Os lagartos peçonhentos foram reavaliados: Agora são seis espécies no mundo!

O tema “lagartos peçonhentos” já foi apresentado pelo menos duas vezes no blog do NUROF-UFC. Especificamente, quando tratamos dos potenciais riscos à saúde humana causados por alguns lagartos brasileiros (“Lagartos brasileiros: peçonhentos não, mas nem tão inofensivos!”) e quando apresentamos as espécies de lagartos viventes verdadeiramente peçonhentas (“Lagartos peçonhentos”).

Nesta postagem, revisitamos a temática para atualizar os caros leitores em relação aos últimos avanços herpetológicos.

No último mês (Julho de 2013), uma equipe de pesquisadores norte-americanos publicou no periódico “Amphibian & Reptile Conservation” uma pesquisa que trouxe à tona uma grande descoberta para a herpetologia mundial. Neste trabalho, os autores reavaliaram a classificação taxonômica do “Lagarto de Contas” (Heloderma horridum), uma das espécies verdadeiramente peçonhentas previamente conhecidas, e descobriram que, sob este nome científico, existiam outras três espécies até então desconhecidas pela ciência (Figura 1).

Heloderma

Figura 1.  Relações de parentesco entre as espécies do gênero Heloderma. Fonte: Reiserer et al., 2013.

Com base em informações morfológicas (folidose e coloração), moleculares (DNA mitocondrial e nuclear) e biogeográficas, as três novas espécies foram então nomeadas como: Heloderma alvarezi, Heloderma charlesbogerti e Heloderma exasperatum. De acordo com os autores do artigo recém publicado, as quatro espécies divergiram de um ancestral comum há cerca de 35 milhões de anos.

Novos Lagartos de Contas

Figura 2. Detalhe das quatro espécies viventes de Lagartos de Contas.  Fonte: Reiserer et al., 2013.

Heloderma alvarezi (acima à esquerda, foto por Thomas Wiewandt),

Heloderma charlesbogerti (acima à direita, foto por Daniel Ariano-Sánchez),

Heloderma exasperatum (abaixo à esquerda, foto por Stephanie Meyer) e

Heloderma horridum (abaixo à direita, foto por Javier Alvarado).

Portanto, após esses novos achados, o número de espécies de lagartos peçonhentos foi elevado para seis, sendo três destas já previamente conhecidas (“Dragão de Komodo” – Varanus komodoensis, “Lagarto de Contas Mexicano” – Heloderma horridum e o “Monstro de Gila” – Heloderma suspectum), além das outras três espécies de “Lagartos de Contas” recém descritas (Heloderma alvarezi, Heloderma charlesbogerti e Heloderma exasperatum).

Para os mais curiosos e interessados, o artigo completo está disponível on-line e pode ser acessado em: “Reiserer et al., 2013. Taxonomic reassessment and conservation status of the beaded lizard, Heloderma horridum (Squamata: Helodermatidae)“.

 Por: Daniel Passos, membro do NUROF-UFC

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 

REISERER, R.S.; SCHUETT, G.W. & BECK, D. D. 2013. Taxonomic reassessment and conservation status of the beaded lizard, Heloderma horridum (Squamata: Helodermatidae). Amphibian & Reptile Conservation, 7: 74–96.

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Notícia: Vital Brazil inaugura o 1º Biotério especializado em Micrurus no Brasil

O biotério tem a missão de estudar e desenvolver o manejo e reprodução das cobras-corais

Figura01: Micrurus ibiboboca. Fotografia de Diego de Oliveira Soares.

Exemplar da espécie Micrurus ibiboboca. Fotografia de Diego de Oliveira Soares.

No último dia 30, o primeiro Biotério brasileiro especializado na criação de serpentes do gênero Micrurus foi inaugurado pelo Instituto Vital Brazil. Objetivando a criação destas serpentes para produção de veneno, foi necessário fornecer condições propícias para o desenvolvimento, manejo e reprodução de corais.

Segundo Carlos Corrêa Neto, pesquisador do instituto, “atualmente o Vital Brazil não produz o soro contra a picada de cobra-coral por falta do veneno dessa espécie”. A realização do projeto foi possível devido ao financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), com verba no valor de 40 mil.

O gênero Micrurus, corresponde às “corais-verdadeiras” ou “cobra coral”, são serpentes geralmente pequenas de coloração aposemática (coloração de advertência). Apresentam padrão de coloração disposto por anéis completos (dão a volta no corpo do animal) mais comumente de cores preta, vermelha e branca, e em algumas espécies amarela.

O Instituto Vital Brazil é uma empresa de ciência e tecnologia do Governo do Estado do Rio de Janeiro ligado à Secretaria de Estado de Saúde. É um dos 21 laboratórios oficiais brasileiros, um dos quatro fornecedores de soros contra o veneno de animais peçonhentos e um produtor de medicamentos estratégicos para o Ministério da Saúde. Fica sediado na Rua Maestro José Botelho, 64, Vital Brazil, em Niterói.

Ficou curioso sobre as corais verdadeiras ou cobra-coral? Aguarde, em breve, aqui no Blog do Nurof um pouco mais sobre as serpentes do gênero Micrurus.

Sintetizado a partir da notícia original disponível em: Vital Brazil

A mentirinha que faz bem: saiba o que é a tanatose em anfíbios

Alguns animais apresentam comportamentos de defesa antipredadores como a coloração chamativa e críptica (aposemática), que é associada pelos predadores como uma advertência ao perigo, comum em serpentes (Greene, 2000) e alguns anfíbios da subfamília Phyllomedusinae (família Hylidae), conhecidos vulgarmente como pererecas (Duellman & Trueb, 1986).

Outra estratégia de defesa é de fingir-se de morto, também conhecida como tanatose, que é apresentada por diversos grupos como os coleópteros (Barreto e Anjos, 2002), marsupiais (Franq, 1969), lagartos (Machado et al., 2007) e vários anfíbios (Sazima, 1974). Este comportamento ocorre quando o animal, em situação de perigo, é tocado ou capturado pelo predador. Então a presa se infla ou encolhe o corpo, ficando imóvel, fingindo-se de morto e apresentando total imobilidade tônica, para que o predador perca o interesse e desista de predá-lo.

Geralmente durante a tanatose o animal exibe o ventre, permanecendo estático por até alguns minutos. Entretanto, escapa tão logo haja o desinteresse do predador. Estudos sugerem que este comportamento pode ter surgido em decorrência da forma lenta de locomoção dos grupos, não muito eficaz para fugas rápidas.

Abaixo, apresentamos alguns exemplos destes comportamentos nas espécies Lepdotactylus aff. hylaedactylus (Figuras 1 e 2, Borges-Leite et al., 2012a) e Elachistocleis piauiensis (Figuras 3 e 4, Borges-Leite et al., 2012b).

Figura 01. Indivíduo adulto de Leptodactylus aff. hylaedactylus. Fotografia de Juliana Borges.

Figura 01. Indivíduo adulto de Leptodactylus aff. hylaedactylus. Fotografia de Juliana Borges.

Figura 02. Indivíduo adulto de Leptodactylus aff. hylaedactylus realizando tanatose. Fotografia de Juliana Borges.

Figura 02. Indivíduo adulto de Leptodactylus aff. hylaedactylus realizando tanatose. Fotografia de Juliana Borges.

Figura 03. Indivíduo adulto de Elachistocleis piauiensis. Fotografia de Juliana Borges.

Figura 03. Indivíduo adulto de Elachistocleis piauiensis. Fotografia de Juliana Borges.

Figura 04. Indivíduo adulto de Elachistocleis piauiensis realizando tanatose. Fotografia de Juliana Borges

Figura 04. Indivíduo adulto de Elachistocleis piauiensis realizando tanatose. Fotografia de Juliana Borges

Por: Maria Juliana Borges-Leite, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRETO, M. R. & ANJOS, N. 2002. Mecanismos de defesa e comportamentos alimentar e de dispersão de Spermologus rufus, Boheman, 1843 (Coleoptera: Curculionidae). Ciência Agrotécnica, 26(4): 804-809.

BORGES-LEITE, M. J.; BORGES-NOJOSA, D. M. & MORAIS, D. O. 2012a. Leptodactylus aff. hylaedactylus. Defensive behavior. Herpetological Review, 43(1): 122.

BORGES-LEITE, M. J.; BORGES-NOJOSA, D. M.; RODRIGUES, J. F. M. & PRADO, F. M. V. 2012b. On the occurrence of thanatosis in Elachistocleis piauiensis Caramaschi and Jim, 1983 (Anura: Microhylidae). Herpetology Notes, 5: 9-10.

DUELLMANN, W. E. & TRUEB, L. 1986. Biology of Amphibians.Mc Graw-Hill, New York, USA, 670pp.

FRANQ, E. N. 1969. Behavioral aspects of feigned death in the opossum Didelphis marsupialisAmerican Midland Naturalist, 81(2): 556-568.

GREENE, H. W. 2000. Snakes: The evolution of mystery in nature. University of California Press, Berkeley, USA, 351pp.

MACHADO, L. L.; GALDINO, C. A. B. & SOUSA, B. M. 2007. Defensive behavior of the lizard Tropidurus montanus (Tropiduridae): Effects of sex, body size and social context. South American Journal of Herpetology, 2: 136-140.

SAZIMA, I. 1974. Experimental predation on the leaf-frog Phyllomedusa rohdei by the water snake Liophis miliaris. Journal of Herpetology, 8(4): 376-377.

Notícia: Três novas espécies de salamandra são descobertas no Brasil

Agora, com as outras duas espécies registradas de forma correta, o Brasil passa a ter cinco salamandras reconhecidas

Três novas espécies de salamandra foram descobertas recentemente por pesquisadores do Pará. A descrição dos animais, junto ao registro corrigido de outras duas já existentes (antes consideradas sendo a mesma pela Ciência), foi publicada na edição de julho da revista internacional Zootaxa. Resultado: o Brasil, que antes tinha apenas uma salamandra reconhecida, agora passou a ter cinco.

O estudo, que durou cerca de dois anos, foi a conclusão da dissertação de mestrado da bióloga Isabela Carvalho Brcko, na Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com o Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG). Teve a orientação dos pesquisadores Marinus Hoogmoed (do Museu Paraense Emilio Goeldi) e Selvino Neckel de Oliveira (da Universidade Federal de Santa Catarina).

Segundo Brcko, por quase 40 anos as salamandra Bolitoglossa paraensis Bolitoglossa altamazonica eram tidas pela Ciência como uma única espécie. Essa sinonímia se dava graças à grande semelhança morfológica entre as duas e à escassez de material depositado em coleções.

“Porém, nos últimos 30 anos, um novo material de Bolitoglossa foi coletado em vários locais da Amazônia brasileira – incluindo a localidade tipo de B. paraensis, que é Santa Isabel do Pará. Dessa forma, foi possível redefinir a espécie B. paraensis e corrigir as interpretações equivocadas sobre quantas espécies do gênero Bolitoglossa ocorrem na Amazônia brasileira”, explica.

Bolitoglossa caldwellae - Serra do divisor -AC - Fonte Pedro Peloso

Bolitoglossa caldwellae, uma das três novas espécies de salamandra descritas para o Brasil. Fotografia de Pedro Peloso.

Veja a notícia completa acessando: terradagente.com.br

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