Adotar ou matar? Conheça os sapos venenosos que alteram seu comportamento parental de acordo com seu status territorial

Pesquisadores austríacos e norte-americanos mostraram experimentalmente que machos da espécie de sapos venenosos Allobates femoralis ajustam seus comportamentos relacionados às crias de outros machos de acordo com seu status territorial. O macho pode cuidar dos filhotes dos outros se o território for dele, ou pode ingeri-los se ele estiver estabelecendo um novo território.

O anuro Allobates femoralis (FIGURA 01) pertence à família Dendrobatidae, caracterizada por possuir territorialidade (quando um organismo defende seu território) e cuidado parental (cuidado dos pais com seus filhos) por um ou pelos dois pais. O sapo A. femoralis possui machos altamente territorialistas que transportam os girinos recém nascidos dos ovos até corpos d’água que geralmente estão fora de seu território (FIGURA 02). Mas além de levarem suas próprias crias, esses machos também transportam outros girinos de sua espécie que estão em seu território. Os pesquisadores observaram o canibalismo de girinos durante uma disputa territorial, e a partir disso se inspiraram para realizar a pesquisa. Além disso, o comportamento de cuidar de outras crias ou de ingeri-las já era descrito para outras espécies de dendrobatídeos em cativeiro e na natureza, mas nunca se soube sobre os fatores que controlavam tais decisões.

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Figura 01. Um indivíduo adulto da espécie Allobates femoralis, uma espécie de sapo venenoso. Fonte: Pedro Ivo Simões, via Programa de Pesquisa em Biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Esse tipo de comportamento, chamado de infanticídio não-parental,  possui registro em diversos grupos de animais, como mamíferos, pássaros, peixes e artrópodes. Nos mamíferos e aves, o infanticídio não-parental é uma estratégia dos machos para aumentar seus recursos espaciais, seu status social e sua atratividade, além de tornar as fêmeas receptivas ao macho mais cedo, por “terminarem” seus deveres de mãe. Além disso, esse infanticídio diminui a competição por recursos que sua própria cria enfrenta e aumenta seus ganhos nutricionais.

Quando esse tipo de comportamento ocorre em mamíferos e pássaros, é interpretado como sendo fruto da sua inteligência, mas estudos recentes mostram que simples “regras” podem ser utilizadas para resolver problemas complexos, como é o caso do sapo venenoso Allobates femoralis. Esse infanticídio é vantajoso porque é um comportamento que prejudica crias não relacionadas, e leva ao aumento do sucesso reprodutivo do macho que adota esse comportamento, em relação ao sucesso reprodutivo dos outros machos.

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Figura 02. Ovos de Allobates femoralis. Fonte: Lima & Magnusson, via Programa de Pesquisa em Biodiversidade do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Para saber sobre fatores que controlavam tais decisões em relação aos filhotes dos outros machos, os pesquisadores manipularam o status territorial de um grupo de machos. Para os testes, foram utilizados ovos pertencentes a outros machos, que possuíam embriões visíveis, com idade de 9 a 31 dias após a oviposição.

Através da pesquisa, os autores perceberam que as decisões tomadas pelos machos de A. femoralis eram mediadas por sinais territoriais. Quem estava com seu território garantido decidia que cuidaria de qualquer girino presente em seu território, mas quando estavam disputando por um novo território, automaticamente decidiam pelo canibalismo dos girinos. Isso reduz o risco de o macho acidentalmente rejeitar sua cria no momento em que seu território está estabelecido. Esse comportamento também reduz o risco de direcionar mal o cuidado a girinos quando a chances de o macho em questão ser o pai deles é baixa e quando são altos os riscos e custos desses cuidados. Além disso, há um bom ganho nutricional ao ingerir as crias dos outros machos.

Dessa forma, o estudo demonstrou que essa decisão parental flexível entre “cuidado” ou “infanticídio”, para evitar cuidados mal direcionados, pode evoluir em espécies que não convivem em grupo e que apresentam um sistema nervoso relativamente simples.

Todas as informações presentes nesse texto foram extraídas de Ringler et al. (2017). Você pode ler mais sobre essa pesquisa aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

RINGLER, E.; BECK, K. B.; WEINLEIN, S.; HUBER, L.; RINGLER, M. Adopt, ignore, or kill? Male poison frogs adjust parental decisions according to their territorial status. Scientific Reports, v. 7, 2017. Disponível em: < https://www.researchgate.net/profile/Eva_Ringler/publication/314268792_Adopt_ignore_or_kill_Male_poison_frogs_adjust_parental_decisions_according_to_their_territorial_status/links/58bfed98aca2725ebd235bab/Adopt-ignore-or-kill-Male-poison-frogs-adjust-parental-decisions-according-to-their-territorial-status.pdf >.

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Notícia: Nova espécie de sapo recebe nome em homenagem à banda Pink Floyd

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Pesquisadores brasileiros descreveram recentemente uma nova espécie de sapo, que recebeu seu nome inspirado na famosa banda britânica Pink Floyd. A espécie recebeu o nome de Brachycephalus darkside (FIGURA 01), em homenagem ao álbum “The Dark Side of the Moon”, lançado em 1970 pela banda.

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FIGURA 01. Fotografias de Brachycephalus darkside, mostrando uma fêmea (A) e um macho (B) da espécie. Fonte: GUIMARÃES et al., 2017.

Essa escolha não foi feita só pelo gosto musical dos pesquisadores. A espécie descrita possui manchas nas costas causadas pela presença de um tecido conjuntivo de cor preta que cobre toda a musculatura dorsal do animal (FIGURA 01). Por esse motivo, esse lado escurecido do anfíbio deu a ideia para a escolha do nome “darkside”. Segundo a pesquisadora, Carla Silva Guimarães, o nome da espécie é muito importante para divulgar o local de pesquisa e o grupo de pesquisadores, bem como promover o Museu de Zoologia e o Departamento de Biologia Animal da Universidade Federal de Viçosa, instituição na qual a pesquisa estava vinculada.

B. darkside foi encontrado na floresta atlântica da Serra do Brigadeiro (MG), o tipo de floresta no qual o gênero Brachycephalus é endêmico. O gênero possui 31 espécies descritas, e cerca de 30% foram descritas nos últimos três anos, o que indica que a diversidade do gênero ainda está sendo descoberta.

Durante os meses secos da pesquisa, de Julho a Setembro, B. darkside foi encontrado escondido profundamente na serrapilheira, enterrado ou entre raízes de árvores (FIGURA 02). Durantes os meses de Outubro a Dezembro, período de atividade de B. darkside, os machos foram encontrados cantando em cima ou abaixo de folhas, e as fêmeas foram encontradas andando sobre a serrapilheira.

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FIGURA 02.  Fotografias do local onde B. darkside foi encontrado, mostrando um macho escondido abaixo de raízes (C) e as raízes onde o macho foi encontrado (D). Fonte: GUIMARÃES et al., 2017.

A cor amarelo-alaranjada brilhante de B. darkside (FIGURA 01), característica do seu gênero, é um tipo de coloração aposemática, que atua como um alerta para predadores, avisando-os que aquele indivíduo provavelmente possui toxinas.

A descoberta foi publicada na revista Zootaxa, em um artigo com o título “The dark side of pumpkin toadlet: a new species of Brachycephalus (Anura: Brachycephalidae) from Serra do Brigadeiro, southeastern Brazil”. A descrição foi embasada por estudos de morfologia, osteologia, histologia e vocalização da espécie. A análise molecular ainda será feita, em outra fase da pesquisa. A autora ainda planeja, em seu doutorado, explicar a origem química e função da pigmentação característica de B. darkside, e o motivo das outras espécies de seu gênero não a possuírem.

Para mais informações, você pode consultar o artigo original aqui, e uma matéria muito interessante publicada sobre a descoberta aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

GUIMARÃES, Carla Silva; LUZ, Sofia; ROCHA, Pedro Carvalho; FEIO, Renato Neves. The dark side of pumpkin toadlet: a new species of Brachycephalus (Anura: Brachycephalidae) from Serra do Brigadeiro, southeastern Brazil. Zootaxa: v. 4258, n. 4, p. 327-344, 2017.

Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da UFV. Nova espécie de sapo descrita por pesquisadores da UFV traz referência a grupo de rock. Disponível em: < http://www.ppg.ufv.br/?noticias=nova-especie-de-sapo-descrita-por-pesquisadores-da-ufv-traz-referencia-a-grupo-de-rock>. Acesso em: 20 jun. 2017.

 

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