Sapos Mortais criados em cativeiro? Conheça o pequeno Dendrobates auratus

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Figura 1. anuro Dendrobates auratus. Créditos da imagem: © Frank Steinmann

Mesmo sendo magnificamente bela, a natureza pode apresentar seus perigos, os quais alguns estão relacionados principalmente com espécies venenosas, que vão desde plantas até animais. Quando se fala em animais venenosos, os primeiros que nos vem em mente são as serpentes, aliado também a diversos mitos que permeiam o imaginário popular. No entanto, há outros grupos de animais que possuem espécies venenosas, como os anfíbios. Entre eles encontram-se alguns sapinhos que, apesar da aparência exuberante, de inofensivo não tem nada.

Geralmente, muitos deles apresentam uma coloração forte e chamativa, possuindo, desse modo, uma beleza única. Com essa aparência incrivelmente bela é difícil de imaginar que eles possam representar perigo para muitos outros seres, inclusive nós, humanos. Essa aparência característica serve como um tipo de aviso para os seus predadores, alertando-os que eles são tóxicos.

Os anuros (sapo, perereca e rã) com esse padrão de coloração podem ter a pele irrigada por toxinas mortíferas. Diferentemente de escorpiões e serpentes peçonhentas que possuem meios de inoculação da peçonha (ferrões e presas respectivamente), dize-se que eles são venenosos, pois precisam ser tocados ou ingeridos para o veneno fazer efeito (PATRICIA, 2009).

No entanto, mesmo os que não apresentam uma coloração forte possuem toxinas. Segundo Amaral (1945, apud SILVA, 1976), todos os anuros possuem pequenas glândulas distribuídas pelo corpo e algumas espécies da família Bufonidea apresentam duas glândulas paratóides que secretam certas toxinas. Além disso, ele relata que cada uma dessas glândulas produz secreções diferentes: as pequenas produzem uma secreção mucosa que tem ação neurotrópica e hemolítica; e as paratóides produzem uma secreção granulosa, viscosa e cremosa que é altamente irritante, provocando salivação intensa, náuseas, convulsões e até a morte. Porém, mesmo apresentando essas glândulas de toxinas, não significa que todos sejam nocivos aos seres humanos, pois o grau de toxidade muda de acordo com a espécie.

Mas… voltando aos anuros coloridos… Como há pessoas que criam esses sapinhos tão mortais? Isso ocorre por que quando retirados da natureza e criados em cativeiro esses animais perdem sua toxidade ao longo dos anos (PATRICIA, 2009). Mas por que isso ocorre? Esse fato está diretamente relacionado com a sua alimentação, no seu habitat natural sua dieta é à base de formigas, cupins e outros insetos de onde extraem os alcaloides necessários para a produção do veneno. Logo, quando em cativeiro, eles são privados de tais alimentos, não produzindo assim o veneno (PATRICIA,2009).

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Figura 2. Dendrobates auratus entre folhas. Créditos da imagem: © Danté B Fenolio.

Como exemplo desses animais, temos o belo Dendrobates auratus(figuras 1 e 2). Essa espécie pode ser encontrada na região Neotropical, desde o sul da Nicarágua até o Peru, Bolívia e o Brasil (AHUMADA, 2016). Está presente, também, na ilha de Oahu, no Havaí, onde foi introduzida (SCHAFER, 1999). Vivem próximos a pequenos riachos, são diurnos e estão sempre a procura de alimento (ALVES,2009), sendo sua dieta baseada em pequenos invertebrados, como os citados anteriormente. Em cativeiros são alimentados com insetos sem alcalóides, para que não produzam toxinas (SCHAFER, 1999).

       O Dendrobates auratus apresenta grande variedade de cores, tornando-o uma das espécies mais populares entre os amantes de anfíbios. O individuo adulto tem aproximadamente 4 cm, sendo os machos menores que as fêmeas (SCHAFER, 1999). Além disso, possuem glândulas venenosas distribuídas por toda a superfície corporal (SCHAFER,1999). Não apresentam dimorfismo sexual nítido, sendo necessário observar o comportamento para distinguir o sexo (ALVES, 2009).

       O Dentrobate sauratus tem significante importância para a humanidade, pois seu veneno tem sido utilizado por povos indígenas na preparação de suas armas (SCHAFER, 1999), várias pesquisas vêm sendo realizadas a fim de produzir medicamentos derivados da toxina desses animais, e, além disso tudo ainda são importantes controladores de insetos transmissores de doenças (SCHAFER, 1999). Apesar de não ser atualmente considerado como ameaçado de extinção, com a destruição das florestas tropicais é possível que logo eles estejam na lista (SCHAFER, 1990).

 

Aguardem o próximo texto sobre sapinhos mortais.

 

Texto escrito por Alyne Martins, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

Referências:

AHUMADA, Diana Patrícia Rojas. Explorando processos que geram variação de cor Adelphobatesgalactonotus, uma espécie de sapo colorido e venenoso endêmico da Amazônia Oriental. 2016. 92 f… Tese (Biologia (Ecologia)) – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus, 2016. Disponível em:<bdtd.inpa.gov.br/bitstream/tede/2205/5/Tese%20Diana_Rojas_FINAL.pdf>. Acesso em: 14 de Setembro de 2018.

 

ALVES, Diogo. Mundo dos Dendrobates. Revista Mundo dos Animais. 9. ed. Dezembro 2008 / Janeiro 2009. p. 25. Disponível em: <https://www.mundodosanimais.pt/revista/edicao9/&gt; . Acesso: 14 de Setembro de 2018.

 

PATRICIA, Karlla. Qual a diferença entre sapos venenosos e não venenosos. Disponível em: <https://diariodebiologia.com/2009/01/qual-a-diferenca-entre-sapos-venenosos-e-nao-venenosos/>. Acesso em: 14 de Setembro de 2018.

 

SCHAFER, Rachel. DendrobatesauratusGreen and Black Dart-poison Frog. Disponível em: <http://animaldiversity.org/accounts/Dendrobates_auratus/>. Acesso em: 14 de Setembro de 2018.

 

SILVA, Paulo et al. Envenenamento de cães por bufadienolídeos (Substâncias encontradas na secreção das glândulas paratóides dos sapos do gênero Bufo). Anais da E.A.V. Universidade Federal de Goiás. V. 6, nº 1, JAN/DEZ. 1976. Disponível em: <https://www.revistas.ufg.br/pat/article/view/2242>. Acesso em: 14 de Setembro de 2018.

 

 

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O curioso sapinho da Caatinga (Pleurodema diplolistris) e sua estratégia para sobreviver à estiagem

 

A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. É caracterizado pelo seu clima semiárido, com altas temperaturas, períodos de chuvas irregulares e períodos de secas severas. Apesar de negligenciada, a Caatinga apresenta uma rica biodiversidade, abrigando, segundo o Ministério do Meio Ambiente, 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes e 221 abelhas. Mas como esses animais conseguem sobreviver a um bioma com condições tão severas e estressantes?

Isso foi possível graças às adaptações morfológicas, comportamentais, reprodutivas e alimentares que desenvolveram ao longo da evolução para enfrentar e sobreviver à seca (FAGUNDES et al., 2016). Uma das estratégias mais interessantes é a realizada por um sapinho curioso que mede mais ou menos 3 cm, chamado de Pleurodema diplolistris, popularmente conhecido como goré (fig. 1). O P. diplolistris é uma espécie com hábitos fossoriais, estratégias reprodutivas explosivas correlacionadas com a precipitação e desenvolvimento larval rápido (ANDRADE, 2012 apud SANTOS et al. 2003).

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Figura 1: Pleurodema diplolistris em seu esconderijo de estiagem. Créditos: José Eduardo Carvalho/Unifesp.

Do mesmo modo que muitos anfíbios, o goré depende da água para a reprodução, assim, durante os períodos de seca – boa parte do ano – eles enterram-se em profundidades que podem ultrapassar um metro (PERERIRA, 2009). Mesmo enterrado o sapinho consegue se movimentar, pois com o avanço da seca ele penetra cada vez mais fundo no solo, fazendo um percurso vertical em busca de água, já que se tem uma maior umidade em maiores profundidades. Durante um curto período, na época das chuvas, eles desenterram-se para se hidratarem, alimentar-se e procurar um parceiro reprodutivo (fig. 2).

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Figura 2. Abraçado à fêmea, macho bate muco e produz um ninho para os ovos. Créditos: Isabel Cristina Pereira/USP.

Quando começam as chuvas, os machos ocupam os corpos d’água e emitem sons para atrair as fêmeas para o acasalamento. As fêmeas liberam os óvulos na água para serem fecundados pelo macho. Após a fecundação, o macho cobre os ovos com um muco, que se torna uma espuma devido ao movimento das pernas traseiras do animal na água. Depois de um tempo as larvas eclodem e desenvolvem-se em um curto período, o qual está relacionado com a permanência da água no ambiente semiárido (AMORIM, 2005).

Tal estratégia adaptativa chama-se estivação. Vocês se lembram da hibernação praticada por muitos mamíferos, como os ursos polares? Pois é. Pode-se dizer que a estivação é um tipo de hibernação que ocorrem em locais secos e com baixa pluviosidade. Esse fenômeno é um estado de dormência, o qual algumas espécies diminuem temporariamente e periodicamente suas atividades metabólicas (GUERRA, 1988) para sobreviver a condições extremas de seca. No entanto, diferentemente de outras espécies de anfíbios, o P. diplolistris não forma casulo e voltam ao seu estado de alerta assim que tem sua estivação é interrompida, não apresentando, assim, um estágio de dormência profunda (PEREIRA, 2009).

Link do vídeo do P. diplolistris enterrando-se:

 

Texto escrito por Alyne Martins, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

Referências:

AMORIM, Fabiana et al.
Espécies mastofaunísticas encontradas nas áreas de influência direta… Disponível em: <http://mapas.mma.gov.br/mapas/aplic/dadosdoc/chesf/fauna_itaparica/2%C2%BA%20relat.%20trim.%207140%20prelim%20parte%205a.doc&gt;. Acesso em: 19 de agosto de 2018.

BLOG BIOLOGIA TOTAL. Você conhece o sapinho que se enterra para sobreviver na Caatinga? Disponível em: < https://www.biologiatotal.com.br/blog/voce-conhece-o-sapinho-que-se-enterra-para-sobreviver-na-caatinga.html&gt;. Acesso em: 11 de agosto de 2018.

DE ANDRADE, Sheila Pereira; VAZ-SILVA, Wilian. First state record and distribution extension of Pleurodema diplolister (Peters 1870) (Anura: Leiuperidae) from state of Goiás, Brazil. Check List, v. 8, n. 1, p. 149-151, 2012. Disponivel em: < https://biotaxa.org/cl/article/view/8.1.149&gt;. Acesso em: 19 de agosto de 2018.

GUERRA, Rafael Torquemada. Ecologia dos oligochaeta da Amazônia. II. Estudo da estivação e da atividade de Chibuibari, através da produção de excrementos. Acta Amazonica, v. 18, n. 1-2, p. 27-34, 1988. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0044-59671988000100027&script=sci_arttext&tlng=pt&gt;. Acesso: 11 de agosto de 2018.

FAGUNDES, Adelly Cardoso de Araujo et al. Mecanismos de sobrevivência dos animais no nordeste do brasil. Anais do Congresso Nordestino de Biólogos, vol. 6, 2016. Disponível em: <http://congresso.rebibio.net/congrebio2016/trabalhos/pdf/congrebio2016-et-09-020.pdf&gt;. Acesso: 11 de agosto de 2018.

MINISTERIO DO MEIO AMBIENTE. Caatinga. Disponível em: < http://www.mma.gov.br/biomas/caatinga&gt;. Acesso em: 11 de agosto de 2018.

O CURIOSO caso do sapo da Caatinga. Disponível em: < http://www.geenf.fe.usp.br/v2/wp-content/uploads/2016/08/Encarte-sapo.pdf&gt;. Acesso em: 11 de agosto de 2018.

PEREIRA, Isabel Cristina. Aspectos fisiológicos e ecológicos da estivação em Pleurodema diplolistris (Leiuperidae/Anura). 2009. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41135/tde-05112009-104020/en.php&gt;. Acesso: 11 de agosto de 2018.

 

 

 

 

 

A “mãe de todos os lagartos”

 

O surgimento dos Squamata, grupo das serpentes e dos lagartos, é retratado como um assunto complexo e  controverso pela comunidade científica e, embora seja um dos grupos mais diversos e distribuídos, tem-se poucas informações sobre sua origem evolutiva e sobre como ele se tornou o que é hoje. Um fóssil que foi encontrado há cerca de 20 anos nos alpes italianos levantou suspeitas de ser um parente dos Squamata atuais e após um estudo publicado na revista Nature, está sendo chamado de a “mãe dos lagartos” pelos cientistas por se tratar do fóssil de uma espécie primitiva, Megachirella wachtleri (figura 1) , que viveu há  240 milhões de anos, do qual os lagartos e serpentes teriam evoluído. Esse é o fóssil mais antigo já encontrado relacionado a todos os Squamata da atualidade, mudando a percepção sobre o surgimento do primeiro lagarto para  75 milhões de anos antes do que se pensava atualmente.

MEGACHIRELLA

Figura 1.Esta foto de folheto recebida através do site da Nature em 28 de maio mostra uma cena de vida na região das Dolomitas, no norte da Itália, há cerca de 240 milhões de anos, com Megachirella wachtleri caminhando pela vegetação.(Foto: Davide Bonadonna, AFP / Getty Images)
Fonte: https://www.nature.com/articles/s41586-018-0093-3

 

MEGACHIRELLA Fóssil

Figura 2. Fóssil da espécie Megachirella wachtleri. Fonte: https://www.theguardian.com/science/2018/may/30/worlds-oldest-lizard-fossil-forces-rethink-of-reptile-family-tree

O vídeo abaixo traz mais informações sobre o assunto:

 

Referências:

Publicação na Nature: https://www.nature.com/articles/s41586-018-0093-3 >Acesso em:09/06/2018

Matéria da National Geographic: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2018/06/fossil-de-lagarto-mais-velho-do-mundo-encontrado-e-por-que-isso-e-importante  >Acesso em:09/06/2018

Coletiva de imprensa dos autores para a University of Alberta – Canadá: https://www.ualberta.ca/science/science-news/2018/may/scientists-discover-worlds-oldest-lizard-fossil >Acesso em:09/06/2018

Um lagarto corajoso do olho maior que a barriga

O lagarto Tropidurus torquatus, de ampla distribuição nas áreas abertas do Brasil (RODRIGUES, 1987), é um predador diurno que geralmente usa o comportamento de “senta-e-espera” para se alimentar de suas presas, indo algumas das vezes atrás da sua presa de forma ativa (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998)(FIGURA 01). T. torquatus se alimenta principalmente de formigas, mas também ingere frequentemente besouros, abelhas, cupins e aranhas, bem como flores e frutos (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998; CARVALHO et al. 2007).

Carlos Cândido - T. torquatus

Figura 01. Tropidurus torquatus, uma espécie de lagarto de ampla distribuição nas áreas abertas do Brasil. Fonte: Carlos Cândido, Biólogo.

Porém, em 2014, um Tropidurus torquatus de porte grande foi visto tentando se alimentar de uma falsa-coral (Phalotris matogrossensis), no município de Poconé, no estado de Mato Grosso (SANTOS et al., 2017)(FIGURA 02). Essa serpente possui hábitos noturnos e habita áreas abertas e galerias subterrâneas do sudoeste do Brasil ao oeste do Paraguai (LEYNAUD; BUCHER, 1999 apud LEMA; D’AGOSTINI; CAPPELARI, 2005; VANZOLINI, 1948 apud LEMA; D’AGOSTINI; CAPPELARI, 2005), e se alimenta de invertebrados, sapos, anfisbenas e lagartos (BERNARDE; MACEDO, 2006 apud SANTOS et al., 2017; SOUZA, 2014 apud SANTOS et al., 2017), justamente o tipo de animal que a levou a morte.

Pedro Guilherme - T. torquatus 2

Figura 02. O corajoso Tropidurus torquatus e sua predadora Phalotris matogrossensis, que praticamente virou sua presa. Fonte: Pedro Guilherme Alves Rodrigues, coautor da publicação original, presente no periódico Herpetology Notes.

Segundo Santos et al. (2017), o lagarto correu atrás da falsa-coral, que não percebeu sua presença, e a abocanhou e balançou vigorosamente até que a mesma falecesse. Porém, foi só depois disso que o lagarto notou que a mesma não seria um alimento adequado, e a soltou. Os autores sugerem que o lagarto possivelmente soltou a serpente porque percebeu que ela era grande demais e não conseguiria comê-la.

Apesar de ter sido a primeira vez que se é registrado formalmente que T. torquatus se alimenta de serpentes na natureza, já havia sido descrito que a espécie se alimenta de vertebrados de pequeno porte, como outros lagartos (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998). Outra espécie de seu gênero, Tropidurus hispidus, também já foi observada se alimentando de pequenos vertebrados, como sapos (VITT et al., 1996), outros indivíduos de T. hispidus (SALES et al., 2011) e até mesmo pássaros (GUEDES et al., 2017). Por isso, Santos et al. (2017) supõem que seja possível que outras espécies de Tropidurus de maior porte também se alimentem de pequenas serpentes. Qual será o próximo lagarto corajoso que iremos encontrar?

Para saber mais detalhes sobre o fato, e para ver as imagens com melhor qualidade, você pode consultar o artigo original aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

BERNARDE, P. S.; MACEDO-BERNARDE, L. C. Phalotris matogrossensis (False coral snake). Diet. Herpetological Review, v. 37, p. 234, 2006.

CARVALHO, André L. G. de; SILVA, Hélio R. da; ARAÚJO, Alexandre F. B. de; ALVES-SILVA, Ricardo; SILVA-LEITE, Roberta R. da. Feeding ecology of Tropidurus torquatus (Wied)(Squamata, Tropiduridae) in two areas with different degrees of conservation in Marambaia Island, Rio de Janeiro, Southeastern Brazil. Revista Brasileira de Zoologia, v. 24, n. 1, p. 222-227, 2007.

GUEDES, Thaís; MIRANDA, Fernanda; MENESES, Luciano; PICHORIM, Mauro; RIBEIRO, Leonardo. Avian predation attempts by Tropidurus hispidus (Spix, 1825)(Reptilia, Squamata, Tropiduridae). Herpetology Notes, v. 10, p. 45-47, 2017.

LEMA, T. de; D’AGOSTINI, F.; CAPPELLARI, L. Nova espécie de Phalotris, redescrição de P. tricolor e osteología craniana (Serpentes, Elapomorphinae). Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre, v. 95, p. 65-78, 2005.

LEYNAUD, Gerardo C.; BUCHER, Enrique H. La fauna de serpientes del Chaco sudamericano: diversidad, distribución geográfica y estado de conservación. Academia Nacional de Ciencias, v. 98, 1999.

RODRIGUES, Miguel Trefaut. Sistemática, ecologia e zoogeografia dos Tropidurus do grupo torquatus ao sul do Rio Amazonas (Sauria, Iguanidae). Arquivos de Zoologia, v. 31, n. 3, p. 105-230, 1987.

SALES, Raul Fernandes Dantas de; Jorge, Jaqueiuto da Silva; RIBEIRO, Leonardo Barros; FREIRE, Eliza Maria Xavier. A case of cannibalism in the territorial lizard Tropidurus hispidus (Squamata: Tropiduridae) in Northeast Brazil. Herpetology Notes, v. 4, p. 265-267, 2011.

SANTOS, Arthur de Sena; MENESES, Afonso Santiago de Oliveira; HORTA, Gabriel de Freitas; RODRIGUES, Pedro Guilherme Alves; BRANDÃO, Reuber Albuquerque. Predation attempt of Tropidurus torquatus (Squamata, Tropiduridae)on Phalotris matogrossensis (Serpentes, Dipsadidae). Herpetology Notes, v. 10, p. 341-343, 2017.

SOUZA, Dianne Cassiano de; MORAIS, Drausio Honório; SILVA, Reinaldo José da. Phalotris matogrossensis (Mato Grosso burrowing snake) diet. Herpetological Review, p. 712, 2014.

 TEIXEIRA, R. L.; GIOVANELLI, M. Ecology of Tropidurus torquatus (Sauria: Tropiduridae) of a sandy coastal plain of Guriri, São Mateus, ES, southeastern Brazil. Revista Brasileira de Biologia, v. 59, n. 1, p. 11-18, 1999.

VANZOLINI, Paulo Emílio. Notas sobre os ofídios e lagartos da Cachoeira de Emas, no município de Pirassununga, Estado de São Paulo. Revista Brasileira de Biologia, v. 8, n. 3, p. 377-400, 1948.

VITT, Laurie J.; ZANI, Peter A.; CALDWELL, Janalee P. Behavioural ecology of Tropidurus hispidus on isolated rock outcrops in Amazonia. Journal of Tropical Ecology, v. 12, n. 1, p. 81-101, 1996.

 

Notícia: Descoberta nova espécie de calango na Caatinga

Endêmico do semiárido, na Caatinga baiana, o Tropidurus sertanejo é a mais nova espécie de calango descrita, homenageando os habitantes da região.

O calango tem por volta de 8cm, corpo amarronzado com pequenos pontos e a cabeça numa cor bronze.

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Tropidurus sertanejo. Foto retirada da figura 2 do artigo de Carvalho et al, 2016.

A espécie foi coletada pela primeira vez na década de 90, mas apenas com o advento da genética e da morfologia é que foi possível descrever uma nova espécie. Mais de 70% das espécies desse gênero foram descobertas nos últimos 35 anos.

O artigo que descreve a nova especie de calango do semiarido nordestino foi publicado no periodico American Museum Novitates, e foi conduzido pelo pesquisador Andre Luiz Carvalho em sua tese de doutorado.

Leia a reportagem completa aqui:

http://www.museu-goeldi.br/portal/content/nova-esp-cie-de-calango-descoberta-no-sert-o-nordestino

Consulte o artigo original aqui:

http://www.museu-goeldi.br/portal/sites/default/files/noticias/arquivos/2016_Carvalho_etal_Tropidurus%20sertanejo.compressed.pdf

 

O Dragão que não cospe fogo

Certamente é muito interessante ter uma literatura repleta de histórias de dragões gigantes, que dominavam castelos, guardavam tesouros, perseguiam princesas e aterrorizavam pessoas. Atualmente, nós temos dragões – mas eles não cospem fogo, não voam e correm risco de extinção.

O Dragão de Komodo (Varanus komoedensis, Ouwens 1912) é um lagarto de um arquipélago indonésio da família Varanidae, o maior dentre todas as espécies de lagarto (Fig. 1).  Ele pertence ao gênero Varanus, tendo suas espécies conhecidas como lagartos monitores. São animais terrestres, em sua maioria, mas também existem alguns aquáticos e outros arbóreos. Alguns ainda podem ocupar todos os três ambientes dependendo da situação ou fase de vida (LOSOS & GREENE, 1988).

Dragão de Komodo em seu habitat natural. Créditos: © Adrian Warren / www.ardea.com

Fig. 1. Dragão de Komodo em seu habitat natural. Créditos: © Adrian Warren / http://www.ardea.com

Eles foram vistos pela primeira vez durante em 1910 por um piloto de um avião que sofreu um acidente no mar de Komodo. Em 1912 foi organizada uma expedição à ilha e capturaram alguns exemplares (OUWENS, 1912).

São os maiores e mais pesados lagartos, passando dos dois metros de comprimento e pesando mais de 100 kg (DE JONG, 1927). Nas ilhas onde habitam ocupam uma região com vegetação savânica, e quando mais novos, vivem em árvores (Fig. 2), só depois dos oito meses passam a viver no solo porque ficam muito grandes (MURPHY et al., 2015).

Fig. 2. Dragão de Komodo com quatro dias de idade repousando sobre um tronco. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Fig. 2. Dragão de Komodo com quatro dias de idade repousando sobre um tronco. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

A época de acasalamento é entre Julho e agosto (Fig. 3). Quando preparadas para acasalar, fêmeas emitem um aroma nas fezes que os machos conseguem detectar. Para acasalar, os machos entram em um ritual de combate pelas fêmeas (AUFFENBERG, 1981).

Fig. 3. Dragão de Komodo macho avaliando uma fêmea menor. Créditos: © Tui De Roy / gettyimages.com

Fig. 3. Dragão de Komodo macho avaliando uma fêmea menor. Créditos: © Tui De Roy / gettyimages.com

Após o acasalamento, a fêmea coloca por volta de 30 ovos (Fig. 4). A eclosão só ocorre cerca de oito meses depois (AUFFENBERG, 1981). A mortalidade é muito alta, pois os filhotes são ameaçados por animais maiores e outros dragões adultos. Por isso, eles vão para as árvores o quanto antes, aumentando suas chances de sobrevivência (MURPHY et al., 2015). Existe ainda a reprodução partenogenética nessa espécie, no qual a fêmea produz filhotes sem a fertilização do macho (WATTS et al. 2006).

Fig. 4. Dragão de Komodo fêmea enterrada, prestes a colocar os ovos. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Fig. 4. Dragão de Komodo fêmea enterrada, prestes a colocar os ovos. Créditos: © Michael Pitts / naturepl.com

Os Dragões de Komodo estão marcados como vulneráveis (IUCN, 2015). Provavelmente existem menos de 4000 no mundo, dos quais 1000 deles seriam fêmeas maduras (WATTS et al., 2006).

Infelizmente, da pouca divulgação que existe acerca desse lagarto, a maior parte dela é dedicada a mostrar o quão perigoso e “fatal” eles são para os humanos, e não o quão ameaçadores nós somos para eles (Fig. 5).

Fig. 5. Dragão de Komodo imobilizado. Créditos: Dita Alangkara / AP

Fig. 5. Dragão de Komodo imobilizado. Créditos: Dita Alangkara / AP

Não vamos ignorar o fato: devido à inadequada ocupação de pessoas em ambientes florestais, acidentes com esses animais passaram a ser periódicos na Indonésia. Mas essa não é uma exclusividade dos Dragões de Komodo, mas de qualquer animal.

Até pouco tempo acreditava-se que a saliva dos Dragões de Komodo carrega um coquetel de bactérias potencialmente fatal para suas presas, e isso ainda é visto em muitos documentários sobre essa espécie. Porém, um estudo conduzido por FRY e colaboradores (2009) mostrou que esses animais possuem uma glândula que produz veneno, tornando-os animais peçonhentos.

Na verdade, a combinação de dentes afiados com esse veneno torna a predação dos Dragões de Komodo incrível. Tudo que eles precisam é morder a presa – a partir daí, ele segue-a até que ela pereça, seja por perda de sangue decorrida do estrago na mordida ou pela ação do veneno, que prejudica a coagulação e aumenta a pressão sanguínea. Aí ele está livre para comê-la (Fig 6). Pode parecer esquisito, mas tal como a alimentação de outros animais carnívoros (leões, crocodilos, tubarões), é a alimentação do Dragão de Komodo um dos pontos que mais atrai turistas que buscam ver esses animais (WALPOLE, 2001).

Fig. 6. Dragões de Komodo se alimentando de um búfalo (um animal muito maior e pesado que eles). Créditos: © Conrad Maufe / naturepl.com

Fig. 6. Dragões de Komodo se alimentando de um búfalo (um animal muito maior e pesado que eles). Créditos: © Conrad Maufe / naturepl.com

No seu cardápio estão inclusos uma variedade de animais, incluindo búfalos, cervos, cabras, suínos, aves, peixes, alguns primatas, outros Dragões de Komodo e também carcaças dos mais variados animais (Fig. 7); os mais jovens podem comer grilos, lagartos pequenos, ovos e até pequenos mamíferos (MILLER, 2003).

Dragões de Komodo se alimentando da carcaça de um golfinho. Créditos: © Reinhard Dirscherl / www.flpa-images.co.uk

Dragões de Komodo se alimentando da carcaça de um golfinho. Créditos: © Reinhard Dirscherl / http://www.flpa-images.co.uk

O Dragão de Komodo também é capaz de engolir grandes porções de carne (Fig. 8) como as serpentes, graças ao seu crânio flexível e uma forte mandíbula – para efeito de comparação, a mordida do Dragão de Komodo é 6,5 vezes mais fraca que a do Crocodylus porosus (FRY et al., 2006). Além disso, normalmente comem todo o animal, desperdiçando pouco.

Fig. 8. Dragão de Komodo engolindo um javali selvagem. Créditos: © B. Jones & M. Shimlock / www.photoshot.com

Fig. 8. Dragão de Komodo engolindo um javali selvagem. Créditos: © B. Jones & M. Shimlock / http://www.photoshot.com

Infelizmente, com a contínua ocupação de pessoas no âmago do arquipélago indonésio, a tendência da população de Dragões de Komodo é só diminuir. A perda de habitat ainda constitui um dos problemas mais sérios para os animais em geral, sendo um grande predador ou não; combinado a isso, ainda ocorre a caça ilegal (contribuindo para a biopirataria) e a depleção de presas (vários animais predados pelo Dragão de Komodo são usados por nós, principalmente como gado ou animais domésticos).

Dragão de komodo próximo de habitações humanas. Note que o ambiente onde essas pessoas estão inseridas tornam esses encontros inevitáveis. Créditos: © Jurgen Freund / naturepl.com

Fig. 9. Dragão de komodo próximo à habitações humanas. Note que o ambiente onde essas pessoas estão inseridas tornam esses encontros inevitáveis. Créditos: © Jurgen Freund / naturepl.com

Diante de uma vasta obra de sensacionalismo desfavorecendo os Dragões de Komodo, répteis e vários outros animais carnívoros ou não, é difícil defende-los e explicar a importância desses animais, além do simples direito à sobrevivência. Mas nesse pequeno texto pudemos observar que eles retiram carcaça de animais mortos do ambiente, são importantes para o ecoturismo e participam na regulação de suas comunidades, realizando o controle populacional de várias espécies. Além de tudo isso, falamos de milhões de anos de evolução que esculpiram a forma e as habilidades desse grande réptil, tudo isso podendo ser ameaçado por poucos anos de ocupação humana.

Fig. 10. Dragão de Komodo na Ilha Rinca. Créditos: © M. Watson / www.ardea.com

Fig. 10. Dragão de Komodo na Ilha Rinca. Créditos: © M. Watson / http://www.ardea.com

Texto por: Lucas Araújo de Almeida, bolsista do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

1)Ouwens, P. A. (1912). On a large Varanus species from the island of Komodo. Bull Jard Bot Buitenzorg6, 1-3.

2)De Jong, J. K. (1927). LXX.—Varanus komodoensis, Ouwens. Journal of Natural History19(113), 589-591.

3)Murphy, J. B., Ciofi, C., de La Panouse, C., & Walsh, T. (Eds.). (2015).Komodo dragons: biology and conservation. Smithsonian Institution.

4)Fry, B. G., Wroe, S., Teeuwisse, W., van Osch, M. J., Moreno, K., Ingle, J., … & Norman, J. A. (2009). A central role for venom in predation by Varanus komodoensis (Komodo Dragon) and the extinct giant Varanus (Megalania) priscus. Proceedings of the National Academy of Sciences106(22), 8969-8974.

5)Walpole, M. J. (2001). Feeding dragons in Komodo National Park: a tourism tool with conservation complications. Animal Conservation4(1), 67-73.

6)Auffenberg, W. (1981). The behavioral ecology of the Komodo monitor. University Press of Florida.

7)Watts, P. C., Buley, K. R., Sanderson, S., Boardman, W., Ciofi, C., & Gibson, R. (2006). Parthenogenesis in Komodo dragons. Nature444(7122), 1021-1022

8)Miller, J. (2003). The Komodo Dragon. The Rosen Publishing Group.

9)Losos, J. B., & Greene, H. W. (1988). Ecological and evolutionary implications of diet in monitor lizards. Biological Journal of the Linnean Society35(4), 379-407.

Vermes de lagartos e seus efeitos negativos na reprodução

Estudos sobre os endoparasitas de lagartos têm se tornado cada vez mais comuns na literatura científica nacional. De fato, vários grupos de pesquisa têm investido seus esforços na parasitologia de répteis, produzindo informação sobre quem são seus parasitas e quais suas taxas de prevalência e intensidades de infecção (Anjos, 2011; Ávila et al., 2012). Contudo, poucas pesquisas se debruçaram sobre os efeitos deletérios que o parasitismo pode causar à reprodução dos hospedeiros.

Recentemente, um artigo publicado na revista científica Journal of Parasitology da sociedade americana de parasitologia, trouxe importantes contribuições neste sentido. Neste trabalho, desenvolvido junto a colaboradores do NUROF-UFC, os autores avaliam a relação entre a carga parasitária de helmintos e o investimento reprodutivo de fêmeas do lagarto Tropidurus hispidus (Figura 1).

Tropidurus_hispidus_femea_DanielPassosFigura 1. Fêmea adulta de Tropidurus hispidus. Fotografia de Daniel Passos.

Entre os principais resultados, foi descoberto que a alocação reprodutiva das fêmeas foi negativamente correlacionada com a intensidade de infecção (Galdino et al., 2014). Em outras palavras, existem indícios que o parasitismo por helmintos realmente tem consequências negativas para a reprodução dos lagartos.

Embora as causas diretas dos efeitos negativos do parasitismo ainda não sejam bem conhecidas, a explicação desta relação pode residir no fato dos helmintos consumirem nutrientes de seus hospedeiros, consequentemente diminuindo suas reservas energéticas. Assim, como as fêmeas de lagartos usam a energia acumulada na forma de gordura para produzir suas ninhadas, o parasitismo de forma geral pode reduzir seu investimento reprodutivo.

Para acessar os demais resultados, leia o artigo completo que pode ser obtido em: Journal of Parasitology, 100(6):864-867.

 

Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANJOS, L. A. 2011. Herpetoparasitology in Brazil: what we know about endoparasites, how much we still do not know? Neotropical Helminthology, 5: 107-111.

ÁVILA, R. W.; ANJOS, L. A.; RIBEIRO, S. C.; MORAIS, D. H.; SILVA, R. J. & ALMEIDA, W. O. 2012. Nematodes of lizards (Reptilia: Squamata) from Caatinga biome, northeastern Brazil. Comparative Parasitology, 79: 56-63.

GALDINO, C. A. B.; ÁVILA, R. W.; BEZERRA, C. H.; PASSOS, D. C.; MELO, G. C. & ZANCHI-SILVA, D. 2014. Helminths infection patterns in a lizard (Tropidurus hispidus) population from a semiarid Neotropical area: associations between female reproductive allocation and parasite loads. Journal of Parasitology, 100: 864-867.

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