É importante conservar as serpentes? Como a educação formal, contato prévio e percepção influenciam na interação do homem com as serpentes

Será que é eficaz pensar em conservação sem levar em conta as relações existentes entre as espécies animais e as comunidades humanas?  O estudo dessas relações parece ser um caminho cada vez mais importante na adoção de medidas efetivas de conservação (Alves 2012). A relação dos homens com alguns grupos de animais pode ser conflituosa, como exemplos desses grupos podemos citar aranhas, ratos, morcegos e serpentes. As serpentes têm sido historicamente perseguidas e mortas pelos homens em diversos países, chegando até mesmo a causar a diminuição de populações de espécies desse grupo em alguns locais (Figura 01). Recentemente, alguns estudos buscaram entender melhor a relação entre os homens e as serpentes no Brasil, focando seus esforços principalmente em aspectos descritivos dessa relação e em áreas rurais (Fernades Ferreira et al., 2011; Fita et al., 2010). Pouquíssimos abordaram essa relação testando hipóteses com as possíveis explicações para essa relação conflituosa.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Recentemente, colaboradores do NUROF-UFC publicaram um artigo na revista cientifica internacional Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine e trouxeram contribuições no sentindo de entender melhor a relação entre os homens e as serpentes em um grande centro urbano do nordeste brasileiro. Nesse trabalho, foram colhidas informações de 1142 visitantes do NUROF-UFC, localizado em Fortaleza, durante quatro anos (2010-2013) através dos projetos de educação ambiental desenvolvidos no núcleo. Dentre as informações colhidas, estavam dados sociodemográficos, como idade, sexo e escolaridade, além de perguntas referentes à percepção das pessoas ao se deparar com serpentes, o nível de medo em relação a esses répteis e se os visitantes tinham tido algum contato prévio com esses animais, seja na natureza, em ambientes urbanos ou em zoológicos.

Entre os resultados da pesquisa, os cientistas encontraram que quanto maior o nível de escolaridade dos entrevistados menos percepções negativas eles tinham sobre as serpentes, demonstrando a importância da educação formal na maneira como as pessoas percebem esses animais (Pinheiro et al., 2016). Além disso, foi mostrado que a percepção negativa das pessoas em relação às serpentes está associada à importância que elas dão à conservação destes animais. O que quer dizer que pessoas com percepções negativas em relação às serpentes tendem a não considerar importante ações para a conservação desses animais. Outro resultado do estudo foi que pessoas com algum tipo de contato prévio apresentaram menos medo e menos percepções negativas das serpentes. Os pesquisadores também encontraram que mulheres apresentaram mais medo e percepções negativas em relação às serpentes do que os homens.

As conclusões do estudo são importantes para entendermos melhor a relação entre os homens e as serpentes. Além de servir de base para adoção de medidas conservacionistas e de educação ambiental tendo como possíveis alvos prioritários pessoas com baixos níveis de escolaridade através de atividades que levem o público a interagir com esses animais.

Para mais informações acesse o artigo completo (Acesso Aberto – Open Access) disponível no link:  https://ethnobiomed.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13002-016-0096-9

 

Por Luan Pinheiro, colaborador do NUROF-UFC.

Referências

Alves RRN. 2012. Relationships between fauna and people and the role of ethnozoology in animal conservation. Ethnobiology Conservation. 1:1–69.

Fernandes-Ferreira H, Cruz R, Borges-Nojosa DM, Alves RRN. 2011. Crenças associadas a serpentes no estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Sitientibus. 11:153–63.

Fita DS, Costa-Neto EM, Schiavetti A. 2010. “Offensive” snakes: cultural beliefs and practices related to snakebites in a Brazilian rural settlement. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine. 6:13.

Pinheiro LT, Rodrigues JFM, Borges-Nojosa DM. 2016. Formal education, previous interaction and perception influence the attitudes of people toward the conservation of snakes in a large urban center of northeastern Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 12: 25. DOI 10.1186/s13002-016-0096-9

 

 

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Picadas de cobras e outros bichos – O papel do CEATOX no atendimento a acidentes com animais peçonhentos

Muitas pessoas se perguntam para onde ir quando são picadas por cobra, escorpião ou aranha. Antes de qualquer coisa, cuidados imediatos: lavar o local com água e sabão, pôr o paciente em repouso e oferecer-lhe água a cada hora. Rapidamente, levar o paciente a uma unidade de saúde especializada.

Em Fortaleza, o público dispõe do atendimento do Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX), que funciona no primeiro andar do Hospital Instituto Dr. José Frota (IJF), no bairro Centro. O CEATOX recebe e trata casos de acidentes por animais peçonhentos, envenenamentos e intoxicações. O centro funciona em regime de plantão 24 horas, sete dias por semana, orientando sobre as medidas imediatas de socorro às vítimas através do telefone (85) 3255.5050. Os plantonistas do CEATOX também orientam os profissionais de outras unidades de saúde, na capital e no interior. Além do atendimento clínico, o CEATOX registra e organiza dados epidemiológicos sobre intoxicações com fins de pesquisa e aperfeiçoamento das condições de atendimento.

Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX). Créditos: Juliana Teófilo / Tribuna do Ceará

Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX). Créditos: Juliana Teófilo / Tribuna do Ceará

O CEATOX foi inaugurado em 1984, na gestão do prefeito César Cals Neto, e instalado no endereço em que se encontra até hoje. De 1987 a 2005 foi dirigido pelo médico e professor de toxicologia da UFC, Dr. José Ambrósio Guimarães, que foi capacitado em tratamento de acidentes por animais peçonhentos pelo Instituto Butantan, passando a ministrar cursos e treinamentos sobre o tema para comunidade médica de Fortaleza. Dr. Ambrósio foi fundamental na luta pela visibilidade nacional desse problema de saúde negligenciado, pelo aumento da produção de soros antiofídicos nos anos 80, e pela implantação dos protocolos de tratamento de acidentes por animais peçonhentos no CEATOX e no Centro de Informação e Assistência Toxicológica do Hospital Geral de Fortaleza (CIAT-HGF).

Atualmente o CEATOX é coordenado pela Dra. Polianna Lemos, médica nefrologista, pós-graduada em Ciências Médicas pela UFC (dissertação com tratamento de acidentes por serpentes), e conta com uma equipe composta por médicos, farmacêuticos e acadêmicos da área de saúde.

No ano de 2014 foram atendidos 3.452 casos no CEATOX. Os casos mais frequentes foram: 1º picadas por escorpiões (2.367 casos); 2º acidentes por animais não peçonhentos (248 casos); 3º intoxicação por medicamentos (240 casos).  Picadas de serpentes peçonhentas configuraram 32 casos registrados. Dentre as demais ocorrências, são registradas intoxicações por agentes agrícolas, produtos sanitários de uso doméstico, plantas tóxicas, metais pesados, drogas de abuso e raticidas.

Os escorpiões têm-se tornado cada vez mais abundantes nas grandes cidades, devido ao desmatamento, ao acúmulo de lixo e às condições sanitárias precárias de alguns locais. A espécie mais envolvida nos acidentes é o escorpião amarelo Tytius stigmurus, que tem o corpo e os membros claros e o dorso escuro. Os acidentes por serpentes têm ocorrências sazonais e são mais frequentes em épocas de chuvas, em áreas periurbanas e rurais. As espécies mais envolvidas são as jararacas, seguidas de cascavéis e corais.

Coleção do CEATOX. Créditos: Juliana Teófilo / Tribuna do Ceará

Coleção do CEATOX. Créditos: Juliana Teófilo / Tribuna do Ceará

O Ministério da Saúde distribui soros antiofídicos para vários hospitais de referência em todos os estados do Brasil. No CEATOX estão disponíveis soro bivalente antibotrópico-crotálico (jararacas e cascavéis), anticrotálico (cascavéis), antielapídico (corais), antiescorpiônico (Tytius spp.) e antiaracnídico (Loxosceles/Phoneutria). É importante ressaltar que esses soros são de uso exclusivamente humanos, não indicados nem liberados para acidentes envolvendo animais domésticos.

Para os pacientes que estão longe do CEATOX, em bairros periféricos ou longe dos hospitais de referência no interior do estado, é indicado dirigir-se à unidade de saúde próxima de sua residência (UPA ou posto de saúde), pois, dependendo da gravidade dos sintomas, nem todos os casos de picadas precisam receber soro. Nos casos graves é indicada a transferência para o CEATOX.  Para mais informações, é só ligar (85) 3255.5050.

Para saber mais sobre o CEATOX/IJF, acesse http://www.fortaleza.ce.gov.br/ijf/ceatox-centro-de-assistencia-toxicologica .

Para informações sobre assistência toxicológica em todo o Brasil, acesse http://www.fiocruz.br/sinitox/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=6 .

O NUROF-UFC agradece à farmacêutica Mariana Brizeno (CEATOX/IJF) pela cordialidade no acesso às informações administrativas e epidemiológicas contidas nesse texto.

Texto por: Roberta Rocha, Médica Veterinária do NUROF-UFC

FONTES

1) GUIMARÃES, J. A., 2010. Assistência humanizada em toxicologia no Sistema Único de Saúde do Ceará: Estudo de caso no Hospital Geral de Fortaleza.

2) CEATOX, 2015.  Relatório de dados epidemiológicos do ano de 2014.

O Dragão que não cospe fogo

Certamente é muito interessante ter uma literatura repleta de histórias de dragões gigantes, que dominavam castelos, guardavam tesouros, perseguiam princesas e aterrorizavam pessoas. Atualmente, nós temos dragões – mas eles não cospem fogo, não voam e correm risco de extinção.

O Dragão de Komodo (Varanus komoedensis, Ouwens 1912) é um lagarto de um arquipélago indonésio da família Varanidae, o maior dentre todas as espécies de lagarto (Fig. 1).  Ele pertence ao gênero Varanus, tendo suas espécies conhecidas como lagartos monitores. São animais terrestres, em sua maioria, mas também existem alguns aquáticos e outros arbóreos. Alguns ainda podem ocupar todos os três ambientes dependendo da situação ou fase de vida (LOSOS & GREENE, 1988).

Dragão de Komodo em seu habitat natural. Créditos: © Adrian Warren / www.ardea.com

Fig. 1. Dragão de Komodo em seu habitat natural. Créditos: © Adrian Warren / http://www.ardea.com

Eles foram vistos pela primeira vez durante em 1910 por um piloto de um avião que sofreu um acidente no mar de Komodo. Em 1912 foi organizada uma expedição à ilha e capturaram alguns exemplares (OUWENS, 1912).

São os maiores e mais pesados lagartos, passando dos dois metros de comprimento e pesando mais de 100 kg (DE JONG, 1927). Nas ilhas onde habitam ocupam uma região com vegetação savânica, e quando mais novos, vivem em árvores (Fig. 2), só depois dos oito meses passam a viver no solo porque ficam muito grandes (MURPHY et al., 2015).

Fig. 2. Dragão de Komodo com quatro dias de idade repousando sobre um tronco. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Fig. 2. Dragão de Komodo com quatro dias de idade repousando sobre um tronco. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

A época de acasalamento é entre Julho e agosto (Fig. 3). Quando preparadas para acasalar, fêmeas emitem um aroma nas fezes que os machos conseguem detectar. Para acasalar, os machos entram em um ritual de combate pelas fêmeas (AUFFENBERG, 1981).

Fig. 3. Dragão de Komodo macho avaliando uma fêmea menor. Créditos: © Tui De Roy / gettyimages.com

Fig. 3. Dragão de Komodo macho avaliando uma fêmea menor. Créditos: © Tui De Roy / gettyimages.com

Após o acasalamento, a fêmea coloca por volta de 30 ovos (Fig. 4). A eclosão só ocorre cerca de oito meses depois (AUFFENBERG, 1981). A mortalidade é muito alta, pois os filhotes são ameaçados por animais maiores e outros dragões adultos. Por isso, eles vão para as árvores o quanto antes, aumentando suas chances de sobrevivência (MURPHY et al., 2015). Existe ainda a reprodução partenogenética nessa espécie, no qual a fêmea produz filhotes sem a fertilização do macho (WATTS et al. 2006).

Fig. 4. Dragão de Komodo fêmea enterrada, prestes a colocar os ovos. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Fig. 4. Dragão de Komodo fêmea enterrada, prestes a colocar os ovos. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Os Dragões de Komodo estão marcados como vulneráveis (IUCN, 2015). Provavelmente existem menos de 4000 no mundo, dos quais 1000 deles seriam fêmeas maduras (WATTS et al., 2006).

Infelizmente, da pouca divulgação que existe acerca desse lagarto, a maior parte dela é dedicada a mostrar o quão perigoso e “fatal” eles são para os humanos, e não o quão ameaçadores nós somos para eles (Fig. 5).

Fig. 5. Dragão de Komodo imobilizado. Créditos: Dita Alangkara / AP

Fig. 5. Dragão de Komodo imobilizado. Créditos: Dita Alangkara / AP

Não vamos ignorar o fato: devido à inadequada ocupação de pessoas em ambientes florestais, acidentes com esses animais passaram a ser periódicos na Indonésia. Mas essa não é uma exclusividade dos Dragões de Komodo, mas de qualquer animal.

Até pouco tempo acreditava-se que a saliva dos Dragões de Komodo carrega um coquetel de bactérias potencialmente fatal para suas presas, e isso ainda é visto em muitos documentários sobre essa espécie. Porém, um estudo conduzido por FRY e colaboradores (2009) mostrou que esses animais possuem uma glândula que produz veneno, tornando-os animais peçonhentos.

Na verdade, a combinação de dentes afiados com esse veneno torna a predação dos Dragões de Komodo incrível. Tudo que eles precisam é morder a presa – a partir daí, ele segue-a até que ela pereça, seja por perda de sangue decorrida do estrago na mordida ou pela ação do veneno, que prejudica a coagulação e aumenta a pressão sanguínea. Aí ele está livre para comê-la (Fig 6). Pode parecer esquisito, mas tal como a alimentação de outros animais carnívoros (leões, crocodilos, tubarões), é a alimentação do Dragão de Komodo um dos pontos que mais atrai turistas que buscam ver esses animais (WALPOLE, 2001).

Fig. 6. Dragões de Komodo se alimentando de um búfalo (um animal muito maior e pesado que eles). Créditos: © Conrad Maufe / naturepl.com

Fig. 6. Dragões de Komodo se alimentando de um búfalo (um animal muito maior e pesado que eles). Créditos: © Conrad Maufe / naturepl.com

No seu cardápio estão inclusos uma variedade de animais, incluindo búfalos, cervos, cabras, suínos, aves, peixes, alguns primatas, outros Dragões de Komodo e também carcaças dos mais variados animais (Fig. 7); os mais jovens podem comer grilos, lagartos pequenos, ovos e até pequenos mamíferos (MILLER, 2003).

Dragões de Komodo se alimentando da carcaça de um golfinho. Créditos: © Reinhard Dirscherl / www.flpa-images.co.uk

Dragões de Komodo se alimentando da carcaça de um golfinho. Créditos: © Reinhard Dirscherl / http://www.flpa-images.co.uk

O Dragão de Komodo também é capaz de engolir grandes porções de carne (Fig. 8) como as serpentes, graças ao seu crânio flexível e uma forte mandíbula – para efeito de comparação, a mordida do Dragão de Komodo é 6,5 vezes mais fraca que a do Crocodylus porosus (FRY et al., 2006). Além disso, normalmente comem todo o animal, desperdiçando pouco.

Fig. 8. Dragão de Komodo engolindo um javali selvagem. Créditos: © B. Jones & M. Shimlock / www.photoshot.com

Fig. 8. Dragão de Komodo engolindo um javali selvagem. Créditos: © B. Jones & M. Shimlock / http://www.photoshot.com

Infelizmente, com a contínua ocupação de pessoas no âmago do arquipélago indonésio, a tendência da população de Dragões de Komodo é só diminuir. A perda de habitat ainda constitui um dos problemas mais sérios para os animais em geral, sendo um grande predador ou não; combinado a isso, ainda ocorre a caça ilegal (contribuindo para a biopirataria) e a depleção de presas (vários animais predados pelo Dragão de Komodo são usados por nós, principalmente como gado ou animais domésticos).

Dragão de komodo próximo de habitações humanas. Note que o ambiente onde essas pessoas estão inseridas tornam esses encontros inevitáveis. Créditos: © Jurgen Freund / naturepl.com

Fig. 9. Dragão de komodo próximo à habitações humanas. Note que o ambiente onde essas pessoas estão inseridas tornam esses encontros inevitáveis. Créditos: © Jurgen Freund / naturepl.com

Diante de uma vasta obra de sensacionalismo desfavorecendo os Dragões de Komodo, répteis e vários outros animais carnívoros ou não, é difícil defende-los e explicar a importância desses animais, além do simples direito à sobrevivência. Mas nesse pequeno texto pudemos observar que eles retiram carcaça de animais mortos do ambiente, são importantes para o ecoturismo e participam na regulação de suas comunidades, realizando o controle populacional de várias espécies. Além de tudo isso, falamos de milhões de anos de evolução que esculpiram a forma e as habilidades desse grande réptil, tudo isso podendo ser ameaçado por poucos anos de ocupação humana.

Fig. 10. Dragão de Komodo na Ilha Rinca. Créditos: © M. Watson / www.ardea.com

Fig. 10. Dragão de Komodo na Ilha Rinca. Créditos: © M. Watson / http://www.ardea.com

Texto por: Lucas Araújo de Almeida, bolsista do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

1)Ouwens, P. A. (1912). On a large Varanus species from the island of Komodo. Bull Jard Bot Buitenzorg6, 1-3.

2)De Jong, J. K. (1927). LXX.—Varanus komodoensis, Ouwens. Journal of Natural History19(113), 589-591.

3)Murphy, J. B., Ciofi, C., de La Panouse, C., & Walsh, T. (Eds.). (2015).Komodo dragons: biology and conservation. Smithsonian Institution.

4)Fry, B. G., Wroe, S., Teeuwisse, W., van Osch, M. J., Moreno, K., Ingle, J., … & Norman, J. A. (2009). A central role for venom in predation by Varanus komodoensis (Komodo Dragon) and the extinct giant Varanus (Megalania) priscus. Proceedings of the National Academy of Sciences106(22), 8969-8974.

5)Walpole, M. J. (2001). Feeding dragons in Komodo National Park: a tourism tool with conservation complications. Animal Conservation4(1), 67-73.

6)Auffenberg, W. (1981). The behavioral ecology of the Komodo monitor. University Press of Florida.

7)Watts, P. C., Buley, K. R., Sanderson, S., Boardman, W., Ciofi, C., & Gibson, R. (2006). Parthenogenesis in Komodo dragons. Nature444(7122), 1021-1022

8)Miller, J. (2003). The Komodo Dragon. The Rosen Publishing Group.

9)Losos, J. B., & Greene, H. W. (1988). Ecological and evolutionary implications of diet in monitor lizards. Biological Journal of the Linnean Society35(4), 379-407.

Avanços na produção de antivenenos no Brasil: notícias do MedTrop 2015

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A cidade de Fortaleza sediou durante o período de 14 a 17 de Junho de 2015 o 51º. Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop 2015), realizado no Centro de Eventos do Ceará. O evento reuniu especialistas e estudantes de temas diversos de medicina tropical, como doenças infecciosas emergentes, uso racional de antibióticos, enfermidades negligenciadas, novos métodos diagnósticos, e medidas empregadas pelos sistemas de saúde nacionais e internacionais.

Dentre as mesas redondas realizadas durante o evento destacou-se o tema “Acidentes por animais peçonhentos”, trazendo pesquisadores e gestores do Instituto Butantan (SP), Instituto Vital Brazil e Fundação Oswaldo Cruz (RJ). Os convidados proferiram palestras de 20 minutos de duração, discutindo as perspectivas modernas nos tratamentos para picadas de serpentes e artrópodes peçonhentos.

A primeira palestra foi ministrada pela Dra. Fan Hui Wen, médica infectologista e gestora de projetos de pesquisa e produção de antivenenos do Instituto Butantan (SP). Sua apresentação lembrou o histórico de mais de um século de produção de soros antiofídicos no Brasil, a crise do abastecimento de antivenenos nos anos 80, e as metas de autossuficiência na produção brasileira contemporânea. A palestrante destacou o impulso à automação industrial e a padronização na produção de soros nos laboratórios brasileiros a partir dos anos 2000, e os méritos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no controle de qualidade destes produtos. Segundo a Dra. Wen, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera os acidentes por animais peçonhentos como “doenças negligenciadas” e preocupa-se com o aumento da mortalidade em países da África e Ásia, devido à escassez de produtores de soros nesses continentes.

Em seguida, o Dr. Luiz Eduardo Cunha, médico veterinário e vice-diretor do Instituto Vital Brazil (RJ), falou sobre os avanços na produção de antivenenos. Primeiramente revisou as fases de produção tradicional, desde a (1) coleta dos venenos (Fig. 1), (2) injeção em cavalos para obtenção de plasma hiperimune, (3) purificação e formulação, e (4) envase e acondicionamento, e a necessidade de se garantir o bem-estar dos animais envolvidos no processo. Realçou o início dos estudos clínicos no desenvolvimento do soro antiapílico (contra picadas de abelhas), uma vez que os óbitos por picadas de abelha vêm se equiparando proporcionalmente aos óbitos por acidentes ofídicos nas recentes estatísticas epidemiológicas. Como novidade interessante neste cenário, citou pesquisas moleculares na produção de soros sintéticos, utilizando fragmentos de DNA e RNA, que excluiriam os cavalos da fase de produção. Dr. Cunha também destacou o desenvolvimento de kits de diagnóstico rápido para identificar a espécie de serpente envolvida nos acidentes atendidos, aplicando assim o soro específico, evitando falha de tratamento, efeitos colaterais e desperdício de soro.

extração

Fig. 1. Extração de peçonha de Cascavel (Crotalus durissus) realizada no Núcleo Regional de Ofiologia (NUROF-UFC).

Por fim, a Dra. Isabella Fernandes Delgado, vice-diretora do Instituto de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) do Instituto Oswaldo Cruz (RJ), explanou sobre a metodologia utilizada para o controle de qualidade dos antivenenos e demais produtos imunobiológicos da produção nacional, ressaltando a necessidade premente de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias que priorizem o conceito dos 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), reduzindo assim o uso de animais em fase de desenvolvimento e ensaios clínicos de qualidade de produtos do gênero.

Todos os palestrantes relevaram a qualidade dos soros brasileiros e a importância da produção nacional. A mesa redonda sobre o tema atraiu um público superior ao esperado e abriu importante discussão sobre o investimento na produção de soros e atualização constante do pool de venenos requerido para a atividade.


Texto por Roberta Rocha , Médica Veterinária , NUROF – UFC

SITE ÚTIL: Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde – INCQS

Os venenos das serpentes e seus efeitos

Existem muitos tipos diferentes de venenos, no entanto, eles podem ser dispostos em três categorias, a dos que afetam o sangue, a dos que afetam os tecidos e a dos que afetam o sistema nervoso.

Coral verdadeira, possui veneno de ação neurotóxica.

Coral verdadeira, possui veneno de ação neurotóxica.

Uma mesma serpente pode produzir mais de um tipo de veneno. Comparando indivíduos de uma mesma espécie pode haver variações entre quantidades totais de veneno e de cada tipo de veneno, pois fatores como área de vida, dieta e idade do indivíduo interferem nessa produção.

Abaixo estão listados os venenos das serpentes e seus respectivos efeitos no corpo humano.

  • Neurotóxicos: Afetam o sistema nervoso causando inicialmente paralisia dos músculos faciais. Em alguns casos nos músculos responsáveis pela deglutição e respiração, podendo assim, causar asfixia e consequente morte.
  • Coagulantes: Aglutinando o sangue podem causar obstrução de veias e artérias. Casos mais sérios, como os de coágulos cerebrais ou pulmonares, levam à morte.
  • Anticoagulantes: Impedem o sangue de coagular, fazendo o ferimento causado pela serpente sangrar continuamente.
  • Hemorrágicos: Torna os vasos sanguíneos permeáveis ao sangue, causando hemorragias internas e externas, levando ao sangramento das gengivas e narinas. Em quadros mais agravados, as vítimas podem apresentar hemorragias cerebrais e a falência dos rins, levando-as à morte.
  • Hemotóxicos: Também conhecidos como hemolíticos, destroem as hemácias, causando falência renal e uma possível insuficiência respiratória.
  • Miotóxicos: Causam danos aos músculos, especialmente aos relacionados à respiração. Por meio de paralisia da função neuromuscular, similar aos efeitos dos venenos neurotóxicos, causam a morte por falência renal, cardíaca ou respiratória.
  • Proteolíticos: Também conhecidos como citotóxicos ou necrotóxicos, destroem os tecidos levando à necrose, resultado da ação das enzimas digestivas presentes no veneno, que ajudam na digestão da presa.
  • Nefrotóxicos: Causam dano diretamente aos rins.
  • Sarafotóxicos: Veneno presente apenas em algumas serpentes africanas. Promove a constrição da artéria coronária, dificultando a circulação sanguínea, podendo causar um ataque cardíaco.

Os gêneros das principais serpentes peçonhentas brasileiras são Bothrops e Bothrocophias, popularmente conhecidas como Jararacas, Crotalus, popularmente conhecidas como Cascavéis, Micrurus conhecidas como Corais Verdadeiras ou Cobras-Coral e Lachesis, conhecida como Surucucu ou Pico de Jaca.

Bothrops Bothrocophias: Possuem venenos dos tipos proteolítico, coagulante e hemorrágico.

Crotalus: Venenos dos tipos miotóxico, neurotóxico e coagulante.

Micrurus: Neurotóxico.

Lachesis: Proteolítico, coagulante, hemorrágico e neurotóxico.

Referência

Mark O’Shea, 2008, Venomous Snakes of the World.

Paulo Sérgio Bernarde, Saymon de Alburqueque, Luiz Carlos Batista Turci, 2012 , Serpentes Peçonhentas e Acidentes Ofídicos em Rondônia.

Thorpe R. S., W Wuster and A. Malthora (eds.), 1997, Venomouns Snakes: Ecology, Evolution and Snikebite. Zoological Society of London.

Texto por Klaus Marques

Notícia: Como as serpentes usam “GPS” para localizar suas presas

As serpentes não tem nenhum problema em localizar a presa que escapa depois de ser envenenada. Os cientistas agora sabem como.

Crotalus durissus, cascavel. Fotografia de Hugo Fernades Ferreira

Crotalus durissus, cascavel. Fotografia de Hugo Fernandes Ferreira

As serpentes peçonhentas podem agir de duas maneiras diferentes  após inocularem sua peçonha na presa: uma delas seria a estratégia “strike-and-hold”, na qual ela após inocular a peçonha, elas mantém a sua presa na boca até a toxina fazer efeito e ela morrer. Porém, essa técnica permite que a presa lute nos seus últimos momentos de vida ou que um possível predador possa atacá-la.

A outra estratégia seria a de “strike-and-release”, na qual serpentes, como a cascavel, picam a presa e inoculam o veneno nela, depois a soltam e esperam a toxina fazer efeito. Nesse caso a serpente não corre os riscos anteriormente citados. O risco é apenas que o animal pode fugir e a serpente tem que procurá-lo.

Novas pesquisas feitas por biólogos no Colorado revelaram  um truque que as serpentes possuem para localizar e concluir sua refeição: elas possuem um par de proteínas na sua peçonha que marcam a presa como um rastreador químico.

As serpentes utilizam o seu olfato para reconhecer essas partículas que são percebidas pelo movimento da língua do ofídio.

Para maiores informações confira a notícia completa em: theweek.com

Notícia: Instituto Butantan inaugura prédio de coleções zoológicas

Novo edifício é o mais moderno e seguro da América Latina

Inaugurado em 1901, o Butantan é um dos principais institutos responsáveis pela produção de soros e vacinas do Brasil. No entanto, acabou se tornando um importante ponto turístico da cidade de São Paulo que chega a receber 300.000 pessoas por ano. Uma das principais atrações é o Museu Biológico, no qual podem ser observados artrópodes, répteis e anfíbios, como também o Serpentário do local.

O museu: 300.000 visitantes por ano (Foto: Renato Nascimento )

O museu: 300.000 visitantes por ano (Foto: Renato Nascimento ). Fonte: vejasp.abril.com.br

Mas em 15 de maio de 2010, em decorrência do superaquecimento de um aparelho no edifício das coleções, ocorreu um incêndio que acabou destruindo aproximadamente 500.000 espécimes conservados em álcool. Cinco ex-funcionários do Instituto foram denunciados pelo Ministério Público por imprudência e negligência em janeiro deste ano.

FOTO: Cena da destruição causada pelo incêndio no interior do prédio, em 15 de maio de 2010. Crédito: Marcio Fernandes/Estadão

FOTO: Como era a coleção no prédio antigo, em foto de 2009, antes da instalação de armários compactadores, feita no início de 2010 (pouco antes do incêndio). Crédito: Marcelo Duarte. Fonte: blogs.estadao.com.br

FOTO: Cena da destruição causada pelo incêndio no interior do prédio, em 15 de maio de 2010. Crédito: Márcio Fernandes/Estadão. Fonte: blogs.estadao.com.br

FOTO: Cena da destruição causada pelo incêndio no interior do prédio, em 15 de maio de 2010. Crédito: Márcio Fernandes/Estadão. Fonte: blogs.estadao.com.br

Mesmo após este evento, as visitas e parte das pesquisas continuaram normalmente. A reconstrução de um novo edifício e a recuperação da coleção demandaram certo tempo para serem concluídos. Finalmente no último dia 24 de setembro foi inaugurado o prédio destinado às coleções. Com investimento de 5,5 milhões de reais, quase a metade foi utilizada na segurança. O prédio possui dois pavimentos com área total de 1600 metros², no primeiro ficará os animais, distribuídos em sete salas, e no segundo os laboratórios. A coleção deverá ter aproximadamente um milhão de espécimes. Um dos diferenciais do prédio é o moderno sistema de segurança para prevenção de incêndios através do gás FM 200, que absorve o calor e reduz o fogo em até 10 segundos. Além de ser ambientalmente aceito e não prejudicial ao ser humano e ao acervo, o gás não deixa resíduos e resinas nos materiais. Além disso, o local conta com um sistema de escoamento de álcool e demais líquidos, levando-os em questão de minutos para uma caixa subterrânea, externa ao prédio.

FOTO: Parte externa do novo prédio que vai abrigar as coleções. Crédito: Herton Escobar/Estadão. Fonte: blogs.estadao.com.br

FOTO: Parte externa do novo prédio que vai abrigar as coleções. Crédito: Herton Escobar/Estadão. Fonte: blogs.estadao.com.br

FOTO: Detalhe das estantes deslizantes onde os espécimes da coleção são guardados na nova coleção do Instituto. Foto: Edson Lopes Jr. Fonte: Portal do Governo do Estado de São Paulo.

FOTO: Detalhe dos armários compactadores onde os espécimes são guardados na nova coleção do Instituto. Foto: Edson Lopes Jr. Fonte: Portal do Governo do Estado de São Paulo.

O prédio tem ainda um espaço para a digitalização de todo o acervo do instituto, que está sendo disponibilizado para consulta no site. Duas coleções já estão disponíveis (ácaros e opiliões); na sequência, será digitalizada a coleções de serpentes. A estimativa do instituto é que, em dois anos, toda a informação esteja on-line.

Confira a notícia também através da reportagem exibida pelo SPTV 1ª Edição em 24 de setembro.

Quer saber um pouco mais sobre coleções científicas? Então confira estes textos: Histórico das Coleções Zoológicas / Herpetológicas e Coleções Científicas

Sintetizado a partir de notícias disponíveis em: Veja São Paulo, Portal do governo do Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, e algumas imagens retiradas de: Estadão/Blogs, com os devidos créditos às fotografias, as demais fotos foras retiradas dos sites anteriormente citados.

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