Herpetofauna da Caatinga: novo lagarto “Teiú” é descoberto na Caatinga

Uma pesquisa recém-publicada na revista Check List revelou a ocorrência inédita de uma nova espécie de lagarto “Teiú” para a Caatinga. Até então, se conhecia apenas uma única espécie de “Teiú” para o bioma (Salvator merianae). Entretanto, neste novo estudo, a ocorrência de Tupinambis teguixin (Figura 1) também foi confirmada (Passos et al. 2013).

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Figura 1. Indivíduo adulto de Tupinambis teguixin. Fotografia de Daniel Passos.

A pesquisa foi fruto da parceria entre pesquisadores de três universidades brasileiras (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA e Universidade Federal do Ceará – UFC) e conta com a participação de dois membros do NUROF-UFC.

A descoberta ocorreu no início de 2013 quando Frede Lima-Araujo e Ana Carolina Brasileiro Melo, graduandos em Biologia pela UVA, faziam registros fotográficos da fauna do município de Groaíras-Ceará. À primeira vista, os indivíduos fotografados pareciam com o “Tejo” comum. No entanto, ao analisar as fotos cuidadosamente, o pesquisador-colaborador do NUROF-UFC, Daniel Passos, percebeu que se tratava de outra espécie de “Teiú”. Mas qual seria, se na Caatinga só existia uma? Seria uma nova espécie ainda não registrada para o bioma? Poderia ser uma nova espécie ainda não descrita?

Para responder a essa charada, era necessário mais do que apenas fotografias. A resposta definitiva só veio em Abril, quando os autores do trabalho foram a campo e coletaram espécimes para determinar precisamente sua identificação taxonômica. Após medições do corpo, contagem de escamas e análise da coloração, os pesquisadores concluíram que se tratava de uma espécie ainda sem registro para a Caatinga, Tupinambis teguixin ou “Tejo d’água” (Figura 2), como é popularmente conhecido no sertão do Ceará.

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Figura 2. Tupinambis teguixin às margens do Rio Acaraú, no município de Groaíras, CearáFotografia de Daniel Passos.

O lagarto Tupinambis teguixin é a maior espécie do gênero, podendo alcançar mais de um metro de comprimento total (Harvey et al., 2012). Esta espécie, de hábitos terrícolas e diurnos, habita paisagens abertas e florestais de vários países da América do Sul (Ávila-Pires, 1995). Porém, no Brasil, sua ocorrência só era registrada para a Floresta Amazônica e para o Cerrado.

O trabalho recém-publicado ampliou a compreensão sobre a distribuição geográfica de Tupinambis teguixin, apresentando o primeiro registro de ocorrência da espécie na Caatinga. Este achado constitui mais uma importante contribuição do NUROF-UFC para o conhecimento da herpetofauna da Caatinga, reforçando a escassez de informações sobre a biodiversidade de diversas áreas do bioma e a necessidade de pesquisas adicionais em regiões ainda inexploradas.

O artigo na íntegra pode ser acessado gratuitamente clicando aqui.

Leia também: A importância da descoberta de uma nova espécie de lagarto para Caaatinga.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ÁVILA-PIRES, T.C.S. 1995. Lizards of Brazilian Amazonia (Reptilia: Squamata). Zoologische Verhandelingen Leiden 299: 1-706.

HARVEY, M.B.; G.N. UGUETO & R.L. GUTBERLET JR. 2012. Review of Teiid Morphology with a Revised Taxonomy and Phylogeny of the Teiidae (Lepidosauria: Squamata). Zootaxa 3459: 1-156.

PASSOS, D.C.; LIMA-ARAUJO, F.; MELO, A.C.B. & BORGES-NOJOSA, D.M. 2013 New state record and distribution extension of the golden tegu Tupinambis teguixin (Linnaeus 1758) (Squamata: Teiidae) to the Caatinga biome, northeastern Brazil. Check List 9:1524-1526.

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Notícia: Lagartos são “adotados” e viram atração dentro de distrito policial

Par de répteis apareceu misteriosamente em uma delegacia de Santos.
Visitantes e policiais adotaram os animais como grande atração.

Uma delegacia no litoral de São Paulo se tornou atração pelos seus mascotes, nada comuns, dois lagartos tejo ou teiú (Figura 01). Os animais vivem há mais de dois anos no pátio do distrito policial e recebem cuidados dos policiais.

Figura 01 - Indivíduo de Tupinambis merianae. Fotografia de Daniel Passos.

Figura 01 – Indivíduo de Tupinambis merianae. Fotografia de Daniel Passos.

Os policias do 5º Distrito Policial da Zona Noroeste da cidade não sabem como os lagartos foram parar no pátio da delegacia, segundo José Romero, investigador, “Quando a atual administração chegou aqui no DP os dois lagartos já estavam vivendo no quintal pessoal deles”.

Por serem animais ectotérmicos, eles preferem o tempo mais quente e ficam mais expostos durante os dias de calor intenso. Quando mais frio, os lagartos ficam escondidos em um buraco cavado na área reservada.

“Às vezes, as visitas de alguns presos ou até mesmo pessoas que aguardam param serem atendidas ficam admiradas com os répteis, passam o tempo observando os animais e tirando fotos” afirma José Romero. Desta forma os lagartos se tornaram uma grande atração para quem é atendido no distrito.

Sem perigo: os vizinhos da delegacia não precisam se preocupar, pois os lagartos ficam o tempo todo dentro no quintal não tendo como fugir. Os animais são alimentados diariamente pelos policiais com ovos e pão além de comerem insetos.

Confira também: Lagartos brasileiros: peçonhentos não, mas nem tão inofensivos!

Confira a notícia original em globo.com.

Clipagem: Tropidurus, os calangos mais populares do Brasil

Nesta postagem, apresento-lhes os lagartos mais popularmente conhecidos no Brasil, os famosos Tropidurus (Figura 1). De fato, há uma grande probabilidade de que o caro leitor tenha visto, pelo menos uma vez na vida, algum membro deste grupo de lagartos, que são comumente chamados no Brasil de “calangos”.

 Figura 1. Aspecto geral de um calango da fauna brasileira (Tropidurus montanus).

Figura 1. Aspecto geral de um calango da fauna brasileira (Tropidurus montanus).

A família Tropiduridae constitui um dos taxa de lagartos neotropicais com o maior número de espécies descritas (Torres-Carvajal, 2004). No Brasil, ocorrem 39 espécies de tropidurídeos, 18 das quais pertencem ao gênero Tropidurus. O gênero compreende espécies amplamente distribuídas na América do Sul, ocorrendo abundantemente tanto em paisagens naturais como em ambientes antrópicos (Carvalho, 2013). Atualmente, o gênero é subdividido em quatro grupos de espécies: T. bogertiT. semitaeniatus, T. spinulosus e T. torquatus (Frost et al., 2001). Destes, o grupo T. bogerti não ocorre no Brasil e o grupo T. spinulosus é representado no país por apenas uma espécie (T. guarani). Por isso, focaremos aqui nos demais grupos, que apresentam espécies de maior representatividade no Brasil.

Para ler o texto completo e conhecer mais sobres os Tropidurus acesse: herpeto.org!

Os venenos das serpentes e seus efeitos

Existem muitos tipos diferentes de venenos, no entanto, eles podem ser dispostos em três categorias, a dos que afetam o sangue, a dos que afetam os tecidos e a dos que afetam o sistema nervoso.

Coral verdadeira, possui veneno de ação neurotóxica.

Coral verdadeira, possui veneno de ação neurotóxica.

Uma mesma serpente pode produzir mais de um tipo de veneno. Comparando indivíduos de uma mesma espécie pode haver variações entre quantidades totais de veneno e de cada tipo de veneno, pois fatores como área de vida, dieta e idade do indivíduo interferem nessa produção.

Abaixo estão listados os venenos das serpentes e seus respectivos efeitos no corpo humano.

  • Neurotóxicos: Afetam o sistema nervoso causando inicialmente paralisia dos músculos faciais. Em alguns casos nos músculos responsáveis pela deglutição e respiração, podendo assim, causar asfixia e consequente morte.
  • Coagulantes: Aglutinando o sangue podem causar obstrução de veias e artérias. Casos mais sérios, como os de coágulos cerebrais ou pulmonares, levam à morte.
  • Anticoagulantes: Impedem o sangue de coagular, fazendo o ferimento causado pela serpente sangrar continuamente.
  • Hemorrágicos: Torna os vasos sanguíneos permeáveis ao sangue, causando hemorragias internas e externas, levando ao sangramento das gengivas e narinas. Em quadros mais agravados, as vítimas podem apresentar hemorragias cerebrais e a falência dos rins, levando-as à morte.
  • Hemotóxicos: Também conhecidos como hemolíticos, destroem as hemácias, causando falência renal e uma possível insuficiência respiratória.
  • Miotóxicos: Causam danos aos músculos, especialmente aos relacionados à respiração. Por meio de paralisia da função neuromuscular, similar aos efeitos dos venenos neurotóxicos, causam a morte por falência renal, cardíaca ou respiratória.
  • Proteolíticos: Também conhecidos como citotóxicos ou necrotóxicos, destroem os tecidos levando à necrose, resultado da ação das enzimas digestivas presentes no veneno, que ajudam na digestão da presa.
  • Nefrotóxicos: Causam dano diretamente aos rins.
  • Sarafotóxicos: Veneno presente apenas em algumas serpentes africanas. Promove a constrição da artéria coronária, dificultando a circulação sanguínea, podendo causar um ataque cardíaco.

Os gêneros das principais serpentes peçonhentas brasileiras são Bothrops e Bothrocophias, popularmente conhecidas como Jararacas, Crotalus, popularmente conhecidas como Cascavéis, Micrurus conhecidas como Corais Verdadeiras ou Cobras-Coral e Lachesis, conhecida como Surucucu ou Pico de Jaca.

Bothrops Bothrocophias: Possuem venenos dos tipos proteolítico, coagulante e hemorrágico.

Crotalus: Venenos dos tipos miotóxico, neurotóxico e coagulante.

Micrurus: Neurotóxico.

Lachesis: Proteolítico, coagulante, hemorrágico e neurotóxico.

Referência

Mark O’Shea, 2008, Venomous Snakes of the World.

Paulo Sérgio Bernarde, Saymon de Alburqueque, Luiz Carlos Batista Turci, 2012 , Serpentes Peçonhentas e Acidentes Ofídicos em Rondônia.

Thorpe R. S., W Wuster and A. Malthora (eds.), 1997, Venomouns Snakes: Ecology, Evolution and Snikebite. Zoological Society of London.

Texto por Klaus Marques

Nota: Novo Recorde do Blog do Nurof!

Em outubro de 2013 o Projeto Nurof nas Nuvens (NnN) bateu mais um recorde, desta vez foi o número de visualizações mensais. No último mês, atingimos o número de 16,735 visualizações mensais, ultrapassando o recorde anterior de novembro de 2012 que era de 15,210. Isto reflete o retorno da sociedade ao dedicado trabalho da nova equipe do Projeto NnN!

Gráfico de visualizações mensais do Blog do NUROF-UFC

Gráfico de visualizações mensais do Blog do NUROF-UFC com destaque para o mês de outubro de 2013.

Gostaríamos de agradecer especialmente as contribuições de Daniel Passos, pela coordenação inicial desta nova etapa do projeto NnN e pelas contribuições mensais com ótimos textos, inclusive o recorde de visualizações diárias com 1965 views (Os lagartos peçonhentos foram reavaliados: Agora são seis espécies no mundo!) em 28 de agosto de 2013. Agradecemos também aos colegas do NUROF-UFC que contribuíram com textos no mês de outubro: Déborah Praciano de Castro e Paulo Cunha Ferreira Bringel. E também as contribuições textuais desde o começo do projeto de revitalização: Maria Juliana Borges-Leite, Laís Feitosa Machado e João Fabrício Mota Rodrigues.

Vale ressaltar que atualmente o Blog do Nurof é um dos maiores meios de divulgação científica da área da herpetologia no Brasil com 299,542 acessos desde julho de 2010, quando surgiu, e conta com mais de 230 postagens realizadas. O blog também tem relevante impacto internacional, sendo lido em mais de 111 países. Caro leitor, muito obrigado por sua visita! Seu retorno é nosso melhor incentivo!

Por: Diego de Oliveira Soares e Raul Vasconcelos Rodrigues, membros do NUROF-UFC

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