Hábitos alimentares em serpentes


As serpentes são animais carnívoros que, de modo geral, se alimentam com uma frequência baixa, capazes de sobreviver até mesmo vários meses sem comer (leia também: “Como as serpentes suportam tanto tempo sem alimento?”). Suas presas são bem diversificadas, tais como: minhocas, moluscos, onicóforos, aranhas, quilópodos, insetos, crustáceos, peixes, gimnofionos, anuros, lagartos, outras serpentes, tartarugas, crocodilianos, pássaros, ovos, roedores, marsupiais, morcegos (Martins & Oliveira, 1998).

A dieta é um dos aspectos mais estudados na ecologia de serpentes, baseando-se principalmente no conteúdo encontrado no estômago de espécimes tombados em coleções científicas (saiba mais sobre coleções científicas em “Coleções Científicas“) As serpentes podem ter dietas generalistas (predam vários grupos animais) ou especialistas (alimentam-se de presas específicas). A composição dos itens alimentares pode ser influenciada pela disponibilidade de presas no local, ou seja, quando são encontradas em abundância são, consequentemente, mais predadas (Macedo et al., 2008).

É interessante compreender que os tipos mais freqüentes de presas na dieta de uma serpente pode ser, também, reflexo do seu substrato de forrageio (local de caça), relacionando-se ao hábitat onde suas presas estão em atividade. Espécies de hábitos aquáticos ou que vivem próximos a ambientes úmidos, como as dos gêneros Helicops e Liophis (cobras d’água) costumam ter presas associadas a ambientes aquáticos, como anfíbios, girinos e peixes (Silva Jr. et al., 2003; Pinto & Fernandes, 2004). Por outro lado, serpentes que forrageiam no chão predam principalmente espécies terrícolas, enquanto as que forrageiam sobre a vegetação, se alimentam de itens arborícolas em maior quantidade. Trabalhos como os de Bernarde & Macedo (2008), Albuquerque et al. (2007), por exemplo, relatam a maior ocorrência de anuros terrestres nos estômagos de serpentes que ocorrem sobre o solo, enquanto que anuros arborícolas foram maioria para aquelas que estavam sobre a vegetação.

Espécies dos gêneros Boa e Epicrates podem ser terrestres e semi-arborícolas e Corallus, arborícola. O cardápio varia desde aves e mamíferos, podendo se alimentar também de lagartos e anfíbios, presas imobilizadas geralmente por constrição (Scartozzoni & Molina, 2004). A jibóia (Boa constrictor), por exemplo, se alimenta especialmente de aves, padrão de dieta verificada também por Gondim et al. (2012),  trabalho realizado por membros do NUROF-UFC, ao publicarem o primeiro registro de predação de rouxinol (Troglodytes musculus) por essa espécie (Figura 1).

Figura 1 - Troglodytes musculus (Rouxinol) retirado do estômago de um juvenil de Boa constrictor (Jibóia). Fotografia de Patrícia Gondim.

Figura 1 – Troglodytes musculus (Rouxinol) retirado do estômago de um juvenil de Boa constrictor (Jibóia). Fotografia de Patrícia Gondim.

E as sucuris (Eunectes), aquelas serpentes que podem chegar a dez metros de comprimento, podem comer seres humanos? Conhecidas também como Anacondas, essas serpentes sul-americanas possuem hábitos aquáticos e se alimentam de peixes, anfíbios, quelônios, lagartos, serpentes, jacarés, aves e mamíferos. Não existe nenhum relato de ataque fatal a seres humanos que seja confiável e detalhadamente descrito na literatura, embora se reconheça que são potencialmente capazes de matar uma pessoa em casos muito raros. Há mais mitos e lendas do que verdade sobre essas histórias (Bernarde, 2002).

Por: Patrícia de Menezes Gondim, membro do NUROF-UFC

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE, N. R.; GALATTI, U.; DI-BERNARDO, M. 2007. Diet and feeding behaviour of the Neotropical parrot snake (Leptophis ahaetulla) in northern Brazil. J. Nat. Hist. 41(17-20): 1237-1243.

BERNARDE, P. S. 2002. Sucuris atacam seres humanos? Ad Litteram 1(1): 16-23.

BERNARDE, P. S.; MACEDO, L. C. 2008. Impacto do desmatamento e formação de pastagens sobre a anurofauna de serapilheira em Rondônia (Brasil). Iheringia, Ser. Zool. 98(4): 545-459.

GONDIM, P. M.; BORGES-NOJOSA, D. M.; BORGES-LEITE, M. J.; ALBANO, C. G. 2012. BOA CONSTRICTOR (Boa constrictor). DIET. Herpetol. Rev. 43(4): 654-655.

MACEDO, L. C.; BERNARDE, P. S.; ABE, A. S. 2008. Lagartos (Squamata: Lacertilia) em áreas de floresta e de pastagem em Espigão do Oeste, Rondônia, sudoeste da Amazônia, Brasil. Biota Neotrop. 8(1): 133-139.

MARTINS, M.; OLIVEIRA, M. E. 1998. Natural history of snakes in forests of the Manaus region, Central Amazonia, Brazil. Herpetol. Nat. Hist. 6(2):1-89.

PINTO,R. R.; FERNANDES, R. 2004. Reproductive biology and diet of Liophis poecilogyrus (Serpentes, Colubridae) from southeastern Brazil. Phyllomedusa 3(1): 9-14.

PINTO, R. R.; FERNANDES, R.; MARQUES, O. A. V. 2008. Morphology and diet of two sympatric colubrid snakes, Chironius flavolineatus and Chironius quadricarinatus (Serpentes: Colubridae). Amphibia-Reptilia. 29(2): 149-160.

SCARTOZZONI, R. R.; MOLINA, F. B. 2004. Comportamento Alimentar de Boa constrictor, Epicrates cenchria e Corallus hortulanus (Serpentes: Boidae) em Cativeiro. Revista de Etologia. 6 (1): 25-31.

SILVA JR, N. J.; SOUZA, I. F.; SILVA, W. V.; SILVA, H. L. R. 2003. Liophis poecilogyrus: diet. Herpetol. Rev. 34: 69-70.

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