Os cágados sociais da Amazônia

Os cágados Podocnemis expansa (FIGURA 01), chamados de Tartaruga-da-Amazônia, são uma espécie de quelônios quase ameaçada de extinção no Brasil1, por conta da caça para diversos fins, como o medicinal2, por exemplo. Apesar disso, a espécie se encontra em menor perigo de extinção nos outros países da América Latina em que também está presente, como Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela3.

Nick Gordon - Podocnemis expansa

Figura 01. Podocnemis expansa, cágado conhecido como “tartaruga-da-amazônia”. Fonte: Nick Gordon, via Arkive.org.

Em sua temporada de fazer ninhos, as tartarugas-da-amazônia se comunicam debaixo d’água através de sons, a fim de que todos os cágados do grupo sincronizem suas atividades durante a época de nidificação4. A agregação de indivíduos diminui a chance de um predador capturá-los5, aumentando o sucesso reprodutivo do grupo. Além disso, a interação entre as fêmeas nos agregados pode permitir que elas obtenham informações sobre potenciais áreas para fazer seus ninhos (FIGURA 02), através do conhecimento dos movimentos e decisões de outras fêmeas6.

Jim Clare - Podocnemis expansa

Figura 02. Fêmea de Podocnemis expansa colocando seus ovos. Fonte: Jim Clare, via Arkive.org.

Ferrara et al. (2014) identificaram seis tipos de sons feitos pelas tartarugas-da-amazônia durante o período de nidificação, que se encaixaram nas seguintes categorias comportamentais: i) migração; ii) agregação em frente das praias de nidificação antes de saírem da água; iii) nidificação à noite; iv) espera na água sem haver nidificação ou após a nidificação; v) espera da chegada dos filhotes recém eclodidos (FIGURA 03). Os autores no final de seu artigo ressaltam que não sabem o significado exato dos sons que os cágados fazem, só sabem que eles fazem os sons quando estão fazendo diferentes atividades4.

Gerardo J. González - Podocnemis expansa

 Figura 03. Filhote de Podocnemis expansa. Fonte: Gerardo J. González, via Arkive.org.

Os autores presumem ainda que existem vocalizações que são usadas para estimular o nascimento e o deslocamento em grupo após o nascimento, já que foi visto que os filhotes vocalizam nos ovos e em diversos outros momentos. Também foi visto que as fêmeas vocalizam em resposta aos seus filhotes, e que ambos migram juntos pelo rio vocalizando em grandes grupos. Segundo os autores, esta é uma forma de proteger os filhotes de predadores e guiá-los aos habitats em que se alimentam4.

Já que esses cágados se comunicam em sons subaquáticos, qual será o impacto causado pelos barulhos dos humanos, principalmente os oriundos de embarcações motorizadas? Será que a formação dos grupos e a sua migração após o nascimento dos filhotes é afetada pelo barulho humano? Essas e muitas outras dúvidas ainda não possuem respostas.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

1 VOGT, R. C.; FAGUNDES, C. K.; BATAUS, Y. S. L.; BALESTRA, R. A. M.; BATISTA, F. R. W.; UHLIG, V. M.; SILVEIRA, A. L.; BAGER, A.; BATISTELLA, A. M.; SOUZA, F. L.; DRUMMOND, G. M.; REIS, I. J.; BERNHARD, R.; MENDONÇA, S. H. S. T.; LUZ, V. L. F. 2015. Avaliação do Risco de Extinção de Podocnemis expansa (Schweigger, 1812) no Brasil. Processo de avaliação do risco de extinção da fauna brasileira. ICMBio. Disponível em: <http://www.icmbio.gov.br/portal/faunabrasileira/estado-de-conservacao/7431-repteis-podocnemis-expansa-tartaruga-da-amazonia2 >.

2 ALVES, R. R. N.; SANTANA, G. G. Use and commercialization of Podocnemis expansa (Schweiger 1812) (Testudines: Podocnemididae) for medicinal purposes in two communities in North of Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, 2008. Disponível em: <https://ethnobiomed.biomedcentral.com/track/pdf/10.1186/1746-4269-4-3 >.

3 Tortoise & Freshwater Turtle Specialist Group. Podocnemis expansa. The IUCN Red List of Threatened Species, 1996 (Errata publicada em 2016). Disponível em: <http://www.iucnredlist.org/details/17822/0 >.

4 FERRARA, C. R.; VOGT, R. C.; SOUSA-LIMA, R. S.; TARDIO, B. M. R.; BERNARDES, V. C. D. Sound Communication and Social Behavior in an Amazonian River Turtle (Podocnemis expansa). Herpetologica, v. 70, n. 2, p. 149-156, 2014. Disponível em: < http://www.bioone.org/doi/abs/10.1655/HERPETOLOGICA-D-13-00050R2 >.

5 HUGHES, D. A.; RICHARD, J. D. The nesting of the Pacific ridley turtle Lepidochelys olivacea on Playa Nancite, Costa Rica. Marine Biology, v. 24, p. 97-107, 1974. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007%2FBF00389343 >.

6 DOODY, J. S.; SIMS, R. A.; GEORGES, A. Gregarious Behavior of Nesting Turtles (Carettochelys insculpta) Does Not Reduce Nest Predation Risk. Copeia, v. 2003, n. 4, p. 894-898, 2003. Disponível em: <http://www.bioone.org/doi/10.1643/h203-012.1 >.

 

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Um lagarto corajoso do olho maior que a barriga

O lagarto Tropidurus torquatus, de ampla distribuição nas áreas abertas do Brasil (RODRIGUES, 1987), é um predador diurno que geralmente usa o comportamento de “senta-e-espera” para se alimentar de suas presas, indo algumas das vezes atrás da sua presa de forma ativa (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998)(FIGURA 01). T. torquatus se alimenta principalmente de formigas, mas também ingere frequentemente besouros, abelhas, cupins e aranhas, bem como flores e frutos (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998; CARVALHO et al. 2007).

Carlos Cândido - T. torquatus

Figura 01. Tropidurus torquatus, uma espécie de lagarto de ampla distribuição nas áreas abertas do Brasil. Fonte: Carlos Cândido, Biólogo.

Porém, em 2014, um Tropidurus torquatus de porte grande foi visto tentando se alimentar de uma falsa-coral (Phalotris matogrossensis), no município de Poconé, no estado de Mato Grosso (SANTOS et al., 2017)(FIGURA 02). Essa serpente possui hábitos noturnos e habita áreas abertas e galerias subterrâneas do sudoeste do Brasil ao oeste do Paraguai (LEYNAUD; BUCHER, 1999 apud LEMA; D’AGOSTINI; CAPPELARI, 2005; VANZOLINI, 1948 apud LEMA; D’AGOSTINI; CAPPELARI, 2005), e se alimenta de invertebrados, sapos, anfisbenas e lagartos (BERNARDE; MACEDO, 2006 apud SANTOS et al., 2017; SOUZA, 2014 apud SANTOS et al., 2017), justamente o tipo de animal que a levou a morte.

Pedro Guilherme - T. torquatus 2

Figura 02. O corajoso Tropidurus torquatus e sua predadora Phalotris matogrossensis, que praticamente virou sua presa. Fonte: Pedro Guilherme Alves Rodrigues, coautor da publicação original, presente no periódico Herpetology Notes.

Segundo Santos et al. (2017), o lagarto correu atrás da falsa-coral, que não percebeu sua presença, e a abocanhou e balançou vigorosamente até que a mesma falecesse. Porém, foi só depois disso que o lagarto notou que a mesma não seria um alimento adequado, e a soltou. Os autores sugerem que o lagarto possivelmente soltou a serpente porque percebeu que ela era grande demais e não conseguiria comê-la.

Apesar de ter sido a primeira vez que se é registrado formalmente que T. torquatus se alimenta de serpentes na natureza, já havia sido descrito que a espécie se alimenta de vertebrados de pequeno porte, como outros lagartos (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998). Outra espécie de seu gênero, Tropidurus hispidus, também já foi observada se alimentando de pequenos vertebrados, como sapos (VITT et al., 1996), outros indivíduos de T. hispidus (SALES et al., 2011) e até mesmo pássaros (GUEDES et al., 2017). Por isso, Santos et al. (2017) supõem que seja possível que outras espécies de Tropidurus de maior porte também se alimentem de pequenas serpentes. Qual será o próximo lagarto corajoso que iremos encontrar?

Para saber mais detalhes sobre o fato, e para ver as imagens com melhor qualidade, você pode consultar o artigo original aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

BERNARDE, P. S.; MACEDO-BERNARDE, L. C. Phalotris matogrossensis (False coral snake). Diet. Herpetological Review, v. 37, p. 234, 2006.

CARVALHO, André L. G. de; SILVA, Hélio R. da; ARAÚJO, Alexandre F. B. de; ALVES-SILVA, Ricardo; SILVA-LEITE, Roberta R. da. Feeding ecology of Tropidurus torquatus (Wied)(Squamata, Tropiduridae) in two areas with different degrees of conservation in Marambaia Island, Rio de Janeiro, Southeastern Brazil. Revista Brasileira de Zoologia, v. 24, n. 1, p. 222-227, 2007.

GUEDES, Thaís; MIRANDA, Fernanda; MENESES, Luciano; PICHORIM, Mauro; RIBEIRO, Leonardo. Avian predation attempts by Tropidurus hispidus (Spix, 1825)(Reptilia, Squamata, Tropiduridae). Herpetology Notes, v. 10, p. 45-47, 2017.

LEMA, T. de; D’AGOSTINI, F.; CAPPELLARI, L. Nova espécie de Phalotris, redescrição de P. tricolor e osteología craniana (Serpentes, Elapomorphinae). Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre, v. 95, p. 65-78, 2005.

LEYNAUD, Gerardo C.; BUCHER, Enrique H. La fauna de serpientes del Chaco sudamericano: diversidad, distribución geográfica y estado de conservación. Academia Nacional de Ciencias, v. 98, 1999.

RODRIGUES, Miguel Trefaut. Sistemática, ecologia e zoogeografia dos Tropidurus do grupo torquatus ao sul do Rio Amazonas (Sauria, Iguanidae). Arquivos de Zoologia, v. 31, n. 3, p. 105-230, 1987.

SALES, Raul Fernandes Dantas de; Jorge, Jaqueiuto da Silva; RIBEIRO, Leonardo Barros; FREIRE, Eliza Maria Xavier. A case of cannibalism in the territorial lizard Tropidurus hispidus (Squamata: Tropiduridae) in Northeast Brazil. Herpetology Notes, v. 4, p. 265-267, 2011.

SANTOS, Arthur de Sena; MENESES, Afonso Santiago de Oliveira; HORTA, Gabriel de Freitas; RODRIGUES, Pedro Guilherme Alves; BRANDÃO, Reuber Albuquerque. Predation attempt of Tropidurus torquatus (Squamata, Tropiduridae)on Phalotris matogrossensis (Serpentes, Dipsadidae). Herpetology Notes, v. 10, p. 341-343, 2017.

SOUZA, Dianne Cassiano de; MORAIS, Drausio Honório; SILVA, Reinaldo José da. Phalotris matogrossensis (Mato Grosso burrowing snake) diet. Herpetological Review, p. 712, 2014.

 TEIXEIRA, R. L.; GIOVANELLI, M. Ecology of Tropidurus torquatus (Sauria: Tropiduridae) of a sandy coastal plain of Guriri, São Mateus, ES, southeastern Brazil. Revista Brasileira de Biologia, v. 59, n. 1, p. 11-18, 1999.

VANZOLINI, Paulo Emílio. Notas sobre os ofídios e lagartos da Cachoeira de Emas, no município de Pirassununga, Estado de São Paulo. Revista Brasileira de Biologia, v. 8, n. 3, p. 377-400, 1948.

VITT, Laurie J.; ZANI, Peter A.; CALDWELL, Janalee P. Behavioural ecology of Tropidurus hispidus on isolated rock outcrops in Amazonia. Journal of Tropical Ecology, v. 12, n. 1, p. 81-101, 1996.

 

Uma grande surpresa – A adaga secreta das serpentes

As serpentes configuram-se como um grupo bastante diversificado, possuindo aproximadamente 3600 espécies catalogadas (UETZ, 2016). E de forma semelhante à sua grande diversidade, estes animais apresentam vários tipos de comportamentos de defesa demonstrados em situações naturais a partir da presença de um competidor ou predador.

Segundo Scudder & Brughardt (1983) e Carvalho & Nogueira (1988), ao se sentirem ameaçadas as serpentes podem:

  1. Buscar se esconder, ocultando a cabeça; fingindo-se de morta (tanatose) ou fugindo da ameaça.
  2. Quando o agressor se encontra mais próximo, as serpentes podem utilizar táticas de intimidação como, por exemplo, achatamento dorsoventral do corpo ou apenas da região do pescoço seguida ou não da elevação da cabeça.
  3. Retrair a parte anterior do corpo fazendo um “S” (armar bote), abrir bastante a boca, bufar ou desferir “falsos botes” (botes sem inoculação de peçonha).
  4. E por fim, se a ameaça ignorar esses comportamentos e ultrapassar certa distância de segurança da serpente, então ela irá picar ou morder.
Psomophis joberti - Samuel Ribeiro

Figura 01. Indivíduo adulto da Cobra-cadarço, Psomophis joberti. Fonte: Samuel Ribeiro, do blog Anfíbios e Répteis do Brasil.

Além desses já citados, um comportamento, no mínimo, peculiar foi observado em indivíduos de Cobra-Cadarço (Psomophis joberti) (FIGURA 01), serpente com ampla distribuição na região norte, nordeste e centro-oeste do Brasil (UETZ, 2016). O gênero dessa serpente é caracterizado por indivíduos pequenos e terrestres com corpo delgado, cauda curta e que termina em uma escama modificada na forma de espinho (FIGURA 02)(MYERS; CADLE, 1994).  Nos municípios de São Gonçalo do Amarante e Itapipoca, Ceará, indivíduos de P. joberti demonstraram um comportamento de defesa diferente após serem coletados, eles dobraram o seu corpo e pressionaram o espinho caudal contra a mão do coletor, causando dor leve, mas sem danos a pele (LIMA et al., 2010).

Psomophis joberti - Paula Hanna Valdujo

Figura 02. A Cobra-cadarço (Psomophis joberti) é uma serpente pequena, marrom pálida com coloração de cabeça escura contrastante. Note a ponta da cauda com formato de espinho. Fonte: Paula Hanna Valdujo, retirado de The Reptile Database.

Apesar de ser inusitado para essa espécie, a presença de espinho caudal e desse mesmo comportamento tem sido observado também em serpentes dos gêneros Typhlops (RICHMOND, 1955), Farancia e Carphophis (ERNST; ERNST, 2003 apud LIMA et al., 2010). Surpreendente, não é mesmo?! Isso demonstra que ainda conhecemos pouco sobre a ecologia das serpentes, e que ainda temos muito a aprender sobre os seus fascinantes hábitos comportamentais.

Texto escrito por Bruno Guilhon, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, M. A.; NOGUEIRA, F. Serpentes da área urbana de Cuiabá, Mato Grosso: aspectos ecológicos e acidentes ofídicos associados. Cadernos de Saúde Pública, v. 14, n. 4, p. 753–763, 1998.

LIMA, D. C.; BORGES-NOJOSA, D. M.; BORGES-LEITE, M. J.; PASSOS, D. Psomophis joberti (Sand snake). Defensive behavior. Herpetological Review, v. 41, n.1, p. 96-97, 2010.

MYERS, C. W.; CADLE, J. E. A New Genus for South American Snakes Related to Rhadinaea obtusa Cope (Colubridae) and Resurrection of Taeniophallus Cope for the “Rhadinaea” brevirostris Group. American Museum Novitates, v. 3102, n. 3102, p. 33 pp, 1994.

RICHMOND, N. D. The Blind Snakes (Typhlops) of Bimini, Bahama Islands, British West Indies, with Description of a New Species. American Museum Novitates, n. 1734, p. 1–8, 1955.

SCUDDER, R. M.; BURGHARDT, G. M. A comparative study of defensive behavior in three sympatric species of water snakes (Nerodia). Ethology, v. 63, n. 1, p. 17-26, 1983.

UETZ, P. How many species?. The Reptile Database, 2016. Disponível em: <http://www.reptile-database.org/db-info/SpeciesStat.html >. Acesso em: 07 jul. 2017.

 

O primeiro registro de homem adulto devorado por serpente e ponderações necessárias

Python reticulatus Wikimedia Commons

Fonte: Wikimedia Commons.

A imagem de uma cobra gigante engolindo um ser humano adulto sempre esteve presente no imaginário popular e, por consequência, virou cena de diversos filmes de ampla circulação. Apesar de estar bem difundido entre as pessoas, este fenômeno nunca foi oficialmente registrado e até então era considerado impossível, ainda mais depois de que todos os registros fotográficos de serpentes abertas com humanos dentro foram comprovados como obras de charlatanismo.

Acontece que, em março de 2017, na região de Sulawesi, na Indonésia, o corpo do agricultor AkbarSalubiro foi encontrado dentro de uma Píton Reticulada (Python reticulatus (FIGURA 01)), após esta ser caçada e aberta pelos moradores da região. Um vídeo da situação foi gravado e disponibilizado na internet (FIGURA 02). A serpente possuía aproximadamente 7 metros de comprimento e já fora vista pelos agricultores no entorno da plantação de palma na qual o agricultor devorado trabalhava. A região de Sulawesi já era conhecida pela presença de pítons de grande porte, em especial porque as plantações geralmente se desenvolvem à custa da destruição do território dessas serpentes.

Python reticulatus Arkive.org

Figura 01. A Píton Reticulada, Python reticulatus, é uma serpente nativa do sudeste da Ásia e seu entorno. Fonte: Arkive.org.

As pítons dividem com as sucuris o título de maiores serpentes do mundo, pertencendo a uma píton o título de primeiro lugar com seus mais de 13 metros registrados e tendo como maior representante das sucuris um indivíduo registrado pelo Marechal Rodon com 11,63 metros. Esses animais não-peçonhentos levam suas presas ao óbito através da constrição. Devido ao seu grande tamanho, tanto as sucuris quanto as pítons são capazes de abater presas de peso considerável, como bezerros, porcos, cachorros e cabras. Animais silvestres também são alimento desses grandes répteis, como veados, capivaras, porcos do mato e até jacarés.

Essas gigantes, assim como todas as outras serpentes, podem abocanhar e deglutir presas que são de maior diâmetro que as próprias predadoras, isso devido a uma série de adaptações anatômicas. Essas especificidades das serpentes vão desde o dentário com sínfise tendinosa frouxa (ausência de queixo na mandíbula) e que se articula com o crânio através de cartilagens móveis, até a presença da proteína elastina em seus tecidos que por isso se esticam de forma notável. Essas adaptações dão às serpentes a sua singularidade no hábito alimentar, contudo, sem o contato direto com o animal predado, as serpentes são incapazes de dilatar seus tecidos e abrir muito a sua boca por conta própria. É necessário o contato progressivo com o corpo cilíndrico do animal para que o mesmo imponha às serpentes a força necessária para tais modificações. Essa é uma das principais razões que tira o ser humano da dieta das serpentes: A aguda transição do pescoço para os ombros impossibilita a dilatação progressiva da boca da serpente.

É nesse ponto que está a singularidade desta notícia. As invasões aos territórios das pítons pelas plantações de palma tanto deixam suas presas escassas quanto subtraem sua área de vida e expõem os agricultores à vulnerabilidade. A população da região de Sulawesi é particularmente de baixa estatura, o que pode ter contribuído para a deglutição da serpente. Já havia registro de homens adultos mortos por píton, mas pela primeira vez algum foi devorado.

Vídeo Python reticulatus

Figura 02. Momento do vídeo que mostra a píton sendo cortada por moradores do local para verificação do seu conteúdo estomacal. Fonte: BBC/West Sulawesi Police.

Muito nos toca a morte de AkbarSalubiro, mas é fundamental que ponderemos que incidentes como esse são o resultado de nossas atividades inconsequentes. Além de invadirmos os habitats desses animais e removermos suas presas dos ecossistemas, ainda matamos sistematicamente qualquer serpente que aparece em nossa vista por considerarmos elas perigosas. Episódios como esse aqui relatado, por mais que seja singular como registro histórico, gera uma série de assassinatos de serpentes em vários países. As serpentes são peça fundamental nas dinâmicas ecossistêmicas e a sua caça pode trazer sérios impactos ambientais.

Texto escrito por Gabriel Aguiar, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

National Geographic. How This 23-Foot Python Swallowed a Man Whole. Disponível em: <http://news.nationalgeographic.com/2017/03/python-snake-swallows-man-whole-indonesia >.

BBC. How did an Indonesian python eat a man? Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-asia-39427462 >.

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