Rã-touro americana: alternativa à produção de carne ou ameaça à conservação?

Você já comeu carne de rã? Quem já provou afirma que seu gosto lembra o de frango.

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Fig.1: Rã-touro americana sendo devorada por serpente. © Michael Krabs 

Considerado um prato exótico, refinado e saboroso, é igualmente muito nutritivo e saudável. A carne de rã (Fig.2) é recomendada por médicos e nutricionistas, pois sua taxa de gordura é de 3%. É a única carne produzida em cativeiro que possui os 10 aminoácidos básicos para o ser humano e com alta digestibilidade por ser formada por moléculas de cadeias curtas. É especialmente indicada para a alimentação de crianças que possuem rejeição alimentar à proteína animal (Lima e Agostinho, 1988).

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Fig.2: Prato feito a base de carne de rã-touro. © Nelikz | Dreamstime.com

Os subprodutos do abate, embora pouco explorados, são bem diversificados. O fígado, por exemplo, é usado na fabricação de patê, considerado muito saboroso. A pele curtida é usada na confecção de roupas e artesanato, enquanto a gordura visceral é aproveitada na fabricação de cremes para a indústria cosmética. Na medicina, o intestino é utilizado como linha cirúrgica interna (catgut) e a pele in natura, na cicatrização de feridas provocadas por queimaduras de segundo e terceiro graus. Este curativo biológico foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília – UnB (Carraro, 2008).

O hábito de degustar carne de rã é muito antigo. Heródoto, um filósofo grego nascido nos anos de 484-425 a.C., já mencionava em seus escritos que a carne de rã era servida pelos gregos como fina iguaria aos nobres em comemorações da mais distinta e elevada sociedade. Nas migrações europeias do século XIX, italianos, franceses, alemães, suíços, belgas e outros povos difundiram o hábito do consumo da carne de rã como alimento nos Estados Unidos, Canadá, Venezuela, Chile e Argentina. No Brasil, este costume não se deve exclusivamente ao imigrante europeu, uma vez que nossos índios já utilizavam os anfíbios em sua alimentação (Lima, 2004). O primeiro país a explorar rãs visando à comercialização de sua carne foi Cuba em 1917 (Lima e Agostinho, 1995). Esta atividade baseou-se na rã-touro (Lithobates catesbeianus), espécie nativa da América do Norte (Fig.3) que foi introduzida na ilha, onde se adaptou bem e rapidamente se expandiu em todo seu território (Carraro, 2008). No Brasil, a criação comercial de rãs teve início em 1935 com a vinda do técnico canadense Tom Cyrill Harrison, que trouxe os primeiros 300 casais de rãs-touro gigantes a fim de instalar o primeiro ranário, batizado de Aurora e localizado no Rio de Janeiro. (Longo, 1987; Ferreira et al., 2002).

 

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Fig.3: rã-touro americana (Lithobates catesbianus). © Thomas Marent

A rã-touro é a mais utilizada na ranicultura devido ao seu crescimento rápido, alto número de ovos por postura e facilidade de manejo. Por isso, ela foi introduzida em muitas regiões da América Latina e Europa com a finalidade de ser criada comercialmente (Carraro, 2008). Eventuais fugas ou solturas desses animais possibilitaram a invasão de diversos ambientes naturais. Hoje em dia, a rã-touro é considerada uma das cem piores espécies invasoras do mundo devido a sua alta capacidade de competir por recursos alimentares, predar uma grande diversidade de organismos e carrear patogenicidades altamente prejudiciais a outros organismos (Cunha e Delariva, 2009). Este último é outro grande problema ambiental envolvendo o seu comércio global com finalidades para consumo, bem como para compra e venda como pets.

A rã está disseminando um fungo letal que contribui para o declínio dos anfíbios em todo o mundo em uma taxa alarmante (Skerratt et al. 2007; Crawford et al. 2010; Schloegel, 2012). A rã-touro norte-americana é resistente ao fungo quitrídio e acaba sendo um excelente vetor da doença. Este fungo é inócuo para os seres humanos, no entanto, os seres humanos não tem sido inócuos para os anfíbios, que estão desaparecendo a olhos vistos! No caso específico dessa rã americana, não se pode negar sua importância econômica, inclusive na área médica. No entanto, os impactos ambientais para a fauna nativa devem ser levados em consideração na hora do manejo desses bichos. A atividade de ranicultura deve ser realizada com muito critério e responsabilidade, além de ser passível de licenciamento pelos órgãos ambientais competentes. Quanto aos danos já causados pelo manejo inadequado, só resta adotar políticas de conservação sérias e imediatas para conter a expansão geográfica desses animais.

Por: Patrícia de Menezes Gondim, colaboradora do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARRARO, K. C. 2008. Ranicultura: um bom negócio que contribui para a saúde. Rev. FAE, Curitiba, 11:111-118.

CRAWFORD, A.J.; LIPS, K.R.; BERMINGHAM, E. 2010. Epidemic disease decimates amphibian abundance, species diversity, and evolutionary history in the highlands of central Panama. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 107:13777-13782.

CUNHA, E. R.; DELARIVA, R. L. 2009. Introdução da Rã-touro, Lithobates catesbeianus (SHAW, 1802): uma revisão. SaBios: Rev. Saúde e Biol., 4:34-46.

FERREIRA, C.M.; PIMENTA, A.G.C.; PAIVA NETO, J.S. 2002. Introdução à ranicultura. Boletim Técnico do Instituto de Pesca, São Paulo, 33:1-15.

LIMA, S. L. et al. 2004. Manejo de anfigranja. Viçosa (MG): CPT.

LIMA, S. L.; AGOSTINHO, C. A. 1995. A tecnologia da criação de rãs. 2.ed. Viçosa (MG): Imprensa Universitária.

LIMA, S. L.; AGOSTINHO, C. A. 1988. A criação de rãs. Rio de Janeiro: Globo. (Coleção do Agricultor).

LONGO, A.D. 1987. Manual de Ranicultura: uma nova opção de pecuária. 1. ed. Rio de Janeiro: Ediouro do campo.

SCHLOEGEL, L. M. et al. 2012. Novel, panzootic and hybrid genotypes of amphibian chytridiomycosis associated with the bullfrog trade. Molecular Ecology, 21:5162-5177.

SKERRATT, L.F. et al. 2007. Spread of chytridiomycosis has caused the rapid global decline and extinction of frogs. EcoHealth, 4, 125-134.

Anatomia topográfica em serpentes: olhando além das escamas


As serpentes, como todos os répteis, possuem uma pele resistente, seca e revestida de escamas queratinizadas, que oferecem proteção contra o dessecamento e agressões (Hickman et al., 2003). A disposição das escamas (folidose) pode ser avaliada tanto na quantidade quanto nos tipos e formas, auxiliando na identificação taxonômica das espécies. As escamas ventrais, também chamadas de placas ventrais (Figura 01), são particularmente bastante utilizadas em estudos de anatomia topográfica de serpentes. Trata-se de posicionar os órgãos internos em relação ao intervalo das escamas ventrais que eles ocupam. Analogamente às placas de sinalização de trânsito, as placas ventrais nos dão o endereço do estômago, do fígado, do coração, dos rins e demais órgãos (Figura 02). O conhecimento prévio da localização topográfica do órgão de interesse tem grande utilidade prática no tratamento veterinário e em dissecações quando, por exemplo, auxilia em procedimentos cirúrgicos e aplicação de medicamentos.

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Fig.1: Vista ventral de Bothrops erythromelas evidenciando escamas ventrais. Foto por Patrícia Gondim

As escamas ventrais também levam a estudos ecomorfológicos de serpentes. No trabalho de Gondim et al. (2016), realizado por membros do NUROF-UFC, os autores estabeleceram  a anatomia topográfica para uma espécie de jararaca endêmica da Caatinga (acesso ao artigo). Com o nome científico de Bothrops erythromelas, ela é conhecida popularmente como jararaca-da-seca por ocorrer somente nesse bioma. Os pesquisadores constataram que a posição relativa do coração nessa espécie é semelhante à encontrada para outras espécies terrestres de Viperidae (Seymour, 1987; Gartner et al., 2010), família a qual pertencem as jararacas, cascavéis e surucucus. Estudos realizados com diferentes membros dessa família mostraram que o coração é posicionado mais posteriormente nas espécies terrestres e mais anteriormente nas arborícolas. Este é um padrão geral para as serpentes, pois essas diferenças refletem estratégias adaptativas aos efeitos particulares da gravidade nesses hábitats (Lillywhite, 1988; Aveiro-Lins et al., 2006; Guimarães et al., 2013).

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Fig.2: Vista ventral de B. erythromelas após dissecação evidenciando estômago, que nesta espécie está localizado entre as escamas ventrais 70 a 89. Foto por Patrícia Gondim.

Por: Patrícia de Menezes Gondim, membro do NUROF-UFC

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AVEIRO-LINS, G.; ROCHA-BARBOSA, O.; SALOMÃO, M. G.; PUORTO, G.; LOGUERCIO, M. F. C. 2006. Topographical anatomy of the Blunthead Tree snake, Imantodes cenchoa (Linnaeus, 1758) (Colubridae: Xenodontinae). International Journal of Morphology, Temuco; 24: 43-48.

GARTNER, G. E. A.; HICKS, J. W.; MANZANI, P. R; ANDRADE, D. V.; ABE, A. S & WANG, T.; SECOR, S. M.; GARLAND T. JR. 2010. Phylogeny, ecology, and heart position in snakes. Physiological and biochemical Zoology, Chicago; 83 (1): 43-54.

GONDIM, P. M.; RODRIGUES, J. F. M.; BORGES-LEITE, M. J.; BORGES-NOJOSA, D. M. 2016. Topographic anatomy and sexual dimorphism of Bothrops erythromelas Amaral, 1923 (Squamata: Serpentes: Viperidae). Herpetozoa, 28 (3/4): 133 – 140.

GUIMARÃES, M.; GAIARSA, M. P.; CAVALHERI, H. B. 2013. Morphological adaptations to arboreal habitats and heart position in species of the neo tropical whipsnakes genus Chironius. Acta Zoologica:Morphology and Evolution, Oxford; 95 (3): 341-346.

HICKMAN, JR. C. P.; ROBERTS, L. S.; LARSON, A. 2003. Princípios Integrados de Zoologia. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan S.A. 846p.

LILLYWHITE, H. B.1988. Snakes, blood circulation and gravity. Scientific American, New York; 256: 92-98.

SEYMOUR, R. S. 1987. Scaling of cardiovascular physiology in snakes. American Zoologist, Lawrence; 27: 97-109.

 

 

 

 

 

 

 

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