria este emprego por nada. Sou completamente apaixonado por cobras”, revela.

A paixão por um dos animais mais temidos e odiados pelos seres humanos começou cedo, aos oito anos, quando já levava para casa cobras para exames mais detalhados. Quase sempre levava os pais à loucura e entre um e outro puxão de orelhas, a ligação com os répteis permaneceu. “Acho que esse foi o principal motivo que me fez ir para a Biologia”, conta.

Pesquisa
O outro é menos pessoal, mas igualmente importante. A principal atividade do serpentário da USP é coletar o veneno das quase três centenas de exemplares, que depois será utilizado nas várias áreas de pesquisa da universidade.

O local de trabalho de Luiz Henrique é uma casa localizada no Biotério. O serpentário fica numa sala com quinze metros de comprimento por dois de largura, com telas em todas as janelas e somente uma saída. A temperatura interna fica entre 27 e 28º C.

Caixas numeradas abrigam as serpentes. Uma das ocupantes da caixa 131 foi a que picou Luiz Henrique. As moradoras do serpentário são alimentadas a cada 15 dias, geralmente com pequenos ratos. As coletas são feitas a cada cinco semanas e a quantidade de veneno obtida depende do tamanho do animal e da espécie. Em média, as cascavéis produzem cerca de 20 miligramas por extração e as jararacas em torno de 50 miligramas. Os venenos são coletados em placas de Petri e depois secos sob vácuo, podendo assim ser estocados em geladeira por vários anos sem perder suas propriedades.

Longevidade
As cobras têm longevidade de cerca de 30 anos, o que significa que muitas delas passaram a vida ao lado de Luiz Henrique. Será que elas já o reconhecem? “Não posso dizer que sabem que eu sou, mas pode ser que elas já reconheçam o cheiro, o timbre da voz. O que eu sei é que elas ficam mais dóceis quando chego”, conta.
Dóceis, com certeza, é um adjetivo que pouca gente poderia associar a uma cobra. “É verdade, são animais dóceis, mas com os quais devemos ter muita atenção. Afinal, um acidente com elas pode ser o último das nossas vidas”, complementa.

Nesses 30 anos de convivência diária com as cobras, uma foi especial. “Havia uma jararacuçu da qual gostava muito. Ela acabou morrendo de velhice. Foi muito triste”, revela. Definitivamente, Luiz Henrique Pedrosa não é uma pessoa normal. Ou é? “Pensando bem, acho que não. Mas gosto muito do que faço, sobretudo por ver que o meu trabalho aqui pode ajudar a salvar muitas vidas”, completa.

Veneno da jararaca salva hipertensos
Uma das pesquisas brasileiras mais conhecidas envolvendo o uso de veneno de cobra foi feita na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e culminou com a criação de um remédio que fatura cerca de US$ 5 bilhões/ano e atende a milhões de hipertensos.

O remédio chama-se Captropil e foi desenvolvido entre o final da década de 1960 e a de 1970 pelo pesquisador Sérgio Henrique Ferreira, hoje aposentado da USP.  As pesquisas lideradas por ele envolveram o veneno de jararaca.

O pesquisador descobriu e isolou toxinas encontradas no veneno – chamadas peptídeos potenciadores de bradicina (BPP) -, que causavam hipotensão. Posteriormente, Ferreira e o pesquisador inglês John Vane (vencedor do Prêmio Nobel de Medicina) conseguiram criar um protótipo molecular das BPPs, que foi cedido a um laboratório norte-americano em troca do financiamento de novas pesquisas.

As cobras do serpentário da USP são usadas exatamente no desenvolvimento de estudos sobre os tipos de veneno que produzem e suas possíveis aplicações em novos fármacos.

Fonte: Jornal A Cidade

Notícia: Instituto Butantan dá mais um passo no combate ao câncer de pele

Eles comemoram os resultados dos testes com uma toxina que mata células cancerígenas. A substância controlou a doença em ratos de laboratório.

Pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, deram mais um passo nas pesquisas para combater o câncer de pele.

Eles estão comemorando os resultados dos testes feitos com uma toxina mata células cancerígenas. A substância encontrada no veneno da cascavel ajudou a controlar a doença em ratos de laboratório.

Cascavel – Crotalus durissus. Foto: Luan Pinheiro

A cascavel é famosa por ter um veneno poderoso, que pode até matar. Mas os pesquisadores do Instituto Butantan, em São Paulo, descobriram que um dos componentes do veneno pode também ajudar a curar o câncer de pele.

A substância é uma toxina, chamada crotamina. É ela que faz o animal picado pela cobra ficar paralisado.

A toxina entra rápido nas células. E, em testes de laboratório com camondongos, os pesquisadores perceberam que a crotamina prefere as células que se dividem rápido, como as do melanoma – conhecido como câncer de pele.

” A melanoma é porque é um câncer que cresce muito rápido, um câncer muito agressivo e um câncer que produz bastante metástase”, diz Irina Kerkis, diretora do Laboratório de Genética do Instituto Butantan.

Através das imagens feitas com microscópio (vide video), as manchas de cor mais forte são as células onde a crotamina entrou. Todas elas são cancerígenas.

A toxina do veneno da cascavel também mata as células cancerígenas. Por enquanto, a pesquisa está na fase de testes. Os camondongos que tem câncer de pele e receberam o tratamento com a toxina durante 21 dias sobreviveram. Os outros, sem tratamento, morreram. depois de mais 40 dias de observação, os camundongos tratados ou tiveram uma redução drástica do tumor ou ficaram curados.

“A crotamina, ela praticamente contorna todos os problemas que surjam quando se trata do desenvolvimento de uma droga anti-cancerígena”, afirma a diretora.

Veja a notícia completa acessando: g1.globo.com

Notícia: Pesquisadores identificam nova espécie de minissapo no ES

Animal de 15 milímetros habita restinga no litoral capixaba.
Melanophryniscus setiba tem coloração marrom e vive no chão da floresta.

Um grupo de pesquisadores liderado pelo brasileiro Pedro Peloso, do Museu Americano de História Natural, em Nova York, descobriu uma nova espécie de minissapo em uma restinga no Parque Estadual Paulo César Vinha, na região litorânea de Guarapari (ES).

Os adultos medem cerca de 15 milímetros de comprimento e são da mesma família dos populares sapos-cururu, apesar de não terem as glândulas de veneno que caracterizam esse grupo.

Nova espécie de sapo: Melanophryniscus setiba. Foto: Pedro Peloso.

O animal ganhou o nome de Melanophryniscus setiba, já que a região onde o bicho vive também é conhecido como “Restinga de Setiba”.

Peloso, que atualmente faz doutorado em biologia, explica que a descrição da espécie foi um processo demorado, que começou em 2005, quando ainda era estudante de graduação. “Por se tratar de um bicho bem distinto, foi difícil de alocar ele num gênero. Por isso foi necessário fazer uma análise de DNA”, conta. Também foi feita uma série de análises da anatomia interna do anfíbio.

O sapinho possui coloração amarronzada que dificulta sua observação no ambiente natural. Ele vive no chão da floresta, entre as folhas. Para poder estudá-lo, a saída foi instalar baldes no chão para que exemplares caíssem dentro, técnica comum para esse tipo de pesquisa.

Leia a notícia completa acessando: g1.globo.com

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