O veneno da Cobra-coral azul (Calliophis bivirgatus)


 

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Calliophis bivirgatus | © Tom Charlton

 

A ameaçadoramente bela Cobra-coral azul se alimenta de outras serpentes, incluindo outras serpentes ofiófagas, como os gêneros Bungarus e Ophiophagus. Para imobilizar suas presas essa serpente utiliza uma peçonha extremamente desagradável.

Encontrada no Sudeste Asiático, Calliophis bivirgatus caracteriza-se pela coloração vermelho chamativa da cabeça e cauda, e pelas linhas azuis brilhantes que percorrem o comprimento do corpo. Em um novo artigo publicado na revista científica Toxins, pesquisadores da Universidade de Queensland e várias outras instituições descrevem o único e mortal veneno dessa espécie – uma toxina que proporciona um grande choque no sistema fisiológico de suas presas.

A espécie é de interesse para anatomistas e toxicólogos no que diz respeito há evolução e diversificação do sistema de produção de venenos no grupo das serpentes, pois juntamente com a congênere C. intestinalis, apresentam alongadas glândulas de veneno (Fig. 1) que se estendem até um quarto do comprimento do corpo.

 

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Fig. 1: Setas indicam glândulas especializadas na produção e estocagem de veneno em Calliophis bivirgatus. Foto retirada do artigo.

De importância médica, apesar de poucos casos de acidentes com humanos envolvendo a espécie serem confirmados. Responsável por pelo menos uma fatalidade humana, e suspeitas de ter ocasionado pelo menos mais uma. Não há anti-soro para a picada da espécie.

Quase imediatamente depois de ser mordido, a vítima entra em um estado catatônico agonizante, com seus músculos presos em plena flexão. O veneno faz com que todos os nervos disparem simultaneamente, provocando espasmos no corpo inteiro. Paralisado, o animal pode ser posteriormente deglutido pela serpente.

Pode parecer cruel, mas a evolução equipou essa serpente com esse veneno particularmente poderoso por uma razão: este predador altamente especializado gosta de caçar outras cobras peçonhentas, que são tipicamente muito rápidas e também excepcionalmente perigosas.

Os cientistas já viram esse tipo de toxina antes, mas nunca em uma cobra, muito menos em qualquer outra espécie de vertebrado. Alguns animais, como alguns escorpiões e aranhas, desenvolveram toxinas semelhantes. O molusco gastrópode Conus geographus, por exemplo, injeta um tipo semelhante de toxina nos peixes, fazendo com que eles entrem em uma paralisia instantânea, deixando os músculos completamente tensos como em um espasmo parecido com tétano.

O veneno da Cobra-coral azul faz praticamente a mesma coisa, e os cientistas dizem que é um bom exemplo de evolução convergente (onde uma característica similar emerge de forma independente em diferentes espécies). Uma vez dentro do corpo, a toxina faz com que todos os nervos dentro do corpo de um animal liguem simultaneamente, fazendo com que o animal entre em um estado de dormência ou congelamento. Os pesquisadores referem-se a este estado como paralisia espástica, ao contrário da paralisia flácida induzida por outro veneno de cobra.

O veneno de C. bivirgatus mantém as toxinas do canal de sódio abertas, bloqueando o fechamento do canal que terminaria a transmissão do nervo e permitiria que o músculo voltasse ao estado de repouso.

As toxinas nas serpentes e outros grupos surgiram como uma forma rápida de subjugar suas presas, impedindo que estas causem danos à serpente na alimentação. Nos répteis do grupo toxicofera iniciais, os dentes pré-existentes eram suficientes para a causar uma ferida, permitindo a entrega de veneno por diferença de pressão através da “mastigação” e só posteriormente dentições mais especializadas evoluíram nos grupos. 

Ironicamente, este veneno apelidado de Calliotoxina poderia ser usado na farmacologia para desenvolver novos medicamentos. Os cientistas estão agora particularmente interessados em sua capacidade de agir como um analgésico em seres humanos.

Por: John A. Andrade, membro NuRof-UFC

REFERÊNCIAS:

GIZMODO   acessado 03.11.2016

Yang, D.C. et al: The Snake with the Scorpion’s Sting: Novel Three-Finger Toxin Sodium Channel Activators from the Venom of the Long-Glanded Blue Coral Snake (Calliophis bivirgatus)., Toxins 2016, 8, 303. (doi: 10.3390/toxins8100303 )

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