Serpente marinha apresenta melanismo em resposta a poluição


 

Nigel Marsh - Emydocephalus annulatus

A serpente marinha Emydocephalus annulatus. Fonte: Nigel Marsh, via Arkive.org.

A serpente marinha Emydocephalus annulatus está apresentando melanismo nas baías poluídas da ilha de Nova Caledônia, localizada no Oceano Pacífico (FIGURA 01)1. Segundo Shine et al. (2003), as vantagens térmicas oferecidas pelo melanismo não são aplicáveis às serpentes aquáticas1. Então qual seria a causa para esse melanismo nessas áreas poluídas? Sabe-se que elementos-traço, como metais em baixas concentrações, se ligam à melanina. No estudo de Chatelain et al. (2014), por exemplo, viu-se que a produção de penas mais escuras em pássaros aumenta a sua capacidade de se livrar de poluentes2. Também se sabe que serpentes e lagartos em habitats poluídos também acumulam esses elementos-traço e os expulsam de seu corpo através da sua ecdise, também chamada de muda, que é produzida quando sua pele é trocada3,4.

Mark O'Shea - Emydocephalus annulatus

Figura 01. Dois indivíduos de Emydocephalus annulatus, sendo o de cima portador de melanismo e o de baixo não. Fonte: Mark O’Shea, via Arkive.org.

Para verificar se o melanismo nessas serpentes estaria as livrando de poluentes danosos, Goiran et al. (2017) quantificaram elementos-traço nas ecdises de E. annulatus de ambientes urbanos e de outros ambientes, e nas ecdises de peles mais escuras e de mais claras. Após as quantificações, foi visto que existem maiores concentrações de elementos-traço nas ecdises de serpentes marinhas dos ambientes urbanos e nas ecdises de serpentes de peles mais escuras. Os autores também observaram que a excreção dos elementos-traço é melhorada pelo aumento da frequência das trocas de pele de E. annulatus com melanismo. A partir desses dados, os autores chegaram à conclusão de que o melanismo presente nessas serpentes marinhas de áreas poluídas facilita a excreção de elementos-traço através da muda de pele5.

O melanismo nessas serpentes é uma adaptação muito importante para garantir sua sobrevivência nesses ambientes naturais afetados pela atividade humana. É incrível que essa população de E. annulatus da Nova Caledônia tenha conseguido se adaptar e sobreviver à poluição do local em que vivem. Mas e as outras espécies que não conseguiram se adaptar a tempo e se extinguiram sem nem sequer termos chegado a conhecê-las? Você já parou para pensar na quantidade de animais que são afetados por nossas atividades? Quais são as consequências ecológicas locais e globais causadas pela nossa poluição? Fica a reflexão.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

1 SHINE, R.; SHINE, T.; SHINE, B. Intraspecific habitat partitioning by the sea snake Emydocephalus annulatus (Serpentes, Hydrophiidae): the effects of sex, body size, and colour pattern. Biological Journal of the Linnean Society, v. 80, n. 1, p. 1-10, 2003. Disponível em: <https://academic.oup.com/biolinnean/article/80/1/1/2636133/Intraspecific-habitat-partitioning-by-the-sea >.

2 CHATELAIN, M.; GASPARINI, J.; JACQUIN, L.; FRANTZ, A. The adaptive function of melanin-based plumage coloration to trace metals. Biology letters, v. 10, n. 3, p. 20140164, 2014. Disponível em: <http://rsbl.royalsocietypublishing.org/content/10/3/20140164.short >.

3 HOPKINS, W. A.; ROE, J. H.; SNODGRASS, J. W.; JACKSON, B. P.; KLING, D. E.; ROWE, C. L.; CONGDON, J. D. Nondestructive indices of trace element exposure in squamate reptiles. Environmental Pollution, v. 115, n. 1, p. 1-7, 2001. Disponível em: <https://www.researchgate.net/profile/John_Roe4/publication/11762476_Nondestructive_indices_of_trace_element_exposure_in_squamate_reptiles/links/0deec539da7a658eaf000000.pdf > .

4 LOUMBOURDIS, N. S. Heavy metal contamination in a lizard, Agama stellio stellio, compared in urban, high altitude and agricultural, low altitude areas of North Greece. Bulletin of environmental contamination and toxicology, v. 58, n. 6, p. 945-952, 1997. Disponível em: <https://link.springer.com/article/10.1007%2Fs001289900426?LI=true >.

5 GOIRAN, C.; BUSTAMANTE, P.; SHINE, R.. Industrial Melanism in the Seasnake Emydocephalus annulatus. Current Biology, v. 27, n. 16, p. 2510-2513, 2017. Disponível em: <http://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(17)30810-2 >.

 

 

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