Avanços na produção de antivenenos no Brasil: notícias do MedTrop 2015


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A cidade de Fortaleza sediou durante o período de 14 a 17 de Junho de 2015 o 51º. Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop 2015), realizado no Centro de Eventos do Ceará. O evento reuniu especialistas e estudantes de temas diversos de medicina tropical, como doenças infecciosas emergentes, uso racional de antibióticos, enfermidades negligenciadas, novos métodos diagnósticos, e medidas empregadas pelos sistemas de saúde nacionais e internacionais.

Dentre as mesas redondas realizadas durante o evento destacou-se o tema “Acidentes por animais peçonhentos”, trazendo pesquisadores e gestores do Instituto Butantan (SP), Instituto Vital Brazil e Fundação Oswaldo Cruz (RJ). Os convidados proferiram palestras de 20 minutos de duração, discutindo as perspectivas modernas nos tratamentos para picadas de serpentes e artrópodes peçonhentos.

A primeira palestra foi ministrada pela Dra. Fan Hui Wen, médica infectologista e gestora de projetos de pesquisa e produção de antivenenos do Instituto Butantan (SP). Sua apresentação lembrou o histórico de mais de um século de produção de soros antiofídicos no Brasil, a crise do abastecimento de antivenenos nos anos 80, e as metas de autossuficiência na produção brasileira contemporânea. A palestrante destacou o impulso à automação industrial e a padronização na produção de soros nos laboratórios brasileiros a partir dos anos 2000, e os méritos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no controle de qualidade destes produtos. Segundo a Dra. Wen, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera os acidentes por animais peçonhentos como “doenças negligenciadas” e preocupa-se com o aumento da mortalidade em países da África e Ásia, devido à escassez de produtores de soros nesses continentes.

Em seguida, o Dr. Luiz Eduardo Cunha, médico veterinário e vice-diretor do Instituto Vital Brazil (RJ), falou sobre os avanços na produção de antivenenos. Primeiramente revisou as fases de produção tradicional, desde a (1) coleta dos venenos (Fig. 1), (2) injeção em cavalos para obtenção de plasma hiperimune, (3) purificação e formulação, e (4) envase e acondicionamento, e a necessidade de se garantir o bem-estar dos animais envolvidos no processo. Realçou o início dos estudos clínicos no desenvolvimento do soro antiapílico (contra picadas de abelhas), uma vez que os óbitos por picadas de abelha vêm se equiparando proporcionalmente aos óbitos por acidentes ofídicos nas recentes estatísticas epidemiológicas. Como novidade interessante neste cenário, citou pesquisas moleculares na produção de soros sintéticos, utilizando fragmentos de DNA e RNA, que excluiriam os cavalos da fase de produção. Dr. Cunha também destacou o desenvolvimento de kits de diagnóstico rápido para identificar a espécie de serpente envolvida nos acidentes atendidos, aplicando assim o soro específico, evitando falha de tratamento, efeitos colaterais e desperdício de soro.

extração

Fig. 1. Extração de peçonha de Cascavel (Crotalus durissus) realizada no Núcleo Regional de Ofiologia (NUROF-UFC).

Por fim, a Dra. Isabella Fernandes Delgado, vice-diretora do Instituto de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) do Instituto Oswaldo Cruz (RJ), explanou sobre a metodologia utilizada para o controle de qualidade dos antivenenos e demais produtos imunobiológicos da produção nacional, ressaltando a necessidade premente de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias que priorizem o conceito dos 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), reduzindo assim o uso de animais em fase de desenvolvimento e ensaios clínicos de qualidade de produtos do gênero.

Todos os palestrantes relevaram a qualidade dos soros brasileiros e a importância da produção nacional. A mesa redonda sobre o tema atraiu um público superior ao esperado e abriu importante discussão sobre o investimento na produção de soros e atualização constante do pool de venenos requerido para a atividade.


Texto por Roberta Rocha , Médica Veterinária , NUROF – UFC

SITE ÚTIL: Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde – INCQS

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