Senhoras das Savanas: Boiruna sertaneja


História natural e biologia da Cobra-preta

A Cobra-preta (Fig.1), Boiruna sertaneja Zaher, 1996 (Serpentes: Dipsadidae) é uma serpente terrestre e de hábitos noturnos. Considerada de grande porte, com comprimento rostro-caudal máximo (CRC) de  1.90 m registrado para um indivíduo macho adulto (Zaher, 1996). Restrita para as formações abertas da Caatinga (Fig.2), ocupa quase todos os estados nordestinos, com exceção de Sergipe. Pode ser encontrada também nas “bordas” de estados que fazem fronteira com o nordeste, tais como Tocantins e Minas Gerais (Guedes et al, 2014; Guedes, 2006; Vitt et al., 2005; de Brito & Gonçalves, 2012; Gaiarsa et al., 2013).

Boiruna sertaneja

Fig.1. Boiruna sertaneja, Foto por Ubiratan Gonçalves.

Essa serpente é ovípara com tamanho de ninhada de 4 a 14 ovos (Vitt & Vangilder, 1983; Gaiarsa et al., 2013). Considerada generalista, sua alimentação é constituída de pequenos mamíferos, lagartos e principalmente outras serpentes, tendo um importante papel no controle de pragas (ex: ratos) e serpentes peçonhentas.

Distribuição de boiruna

Fig.2. Mapa de distribuição de Boiruna sertaneja, as linhas com coloração mais escura delimitam a Caatinga. Adaptado de Guedes et al, 2014.

Mesquita e colaboradores, (2013) apontam como mecanismos de defesa da espécie a sua coloração escura, relacionada à atividade noturna e quando manuseados, os indivíduos realizam movimentos vigorosos e constrição na tentativa de escapar de seu captor. Mesmo com seus quase 2 metros, não apresentam comportamento agressivo, não havendo casos registrados de acidentes envolvendo esta espécie.

Apesar de ser dócil, a Cobra-preta (B. sertaneja), juntamente com outras espécies de dipsadídeos, incluindo a Cobra-verde (Philodryas olfersii) e a Corre-campo (Philodryas nattereri), a partir de 1999 passaram a ser consideradas de importância médica pelo Ministério da Saúde (Lira-da-Silva, 2009). Mesmo não havendo acidentes registrados com Boiruna sertaneja, sua congênere Boiruna maculata, popularmente conhecida como Mussurana, provocou envenenamento de uma criança de menos de dois anos no Rio Grande do Sul (Santos-Costa et al., 2000).

A Cobra-preta elucida muito bem a importância de preservarmos nossa fauna de serpentes, tendo em vista sua importância no controle biológico de roedores e serpentes peçonhentas, tais como Jararacas (Bothrops spp.), que são as maiores causadoras de acidentes ofídicos no país. As serpentes são de suma importância para os ambientes naturais, visto que estão desde a categoria de presas, servindo de alimento para outros animais, assim como são também predadoras, muitas sendo consideradas espécies-chave nos ecossistemas que habitam, auxiliando  no equilíbrio do meio ambiente.

A Cobra-preta (Boiruna sertaneja) é a primeira serpente-tema da série Senhoras das Savanas, que terá como objetivo a divulgação das espécies de serpentes dos biomas savânicos brasileiros.

Por: John A. Andrade, membro do Nurof-UFC


REFERÊNCIAS

de Brito, P. S., & Gonçalves, U. 2012. Squamata, Dipsadidae, Boiruna sertaneja Zaher, 1996: New records and geographic distribution map. Check List, 8(5), 968-969.

Gaiarsa, M. P., de Alencar, L. R., & Martins, M. 2013. Natural history of Pseudoboine snakes. Papéis Avulsos de Zoologia (São Paulo), 53(19), 261-283.

Guedes, T. B. 2006. Estrutura da comunidade de serpentes de uma área de Caatinga do Nordeste Brasileiro. Unpublished MSThesis, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

Lira-da-Silva, R.M.; Mise, Y.F.; Casais-e-Silva, L.L.; Ulloa, J.; Hamdan, B. & Brazil, T.K. 2009. Serpentes de Importância Médica do Nordeste do Brasil. Gazeta Médica da Bahia, 79:7-20

Mesquita, P. C., Passos, D. C., Borges-Nojosa, D. M., & Cechin, S. Z. 2013. Ecologia e história natural das serpentes de uma área de Caatinga no nordeste brasileiro. Papéis Avulsos de Zoologia (São Paulo), 53(8), 99-113.

Ministério da Saúde. Manual de diagnóstico e tratamento dos acidentes por animais peçonhentos. Brasília: Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), 119 p. 2001.

Santos-Costa, M.C.; Outeiral, A.B.; D’Agostini, F.M. & Cappellari, L.H. 2000. Envenomation by the Neotropical Colubrid Boiruna maculata (Boulenger, 1896): a case report. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo, 42 (5): 283-286.

Vitt, L.J. & Vangilder, L.D. 1983. Ecology of a snake community in northeastern Brazil. Amphibia-Reptilia, 4:273-296

Vitt, L.J., J.P. Caldwell, G.R. Colli, A.A. Garda, D.O. Mesquita, F.G.R. França, D.B. Shepard, G.C. Costa, M.M. Vasconcellos and V.N. Silva. 2005. Uma Atualização do Guia Fotográfico dos Répteis e Anfíbios da Região do Jalapão no Cerrado Brasileiro. Special Publications in Herpetology Sam Noble Oklahoma Museum of Natural History 2: 1-24.

Zaher, H. 1996. A new genus and species of pseudoboine snake, with arevision of the genus Clelia (Serpentes, Xenodontinae). Bollettino del Museo Regionale di Scienze Naturali 14(2): 289-337.

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