Existem sapos “peçonhentos”?

Os animais peçonhentos são aqueles que produzem substâncias tóxicas e que conseguem inocular ou injetar essas substâncias na sua presa ou predador. Serpentes, aranhas, escorpiões e arraias são exemplos clássicos de animais peçonhentos.

Dentre os anuros que são capazes de produzir veneno, algumas famílias se destacam: como os coloridos e chamativos dendrobatídeos (Fig. 1), que não oferecem nenhum perigo, desde que você não o ponha na boca; seu veneno é bastante potente e era usado por índios na ponta das flechas com o intuito de levar a óbito as caças (o cozimento destrói o veneno) e os inimigos (Bernarde, 2011). A família dos nossos conhecidos Cururus (Rhinella spp.), os buffonídeos (Fig. 2), e alguns da família da rã-pimenta (Leptodactylus labyrinthicus) (Fig. 3), os leptodactilídeos, que podem causar irritação nas mucosas, caso o veneno entre em contato com as mesmas, podendo levar a morte de animais domésticos, caso venham a ingerir o anuro. E alguns indivíduos da família dos hilídeos, à qual pertence o famoso Kambô (Phyllomedusa bicolor) (Fig. 4), que produz uma secreção usada em rituais de algumas tribos indígenas amazônicas.

Adelphobates

Fig. 1. Dendrobatídeo: Adelphobates quinquevittatus. Foto por Paulo Bernarde.

Rhinella jimi Juliana Borjes-Leite

Fig. 2. Bufonídeo: Rhinella jimi. Foto por Juliana Borges

L. laby

Fig. 3. Leptodactilídeo: Leptodactylus labyrinthicus. Foto por Felipe Gomes.

kambô

Fig. 4. Kambô: Phyllomedusa bicolor. Foto por Tim Vickers

Entretanto, há alguns anos foi descrito um mecanismo de defesa bastante intrigante de um sapo amazônico, o Rhaebo guttatus (Schneider, 1799) (Fig. 5) que é da mesma família do Cururu (Rhinella spp.), família Buffonidae, que produz veneno através de glândulas localizadas na superfície da pele, as glândulas paratóides. Até aí não há nenhuma novidade, mas a inovadora estratégia desse sapo é que ao se sentir ameaçado, ele consegue lançar veneno numa distância de até dois metros (Jared et al., 2011)!

Rhebo

Fig. 5. Bufonídeo: Rhaebo guttatus. Foto por Eduardo Fernandes.

Normalmente a ativação das defesas químicas dos anfíbios depende da mordida do predador (Jared et al., 2011 apud Jared et al., 2005, 2009; Toledo & Haddad, 2009; Heiss et al., 2010). Com o R. guttatus isso não acontece, ao invés de apresentar um mecanismo de defesa passivo, onde, só será estimulado a partir de uma agressão física por parte de um predador, o R. guttatus consegue voluntariamente esguichar veneno através da compressão das glândulas paratóides, e ao entrar em contato com as mucosas do mesmo, causa incômodo imediato (devido a seu efeito inflamatório), fazendo com que ele desista da caça. A exposição ao veneno ainda pode proporcionar aos seus possíveis predadores complicações neurotóxicas, cardiotóxicas, edemas pulmonares, problemas no sistema digestivo e, dependendo da quantidade de veneno, pode até levar o animal a óbito (Mailho-Fontana et al., 2013).

Esse forte esguicho de veneno que o R. guttatus (Fig. 6) libera é consequência de um rápido movimento para aumentar a pressão interna. O aumento da pressão faz com que ocorra uma forte compressão das glândulas e consequentemente, a liberação do veneno. Isso possivelmente cria uma situação análoga a uma mordida, com a grande vantagem de não estar entre os dentes do predador (Jared et al., 2011).

R. gutattus

Fig. 6. Rhaebo guttatus. Fotos por instituto Butantan/Divulgação. Note o veneno sendo “esguichado” da glândula paratóide direita.

Ao se sentir ameaçado ele ergue a cabeça, estica as pernas da frente, inflando os pulmões abrindo e fechando a boca, rapidamente e repetidamente, inclinando o corpo e direcionando as glândulas no sentido do agressor, então ele abaixa a cintura escapular e move a cabeça lateralmente para o agressor. Com seus olhos e boca normalmente fechada, esguicha veneno em vários jatos amarelados que podem estender-se a uma distância de até dois metros (Jared et al., 2011). Assista ao Rhaebo guttatus em ação no vídeo!!

A espécie R. guttatus (Fig. 7) foi descrita há mais de 200 anos, e ninguém havia relatado este comportamento da espécie até 2011, esse fato pode ser explicado pela escassez de informação sobre esta espécie quando comparada a outros sapos, em que o comportamento de esguichar o veneno voluntariamente nunca fora observado (Jared & Antoniazzi, 2009).

Rhebo g

Fig. 7. Rhaebo guttatus. Foto por Eduardo Fernandes.

A descoberta desse mecanismo mostra que a crença popular de que sapos podem esguichar veneno no rosto das pessoas não está totalmente errada, pelo menos não para as regiões de floresta Amazônica, mostrando assim, uma possível origem para este folclore (Jared et al., 2011).

Para o ser humano, o R. guttatus não oferece risco a saúde, visto que, seu veneno é bem mais fraco em comparação com outros anuros venenosos (como os Dendrobatídeos) e levando em consideração de que não existem registros de acidentes com estes animais.

Bom, até então não se sabe de nenhum anfíbio peçonhento, mas o Rhaebo guttatus é um dos únicos candidatos do grupo que chega perto de receber essa denominação.

Texto por Eduardo Fernandes.


FONTES

AbrilHerpetofauna & G1 Natureza

REFERÊNCIAS

JARED, C.; ANTONIAZZI, M. M.; VERDADE, V. K.; TOLEDO, L. F.; RODRIGUES M. T. 2011. The Amazonian toad Rhaebo guttatus is able to voluntarily squirt poison from the paratoid macroglands. Amphibia-Reptilia, 32: 546-549

MAILHOFONTANA, P. L.; ANTONIAZZI, M. M.; VERDADE, V. K.; TOLEDO, L. F.; SCIANI, J. M.; BARBARO, K. C.; PIMENTA, D. C.; RODRIGUES M. T.; JARED, C. 2013. Passive and Active Defense in Toads: The Parotoid Macroglands in Rhinella marina and Rhaebo guttatus. Journal of Experimental Zoology, 9999A:113.

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