Os maiores répteis da atualidade – Entendendo os Crocodilianos

Todos nós certamente já vimos algum filme, livro, jogo ou documentário onde aparecem esses majestosos répteis – os crocodilianos. E muito provavelmente as primeiras coisas que devem aparecer em nossa mente quando citam eles são os dentes, as garras, a boca ou outra característica que remeta ao seu papel de predador, que é exorbitantemente explorado pela mídia. Entretanto, esses animais possuem diversos hábitos e características interessantes, muitas vezes esquecidas, que você ficará por dentro a partir de agora.

Os crocodilianos pertencem à ordem Crocodylia e são divididos em 3 famílias: a Crocodylidae, dos crocodilos (Fig. 1); Alligatoridae, dos jacarés (Fig. 2) e aligátores (Fig. 3); e Gavialidae, dos Gaviais (Fig. 4). Juntando essas 3 famílias dá um total de apenas 23 espécies. O Brasil apresenta 6 destas espécies, todas jacarés.

Fig.1. Crocodilo (Crocodylus porosus). Crédito: Dan Grange

Fig.1. Crocodilo (Crocodylus porosus). Crédito: Dan Grange

Fig. 2. Jacaré (Caiman yacare). Crédito: Steve Grenard

Fig. 2. Jacaré (Caiman yacare). Crédito: Steve Grenard

Fig. 2.1. Fêmea aligátor com filhote na boca. Créditos: © CC Lockwood / © Animals Animals

Fig. 3. Fêmea aligátor (Alligator mississippiensis) com filhote na boca. Créditos: © CC Lockwood / © Animals Animals

Fig. 3. Gavial (Gavialis gangenticus). Crédito: © Adam Brittom

Fig. 4. Gavial (Gavialis gangenticus). Crédito: © Adam Brittom

Como todos possuem mais ou menos o mesmo formato de corpo, é compreensível se confundir às vezes, mas existem algumas diferenças evidentes.

Os membros da família Gavialidae são os mais fáceis de diferenciar: só existe uma espécie e ela é bem distinta das outras por conta de seu focinho estreito, que é uma adaptação para caçar peixes. Além disso, estão restritos à Índia e ao Nepal (POUGH, 2003).

De modo mais grosseiro, também é possível diferenciar os jacarés e aligátores de crocodilos da mesma maneira; os primeiros possuem o focinho mais largo das três famílias. Já os crocodilos variam o tamanho do focinho, mas normalmente não é tão largo quanto o de jacarés e aligátores e tampouco estreito como de um gavial (POUGH, 2003).

Também é possível aferir que quase todos os animais da família Alligatoridae pertencem as Américas, exceto uma espécie de aligátor (Alligator sinensis) que é encontrada apenas na China. Os crocodilos já ocupam uma maior área, sendo encontrados nas Américas, Ásia, Oceania e África.

Além do mais, o posicionamento dentário também pode ajudar na identificação. Por exemplo, na família Alligatoridae, os dentes da mandíbula não são visíveis quando a boca deles está fechada; já na família Crocodylidae, mesmo com a boca fechada é possível ver os dentes da maxila e mandíbula. A perda de dentes é bastante comum nesses animais, mas não é preocupante pois eles são constantemente repostos (SILVA, 2007).

Fig. 4. Alimentação de um Crocodylus porosus em cativeiro. Observe o tamanho do homem em ralação ao animal. Crédito: © Adam Brittom

Fig. 5. Alimentação de um Crocodylus porosus em cativeiro. Observe o tamanho do homem em ralação ao animal. Crédito: © Adam Brittom

Os crocodilianos são animais ovíparos, carnívoros (Fig. 5) e normalmente ocupam o topo da cadeia alimentar nos ambientes em que vivem. Juntamente com os pássaros, são os únicos sobreviventes do grupo Archosauria (Fig. 6) – o mesmo grupo dos dinossauros e pterossauros, por exemplo (JANKE & ARNASON, 1997).

Fig. 5. Clado Archosauria. Créditos: USP

Fig. 6. Filogenia dos Archosauria. Créditos: USP

São animais de grande porte. Atualmente, os maiores crocodilianos são os crocodilos, e seu maior representante, o Crocodylus porosus, possui seus 6 metros bem relatados na literatura. É interessante saber que no período cretáceo existiam crocodilianos bem maiores, como o Deinosuchus (Fig. 7), que passava dos 12 metros e provavelmente era capaz de predar dinossauros (SCHWIMMER, 2002). Mesmo assim, graças à caça intensiva, muitos crocodilianos atuais não conseguem atingir o tamanho que deveriam alcançar geneticamente (POUGH, 2003). Apesar de serem de grande porte e possuírem características únicas na capacidade de caça e defesa, além de uma considerável inteligência, vários crocodilianos estão na lista de animais ameaçados de extinção, alguns até em estado crítico (IUCN, 2015).

Fig. 6. Reconstrução do Deinosuchus. Créditos: Brian Switek / Natural History Museum of Utah

Fig. 7. Reconstrução do Deinosuchus. Créditos: Brian Switek / Natural History Museum of Utah

Diferente dos crocodilianos do Triássico, que eram mais terrestres, os atuais estão bem adaptados a uma vida semi-aquática em água doce, embora existam outros que toleram altos níveis de salinidade (p.e.: Crocodilus porosus, Fig.1); mesmo assim, eles ainda colocam os ovos em terra seca, como seus ancestrais.

Os crocodilianos possuem uma alimentação muito diversificada. Quando jovens, consumem em sua maioria artrópodes, por conta do tamanho pequeno. Quando mais velhos, possuindo um porte maior e mais força, passam a comer principalmente vertebrados, tais como peixes (Fig. 8), aves e alguns mamíferos de grande porte (SANTOS, 1997).

É possível observar que eles engolem grandes porções de alimentos ou até animais inteiros. Presas pequenas podem ser engolidas inteiras, mas quando estão diante de presas muito grandes, “parcelam” o animal em pedaços menores e levantam a cabeça para conseguir engolir (MCILHENNY, 1935). Até aves e morcegos podem ser capturados em pleno voo, pois alguns crocodilianos podem se impulsionar para fora d’água (COLE, 2002).

Fig. 7. Gavial comendo peixe. Créditos: © Olivier Born / Biosphoto.

Fig. 8. Gavial comendo peixe. Créditos: © Olivier Born / Biosphoto.

Após atingir certo tamanho e idade, a maturidade sexual é alcançada – entretanto, diferente de mamíferos e aves, os crocodilianos continuam a crescer mesmo após atingir a maturidade sexual (WEBB et al, 1978). Após o acasalamento, a fêmea procura terra para depositar os ovos, e algumas espécies ainda cuidarão dos filhotes após a eclosão (Fig. 9), normalmente até eles aprenderem a nadar bem – ou seja, alguns crocodilianos possuem cuidado parental (BRITTON, 1995).

Crocodilo do Nilo (Crocodylus niloticus) fêmea ajudando o filhote a sair do ovo. Créditos: © Anup Shah / naturepl.com

Fig. 9. Crocodilo do Nilo (Crocodylus niloticus) fêmea ajudando o filhote a sair do ovo. Créditos: © Anup Shah / naturepl.com

Como vários outros animais, os crocodilianos podem atacar humanos. Ataques podem ser ocasionados por falta de atenção do animal ou estresse provocado por pessoas (HADDAD JR, 2008). Entretanto, existem vários outros fatores de risco, sendo o principal deles a ocupação de pessoas nos ambientes naturais desses animais. Existem ainda casos de pessoas que nadaram deliberadamente em águas habitadas por crocodilianos ou que tiveram contato com esses animais após o consumo de álcool (MEKISIC, 1991).

Boa parte dos acidentes envolvendo crocodilianos poderiam ser evitados tomando precauções adequadas, envolvendo principalmente a parte de educar pessoas em relação a esses grandes répteis (BRITTON, 1995). Para casos mais extremos, onde pessoas precisam dividir o ambiente com esses animais, adota-se uma medida de relocação de animais que chegam muito perto de vilas ou cidades (WALSH & WHITEHEAD, 1993). Isso ainda não é o ideal, mas é suficientemente bom para continuarmos a viver sem prejudicar tanto esses animais, que são predadores de topo de cadeia (Fig. 10), possuindo um importante papel na regulação de suas comunidades.

Crocodilo do Nilo adulto (Crocodylus niloticus). Créditos: © Paul Hobson / www.flpa-images.co.uk

Fig. 10. Crocodilo do Nilo adulto (Crocodylus niloticus). Créditos: © Paul Hobson / http://www.flpa-images.co.uk

Texto por: Lucas Araújo de Almeida, bolsista do NUROF-UFC

FONTES 

1) Usando a árvore para classificação (USP) – acessado 18/08/2015

REFERÊNCIAS

1) Janke, A., & Arnason, U. (1997). The complete mitochondrial genome of Alligator mississippiensis and the separation between recent archosauria (birds and crocodiles). Molecular biology and evolution14(12), 1266-1272.

2) Santos, S. A. (1997). Dieta e nutrição de crocodilianos. Embrapa-CPAP, Corumbá, 59.

3) McIlhenny, E. A. (1935). The alligator’s life history.

4) de Campos NetoI, M. F., StolfII, H. O., & JuniorIII, V. H. (2013). Ataque de jacaré a pescador no Pantanal de Mato Grosso (Brasil): relato de caso. Diagn Tratamento18(1), 21-23.

5) Haddad Jr, V. (2008). Animais aquáticos potencialmente perigosos no Brasil: guia médico e biológico. Editora Roca.

6) Mekisic, A. P., & Wardill, J. R. (1991). Crocodile attacks in the Northern Territory of Australia. The Medical journal of Australia157(11-12), 751-754.

7) Schwimmer, D. R. (2002). King of the crocodylians: the paleobiology of Deinosuchus. Indiana University Press.

8) Walsh, B., & Whitehead, P. J. (1993). Problem crocodiles, Crocodylus porosus, at Nhulunbuy, Northern Territory: an assessment of relocation as a mangaement strategy. Wildlife Research, 20(1), 127-135.

9) Cole, H. (2002). Crocodiles. Oxford University Press.

10) Silva, J. C. R. (2007). Tratado de animais selvagens-medicina veterinária. Editora Roca.

11) IUCN – The IUCN Red List of Threatened Species. –  acessado 18/08/2015

12) Crocodilians. Natural History & Conservation. Adam Britton., 1995. – acessado 18/08/2015 

13) Webb, G. J. W., Messel, H., Crawford, J., & Yerbury, M. J. (1978). Growth Rates of Crocodylus Porosus (Reptilia: Crocodilia) From Arnhem Land, Northern Australia. Wildlife Research, 5(3), 385-399.

NOTÍCIA: Descobertas primeiras espécies de anfíbios realmente peçonhentos!!

As espécies de pererecas Corythomantis greeningi da Caaatinga e Aparasphenodon brunoi (Fig1) da Mata Atlântica, são as primeiras espécies conhecidas de anfíbios que apresentam mecanismos especializados para liberação de toxinas.

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Fig.1. A) Aparasphenodon brunoi e B) Corythomantis greeningi. Imagem: Carlos Jared

Não é novidade que pererecas secretem substâncias tóxicas através de glândulas presentes na pele, usando como defesa química contra predadores, mas o curioso é que as duas espécies acima apresentam espinhos ósseos (Fig2) em suas cabeças que permitem a inoculação da peçonha em outros animais.

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Fig.2. Crânios com projeções ósseas de C) Aparasphenodon brunoi e D) Corythomantis greeningi. Imagem: Carlos Jared

As espécies em questão não apresentam predadores conhecidos na natureza, o que faz sentido após o resultado do estudo. Apesar de serem conhecidas há décadas, talvez séculos, as espécies apresentam pouco de sua biologia documentada. A descoberta foi feita por acaso por Carlos Jared, pesquisador do Laboratório de Biologia Celular do Instituto Butantan, que foi ferido por um exemplar de C. greenengi, espécie com toxina mais branda. O acidente promoveu uma dor intensa que irradiou do local do ferimento para todo o membro superior. A toxina agiu por cinco horas, e por a equipe estar longe de qualquer auxílio médico, o pesquisador ferido apenas teve que suportar até que a dor cessasse. A espécie que apresenta a toxina mais potente, A. brunoi, pode matar mais de 300.000 camundongos e 80 homens adultos, e sua peçonha é considerada mais letal do que as de espécies de serpentes do gênero Bothrops, as Jararacas.

As toxinas não são liberadas por meios ativos, como no caso de outros animais peçonhentos como as serpentes; elas precisam sofrer algum estímulo externo para efetuar o envenenamento (Fig3). Os pequenos espinhos nos “rostos” de ambas as espécies perfuram a pela do próprio animal quando são pressionados, levando as secreções das glândulas vizinhas, que são abundantes na pele, e injetando em quem estiver manuseando sem o devido cuidado ou em predadores que tentem deglutir a perereca.

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Fig.3. Visão macro e microscopia das glândulas e do espinho ósseo transmissor de peçonha em Corythomantis greeningi. Imagem: Carlos Jared

“Descobrir uma perereca verdadeiramente peçonhenta foi inesperado, e encontrar pererecas com secreções mais venenosas que as víboras mortais do gênero Bothrops (da jararaca) foi surpreendente”, Argumenta Edmund Brodie, da Universidade Estadual de Utah, nos EUA, um dos autores do estudo publicado nesta quinta-feira na revista acadêmica Current Biology.


Fontes:  Sci-News.com & Newscientist.

REFERÊNCIA:

Jared et al., Venomous Frogs Use Heads as Weapons, Current Biology (2015), http://dx.doi.org/10.1016/ j.cub.2015.06.061

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