É importante conservar as serpentes? Como a educação formal, contato prévio e percepção influenciam na interação do homem com as serpentes

Será que é eficaz pensar em conservação sem levar em conta as relações existentes entre as espécies animais e as comunidades humanas?  O estudo dessas relações parece ser um caminho cada vez mais importante na adoção de medidas efetivas de conservação (Alves 2012). A relação dos homens com alguns grupos de animais pode ser conflituosa, como exemplos desses grupos podemos citar aranhas, ratos, morcegos e serpentes. As serpentes têm sido historicamente perseguidas e mortas pelos homens em diversos países, chegando até mesmo a causar a diminuição de populações de espécies desse grupo em alguns locais (Figura 01). Recentemente, alguns estudos buscaram entender melhor a relação entre os homens e as serpentes no Brasil, focando seus esforços principalmente em aspectos descritivos dessa relação e em áreas rurais (Fernades Ferreira et al., 2011; Fita et al., 2010). Pouquíssimos abordaram essa relação testando hipóteses com as possíveis explicações para essa relação conflituosa.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Recentemente, colaboradores do NUROF-UFC publicaram um artigo na revista cientifica internacional Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine e trouxeram contribuições no sentindo de entender melhor a relação entre os homens e as serpentes em um grande centro urbano do nordeste brasileiro. Nesse trabalho, foram colhidas informações de 1142 visitantes do NUROF-UFC, localizado em Fortaleza, durante quatro anos (2010-2013) através dos projetos de educação ambiental desenvolvidos no núcleo. Dentre as informações colhidas, estavam dados sociodemográficos, como idade, sexo e escolaridade, além de perguntas referentes à percepção das pessoas ao se deparar com serpentes, o nível de medo em relação a esses répteis e se os visitantes tinham tido algum contato prévio com esses animais, seja na natureza, em ambientes urbanos ou em zoológicos.

Entre os resultados da pesquisa, os cientistas encontraram que quanto maior o nível de escolaridade dos entrevistados menos percepções negativas eles tinham sobre as serpentes, demonstrando a importância da educação formal na maneira como as pessoas percebem esses animais (Pinheiro et al., 2016). Além disso, foi mostrado que a percepção negativa das pessoas em relação às serpentes está associada à importância que elas dão à conservação destes animais. O que quer dizer que pessoas com percepções negativas em relação às serpentes tendem a não considerar importante ações para a conservação desses animais. Outro resultado do estudo foi que pessoas com algum tipo de contato prévio apresentaram menos medo e menos percepções negativas das serpentes. Os pesquisadores também encontraram que mulheres apresentaram mais medo e percepções negativas em relação às serpentes do que os homens.

As conclusões do estudo são importantes para entendermos melhor a relação entre os homens e as serpentes. Além de servir de base para adoção de medidas conservacionistas e de educação ambiental tendo como possíveis alvos prioritários pessoas com baixos níveis de escolaridade através de atividades que levem o público a interagir com esses animais.

Para mais informações acesse o artigo completo (Acesso Aberto – Open Access) disponível no link:  https://ethnobiomed.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13002-016-0096-9

 

Por Luan Pinheiro, colaborador do NUROF-UFC.

Referências

Alves RRN. 2012. Relationships between fauna and people and the role of ethnozoology in animal conservation. Ethnobiology Conservation. 1:1–69.

Fernandes-Ferreira H, Cruz R, Borges-Nojosa DM, Alves RRN. 2011. Crenças associadas a serpentes no estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Sitientibus. 11:153–63.

Fita DS, Costa-Neto EM, Schiavetti A. 2010. “Offensive” snakes: cultural beliefs and practices related to snakebites in a Brazilian rural settlement. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine. 6:13.

Pinheiro LT, Rodrigues JFM, Borges-Nojosa DM. 2016. Formal education, previous interaction and perception influence the attitudes of people toward the conservation of snakes in a large urban center of northeastern Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 12: 25. DOI 10.1186/s13002-016-0096-9

 

 

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