Consumo de frutos pela Tijubina da Caatinga

A “Tijubina da Caatinga” já foi alvo de outro texto aqui no blog do NUROF-UFC (leia “Tijubina: o calanguinho do sertão”), mas esta postagem tem como objetivo divulgar uma recente descoberta sobre a espécie, o consumo de frutos. Em um artigo recém-publicado na revista alemã SALAMANDRA – German Journal of Herpetology, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, entre eles três membros do NUROF-UFC, registraram o consumo de frutos do “Melão de São Caetano” (Momordica charantia; Figura 1) pela “Tijubina da Caatinga” (Ameivula ocellifera; Figura 2).

momordicaFigura 1. Frutos do “Melão de São Caetano”, detalhe para as sementes suculentas. Fotografias de Daniel Passos.

Embora a maioria dos lagartos da família Teiidae sejam carnívoros, o consumo de frutos já havia sido registrado para os gêneros Ameiva (Vitt & Colli, 1994), Cnemidophorus (Vitt et al., 1997), Kentropyx (Vitt et al., 2001), e principalmente para Tupinambis (Williams et al., 1993; Mercolli & Yanosky, 1994; Castro & Galetti, 2004). Nesta pesquisa, os autores reportaram, pela primeira vez, a ocorrência de frugivoria intencional em Ameivula ocellifera (Figura 2).

Ameivula_ocellifera_DanielPassos (1)Figura 2. Indivíduo adulto de uma “Tijubina” (Ameivula ocellifera). Fotografia de Daniel Passos.

Segundo a pesquisa, a frequência de ingestão de sementes (que ocorreu em 25% dos indivíduos analisados) e a participação das sementes na dieta (até 100% do volume de alimento ingerido) evidenciaram que o consumo de “Melão de São Caetano” pela “Tijubina” não se tratava de um evento meramente ocasional (Passos et al., 2013). Além disso, os pesquisadores observaram indivíduos mordiscando e lambendo frutos maduros abertos, reforçando a íntima interação entre os lagartos e as plantas.

De acordo com os resultados, o “Melão de São Caetano” pode constituir um importante recurso alimentar para as “Tijubinas”, complementando sua dieta primariamente insetívora especialmente na estação seca, quando a disponibilidade de presas é mais baixa (Passos et al., 2013). Para acessar gratuitamente a publicação original, entre no site da revista SALAMANDRA – German Journal of Herpetology. Para conhecer mais sobre as “Tijubinas”, leia também: “Os lagartos com cauda de chicote“.

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTRO, E. R. & GALETTI, M.. 2004. Frugivoria e dispersão de sementes pelo lagarto teiú Tupinambis merianae (Reptilia: Teiidae). Papéis Avulsos de Zoologia, 44: 91–97.

MERCOLLI, C. & YANOSKY A. A. 1994. The diet of adult Tupinambis teguixin (Sauria: Teiidae) in the eastern chaco of Argentina. Herpetological Journal, 4: 15–19.

PASSOS, D.C.; ZANCHI, D.; SOUZA, I. H. B.; GALLÃO, M. I. & BORGES-NOJOSA, D. M. 2013. Frugivory of Momordica charantia (Cucurbitaceae) by Ameivula ocellifera (Squamata: Teiidae) in a coastal area of northeastern Brazil. Salamandra, 49: 234-236.

VITT, L. J. & COLLI G. R. 1994. Geographical ecology of a neotropical lizard: Ameiva ameiva (Teiidae) in Brazil. Canadian Journal of Zoology, 72: 1986–2008.

VITT, L. J.; P. A. ZANI; J. P. CALDWELL; M. C. ARAÚJO & MAGNUSSON W. E. 1997. Ecology of whiptail lizards (Cnemidophorus) in the Amazon region of Brazil. Copeia, 1997: 745–757.

VITT, L. J.; S. S. SARTORIUS; T. C. S. ÁVILA-PIRES & ESPOSITO, M. C. 2001. Life at the river’s edge: ecology of Kentropyx altamazonica in Brazilian Amazonia. Canadian Journal of Zoology, 79: 1855–1865.

WILLIAMS, J. D.; O. E. DONADIO & RÉ I. 1993: Notas relativas a la dieta de Tupinambis rufescens (Reptilia: Sauria) del noroeste argentino. Neotropica, 39: 45–51.

Clipagem: Eurolophosaurus nanuzae, o lagartinho de crista “no Espinhaço”

Compartilhando o texto do mês do herpeto.org, escrito por Daniel Passos:

“A referida espécie foi descrita em 1981 como um Tropidurus, mesmo divergindo claramente da morfologia dos demais membros do gênero (Rodrigues, 1981). Contudo, em 2001, a espécie foi remanejada para o novo gênero Eurolophosaurus (Frost, 2001), que significa lagarto (saurus) da cordilheira (lopho) do leste (euro), fazendo referência à distribuição geográfica da espécie, que é endêmica da cadeia de montanhas do Espinhaço, em Minas Gerais.

Eurolophosaurus nanuzae é um lagarto de pequeno porte, que raramente alcança tamanhos superiores a 6 cm de comprimento rostro-cloacal (Galdino et al. 2003). Outra característica marcante em sua morfologia é a presença de uma crista dorsal de escamas imbricadas (Rodrigues, 1981), que juntamente com sua distribuição geográfica, fazem jus ao trocadilho do título deste texto. Explicando, “no Espinhaço” (com inicial maiúscula) se refere à cadeia de montanhas, enquanto “no espinhaço” (com inicial minúscula) se refere ao dorso do animal.”

Leiam o texto completo no herpeto.org!

Hábito arborícola em hilídeos: cada perereca no seu galho

Os animais selecionam microhábitats que possibilitem se refugiar, evitar predadores, se reproduzir e conseguir alimento. Chamamos de microhábitat a parte específica do hábitat (Hicklefs, 2003), ou seja, sua porção em escala espacial mais reduzida, como se déssemos zoom para uma observação mais detalhada do ambiente em que esses organismos se encontram (Figura 1).

Figura 1. Dendropsophus gr. Microcephalus empoleirado sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Patrícia Gondim.

Figura 1. Dendropsophus gr. microcephalus empoleirado sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Patrícia Gondim.

Os anuros da família Hylidae, também conhecidos como pererecas, podem constituir o grupo com o maior número de espécies que possuem hábitos arborícolas. A maioria se empoleira sobre a vegetação graças à presença de discos adesivos ou ventosas nas pontas dos seus dedos (Cardoso et al., 1989; Prado; Pombal Jr., 2005). No entanto, esta adaptação não impede que elas procurem também outros locais como os demais anuros, tais como as rochas e a serrapilheira. A ocupação de diferentes microhábitats contribui para diminuir a competição por recursos, como alimento, parceiros para reprodução (Figura 2), territórios etc (Caramaschi, 1981).

Figura 2. Dendropsophus gr. microcephalus em amplexo sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Luan Pinheiro.

Figura 2. Dendropsophus gr. microcephalus em amplexo sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Luan Pinheiro.

A altura em que as pererecas se empoleiram sobre a vegetação, além de variar entre as diferentes espécies (Figura 3), pode variar até mesmo entre os indivíduos da mesma espécie, por exemplo, entre jovens e adultos (Eterovick et al., 2010; Gondim et al., 2013). Isso pode depender do tamanho e massa corpórea (Van Sluys; Rocha, 1998; Muñoz-Guerrero et al., 2007) ou fatores ambientais, como umidade relativa do ar, temperatura e vento (Melo et al., 2007; Prado; Pombal Jr., 2005). No trabalho de Gondim et al. (2013), realizado por membros do NUROF-UFC (acesso ao artigo),  esses motivos possivelmente expliquem a distribuição vertical em Dendropsophus gr. microcephalus também. Os jovens ocuparam alturas maiores do que os adultos sobre a vegetação, que pode estar relacionado a uma menor sobreposição no uso dos estratos verticais entre eles. Os autores afirmam que ainda são poucos os trabalhos científicos publicados que se dedicaram a fazer comparações na altura de empoleiramento dentro da mesma espécie. A realização de mais estudos sobre o tema poderá acrescentar novos conhecimentos à ecologia desse grupo de anuros.

Figura 3. Hypsiboas raniceps empoleirado sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Patrícia Gondim.

Figura 3. Hypsiboas raniceps empoleirado sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Patrícia Gondim.

Por: Patrícia de Menezes Gondim, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARDOSO, A. J.; ANDRADE, G. V.; HADDAD, C. F. B. 1989. Distribuição espacial em comunidades de anfíbios (Anura) no sudeste do Brasil. Revista Brasileira de Biologia, 49 (1): 241-249.

ETEROVICK, P. C.; RIEVERS, C. R.; KOPP, K.; WACHLEVSKI, M.; FRANCO, B. P.; DIAS, C. J.; BARATA, I. M.; FERREIRA, A. D. M.; AFONSO, L. G. 2010. Lack of phylogenetic signal in the variation in anuran microhabitat use in southeastern Brazil. Evolutionary Ecology, 24: 1-24.

GONDIM, P. M.; BORGES-LEITE, M. J.; PINHEIRO, L. T.; BORGES-NOJOSA, D. M.; CASCON, P. 2013. Microhabitat use (vertical distribution) by a population of Dendropsophus gr. microcephalus (Anura, Hylidae) in a forested area of coastal tableland of north-eastern Brazil.  Herpetology Notes, 6: 363-368.

HICKLEFS, R. E. 2003. A Economia da Natureza. 5º edição. Guanabara Koogan. 503 pp.

MELO, G. V.; ROSSA-FERES, D. C.; JIM, J. 2007. Variação temporal no sítio de vocalização em uma comunidade de anuros de Botucatu, Estado de São Paulo, Brasil. Biota Neotropica 7(2): 93-102.

MUÑOZ-GUERRERO, J.; SERRANO, V. H.; RAMÍREZ-PINILLA, M. P. 2007. Uso de microhábitat, dieta, y tiempo de actividad en cuatro espécies simpátricas de ranas hílidas neotropicales (Anura: Hylidae). Caldasia, 29(2): 413-425.

PRADO, G. M.; POMBAL JR., J. P. 2005. Distribuição espacial e temporal dos anuros em um brejo da reserva biológica de Duas Bocas, sudeste do Brasil. Arquivos do Museu Nacional, 63 (4): 685-705.

VAN SLUYS, M.; ROCHA, C. F. D. 1998. Feeding habits and microhabitat utilization by two syntopic Brazilian Amazonian frogs (Hyla minuta and Pseudopaludicula sp. (gr. falcipes). Revista Brasileira de Biologia, 58(4): 559-562.

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