NOTÍCIA: Descoberta tartaruga ancestral que pode explicar evolução do casco

Um fóssil de 240 milhões de anos pode ser um “elo perdido” na evolução das tartarugas, pois fica entre o Eunotosaurus da África do Sul (260 milhões de anos) e o Odontochelys da China (220 milhões de anos). Conhecido como Pappochelys rosinae ou “Tartaruga avô”, esse animal preenche uma lacuna no registro fóssil da época em que os ancestrais das tartarugas ainda não possuíam a característica que faz com que os membros desse grupo sejam facilmente identificados: seu casco. O estudo do achado, publicado na Nature, traz novas pistas sobre a evolução da carapaça protetora das tartarugas.

Fig.1. Reconstrução da tartaruga primitiva. Créditos: Rainer Schoch

Fig.1. Reconstrução da tartaruga primitiva. Créditos: Rainer Schoch

O Pappochelys (Fig. 1) era um pequeno réptil que parecia muito mais com uma iguana do que com uma tartaruga, mas o esqueleto (Fig. 2) mostra sem dúvidas traços de tartaruga. Além disso, o formato do crânio e as duas aberturas em ambos os lados dele indica que as tartarugas podem estar mais relacionadas com os lepidossauros (serpentes e lagartos, por exemplo) do que com os arcossauros (crocodilos, dinossauros, aves e etc.).

Fig. 2. Esqueleto da tartaruga primitiva. A parte amarela é correspondente ao casco das espécies atuais. Créditos: Rainer Schoch

Fig. 2. Esqueleto da tartaruga primitiva. A parte amarela é correspondente ao casco das espécies atuais. Créditos: Rainer Schoch

Um dos autores da pesquisa, Rainer Schoch, explica que embora essa evolução do casco das tartarugas tenha sido prevista pela pesquisa embrionária hoje, ela nunca tinha sido observada em fósseis, até esse estudo.

Fontes:

IFLS

NBC News

Referência:

Schoch, Rainer R., and Hans-Dieter Sues. “A Middle Triassic stem-turtle and the evolution of the turtle body plan.” Nature (2015).

Senhoras das Savanas: Boiruna sertaneja

História natural e biologia da Cobra-preta

A Cobra-preta (Fig.1), Boiruna sertaneja Zaher, 1996 (Serpentes: Dipsadidae) é uma serpente terrestre e de hábitos noturnos. Considerada de grande porte, com comprimento rostro-caudal máximo (CRC) de  1.90 m registrado para um indivíduo macho adulto (Zaher, 1996). Restrita para as formações abertas da Caatinga (Fig.2), ocupa quase todos os estados nordestinos, com exceção de Sergipe. Pode ser encontrada também nas “bordas” de estados que fazem fronteira com o nordeste, tais como Tocantins e Minas Gerais (Guedes et al, 2014; Guedes, 2006; Vitt et al., 2005; de Brito & Gonçalves, 2012; Gaiarsa et al., 2013).

Boiruna sertaneja

Fig.1. Boiruna sertaneja, Foto por Ubiratan Gonçalves.

Essa serpente é ovípara com tamanho de ninhada de 4 a 14 ovos (Vitt & Vangilder, 1983; Gaiarsa et al., 2013). Considerada generalista, sua alimentação é constituída de pequenos mamíferos, lagartos e principalmente outras serpentes, tendo um importante papel no controle de pragas (ex: ratos) e serpentes peçonhentas.

Distribuição de boiruna

Fig.2. Mapa de distribuição de Boiruna sertaneja, as linhas com coloração mais escura delimitam a Caatinga. Adaptado de Guedes et al, 2014.

Mesquita e colaboradores, (2013) apontam como mecanismos de defesa da espécie a sua coloração escura, relacionada à atividade noturna e quando manuseados, os indivíduos realizam movimentos vigorosos e constrição na tentativa de escapar de seu captor. Mesmo com seus quase 2 metros, não apresentam comportamento agressivo, não havendo casos registrados de acidentes envolvendo esta espécie.

Apesar de ser dócil, a Cobra-preta (B. sertaneja), juntamente com outras espécies de dipsadídeos, incluindo a Cobra-verde (Philodryas olfersii) e a Corre-campo (Philodryas nattereri), a partir de 1999 passaram a ser consideradas de importância médica pelo Ministério da Saúde (Lira-da-Silva, 2009). Mesmo não havendo acidentes registrados com Boiruna sertaneja, sua congênere Boiruna maculata, popularmente conhecida como Mussurana, provocou envenenamento de uma criança de menos de dois anos no Rio Grande do Sul (Santos-Costa et al., 2000).

A Cobra-preta elucida muito bem a importância de preservarmos nossa fauna de serpentes, tendo em vista sua importância no controle biológico de roedores e serpentes peçonhentas, tais como Jararacas (Bothrops spp.), que são as maiores causadoras de acidentes ofídicos no país. As serpentes são de suma importância para os ambientes naturais, visto que estão desde a categoria de presas, servindo de alimento para outros animais, assim como são também predadoras, muitas sendo consideradas espécies-chave nos ecossistemas que habitam, auxiliando  no equilíbrio do meio ambiente.

A Cobra-preta (Boiruna sertaneja) é a primeira serpente-tema da série Senhoras das Savanas, que terá como objetivo a divulgação das espécies de serpentes dos biomas savânicos brasileiros.

Por: John A. Andrade, membro do Nurof-UFC


REFERÊNCIAS

de Brito, P. S., & Gonçalves, U. 2012. Squamata, Dipsadidae, Boiruna sertaneja Zaher, 1996: New records and geographic distribution map. Check List, 8(5), 968-969.

Gaiarsa, M. P., de Alencar, L. R., & Martins, M. 2013. Natural history of Pseudoboine snakes. Papéis Avulsos de Zoologia (São Paulo), 53(19), 261-283.

Guedes, T. B. 2006. Estrutura da comunidade de serpentes de uma área de Caatinga do Nordeste Brasileiro. Unpublished MSThesis, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

Lira-da-Silva, R.M.; Mise, Y.F.; Casais-e-Silva, L.L.; Ulloa, J.; Hamdan, B. & Brazil, T.K. 2009. Serpentes de Importância Médica do Nordeste do Brasil. Gazeta Médica da Bahia, 79:7-20

Mesquita, P. C., Passos, D. C., Borges-Nojosa, D. M., & Cechin, S. Z. 2013. Ecologia e história natural das serpentes de uma área de Caatinga no nordeste brasileiro. Papéis Avulsos de Zoologia (São Paulo), 53(8), 99-113.

Ministério da Saúde. Manual de diagnóstico e tratamento dos acidentes por animais peçonhentos. Brasília: Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), 119 p. 2001.

Santos-Costa, M.C.; Outeiral, A.B.; D’Agostini, F.M. & Cappellari, L.H. 2000. Envenomation by the Neotropical Colubrid Boiruna maculata (Boulenger, 1896): a case report. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 42 (5): 283-286.

Vitt, L.J. & Vangilder, L.D. 1983. Ecology of a snake community in northeastern Brazil. Amphibia-Reptilia, 4:273-296

Vitt, L.J., J.P. Caldwell, G.R. Colli, A.A. Garda, D.O. Mesquita, F.G.R. França, D.B. Shepard, G.C. Costa, M.M. Vasconcellos and V.N. Silva. 2005. Uma Atualização do Guia Fotográfico dos Répteis e Anfíbios da Região do Jalapão no Cerrado Brasileiro. Special Publications in Herpetology Sam Noble Oklahoma Museum of Natural History 2: 1-24.

Zaher, H. 1996. A new genus and species of pseudoboine snake, with arevision of the genus Clelia (Serpentes, Xenodontinae). Bollettino del Museo Regionale di Scienze Naturali 14(2): 289-337.

NOTÍCIA: Sete novas espécies de rãs são descobertas no Brasil.

Sete novas espécies de minúsculas rãs foram descritas para a Mata Atlântica. Garantindo um lugar entre os menores vertebrados do planeta, as coloridas criaturas cabem na unha do dedo humano.

A BRACHYCEPHALUS VERRUCOSUS (FOTO MARCIO PIE CREATIVE COMMONS)
Brachycephalus verrucosus. Foto por Marcio Pie

As espécies descritas no trabalho publicado no dia 4 de Junho na revista peerj medem de 9 a 13mm (milímetros) de comprimento. As rãs pertencem ao gênero Brachycephalus, apelidadas de “sapos abóbora” por apresentar uma coloração alaranjada. São endêmicas da Mata Atlântica vivendo apenas em regiões serranas.

Brachycephalus sp (FOTO MARCIO PIE - CREATIVE COMMONS)Brachycephalus sp. Foto por Marcio Pie

Veja notícia completa em Galileu.


REFERÊNCIA
Ribeiro LF, Bornschein MR, Belmonte-Lopes R, Firkowski CR, Morato SAA, Pie MR. (2015) Seven new microendemic species of Brachycephalus (Anura: Brachycephalidae) from southern Brazil. PeerJ 3:e1011

NOTÍCIA: Como era a primeira serpente?

As serpentes sempre capturaram a imaginação dos homens. Seu corpo longo e sinuoso, reputação assustadora e grande diversidade – mais de 3400 espécies atuais – fazem delas um dos grupos de vertebrados mais populares.  Ainda assim, pouco se sabe sobre como, onde e quando surgiram as serpentes modernas. Contudo, recentemente, um estudo conduzido por Hsiang e colaboradores (2015) da Yale University pode esclarecer algumas dessas questões.

A equipe de Yale analisou o genoma, a anatomia e o registro fóssil de 73 espécies de serpentes e lagartos, vivos e extintos, e propôs que o ancestral das serpentes era noturno, forrageador de emboscada e tinha pequenos membros posteriores, com cotovelos e dedos, de acordo com a pesquisa publicada na revista BMC Evolutionary Biology (Fig. 1).

ancientsnake

Fig.1. Imagem representativa da serpente ancestral. Repare seus minúsculos membros posteriores. Crédito: Julius T. Csotonyi

Ao identificar semelhanças e diferenças entre as espécies, a equipe construiu uma grande árvore genealógica e destacou os principais padrões e características presentes na história evolutiva das serpentes. Os resultados indicam que as serpentes tiveram sua origem na terra, ao invés de ter sido no mar, como se acreditava anteriormente. Essa origem foi por volta de 128,5 milhões de anos atrás, durante o período Cretáceo e provavelmente aconteceu no supercontinente Laurásia. Esse período coincide com o aparecimento de várias espécies de mamíferos e aves na Terra.

A serpente ancestral provavelmente possuía um par de pequenos membros posteriores e predava vertebrados de corpo mole ou invertebrados, que eram relativamente grandes comparados aos animais predados por lagartos naquela época. No entanto, essa serpente não tinha desenvolvido ainda a capacidade de constrição o que poderia lhe permitir predar presas maiores que ela mesma, como acontece nas atuais jiboias. Além disso, enquanto muitos répteis ancestrais eram mais ativos durante o dia, a serpente ancestral era noturna. Hábitos diurnos aparentemente apareceram pela primeira vez nas serpentes no grupo Colubroidea, há 50-45 milhões de anos (Colubroidea é o grupo mais numeroso das serpentes, com 85% de todas as espécies atuais, englobando as populares Corre-campo e Cobra verde, por exemplo).


Fontes:

BioMed Central. “What did the first snakes look like?.” ScienceDaily. ScienceDaily, 19 May 2015.

Phys.org

Referência:

Allison Y Hsiang, Daniel J Field, Timothy H Webster, Adam DB Behlke, Matthew B Davis, Rachel A Racicot, Jacques A Gauthier. The origin of snakes: revealing the ecology, behavior, and evolutionary history of early snakes using genomics, phenomics, and the fossil record.BMC Evolutionary Biology, 2015; 15 (1) DOI: 10.1186/s12862-015-0358-5

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