NOTÍCIA: Artigo da Science descreve fóssil de cobra com patas encontrado no Brasil.

Cientistas descreveram o que dizem ser o primeiro fóssil conhecido de serpente com quatro patas. Os membros, tanto anteriores quanto posteriores (Fig.1), de 120 milhões de anos estão muito bem preservados, apresentam 20 cm de comprimento e terminam em cinco dígitos delgados. O fóssil foi batizado de Tetrapodophis amplectus, sendo que o gênero, em Grego, significa “Serpente com quatro patas” e o epíteto deriva do Latim e refere-se aflexibilidade da criatura e a capacidade presumida para agarrar firmemente suas presas.

Tetrapodophis (rear limbs shown), had delicate but functional limbs that may have been used for grasping prey or used during mating

Fig.1. Tetrapodophis (membros posteriores), tinha membros delicados, mas funcionais que podem ter sido utilizados para agarrar a presa ou utilizados durante o acasalamento.

Segundo os pesquisadores, a peça é originária da Formação Crato, na Bacia do Araripe, no Ceará. Detalhes de quando ela foi descoberta e como finalmente acabou no museu alemão,onde se encontra agora, permanecem um mistério. Esses detalhes são importantes paramuitos pesquisadores e especialmente para alguns do Brasil, visto que tem sido ilegal exportar fósseis do país desde 1942. A descrição foi publicada em artigo tendo como autores David M. Martill, paleontólogo da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, Helmut Tischlinger e Nicholas Longrich.

Este seria o fóssil de uma das primeiras serpentes, sugerindo que o grupo evoluiu a partir de precursores terrestres na Gondwana, o remanescente sul  do supercontinente Pangeia. Embora apresente plano corporal e outras características anatômicas semelhantes às serpentes atuais, alguns pesquisadores não tem tanta certeza da filogenia deTetrapodophis (Fig.2).

Tetrapodophis (artist’s representation) is the first known snake known to have four limbs.

Fig.2. Representação artística de Tetrapodophis mostrando uma das funções que poderia ter seus membros (segurar as presas). Foto: Reprodução/Science/Julius Cstonyu

Michael Caldwell, paleontólogo de vertebrados da Universidade de Alberta, Edmonton, no Canadá, admite que viu apenas imagens do fóssil, não o próprio fósseis. Mas alguns aspectos da coluna vertebral da criatura não coincidem com o de outras cobras e lagartos, observa. Em particular, as superfícies frontal das vértebras de cobras e lagartosconhecidos, exceto em geckos, são côncavas, e as superfícies posteriores são convexas; o que não parece ser o caso em Tetrapodophis (Fig.3), diz ele.

Tetrapodophis

Fig.3. Fóssil completo de Tetrapodophis (Coluna e costelas). Adaptado de Martill et al, 2015.

Tetrapodophis tem uma mistura muito interessante de personagens,” diz SusanEvans, uma paleobiolóloga da University College London. Embora os dentes da criatura pareçam com os de serpentes, ela admite, “Estou tentando sentar cuidadosamenteem cima do muro sobre se esse fóssil pertence, realmente, a uma cobra.Um alongamentoradical do corpo e redução no tamanho ou perda de membros ocorreu muitas vezes em outros grupos de répteis, observa ela. Outro enigma, acrescenta, são o porque dos ossos nas pontas dos dígitos da criatura serem tão longos. Longrich e seus colegas sugerem que os dedos das patas longos eram usados para agarrar presas ou possivelmenteusado durante o acasalamento. Mas Caldwell observa que essas características “são notavelmente incomuns, a menos que você é seja arborícula.”

FONTE: Science

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DOSSIÊ ANACONDA

A Eunectes murinus (Linnaeus 1758), também chamada de Sucuri ou Anaconda (Fig. 1), é uma das serpentes mais conhecidas no mundo, principalmente por ser a antagonista dos filmes de terror da série Anaconda.  Mas será que filmes e até mesmo documentários estão apresentando esse animal de maneira correta, crível, do ponto de vista científico?

Fig. 1. Sucuri. Créditos: © 2003 John White

Fig. 1. Sucuri. Créditos: © 2003 John White

As sucuris pertencem à família Boidae, a mesma das Jiboias e Salamantas, e como todos os membros dessa família, são áglifas (ou seja, não são peçonhentas), matam por constrição, são ovovivíparas e ocupam uma diversidade de ambientes: terra, árvores, rios e lagos (CHARLES, 2007; POUGH, 1999).

Com certeza é a maior serpente das Américas com seus 9,6 metros descritos, mas normalmente chegando a menos de 6 metros – recentemente, a maior que acharam não passava dos 8,45 metros (BELLOSA, 2003). É a segunda maior serpente do mundo, perdendo apenas para a Píton Reticulada (Python reticulatus), uma serpente asiática que pode, de fato, atingir 10 metros na fase adulta – mas, novamente, o maior exemplar vivo tem apenas 7,6 metros (GUINESS, 2013).

Além disso, pode ser encontrada nas florestas tropicais da América do Sul, mas também já foi encontrada no Nordeste do Brasil. São animais semi-aquáticos que tem preferência por ambientes de água doce lenta, como lagoas (Fig. 2). Também é bem comum serem encontradas em mangues.

Fig. 2. Sucuri repousando no tronco de uma árvore. Créditos: © Joe McDonald / Animals Animals

Fig. 2. Sucuri repousando no tronco de uma árvore. Créditos: © Joe McDonald / Animals Animals

Diferente de outros répteis, como Tartarugas e Crocodilos, as Sucuris vivem pouco: cerca de 10 anos na natureza e até 30 anos em cativeiro (MILLER, 2004). Esse é um dado importante, pois mostra como esse animal cresce muito em tão pouco tempo.

Sua reprodução consiste na agregação de uma fêmea com até 13 machos (Fig. 3). O acasalamento pode durar semanas e nesse período a fêmea pode acasalar várias vezes com os machos que a cortejam – esses tentam procurar a cloaca da fêmea com o auxílio de suas caudas (RIVAS, 2001). Depois disso, a gestação dura 7 meses e a fêmea tem por volta de 29 filhotes – essa prole não receberá cuidado parental depois do nascimento (GRZIMEK, 2003; RIVAS, 1999).

Fig. 3. Acasalamento de sucuris. Créditos: © Francois Savigny / gettyimages.com

Fig. 3. Acasalamento de sucuris. Créditos: © Francois Savigny / gettyimages.com

Embora tenham as pupilas circulares, as Sucuris são mais ativas próximo à noite (GRZIMEK, 2003). Elas costumam se mover nas primeiras horas mais frias depois do pico de calor do dia.  Podem se alimentar de peixes, jacarés, antas, capivaras e outros animais de grande porte (Fig. 4). Já foi documentado canibalismo nessa espécie também (RIVAS et al., 2000).

Fig. 4. Sucuri engolindo jacaré. Créditos: © Tony Crocetta / Biosphoto

Fig. 4. Sucuri engolindo jacaré. Créditos: © Tony Crocetta / Biosphoto

Por sinal, nunca foram registrados casos de Sucuris devorando pessoas, em toda literatura científica. Ela simplesmente não iria conseguir engolir uma pessoa, devido à diferença de largura entre os ombros e a cabeça, mesmo ela possuindo proporções para matar e talvez até consumir um ser humano. Por isso que o programa Eaten Alive da Discovery Channel, no final de 2014, que prometia mostrar um homem ser engolido por uma Sucuri e depois sair ileso, simplesmente não iria acontecer (e de fato, não aconteceu).

Fig. 5. Naturalista Paul Rosolie segurando sucuri. Créditos: Dicovery Channel

Fig. 5. Naturalista Paul Rosolie segurando sucuri. Créditos: Dicovery Channel

Ao contrário do que filmes e documentários mostram muitas vezes, esses animais não são predadores insaciáveis que precisam matar constantemente para se alimentar, na verdade podem passar várias semanas sem comer nada, o que é bem comum na natureza.

Mesmo sendo enormes, as sucuris não causam graves acidentes a humanos, nem procuram caçar pessoas. Na verdade, já foi comprovado o contrário: sempre que existe contato, esses animais costumam ser atacados e até mesmo mortos, por humanos (BASTOS et al., 2003). Claro, muitos boídeos costumam reagir à presença humana ficando imóveis, emitindo sons da inspiração e expiração vigorosa (o ato de “bufar”) ou até mesmo simulando botes, na esperança de afastar a ameaça. Resumindo, elas não são como as serpentes do cinema, que não têm o menor problema em se aproximar de um grupo de pessoas e aniquilar todas elas (Fig. 6).

Fig. 6. Cena do filme

Fig. 6. Cena do filme “Anacondas: The Hunt for the Blood Orchid”, mostrando uma sucuri monstruosa. Créditos: Fox

A produção cinematográfica acerca dessa espécie pode ser de bom entretenimento para o público, mas suas consequências para a reputação da espécie e consecutiva conservação por parte da sociedade talvez não seja positiva. Com o aumento da ocupação humana nas florestas e o desmatamento, esses animais vêm perdendo seu espaço rapidamente (ATHAYDE, 2007; ALVES, 2007). Talvez seja por esses motivos que é cada vez mais difícil encontrar Sucuris com grandes tamanhos. Por ser um dos maiores predadores das florestas sul-americanas, a Sucuri tem papel-chave no equilíbrio natural desses ecossistemas e a perda de populações dessa espécie pode implicar em consequências incalculáveis.

Texto por: Lucas Araújo de Almeida, bolsista do Nurof-UFC

REFERÊNCIAS

1) ALVES, Rômulo Romeu; PEREIRA FILHO, Gentil Alves. Commercialization and use of snakes in North and Northeastern Brazil: implications for conservation and management. In: Vertebrate Conservation and Biodiversity. Springer Netherlands, 2007. p. 143-159.

2) ATHAYDE, Gustavo Castro. TRATAMENTO DE LESÕES TRAUMÁTICAS EM SUCURI (Eunectes murinus). 2007 BASTOS, Rogério P. et al. Anfíbios da floresta nacional de Silvânia, Estado de Goiás. Stylo gráfica e editora, Goiânia, 2003.

3) BELLOSA, H. Record Snake Fascination. Reptilia (GB), v. 27, p. 28-30, 2003.

4) CHARLES, H. A. Comportamento predatório de serpentes (Boidae) de diferentes hábitos e biometria de crescimento e ecdises de Eunectes murinus Linnaeus, 1758 em laboratório. CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM BIOLOGIA ANIMAL. 2007.

5) GRZIMEK, Bernhard et al. Grzimek’s animal life encyclopedia. Farmington Hills, Michigan: Gale, 2004.

6) GUINESS WORLD RECORDS 2013 – Medusa largest snake ever in captivity http://www.theworldslargestsnake.com/

7) MILLER, Debra L. et al. Cutaneous and pulmonary mycosis in green anacondas (Euncectes murinus). Journal of Zoo and Wildlife Medicine, v. 35, n. 4, p. 557-561, 2004.

8) POUGH, F. H.; HEISER, J. B. A vida dos vertebrados 2a edição. Editora Atheneu, 1999.

9) RIVAS, Jesús A.; BURGHARDT, Gordon M. Understanding sexual size dimorphism in snakes: wearing the snake’s shoes. Animal Behaviour, v. 62, n. 3, p. F1-F6, 2001.

10) RIVAS, Jesús. A. The life history of the green anaconda (Eunectes murinus), with emphasis on its reproductive biology. Unpubl. 1999. Tese de Doutorado. Ph. D. diss., University of Tennessee, Knoxville.

11) RIVAS, Jesús A.; OWENS, R. Y. Eunectes murinus (green anaconda): Cannibalism. Herpetol. Rev, v. 31, n. 1, p. 44-45, 2000.

FONTES

1) Anacondas Org

2) Discovery Channel: Eaten Alive

3) National Geographic – Green Anaconda 

4) Filme: Anaconda, 1997

5) Filme: Anacondas, The Hunt for the Blood Orchid, 2004

Avanços na produção de antivenenos no Brasil: notícias do MedTrop 2015

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A cidade de Fortaleza sediou durante o período de 14 a 17 de Junho de 2015 o 51º. Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop 2015), realizado no Centro de Eventos do Ceará. O evento reuniu especialistas e estudantes de temas diversos de medicina tropical, como doenças infecciosas emergentes, uso racional de antibióticos, enfermidades negligenciadas, novos métodos diagnósticos, e medidas empregadas pelos sistemas de saúde nacionais e internacionais.

Dentre as mesas redondas realizadas durante o evento destacou-se o tema “Acidentes por animais peçonhentos”, trazendo pesquisadores e gestores do Instituto Butantan (SP), Instituto Vital Brazil e Fundação Oswaldo Cruz (RJ). Os convidados proferiram palestras de 20 minutos de duração, discutindo as perspectivas modernas nos tratamentos para picadas de serpentes e artrópodes peçonhentos.

A primeira palestra foi ministrada pela Dra. Fan Hui Wen, médica infectologista e gestora de projetos de pesquisa e produção de antivenenos do Instituto Butantan (SP). Sua apresentação lembrou o histórico de mais de um século de produção de soros antiofídicos no Brasil, a crise do abastecimento de antivenenos nos anos 80, e as metas de autossuficiência na produção brasileira contemporânea. A palestrante destacou o impulso à automação industrial e a padronização na produção de soros nos laboratórios brasileiros a partir dos anos 2000, e os méritos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no controle de qualidade destes produtos. Segundo a Dra. Wen, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera os acidentes por animais peçonhentos como “doenças negligenciadas” e preocupa-se com o aumento da mortalidade em países da África e Ásia, devido à escassez de produtores de soros nesses continentes.

Em seguida, o Dr. Luiz Eduardo Cunha, médico veterinário e vice-diretor do Instituto Vital Brazil (RJ), falou sobre os avanços na produção de antivenenos. Primeiramente revisou as fases de produção tradicional, desde a (1) coleta dos venenos (Fig. 1), (2) injeção em cavalos para obtenção de plasma hiperimune, (3) purificação e formulação, e (4) envase e acondicionamento, e a necessidade de se garantir o bem-estar dos animais envolvidos no processo. Realçou o início dos estudos clínicos no desenvolvimento do soro antiapílico (contra picadas de abelhas), uma vez que os óbitos por picadas de abelha vêm se equiparando proporcionalmente aos óbitos por acidentes ofídicos nas recentes estatísticas epidemiológicas. Como novidade interessante neste cenário, citou pesquisas moleculares na produção de soros sintéticos, utilizando fragmentos de DNA e RNA, que excluiriam os cavalos da fase de produção. Dr. Cunha também destacou o desenvolvimento de kits de diagnóstico rápido para identificar a espécie de serpente envolvida nos acidentes atendidos, aplicando assim o soro específico, evitando falha de tratamento, efeitos colaterais e desperdício de soro.

extração

Fig. 1. Extração de peçonha de Cascavel (Crotalus durissus) realizada no Núcleo Regional de Ofiologia (NUROF-UFC).

Por fim, a Dra. Isabella Fernandes Delgado, vice-diretora do Instituto de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) do Instituto Oswaldo Cruz (RJ), explanou sobre a metodologia utilizada para o controle de qualidade dos antivenenos e demais produtos imunobiológicos da produção nacional, ressaltando a necessidade premente de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias que priorizem o conceito dos 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), reduzindo assim o uso de animais em fase de desenvolvimento e ensaios clínicos de qualidade de produtos do gênero.

Todos os palestrantes relevaram a qualidade dos soros brasileiros e a importância da produção nacional. A mesa redonda sobre o tema atraiu um público superior ao esperado e abriu importante discussão sobre o investimento na produção de soros e atualização constante do pool de venenos requerido para a atividade.


Texto por Roberta Rocha , Médica Veterinária , NUROF – UFC

SITE ÚTIL: Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde – INCQS

NOTÍCIA: Tuatara é pai aos 111 anos de idade

Uma tuatara de cativeiro na Nova Zelândia se tornou pai com 111 anos de idade, após ter encerrado um tratamento de câncer que o deixava hostil em relação a possíveis companheiras. Já esperavam que a tuatara centenária, chamada Henry, estivesse fora do jogo do acasalamento a muito tempo, quando ele foi visto com outra fêmea (Fig. 1), o que resultaria em 11 filhotes.

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Fig. 1. Henry junto com uma tuatara fêmea. Créditos: Lindsay Hazley

Tuataras são répteis nativos da Nova Zelândia que se assemelham a lagartos mas descendem de uma linhagem distinta de répteis que caminharam com dinossauros a 225 milhões de anos. Henry tinha pelo menos 70 anos de idade quando chegou ao museu. Era um “velho rabugento” que atacava as outras tuataras, incluindo fêmeas, até que um tumor foi removido de seus órgãos genitais em 2002, explica Lindsay Hazley, curadora do Museu. Após o tumor ser removido, Henry não apresentou mais o comportamento agressivo.


FONTE: National Geographic

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