Sapos Mortais criados em cativeiro? Conheça o pequeno Dendrobates auratus

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Figura 1. anuro Dendrobates auratus. Créditos da imagem: © Frank Steinmann

Mesmo sendo magnificamente bela, a natureza pode apresentar seus perigos, os quais alguns estão relacionados principalmente com espécies venenosas, que vão desde plantas até animais. Quando se fala em animais venenosos, os primeiros que nos vem em mente são as serpentes, aliado também a diversos mitos que permeiam o imaginário popular. No entanto, há outros grupos de animais que possuem espécies venenosas, como os anfíbios. Entre eles encontram-se alguns sapinhos que, apesar da aparência exuberante, de inofensivo não tem nada.

Geralmente, muitos deles apresentam uma coloração forte e chamativa, possuindo, desse modo, uma beleza única. Com essa aparência incrivelmente bela é difícil de imaginar que eles possam representar perigo para muitos outros seres, inclusive nós, humanos. Essa aparência característica serve como um tipo de aviso para os seus predadores, alertando-os que eles são tóxicos.

Os anuros (sapo, perereca e rã) com esse padrão de coloração podem ter a pele irrigada por toxinas mortíferas. Diferentemente de escorpiões e serpentes peçonhentas que possuem meios de inoculação da peçonha (ferrões e presas respectivamente), dize-se que eles são venenosos, pois precisam ser tocados ou ingeridos para o veneno fazer efeito (PATRICIA, 2009).

No entanto, mesmo os que não apresentam uma coloração forte possuem toxinas. Segundo Amaral (1945, apud SILVA, 1976), todos os anuros possuem pequenas glândulas distribuídas pelo corpo e algumas espécies da família Bufonidea apresentam duas glândulas paratóides que secretam certas toxinas. Além disso, ele relata que cada uma dessas glândulas produz secreções diferentes: as pequenas produzem uma secreção mucosa que tem ação neurotrópica e hemolítica; e as paratóides produzem uma secreção granulosa, viscosa e cremosa que é altamente irritante, provocando salivação intensa, náuseas, convulsões e até a morte. Porém, mesmo apresentando essas glândulas de toxinas, não significa que todos sejam nocivos aos seres humanos, pois o grau de toxidade muda de acordo com a espécie.

Mas… voltando aos anuros coloridos… Como há pessoas que criam esses sapinhos tão mortais? Isso ocorre por que quando retirados da natureza e criados em cativeiro esses animais perdem sua toxidade ao longo dos anos (PATRICIA, 2009). Mas por que isso ocorre? Esse fato está diretamente relacionado com a sua alimentação, no seu habitat natural sua dieta é à base de formigas, cupins e outros insetos de onde extraem os alcaloides necessários para a produção do veneno. Logo, quando em cativeiro, eles são privados de tais alimentos, não produzindo assim o veneno (PATRICIA,2009).

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Figura 2. Dendrobates auratus entre folhas. Créditos da imagem: © Danté B Fenolio.

Como exemplo desses animais, temos o belo Dendrobates auratus(figuras 1 e 2). Essa espécie pode ser encontrada na região Neotropical, desde o sul da Nicarágua até o Peru, Bolívia e o Brasil (AHUMADA, 2016). Está presente, também, na ilha de Oahu, no Havaí, onde foi introduzida (SCHAFER, 1999). Vivem próximos a pequenos riachos, são diurnos e estão sempre a procura de alimento (ALVES,2009), sendo sua dieta baseada em pequenos invertebrados, como os citados anteriormente. Em cativeiros são alimentados com insetos sem alcalóides, para que não produzam toxinas (SCHAFER, 1999).

       O Dendrobates auratus apresenta grande variedade de cores, tornando-o uma das espécies mais populares entre os amantes de anfíbios. O individuo adulto tem aproximadamente 4 cm, sendo os machos menores que as fêmeas (SCHAFER, 1999). Além disso, possuem glândulas venenosas distribuídas por toda a superfície corporal (SCHAFER,1999). Não apresentam dimorfismo sexual nítido, sendo necessário observar o comportamento para distinguir o sexo (ALVES, 2009).

       O Dentrobate sauratus tem significante importância para a humanidade, pois seu veneno tem sido utilizado por povos indígenas na preparação de suas armas (SCHAFER, 1999), várias pesquisas vêm sendo realizadas a fim de produzir medicamentos derivados da toxina desses animais, e, além disso tudo ainda são importantes controladores de insetos transmissores de doenças (SCHAFER, 1999). Apesar de não ser atualmente considerado como ameaçado de extinção, com a destruição das florestas tropicais é possível que logo eles estejam na lista (SCHAFER, 1990).

 

Aguardem o próximo texto sobre sapinhos mortais.

 

Texto escrito por Alyne Martins, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

Referências:

AHUMADA, Diana Patrícia Rojas. Explorando processos que geram variação de cor Adelphobatesgalactonotus, uma espécie de sapo colorido e venenoso endêmico da Amazônia Oriental. 2016. 92 f… Tese (Biologia (Ecologia)) – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Manaus, 2016. Disponível em:<bdtd.inpa.gov.br/bitstream/tede/2205/5/Tese%20Diana_Rojas_FINAL.pdf>. Acesso em: 14 de Setembro de 2018.

 

ALVES, Diogo. Mundo dos Dendrobates. Revista Mundo dos Animais. 9. ed. Dezembro 2008 / Janeiro 2009. p. 25. Disponível em: <https://www.mundodosanimais.pt/revista/edicao9/&gt; . Acesso: 14 de Setembro de 2018.

 

PATRICIA, Karlla. Qual a diferença entre sapos venenosos e não venenosos. Disponível em: <https://diariodebiologia.com/2009/01/qual-a-diferenca-entre-sapos-venenosos-e-nao-venenosos/>. Acesso em: 14 de Setembro de 2018.

 

SCHAFER, Rachel. DendrobatesauratusGreen and Black Dart-poison Frog. Disponível em: <http://animaldiversity.org/accounts/Dendrobates_auratus/>. Acesso em: 14 de Setembro de 2018.

 

SILVA, Paulo et al. Envenenamento de cães por bufadienolídeos (Substâncias encontradas na secreção das glândulas paratóides dos sapos do gênero Bufo). Anais da E.A.V. Universidade Federal de Goiás. V. 6, nº 1, JAN/DEZ. 1976. Disponível em: <https://www.revistas.ufg.br/pat/article/view/2242>. Acesso em: 14 de Setembro de 2018.

 

 

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O curioso sapinho da Caatinga (Pleurodema diplolistris) e sua estratégia para sobreviver à estiagem

 

A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro. É caracterizado pelo seu clima semiárido, com altas temperaturas, períodos de chuvas irregulares e períodos de secas severas. Apesar de negligenciada, a Caatinga apresenta uma rica biodiversidade, abrigando, segundo o Ministério do Meio Ambiente, 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes e 221 abelhas. Mas como esses animais conseguem sobreviver a um bioma com condições tão severas e estressantes?

Isso foi possível graças às adaptações morfológicas, comportamentais, reprodutivas e alimentares que desenvolveram ao longo da evolução para enfrentar e sobreviver à seca (FAGUNDES et al., 2016). Uma das estratégias mais interessantes é a realizada por um sapinho curioso que mede mais ou menos 3 cm, chamado de Pleurodema diplolistris, popularmente conhecido como goré (fig. 1). O P. diplolistris é uma espécie com hábitos fossoriais, estratégias reprodutivas explosivas correlacionadas com a precipitação e desenvolvimento larval rápido (ANDRADE, 2012 apud SANTOS et al. 2003).

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Figura 1: Pleurodema diplolistris em seu esconderijo de estiagem. Créditos: José Eduardo Carvalho/Unifesp.

Do mesmo modo que muitos anfíbios, o goré depende da água para a reprodução, assim, durante os períodos de seca – boa parte do ano – eles enterram-se em profundidades que podem ultrapassar um metro (PERERIRA, 2009). Mesmo enterrado o sapinho consegue se movimentar, pois com o avanço da seca ele penetra cada vez mais fundo no solo, fazendo um percurso vertical em busca de água, já que se tem uma maior umidade em maiores profundidades. Durante um curto período, na época das chuvas, eles desenterram-se para se hidratarem, alimentar-se e procurar um parceiro reprodutivo (fig. 2).

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Figura 2. Abraçado à fêmea, macho bate muco e produz um ninho para os ovos. Créditos: Isabel Cristina Pereira/USP.

Quando começam as chuvas, os machos ocupam os corpos d’água e emitem sons para atrair as fêmeas para o acasalamento. As fêmeas liberam os óvulos na água para serem fecundados pelo macho. Após a fecundação, o macho cobre os ovos com um muco, que se torna uma espuma devido ao movimento das pernas traseiras do animal na água. Depois de um tempo as larvas eclodem e desenvolvem-se em um curto período, o qual está relacionado com a permanência da água no ambiente semiárido (AMORIM, 2005).

Tal estratégia adaptativa chama-se estivação. Vocês se lembram da hibernação praticada por muitos mamíferos, como os ursos polares? Pois é. Pode-se dizer que a estivação é um tipo de hibernação que ocorrem em locais secos e com baixa pluviosidade. Esse fenômeno é um estado de dormência, o qual algumas espécies diminuem temporariamente e periodicamente suas atividades metabólicas (GUERRA, 1988) para sobreviver a condições extremas de seca. No entanto, diferentemente de outras espécies de anfíbios, o P. diplolistris não forma casulo e voltam ao seu estado de alerta assim que tem sua estivação é interrompida, não apresentando, assim, um estágio de dormência profunda (PEREIRA, 2009).

Link do vídeo do P. diplolistris enterrando-se:

 

Texto escrito por Alyne Martins, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

Referências:

AMORIM, Fabiana et al.
Espécies mastofaunísticas encontradas nas áreas de influência direta… Disponível em: <http://mapas.mma.gov.br/mapas/aplic/dadosdoc/chesf/fauna_itaparica/2%C2%BA%20relat.%20trim.%207140%20prelim%20parte%205a.doc&gt;. Acesso em: 19 de agosto de 2018.

BLOG BIOLOGIA TOTAL. Você conhece o sapinho que se enterra para sobreviver na Caatinga? Disponível em: < https://www.biologiatotal.com.br/blog/voce-conhece-o-sapinho-que-se-enterra-para-sobreviver-na-caatinga.html&gt;. Acesso em: 11 de agosto de 2018.

DE ANDRADE, Sheila Pereira; VAZ-SILVA, Wilian. First state record and distribution extension of Pleurodema diplolister (Peters 1870) (Anura: Leiuperidae) from state of Goiás, Brazil. Check List, v. 8, n. 1, p. 149-151, 2012. Disponivel em: < https://biotaxa.org/cl/article/view/8.1.149&gt;. Acesso em: 19 de agosto de 2018.

GUERRA, Rafael Torquemada. Ecologia dos oligochaeta da Amazônia. II. Estudo da estivação e da atividade de Chibuibari, através da produção de excrementos. Acta Amazonica, v. 18, n. 1-2, p. 27-34, 1988. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0044-59671988000100027&script=sci_arttext&tlng=pt&gt;. Acesso: 11 de agosto de 2018.

FAGUNDES, Adelly Cardoso de Araujo et al. Mecanismos de sobrevivência dos animais no nordeste do brasil. Anais do Congresso Nordestino de Biólogos, vol. 6, 2016. Disponível em: <http://congresso.rebibio.net/congrebio2016/trabalhos/pdf/congrebio2016-et-09-020.pdf&gt;. Acesso: 11 de agosto de 2018.

MINISTERIO DO MEIO AMBIENTE. Caatinga. Disponível em: < http://www.mma.gov.br/biomas/caatinga&gt;. Acesso em: 11 de agosto de 2018.

O CURIOSO caso do sapo da Caatinga. Disponível em: < http://www.geenf.fe.usp.br/v2/wp-content/uploads/2016/08/Encarte-sapo.pdf&gt;. Acesso em: 11 de agosto de 2018.

PEREIRA, Isabel Cristina. Aspectos fisiológicos e ecológicos da estivação em Pleurodema diplolistris (Leiuperidae/Anura). 2009. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41135/tde-05112009-104020/en.php&gt;. Acesso: 11 de agosto de 2018.

 

 

 

 

 

A “mãe de todos os lagartos”

 

O surgimento dos Squamata, grupo das serpentes e dos lagartos, é retratado como um assunto complexo e  controverso pela comunidade científica e, embora seja um dos grupos mais diversos e distribuídos, tem-se poucas informações sobre sua origem evolutiva e sobre como ele se tornou o que é hoje. Um fóssil que foi encontrado há cerca de 20 anos nos alpes italianos levantou suspeitas de ser um parente dos Squamata atuais e após um estudo publicado na revista Nature, está sendo chamado de a “mãe dos lagartos” pelos cientistas por se tratar do fóssil de uma espécie primitiva, Megachirella wachtleri (figura 1) , que viveu há  240 milhões de anos, do qual os lagartos e serpentes teriam evoluído. Esse é o fóssil mais antigo já encontrado relacionado a todos os Squamata da atualidade, mudando a percepção sobre o surgimento do primeiro lagarto para  75 milhões de anos antes do que se pensava atualmente.

MEGACHIRELLA

Figura 1.Esta foto de folheto recebida através do site da Nature em 28 de maio mostra uma cena de vida na região das Dolomitas, no norte da Itália, há cerca de 240 milhões de anos, com Megachirella wachtleri caminhando pela vegetação.(Foto: Davide Bonadonna, AFP / Getty Images)
Fonte: https://www.nature.com/articles/s41586-018-0093-3

 

MEGACHIRELLA Fóssil

Figura 2. Fóssil da espécie Megachirella wachtleri. Fonte: https://www.theguardian.com/science/2018/may/30/worlds-oldest-lizard-fossil-forces-rethink-of-reptile-family-tree

O vídeo abaixo traz mais informações sobre o assunto:

 

Referências:

Publicação na Nature: https://www.nature.com/articles/s41586-018-0093-3 >Acesso em:09/06/2018

Matéria da National Geographic: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2018/06/fossil-de-lagarto-mais-velho-do-mundo-encontrado-e-por-que-isso-e-importante  >Acesso em:09/06/2018

Coletiva de imprensa dos autores para a University of Alberta – Canadá: https://www.ualberta.ca/science/science-news/2018/may/scientists-discover-worlds-oldest-lizard-fossil >Acesso em:09/06/2018

Notícia: Descoberta de sapos que não escutam o canto da sua espécie

Uma equipe de pesquisadores brasileiros, ingleses e dinamarqueses descobriram que dois sapos brasileiros são surdos para seu próprio canto (Figura 01).  Os sapos Brachycephalus ephippium e B. pitanga se mostraram insensíveis ao som de seu próprio canto. Os pesquisadores sugerem que esse fato inusitado ocorre por conta do desenvolvimento incompleto do ouvido interno dessas duas espécies (Figura 02), que as impede de escutar as altas frequências do seu canto. Os anuros tipicamente possuem seus ouvidos “sintonizados” para detectar a frequência dominante das vocalizações da sua própria espécie, o que permite que eles diferenciem o som do seu canto dos sons do ambiente e do canto de outras espécies.

Goutte et al. 2017 - B. pitanga

Figura 01. Fotografia presente no artigo original, mostrando a espécie Brachycephalus pitanga, uma das duas espécies de sapos que não escutam seu próprio canto. Fonte: Goutte et al., 2017.

O curioso é que o comportamento do canto é energeticamente custoso e ainda pode atrair predadores e parasitas, e mesmo assim, apesar de todas essas características, o comportamento se manteve nas duas espécies até hoje. Os pesquisadores supõem que o comportamento de cantar tenha permanecido por causa de aspectos visuais do canto, como o movimento dos sacos vocais. Essa hipótese é sustentada pelos hábitos diurnos, cores vibrantes e certos comportamentos visuais desses anuros. A presença de cores vibrantes é indicativa de que o animal possui toxinas, sendo essa coloração de advertência chamada de “aposematismo”. Realmente, esses dois anuros possuem substâncias altamente tóxicas em sua pele e órgãos internos, e é por isso que os sapinhos são menos predados, mesmo chamando tanta atenção por causa do seu canto. Logo, o fato de os sapos cantarem não irá trazer grandes problemas assim, e o comportamento de cantar se mantém evolutivamente, através da inércia evolutiva.

Goutte et al. 2017 - Estrutura Ouvido

Figura 02. Figura presente no artigo original, mostrando as estruturas do ouvido médio em sapos “com” ouvido (a) e “sem” ouvido (b). Fonte: Goutte et al., 2017.

Os pesquisadores supõem que a perda das estruturas do ouvido interno desses sapos possa ter sido resultado de mutações genéticas e deriva gênica, ou resultado da seleção de outros traços na espécie, como a hiperossificação do crânio presente em ambas as espécies, que afetaram o desenvolvimento do seu ouvido. Eles também suspeitam que a espécie possa se comunicar através de sinais químicos, assim como outros anuros sem ouvido, mas isso é algo que ainda precisa ser estudado.

A descoberta da comunicação singular desses dois sapos forneceu informações importantes  para os estudos sobre a evolução e degeneração da comunicação acústica nos vertebrados, contribuindo, assim, com o estudo da comunicação animal.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

GOUTTE, S.; MASON, M. J.; CHRISTENSEN-DALSGAARD, J.; MONTEALEGRE-Z, F.; CHIVERS, B. D.; SARRIA-S, F.; ANTONIAZZI, M. M.; JARED, C.; SATO, L. A.; TOLEDO, L. F. Evidence of auditory insensitivity to vocalization frequencies in two frogs. Scientific Reports, v. 7, p. 1-10, 2017. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/s41598-017-12145-5 >.

Bebês a bordo: Conheça os mais novos integrantes do NUROF-UFC!

Nessa sexta-feira (29/09), nasceram mais 3 integrantes do NUROF-UFC (Figura 01). Estes são filhotes do cágado conhecido como Muçuã (Kinosternon scorpioides). Os cágados são quelônios de hábito predominantemente aquático de água doce, diferentemente das tartarugas, que são exclusivamente marinhas, e dos jabutis, que são exclusivamente terrestres (Saiba mais um pouco sobre eles aqui).

Castiele Holanda - Muçuãs Filhotes (Kinosternon scorpioides)

Figura 01. Os mais novos 3 integrantes do NUROF-UFC são lindos cágados da espécie Kinosternon scorpioides, conhecidos popularmente como Muçuã. Autora: Castiele Holanda.

Uma curiosidade sobre esses animais é que seu gênero, de nome “Kinosternon”, é derivado da palavra grega “kinetos”, que significa “móvel”, e “sternon”, que significa “peito”, em referência às “dobradiças” presentes em seu plastrão. Já seu epíteto específico, “scorpioides”, é derivado do latim “scorpio”, provavelmente em referência ao espinho córneo no final da sua cauda. Juntando com o final “oides”, “scorpioides” tem como tradução completa “similar a um escorpião”1 apud 2.

Em cativeiro, os Muçuãs se acasalam de Abril a Agosto, e a postura de ovos ocorre de Maio a Setembro, com a postura de 1 a 7 ovos de formato alongado (Figura 02). O período de incubação de seus ovos varia de 111 a 164 dias3. Os três filhotes serão analisados semanalmente para que seu desenvolvimento seja acompanhado. Ainda não se sabe seu sexo, pois os caracteres sexuais dos cágados aparecem apenas em torno de seus 22 meses de idade3.

Castiele Holanda - Muçuã Filhote (Kinosternon scorpioides)

Figura 02. Filhote recém-nascido de Muçuã, Kinosternon scorpioides, dentro de seu ovo. Autora: Castiele Holanda.

Os interessados podem conhecer os filhotes marcando uma visita ao NUROF-UFC, através do email nurofextensao@gmail.com .

Que nomes os três cágados devem receber? Os nomes que você sugerir podem ser os escolhidos!

Texto escrito por  Thaís Abreu e Bruno Guilhon, membros do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

1 DIXON, J. R.; LEMOS-ESPINAL, J. A. Amphibians and reptiles of the state of Queretaro, Mexico. Tlalnepantla UNAM, 2010.

2 The Reptile Database. Kinosternon scorpioides (LINNAEUS, 1766). Disponível em: <http://reptile-database.reptarium.cz/species?genus=Kinosternon&species=scorpioides >.

3 CASTRO, A. B. Biologia reprodutiva e crescimento do muçuã Kinosternon scorpioides (Linnaeus, 1776) em cativeiro. 2006. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Pará. Disponível em: <http://repositorio.ufpa.br/jspui/bitstream/2011/5547/1/Dissertacao_BiologiaReprodutivaCrescimento.pdf >.

Notícia: Lançamento do AmphiBIO, banco de dados de traços ecológicos dos anfíbios

Michel de Aguiar Passos - Phyllomedusa nordestina

Phyllomedusa nordestina, um anuro da superfamília Hyloidea. Fonte: Michael de Aguiar Passos, do blog Herpetolife.

Pesquisadores da UFRN, juntamente com pesquisadores do México e EUA, acabam de publicar um banco de dados muito importante para o estudo dos anfíbios. Os autores compilaram dados de mais de 6500 espécies de anfíbios de 531 gêneros, a partir de mais de 1500 fontes da literatura. Denominado de AmphiBIO, o banco de dados reúne informações da história natural de anfíbios do mundo todo, possuindo dados de 17 traços ecológicos relacionadas à ecologia, morfologia e reprodução. Esses dados vão permitir análises em larga escala nas áreas de ecologia, evolução e conservação dos anfíbios. É possível obter o link para download do AmphiBIO em sua publicação contida na revista Scientific Data, do grupo Nature. Para saber mais sobre o AmphiBIO, veja a publicação aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIA

OLIVEIRA, B. F.; SÃO-PEDRO, V. A.; SANTOS-BARRERA, G.; PENONE, C.; COSTA, G. C. AmphiBIO, a global database for amphibian ecological traits. Scientific Data, 2017. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/sdata2017123 >.

Notícia: Novas informações sobre a história evolutiva dos anuros

Em julho deste ano, Feng e colaboradores (2017)¹ publicaram um artigo fundamental para a elucidação dos mistérios da origem e diversificação dos anuros. Através da utilização de dados moleculares de 156 espécies de anuros viventes e da utilização de dados de fósseis, os autores apresentaram uma filogenia que abrange as principais linhagens do grupo e é melhor fundamentada que as propostas anteriormente. Seus resultados mostram também uma escala do tempo da evolução dos anuros, sugerindo divergências mais recentes do que o apontado por estudos anteriores.

Fig 6 D - Dong et al. 2013.png

Fóssil de Liaobatrachus zhaoi, o mais antigo registro de um sapo moderno encontrado até hoje, retirado da Formação Yixian, na China. Fonte: Figura 6 D, pertencente a Dong et al. (2013)2.

Em sua pesquisa, foi apontado que aproximadamente 88% dos anuros viventes são originados de três principais linhagens (os grupos Hyloidea, Microhylidae e Natatanura) que diversificaram de forma rápida e simultânea na época da grande extinção do final da Era Mesozoica, entre os períodos Cretáceo e Paleógeno. Essa extinção em massa ocorreu a 66 milhões de anos atrás, e foi responsável também pela extinção dos dinossauros não-avianos (Sim, aves são dinossauros!). Essa informação vai de encontro às dos estudos anteriores, que sugeriram que os principais clados de anuros já se encontravam estabelecidos no Mesozoico.

Análises biogeográficas também foram feitas, e as mesmas sugerem que a África foi a área de origem dos sapos modernos, e que a distribuição atual dos anuros está associada com a divisão da Pangeia e fragmentação do Gondwana. Também foi visto no estudo que famílias e subfamílias de anuros arborícolas foram originadas próximo ou depois dessa época.

Dessa maneira, os resultados obtidos por Feng et al. (2017) sugerem que a extinção do Cretáceo-Paleógeno levou à radiação dos sapos, através da criação de novas oportunidades ecológicas. Logo, essa extinção em massa foi fundamental para definir a diversidade atual e distribuição geográfica dos anuros modernos.

Para mais informações, você pode consultar uma notícia em inglês mais detalhada sobre este artigo aqui ou o próprio artigo original aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 REFERÊNCIAS

1FENG, Y. J.; BLACKBURN, D. C.; LIANG, D.; HILLIS, D. M.; WAKE; D. B.; CANNATELLA, D. C.; ZHANG, P. Phylogenomics reveals rapid, simultaneous diversification of three major clades of Gondwanan frogs at the Cretaceous–Paleogene boundary. PNAS, v. 114, n. 29, p. E5864-E5870, jul. 2017 (online). Disponível em: <https://pdfs.semanticscholar.org/574c/ed3e56c8aab7293fa1f42ac81d73dbdaeb7f.pdf >.

2DONG, L.; ROČEK, Z.; WANG, Y.; JONES, M.E.H. 2013. Anurans from the Lower Cretaceous Jehol Group of Western Liaoning, China. PLoS One, v. 8, n. 7, p. e69723, 2013. Disponível em: <http://journals.plos.org/plosone/article/file?id=10.1371/journal.pone.0069723&type=printable >.

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