DOSSIÊ ANACONDA


A Eunectes murinus (Linnaeus 1758), também chamada de Sucuri ou Anaconda (Fig. 1), é uma das serpentes mais conhecidas no mundo, principalmente por ser a antagonista dos filmes de terror da série Anaconda.  Mas será que filmes e até mesmo documentários estão apresentando esse animal de maneira correta, crível, do ponto de vista científico?

Fig. 1. Sucuri. Créditos: © 2003 John White

Fig. 1. Sucuri. Créditos: © 2003 John White

As sucuris pertencem à família Boidae, a mesma das Jiboias e Salamantas, e como todos os membros dessa família, são áglifas (ou seja, não são peçonhentas), matam por constrição, são ovovivíparas e ocupam uma diversidade de ambientes: terra, árvores, rios e lagos (CHARLES, 2007; POUGH, 1999).

Com certeza é a maior serpente das Américas com seus 9,6 metros descritos, mas normalmente chegando a menos de 6 metros – recentemente, a maior que acharam não passava dos 8,45 metros (BELLOSA, 2003). É a segunda maior serpente do mundo, perdendo apenas para a Píton Reticulada (Python reticulatus), uma serpente asiática que pode, de fato, atingir 10 metros na fase adulta – mas, novamente, o maior exemplar vivo tem apenas 7,6 metros (GUINESS, 2013).

Além disso, pode ser encontrada nas florestas tropicais da América do Sul, mas também já foi encontrada no Nordeste do Brasil. São animais semi-aquáticos que tem preferência por ambientes de água doce lenta, como lagoas (Fig. 2). Também é bem comum serem encontradas em mangues.

Fig. 2. Sucuri repousando no tronco de uma árvore. Créditos: © Joe McDonald / Animals Animals

Fig. 2. Sucuri repousando no tronco de uma árvore. Créditos: © Joe McDonald / Animals Animals

Diferente de outros répteis, como Tartarugas e Crocodilos, as Sucuris vivem pouco: cerca de 10 anos na natureza e até 30 anos em cativeiro (MILLER, 2004). Esse é um dado importante, pois mostra como esse animal cresce muito em tão pouco tempo.

Sua reprodução consiste na agregação de uma fêmea com até 13 machos (Fig. 3). O acasalamento pode durar semanas e nesse período a fêmea pode acasalar várias vezes com os machos que a cortejam – esses tentam procurar a cloaca da fêmea com o auxílio de suas caudas (RIVAS, 2001). Depois disso, a gestação dura 7 meses e a fêmea tem por volta de 29 filhotes – essa prole não receberá cuidado parental depois do nascimento (GRZIMEK, 2003; RIVAS, 1999).

Fig. 3. Acasalamento de sucuris. Créditos: © Francois Savigny / gettyimages.com

Fig. 3. Acasalamento de sucuris. Créditos: © Francois Savigny / gettyimages.com

Embora tenham as pupilas circulares, as Sucuris são mais ativas próximo à noite (GRZIMEK, 2003). Elas costumam se mover nas primeiras horas mais frias depois do pico de calor do dia.  Podem se alimentar de peixes, jacarés, antas, capivaras e outros animais de grande porte (Fig. 4). Já foi documentado canibalismo nessa espécie também (RIVAS et al., 2000).

Fig. 4. Sucuri engolindo jacaré. Créditos: © Tony Crocetta / Biosphoto

Fig. 4. Sucuri engolindo jacaré. Créditos: © Tony Crocetta / Biosphoto

Por sinal, nunca foram registrados casos de Sucuris devorando pessoas, em toda literatura científica. Ela simplesmente não iria conseguir engolir uma pessoa, devido à diferença de largura entre os ombros e a cabeça, mesmo ela possuindo proporções para matar e talvez até consumir um ser humano. Por isso que o programa Eaten Alive da Discovery Channel, no final de 2014, que prometia mostrar um homem ser engolido por uma Sucuri e depois sair ileso, simplesmente não iria acontecer (e de fato, não aconteceu).

Fig. 5. Naturalista Paul Rosolie segurando sucuri. Créditos: Dicovery Channel

Fig. 5. Naturalista Paul Rosolie segurando sucuri. Créditos: Dicovery Channel

Ao contrário do que filmes e documentários mostram muitas vezes, esses animais não são predadores insaciáveis que precisam matar constantemente para se alimentar, na verdade podem passar várias semanas sem comer nada, o que é bem comum na natureza.

Mesmo sendo enormes, as sucuris não causam graves acidentes a humanos, nem procuram caçar pessoas. Na verdade, já foi comprovado o contrário: sempre que existe contato, esses animais costumam ser atacados e até mesmo mortos, por humanos (BASTOS et al., 2003). Claro, muitos boídeos costumam reagir à presença humana ficando imóveis, emitindo sons da inspiração e expiração vigorosa (o ato de “bufar”) ou até mesmo simulando botes, na esperança de afastar a ameaça. Resumindo, elas não são como as serpentes do cinema, que não têm o menor problema em se aproximar de um grupo de pessoas e aniquilar todas elas (Fig. 6).

Fig. 6. Cena do filme

Fig. 6. Cena do filme “Anacondas: The Hunt for the Blood Orchid”, mostrando uma sucuri monstruosa. Créditos: Fox

A produção cinematográfica acerca dessa espécie pode ser de bom entretenimento para o público, mas suas consequências para a reputação da espécie e consecutiva conservação por parte da sociedade talvez não seja positiva. Com o aumento da ocupação humana nas florestas e o desmatamento, esses animais vêm perdendo seu espaço rapidamente (ATHAYDE, 2007; ALVES, 2007). Talvez seja por esses motivos que é cada vez mais difícil encontrar Sucuris com grandes tamanhos. Por ser um dos maiores predadores das florestas sul-americanas, a Sucuri tem papel-chave no equilíbrio natural desses ecossistemas e a perda de populações dessa espécie pode implicar em consequências incalculáveis.

Texto por: Lucas Araújo de Almeida, bolsista do Nurof-UFC

REFERÊNCIAS

1) ALVES, Rômulo Romeu; PEREIRA FILHO, Gentil Alves. Commercialization and use of snakes in North and Northeastern Brazil: implications for conservation and management. In: Vertebrate Conservation and Biodiversity. Springer Netherlands, 2007. p. 143-159.

2) ATHAYDE, Gustavo Castro. TRATAMENTO DE LESÕES TRAUMÁTICAS EM SUCURI (Eunectes murinus). 2007 BASTOS, Rogério P. et al. Anfíbios da floresta nacional de Silvânia, Estado de Goiás. Stylo gráfica e editora, Goiânia, 2003.

3) BELLOSA, H. Record Snake Fascination. Reptilia (GB), v. 27, p. 28-30, 2003.

4) CHARLES, H. A. Comportamento predatório de serpentes (Boidae) de diferentes hábitos e biometria de crescimento e ecdises de Eunectes murinus Linnaeus, 1758 em laboratório. CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM BIOLOGIA ANIMAL. 2007.

5) GRZIMEK, Bernhard et al. Grzimek’s animal life encyclopedia. Farmington Hills, Michigan: Gale, 2004.

6) GUINESS WORLD RECORDS 2013 – Medusa largest snake ever in captivity http://www.theworldslargestsnake.com/

7) MILLER, Debra L. et al. Cutaneous and pulmonary mycosis in green anacondas (Euncectes murinus). Journal of Zoo and Wildlife Medicine, v. 35, n. 4, p. 557-561, 2004.

8) POUGH, F. H.; HEISER, J. B. A vida dos vertebrados 2a edição. Editora Atheneu, 1999.

9) RIVAS, Jesús A.; BURGHARDT, Gordon M. Understanding sexual size dimorphism in snakes: wearing the snake’s shoes. Animal Behaviour, v. 62, n. 3, p. F1-F6, 2001.

10) RIVAS, Jesús. A. The life history of the green anaconda (Eunectes murinus), with emphasis on its reproductive biology. Unpubl. 1999. Tese de Doutorado. Ph. D. diss., University of Tennessee, Knoxville.

11) RIVAS, Jesús A.; OWENS, R. Y. Eunectes murinus (green anaconda): Cannibalism. Herpetol. Rev, v. 31, n. 1, p. 44-45, 2000.

FONTES

1) Anacondas Org

2) Discovery Channel: Eaten Alive

3) National Geographic – Green Anaconda 

4) Filme: Anaconda, 1997

5) Filme: Anacondas, The Hunt for the Blood Orchid, 2004

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2 Respostas

  1. Ótimo texto, muito bom para tentar esclarecer este mito de que a sucuri (ou anaconda) possa engolir uma pessoa.

  2. […] libera um feromônio que atrai todos os machos das proximidades ao mesmo tempo (ver também: Anaconda), resultando em grandes ninhos de acasalamento com até 30.000 cobras ao mesmo tempo. E não […]

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