Uma grande surpresa – A adaga secreta das serpentes

As serpentes configuram-se como um grupo bastante diversificado, possuindo aproximadamente 3600 espécies catalogadas (UETZ, 2016). E de forma semelhante à sua grande diversidade, estes animais apresentam vários tipos de comportamentos de defesa demonstrados em situações naturais a partir da presença de um competidor ou predador.

Segundo Scudder & Brughardt (1983) e Carvalho & Nogueira (1988), ao se sentirem ameaçadas as serpentes podem:

  1. Buscar se esconder, ocultando a cabeça; fingindo-se de morta (tanatose) ou fugindo da ameaça.
  2. Quando o agressor se encontra mais próximo, as serpentes podem utilizar táticas de intimidação como, por exemplo, achatamento dorsoventral do corpo ou apenas da região do pescoço seguida ou não da elevação da cabeça.
  3. Retrair a parte anterior do corpo fazendo um “S” (armar bote), abrir bastante a boca, bufar ou desferir “falsos botes” (botes sem inoculação de peçonha).
  4. E por fim, se a ameaça ignorar esses comportamentos e ultrapassar certa distância de segurança da serpente, então ela irá picar ou morder.
Psomophis joberti - Samuel Ribeiro

Figura 01. Indivíduo adulto da Cobra-cadarço, Psomophis joberti. Fonte: Samuel Ribeiro, do blog Anfíbios e Répteis do Brasil.

Além desses já citados, um comportamento, no mínimo, peculiar foi observado em indivíduos de Cobra-Cadarço (Psomophis joberti) (FIGURA 01), serpente com ampla distribuição na região norte, nordeste e centro-oeste do Brasil (UETZ, 2016). O gênero dessa serpente é caracterizado por indivíduos pequenos e terrestres com corpo delgado, cauda curta e que termina em uma escama modificada na forma de espinho (FIGURA 02)(MYERS; CADLE, 1994).  Nos municípios de São Gonçalo do Amarante e Itapipoca, Ceará, indivíduos de P. joberti demonstraram um comportamento de defesa diferente após serem coletados, eles dobraram o seu corpo e pressionaram o espinho caudal contra a mão do coletor, causando dor leve, mas sem danos a pele (LIMA et al., 2010).

Psomophis joberti - Paula Hanna Valdujo

Figura 02. A Cobra-cadarço (Psomophis joberti) é uma serpente pequena, marrom pálida com coloração de cabeça escura contrastante. Note a ponta da cauda com formato de espinho. Fonte: Paula Hanna Valdujo, retirado de The Reptile Database.

Apesar de ser inusitado para essa espécie, a presença de espinho caudal e desse mesmo comportamento tem sido observado também em serpentes dos gêneros Typhlops (RICHMOND, 1955), Farancia e Carphophis (ERNST; ERNST, 2003 apud LIMA et al., 2010). Surpreendente, não é mesmo?! Isso demonstra que ainda conhecemos pouco sobre a ecologia das serpentes, e que ainda temos muito a aprender sobre os seus fascinantes hábitos comportamentais.

Texto escrito por Bruno Guilhon, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, M. A.; NOGUEIRA, F. Serpentes da área urbana de Cuiabá, Mato Grosso: aspectos ecológicos e acidentes ofídicos associados. Cadernos de Saúde Pública, v. 14, n. 4, p. 753–763, 1998.

LIMA, D. C.; BORGES-NOJOSA, D. M.; BORGES-LEITE, M. J.; PASSOS, D. Psomophis joberti (Sand snake). Defensive behavior. Herpetological Review, v. 41, n.1, p. 96-97, 2010.

MYERS, C. W.; CADLE, J. E. A New Genus for South American Snakes Related to Rhadinaea obtusa Cope (Colubridae) and Resurrection of Taeniophallus Cope for the “Rhadinaea” brevirostris Group. American Museum Novitates, v. 3102, n. 3102, p. 33 pp, 1994.

RICHMOND, N. D. The Blind Snakes (Typhlops) of Bimini, Bahama Islands, British West Indies, with Description of a New Species. American Museum Novitates, n. 1734, p. 1–8, 1955.

SCUDDER, R. M.; BURGHARDT, G. M. A comparative study of defensive behavior in three sympatric species of water snakes (Nerodia). Ethology, v. 63, n. 1, p. 17-26, 1983.

UETZ, P. How many species?. The Reptile Database, 2016. Disponível em: <http://www.reptile-database.org/db-info/SpeciesStat.html >. Acesso em: 07 jul. 2017.

 

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