O Dragão que não cospe fogo


Certamente é muito interessante ter uma literatura repleta de histórias de dragões gigantes, que dominavam castelos, guardavam tesouros, perseguiam princesas e aterrorizavam pessoas. Atualmente, nós temos dragões – mas eles não cospem fogo, não voam e correm risco de extinção.

O Dragão de Komodo (Varanus komoedensis, Ouwens 1912) é um lagarto de um arquipélago indonésio da família Varanidae, o maior dentre todas as espécies de lagarto (Fig. 1).  Ele pertence ao gênero Varanus, tendo suas espécies conhecidas como lagartos monitores. São animais terrestres, em sua maioria, mas também existem alguns aquáticos e outros arbóreos. Alguns ainda podem ocupar todos os três ambientes dependendo da situação ou fase de vida (LOSOS & GREENE, 1988).

Dragão de Komodo em seu habitat natural. Créditos: © Adrian Warren / www.ardea.com

Fig. 1. Dragão de Komodo em seu habitat natural. Créditos: © Adrian Warren / http://www.ardea.com

Eles foram vistos pela primeira vez durante em 1910 por um piloto de um avião que sofreu um acidente no mar de Komodo. Em 1912 foi organizada uma expedição à ilha e capturaram alguns exemplares (OUWENS, 1912).

São os maiores e mais pesados lagartos, passando dos dois metros de comprimento e pesando mais de 100 kg (DE JONG, 1927). Nas ilhas onde habitam ocupam uma região com vegetação savânica, e quando mais novos, vivem em árvores (Fig. 2), só depois dos oito meses passam a viver no solo porque ficam muito grandes (MURPHY et al., 2015).

Fig. 2. Dragão de Komodo com quatro dias de idade repousando sobre um tronco. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Fig. 2. Dragão de Komodo com quatro dias de idade repousando sobre um tronco. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

A época de acasalamento é entre Julho e agosto (Fig. 3). Quando preparadas para acasalar, fêmeas emitem um aroma nas fezes que os machos conseguem detectar. Para acasalar, os machos entram em um ritual de combate pelas fêmeas (AUFFENBERG, 1981).

Fig. 3. Dragão de Komodo macho avaliando uma fêmea menor. Créditos: © Tui De Roy / gettyimages.com

Fig. 3. Dragão de Komodo macho avaliando uma fêmea menor. Créditos: © Tui De Roy / gettyimages.com

Após o acasalamento, a fêmea coloca por volta de 30 ovos (Fig. 4). A eclosão só ocorre cerca de oito meses depois (AUFFENBERG, 1981). A mortalidade é muito alta, pois os filhotes são ameaçados por animais maiores e outros dragões adultos. Por isso, eles vão para as árvores o quanto antes, aumentando suas chances de sobrevivência (MURPHY et al., 2015). Existe ainda a reprodução partenogenética nessa espécie, no qual a fêmea produz filhotes sem a fertilização do macho (WATTS et al. 2006).

Fig. 4. Dragão de Komodo fêmea enterrada, prestes a colocar os ovos. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Fig. 4. Dragão de Komodo fêmea enterrada, prestes a colocar os ovos. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Os Dragões de Komodo estão marcados como vulneráveis (IUCN, 2015). Provavelmente existem menos de 4000 no mundo, dos quais 1000 deles seriam fêmeas maduras (WATTS et al., 2006).

Infelizmente, da pouca divulgação que existe acerca desse lagarto, a maior parte dela é dedicada a mostrar o quão perigoso e “fatal” eles são para os humanos, e não o quão ameaçadores nós somos para eles (Fig. 5).

Fig. 5. Dragão de Komodo imobilizado. Créditos: Dita Alangkara / AP

Fig. 5. Dragão de Komodo imobilizado. Créditos: Dita Alangkara / AP

Não vamos ignorar o fato: devido à inadequada ocupação de pessoas em ambientes florestais, acidentes com esses animais passaram a ser periódicos na Indonésia. Mas essa não é uma exclusividade dos Dragões de Komodo, mas de qualquer animal.

Até pouco tempo acreditava-se que a saliva dos Dragões de Komodo carrega um coquetel de bactérias potencialmente fatal para suas presas, e isso ainda é visto em muitos documentários sobre essa espécie. Porém, um estudo conduzido por FRY e colaboradores (2009) mostrou que esses animais possuem uma glândula que produz veneno, tornando-os animais peçonhentos.

Na verdade, a combinação de dentes afiados com esse veneno torna a predação dos Dragões de Komodo incrível. Tudo que eles precisam é morder a presa – a partir daí, ele segue-a até que ela pereça, seja por perda de sangue decorrida do estrago na mordida ou pela ação do veneno, que prejudica a coagulação e aumenta a pressão sanguínea. Aí ele está livre para comê-la (Fig 6). Pode parecer esquisito, mas tal como a alimentação de outros animais carnívoros (leões, crocodilos, tubarões), é a alimentação do Dragão de Komodo um dos pontos que mais atrai turistas que buscam ver esses animais (WALPOLE, 2001).

Fig. 6. Dragões de Komodo se alimentando de um búfalo (um animal muito maior e pesado que eles). Créditos: © Conrad Maufe / naturepl.com

Fig. 6. Dragões de Komodo se alimentando de um búfalo (um animal muito maior e pesado que eles). Créditos: © Conrad Maufe / naturepl.com

No seu cardápio estão inclusos uma variedade de animais, incluindo búfalos, cervos, cabras, suínos, aves, peixes, alguns primatas, outros Dragões de Komodo e também carcaças dos mais variados animais (Fig. 7); os mais jovens podem comer grilos, lagartos pequenos, ovos e até pequenos mamíferos (MILLER, 2003).

Dragões de Komodo se alimentando da carcaça de um golfinho. Créditos: © Reinhard Dirscherl / www.flpa-images.co.uk

Dragões de Komodo se alimentando da carcaça de um golfinho. Créditos: © Reinhard Dirscherl / http://www.flpa-images.co.uk

O Dragão de Komodo também é capaz de engolir grandes porções de carne (Fig. 8) como as serpentes, graças ao seu crânio flexível e uma forte mandíbula – para efeito de comparação, a mordida do Dragão de Komodo é 6,5 vezes mais fraca que a do Crocodylus porosus (FRY et al., 2006). Além disso, normalmente comem todo o animal, desperdiçando pouco.

Fig. 8. Dragão de Komodo engolindo um javali selvagem. Créditos: © B. Jones & M. Shimlock / www.photoshot.com

Fig. 8. Dragão de Komodo engolindo um javali selvagem. Créditos: © B. Jones & M. Shimlock / http://www.photoshot.com

Infelizmente, com a contínua ocupação de pessoas no âmago do arquipélago indonésio, a tendência da população de Dragões de Komodo é só diminuir. A perda de habitat ainda constitui um dos problemas mais sérios para os animais em geral, sendo um grande predador ou não; combinado a isso, ainda ocorre a caça ilegal (contribuindo para a biopirataria) e a depleção de presas (vários animais predados pelo Dragão de Komodo são usados por nós, principalmente como gado ou animais domésticos).

Dragão de komodo próximo de habitações humanas. Note que o ambiente onde essas pessoas estão inseridas tornam esses encontros inevitáveis. Créditos: © Jurgen Freund / naturepl.com

Fig. 9. Dragão de komodo próximo à habitações humanas. Note que o ambiente onde essas pessoas estão inseridas tornam esses encontros inevitáveis. Créditos: © Jurgen Freund / naturepl.com

Diante de uma vasta obra de sensacionalismo desfavorecendo os Dragões de Komodo, répteis e vários outros animais carnívoros ou não, é difícil defende-los e explicar a importância desses animais, além do simples direito à sobrevivência. Mas nesse pequeno texto pudemos observar que eles retiram carcaça de animais mortos do ambiente, são importantes para o ecoturismo e participam na regulação de suas comunidades, realizando o controle populacional de várias espécies. Além de tudo isso, falamos de milhões de anos de evolução que esculpiram a forma e as habilidades desse grande réptil, tudo isso podendo ser ameaçado por poucos anos de ocupação humana.

Fig. 10. Dragão de Komodo na Ilha Rinca. Créditos: © M. Watson / www.ardea.com

Fig. 10. Dragão de Komodo na Ilha Rinca. Créditos: © M. Watson / http://www.ardea.com

Texto por: Lucas Araújo de Almeida, bolsista do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

1)Ouwens, P. A. (1912). On a large Varanus species from the island of Komodo. Bull Jard Bot Buitenzorg6, 1-3.

2)De Jong, J. K. (1927). LXX.—Varanus komodoensis, Ouwens. Journal of Natural History19(113), 589-591.

3)Murphy, J. B., Ciofi, C., de La Panouse, C., & Walsh, T. (Eds.). (2015).Komodo dragons: biology and conservation. Smithsonian Institution.

4)Fry, B. G., Wroe, S., Teeuwisse, W., van Osch, M. J., Moreno, K., Ingle, J., … & Norman, J. A. (2009). A central role for venom in predation by Varanus komodoensis (Komodo Dragon) and the extinct giant Varanus (Megalania) priscus. Proceedings of the National Academy of Sciences106(22), 8969-8974.

5)Walpole, M. J. (2001). Feeding dragons in Komodo National Park: a tourism tool with conservation complications. Animal Conservation4(1), 67-73.

6)Auffenberg, W. (1981). The behavioral ecology of the Komodo monitor. University Press of Florida.

7)Watts, P. C., Buley, K. R., Sanderson, S., Boardman, W., Ciofi, C., & Gibson, R. (2006). Parthenogenesis in Komodo dragons. Nature444(7122), 1021-1022

8)Miller, J. (2003). The Komodo Dragon. The Rosen Publishing Group.

9)Losos, J. B., & Greene, H. W. (1988). Ecological and evolutionary implications of diet in monitor lizards. Biological Journal of the Linnean Society35(4), 379-407.

Uma resposta

  1. Como é bom ver o Blog funcionando novamente. Parabéns pessoal!!

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