Marcas de guerra: o que nos contam as cicatrizes dos lagartos?


Relações ecológicas envolvendo encontros agressivos podem desempenhar um papel importante na evolução da forma do corpo e do comportamento dos organismos (Vervust et al. 2009). Entretanto, uma vez que a intensidade de interações agonísticas é difícil de quantificar na natureza, injúrias corpóreas não letais (por exemplo, cicatrizes) têm sido utilizadas para fornecer informações sobre vários processos, tais como predação (Schoener & Schoener, 1980) e agressão intraespecífica (Langkilde et al. 2005). Em lagartos, a perda da cauda, as amputações de dedos e as cicatrizes tegumentares podem constituir boas evidências para mensurar estes tipos de interações ecológicas (Figura 1).

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Figura 1. Tupinambis merianae com cicatrizes tegumentares, falanges amputadas e evidência de autotomia caudal. Fotografia de Daniel Passos.

A análise da frequência de injúrias no corpo entre os sexos pode revelar indícios das causas destas lesões corpóreas e, consequentemente, fornecer pistas sobre o grau de influência de alguns processos ecológicos sobre a população estudada. Neste sentido, quando machos e fêmeas apresentam quantidades similares de injúrias no corpo, isto pode refletir que a predação seja o principal fator responsável pelas lesões. Por outro lado, quando um dos sexos apresenta mais injúrias corpóreas, isto pode ser um sinal de que a agressão entre co-específicos seja a causa principal das lesões.

Uma recente pesquisa investigou a frequência de autotomia caudal, amputações digitais e cicatrizes corpóreas em três espécies simpátricas de lagartos da Caatinga, especificamente avaliando se as taxas dessas lesões corpóreas diferiam entre os sexos (Passos et al. 2013; Indirect evidence of predation and intraspecific agression in three sympatric lizard species). As espécies estudadas foram Tropidurus hispidus (Calango), Tropidurus semitaeniatus (Calango-de-Lageiro) e Ameivula ocellifera (Tijubina), algumas das espécies mais abundantes na área de estudo (Passos, 2011; Figura 2).

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Figura 2. Tropidurus hispidus, Ameivula ocelliferaTropidurus semitaeniatus respectivamente. Fotografia de Daniel Passos.

Em todas as espécies, as frequências de amputações digitais e cicatrizes corpóreas foram maiores nas fêmeas do que nos machos, embora somente em A. ocellifera a diferença tenha sido confirmada estatisticamente. Esta alta frequência de injúrias em fêmeas de A. ocellifera pode ser atribuída ao comportamento de corte dos teiídeos, no qual os machos geralmente mordem e arranham suas parceiras (Anderson & Vitt, 1990). Adicionalmente, os autores reportam que embates físicos devem ocorrer em baixa frequência no ambiente social dos Tropidurus estudados, conforme esperado para lagartos que apresentam um complexo sistema de comunicação visual (Carpenter, 1977).

Quanto à autotomia, não existiram diferenças intersexuais em nenhuma das espécies estudadas, de forma semelhante ao encontrado para outros lagartos neotropicais (Vitt, 1983; Van Sluys et al., 2002). Como conclusão, os autores sugerem que machos e fêmeas das populações estudadas estejam expostos a pressões predatórias similares, similarmente ao reportado para outras espécies de lagartos (Whiting, 2002).

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDERSON R.W. & VITT, L.J. 1990. Sexual selection versus alternative causes of sexual dimorphism in teiid lizards. Oecologia, 84:145-157.

CARPENTER, C.C. 1977. The aggressive displays of three species of South American iguanid lizards of the genus Tropidurus. Herpetologica, 33:285-289.

LANGKILDE, T.; LANCE, V.A. & SHINE, R. 2005. Ecological consequences of agonistic interactions in lizards. Ecology, 86: 1650-1659.

PASSOS, D.C. 2011. Diversidade e dinâmica sazonal de uma assembleia de lagartos em área semi-árida, nordeste do Brasil. Monografia (Bacharelado), Curso de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Ceará. 55 pp.

PASSOS, D.C.; GALDINO, C.A.B.; BEZERRA, C.H. & ZANCHI, D. 2013. Indirect evidence of predation and intraspecific agression in three sympatric lizard species from a semi-arid area in northeastern Brazil. Zoologia, 30:467-469.

SCHOENER, T.W. & SCHOENER, A. 1980. Ecological and demo-graphic correlates of injury rates in some Bahamian Anolis lizards. Copeia, 1980:839-850.

VERVUST, B.; DONGEN, S.G.; GRBAC, I. & DAMME, R.V. 2009. The mystery of the missing toes: extreme levels of natural mutilation in island lizard populations. Functional Ecology, 2009: 1-8.

WHITING, M. J., 2002. Field experiments on intersexual differences in predation risk and escape behaviour in the lizard Platysaurus broadleyi. Amphibia-Reptilia, 23:119-124.

2 Respostas

  1. Boa Daniel Sam!!

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