É importante conservar as serpentes? Como a educação formal, contato prévio e percepção influenciam na interação do homem com as serpentes

Será que é eficaz pensar em conservação sem levar em conta as relações existentes entre as espécies animais e as comunidades humanas?  O estudo dessas relações parece ser um caminho cada vez mais importante na adoção de medidas efetivas de conservação (Alves 2012). A relação dos homens com alguns grupos de animais pode ser conflituosa, como exemplos desses grupos podemos citar aranhas, ratos, morcegos e serpentes. As serpentes têm sido historicamente perseguidas e mortas pelos homens em diversos países, chegando até mesmo a causar a diminuição de populações de espécies desse grupo em alguns locais (Figura 01). Recentemente, alguns estudos buscaram entender melhor a relação entre os homens e as serpentes no Brasil, focando seus esforços principalmente em aspectos descritivos dessa relação e em áreas rurais (Fernades Ferreira et al., 2011; Fita et al., 2010). Pouquíssimos abordaram essa relação testando hipóteses com as possíveis explicações para essa relação conflituosa.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Recentemente, colaboradores do NUROF-UFC publicaram um artigo na revista cientifica internacional Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine e trouxeram contribuições no sentindo de entender melhor a relação entre os homens e as serpentes em um grande centro urbano do nordeste brasileiro. Nesse trabalho, foram colhidas informações de 1142 visitantes do NUROF-UFC, localizado em Fortaleza, durante quatro anos (2010-2013) através dos projetos de educação ambiental desenvolvidos no núcleo. Dentre as informações colhidas, estavam dados sociodemográficos, como idade, sexo e escolaridade, além de perguntas referentes à percepção das pessoas ao se deparar com serpentes, o nível de medo em relação a esses répteis e se os visitantes tinham tido algum contato prévio com esses animais, seja na natureza, em ambientes urbanos ou em zoológicos.

Entre os resultados da pesquisa, os cientistas encontraram que quanto maior o nível de escolaridade dos entrevistados menos percepções negativas eles tinham sobre as serpentes, demonstrando a importância da educação formal na maneira como as pessoas percebem esses animais (Pinheiro et al., 2016). Além disso, foi mostrado que a percepção negativa das pessoas em relação às serpentes está associada à importância que elas dão à conservação destes animais. O que quer dizer que pessoas com percepções negativas em relação às serpentes tendem a não considerar importante ações para a conservação desses animais. Outro resultado do estudo foi que pessoas com algum tipo de contato prévio apresentaram menos medo e menos percepções negativas das serpentes. Os pesquisadores também encontraram que mulheres apresentaram mais medo e percepções negativas em relação às serpentes do que os homens.

As conclusões do estudo são importantes para entendermos melhor a relação entre os homens e as serpentes. Além de servir de base para adoção de medidas conservacionistas e de educação ambiental tendo como possíveis alvos prioritários pessoas com baixos níveis de escolaridade através de atividades que levem o público a interagir com esses animais.

Para mais informações acesse o artigo completo (Acesso Aberto – Open Access) disponível no link:  https://ethnobiomed.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13002-016-0096-9

 

Por Luan Pinheiro, colaborador do NUROF-UFC.

Referências

Alves RRN. 2012. Relationships between fauna and people and the role of ethnozoology in animal conservation. Ethnobiology Conservation. 1:1–69.

Fernandes-Ferreira H, Cruz R, Borges-Nojosa DM, Alves RRN. 2011. Crenças associadas a serpentes no estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Sitientibus. 11:153–63.

Fita DS, Costa-Neto EM, Schiavetti A. 2010. “Offensive” snakes: cultural beliefs and practices related to snakebites in a Brazilian rural settlement. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine. 6:13.

Pinheiro LT, Rodrigues JFM, Borges-Nojosa DM. 2016. Formal education, previous interaction and perception influence the attitudes of people toward the conservation of snakes in a large urban center of northeastern Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 12: 25. DOI 10.1186/s13002-016-0096-9

 

 

Bonita, nadadora e cheirosa!

Thamnophis sirtalis

 

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Essa é a Thamnophis sirtalis (Serpentes: Colubridae), uma típica serpente de jardim nativa da América do Norte. Com hábitos diurnos, essas serpentes de até um metro e meio de comprimento podem ser encontradas em muitos ambientes, de florestas e pradarias a ambientes urbanos, embora prefiram áreas úmidas, como as margens de lagoas, pântanos e córregos.  

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Quanto à aparência, elas capricham! Extremamente variáveis e coloridas, sua região dorsal pode variar de preto, marrom ou cinza ao verde, azeitona ou vermelho, e há normalmente três listras claras ao longo do seu comprimento. Mas ela não é só um rostinho bonito não! A serpente de jardim é uma excelente nadadora e frequentemente caça nadando lentamente ao longo das margens de lagos, muitas vezes varrendo de boca aberta de um lado para outro, aproveitando aquela presa descuidada. E nessa dieta de atleta ela tem uma gama diversificada de refeições, incluindo peixes, anfíbios e seus girinos, minhocas, sanguessugas e outros invertebrados aquáticos e terrestres, além de pequenos mamíferos e aves. 

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A saliva da serpente de jardim é levemente tóxica, possivelmente ajudando a imobilizar presas, no entanto, a sua mordida é geralmente inofensiva para os seres humanos. Elas ainda possuem outra característica especial: ser tolerante ao frio, fato pouco incomum no grupo das serpente. É uma das últimas espécies de serpentes a entrar em hibernação em regiões mais frias e uma das primeiras a surgir novamente na primavera.

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As serpentes de jardim podem ser lindas e ter várias peculiaridades, mas nada se compara a sua vida sexual! Quando a fêmea sai da hibernação, libera um feromônio que atrai todos os machos das proximidades ao mesmo tempo (ver também: Anaconda), resultando em grandes ninhos de acasalamento com até 30.000 cobras ao mesmo tempo. E não bastasse a acirrada disputa pelo sexo com a fêmea, na qual apenas um macho irá fecundá-la, em meio ao grupo pode haver também alguns machos que mimetizam o tamanho, os comportamentos e os feromônios de fêmeas para poderem atrair outros machos e, assim, obter aquecimento e proteção, garantindo a esses machos maior sucesso reprodutivo.

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Texto por Jamile Lima, estagiária NUROF-UFC

REFERÊNCIAS:

Larsen, K.W., Gregory, P.T. and Antoniak, R. (1993) Reproductive ecology of the common garter snakeThamnophis sirtalis at the northern limit of its range. American Midland Naturalist, 129(2): 336-345.

Mason, R.T. and D. Crews. (l985). Female mimicry in garter snakes. Nature, 316: 59‑60. [PDF]

U.S. Fish and Wildlife Service (1985) Recovery Plan for the San Francisco Garter Snake (Thamnophis sirtalis tetrataenia). U.S. Fish and Wildlife Service, Portland, Oregon. Available at:  http://ecos.fws.gov/docs/recovery_plan/850911.pdf

U.S. Fish and Wildlife Service (2006) San Francisco Garter Snake (Thamnophis sirtalis tetrataenia). 5-Year Review: Summary and Evaluation. U.S. Fish and Wildlife Service, Sacramento, California. Available at: http://ecos.fws.gov/docs/five_year_review/doc774.pdf

SITES ACESSADOS:

Arkive.org

FlMNH

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NOTÍCIA: Artigo da Science descreve fóssil de cobra com patas encontrado no Brasil.

Cientistas descreveram o que dizem ser o primeiro fóssil conhecido de serpente com quatro patas. Os membros, tanto anteriores quanto posteriores (Fig.1), de 120 milhões de anos estão muito bem preservados, apresentam 20 cm de comprimento e terminam em cinco dígitos delgados. O fóssil foi batizado de Tetrapodophis amplectus, sendo que o gênero, em Grego, significa “Serpente com quatro patas” e o epíteto deriva do Latim e refere-se aflexibilidade da criatura e a capacidade presumida para agarrar firmemente suas presas.

Tetrapodophis (rear limbs shown), had delicate but functional limbs that may have been used for grasping prey or used during mating

Fig.1. Tetrapodophis (membros posteriores), tinha membros delicados, mas funcionais que podem ter sido utilizados para agarrar a presa ou utilizados durante o acasalamento.

Segundo os pesquisadores, a peça é originária da Formação Crato, na Bacia do Araripe, no Ceará. Detalhes de quando ela foi descoberta e como finalmente acabou no museu alemão,onde se encontra agora, permanecem um mistério. Esses detalhes são importantes paramuitos pesquisadores e especialmente para alguns do Brasil, visto que tem sido ilegal exportar fósseis do país desde 1942. A descrição foi publicada em artigo tendo como autores David M. Martill, paleontólogo da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, Helmut Tischlinger e Nicholas Longrich.

Este seria o fóssil de uma das primeiras serpentes, sugerindo que o grupo evoluiu a partir de precursores terrestres na Gondwana, o remanescente sul  do supercontinente Pangeia. Embora apresente plano corporal e outras características anatômicas semelhantes às serpentes atuais, alguns pesquisadores não tem tanta certeza da filogenia deTetrapodophis (Fig.2).

Tetrapodophis (artist’s representation) is the first known snake known to have four limbs.

Fig.2. Representação artística de Tetrapodophis mostrando uma das funções que poderia ter seus membros (segurar as presas). Foto: Reprodução/Science/Julius Cstonyu

Michael Caldwell, paleontólogo de vertebrados da Universidade de Alberta, Edmonton, no Canadá, admite que viu apenas imagens do fóssil, não o próprio fósseis. Mas alguns aspectos da coluna vertebral da criatura não coincidem com o de outras cobras e lagartos, observa. Em particular, as superfícies frontal das vértebras de cobras e lagartosconhecidos, exceto em geckos, são côncavas, e as superfícies posteriores são convexas; o que não parece ser o caso em Tetrapodophis (Fig.3), diz ele.

Tetrapodophis

Fig.3. Fóssil completo de Tetrapodophis (Coluna e costelas). Adaptado de Martill et al, 2015.

Tetrapodophis tem uma mistura muito interessante de personagens,” diz SusanEvans, uma paleobiolóloga da University College London. Embora os dentes da criatura pareçam com os de serpentes, ela admite, “Estou tentando sentar cuidadosamenteem cima do muro sobre se esse fóssil pertence, realmente, a uma cobra.Um alongamentoradical do corpo e redução no tamanho ou perda de membros ocorreu muitas vezes em outros grupos de répteis, observa ela. Outro enigma, acrescenta, são o porque dos ossos nas pontas dos dígitos da criatura serem tão longos. Longrich e seus colegas sugerem que os dedos das patas longos eram usados para agarrar presas ou possivelmenteusado durante o acasalamento. Mas Caldwell observa que essas características “são notavelmente incomuns, a menos que você é seja arborícula.”

FONTE: Science

DOSSIÊ ANACONDA

A Eunectes murinus (Linnaeus 1758), também chamada de Sucuri ou Anaconda (Fig. 1), é uma das serpentes mais conhecidas no mundo, principalmente por ser a antagonista dos filmes de terror da série Anaconda.  Mas será que filmes e até mesmo documentários estão apresentando esse animal de maneira correta, crível, do ponto de vista científico?

Fig. 1. Sucuri. Créditos: © 2003 John White

Fig. 1. Sucuri. Créditos: © 2003 John White

As sucuris pertencem à família Boidae, a mesma das Jiboias e Salamantas, e como todos os membros dessa família, são áglifas (ou seja, não são peçonhentas), matam por constrição, são ovovivíparas e ocupam uma diversidade de ambientes: terra, árvores, rios e lagos (CHARLES, 2007; POUGH, 1999).

Com certeza é a maior serpente das Américas com seus 9,6 metros descritos, mas normalmente chegando a menos de 6 metros – recentemente, a maior que acharam não passava dos 8,45 metros (BELLOSA, 2003). É a segunda maior serpente do mundo, perdendo apenas para a Píton Reticulada (Python reticulatus), uma serpente asiática que pode, de fato, atingir 10 metros na fase adulta – mas, novamente, o maior exemplar vivo tem apenas 7,6 metros (GUINESS, 2013).

Além disso, pode ser encontrada nas florestas tropicais da América do Sul, mas também já foi encontrada no Nordeste do Brasil. São animais semi-aquáticos que tem preferência por ambientes de água doce lenta, como lagoas (Fig. 2). Também é bem comum serem encontradas em mangues.

Fig. 2. Sucuri repousando no tronco de uma árvore. Créditos: © Joe McDonald / Animals Animals

Fig. 2. Sucuri repousando no tronco de uma árvore. Créditos: © Joe McDonald / Animals Animals

Diferente de outros répteis, como Tartarugas e Crocodilos, as Sucuris vivem pouco: cerca de 10 anos na natureza e até 30 anos em cativeiro (MILLER, 2004). Esse é um dado importante, pois mostra como esse animal cresce muito em tão pouco tempo.

Sua reprodução consiste na agregação de uma fêmea com até 13 machos (Fig. 3). O acasalamento pode durar semanas e nesse período a fêmea pode acasalar várias vezes com os machos que a cortejam – esses tentam procurar a cloaca da fêmea com o auxílio de suas caudas (RIVAS, 2001). Depois disso, a gestação dura 7 meses e a fêmea tem por volta de 29 filhotes – essa prole não receberá cuidado parental depois do nascimento (GRZIMEK, 2003; RIVAS, 1999).

Fig. 3. Acasalamento de sucuris. Créditos: © Francois Savigny / gettyimages.com

Fig. 3. Acasalamento de sucuris. Créditos: © Francois Savigny / gettyimages.com

Embora tenham as pupilas circulares, as Sucuris são mais ativas próximo à noite (GRZIMEK, 2003). Elas costumam se mover nas primeiras horas mais frias depois do pico de calor do dia.  Podem se alimentar de peixes, jacarés, antas, capivaras e outros animais de grande porte (Fig. 4). Já foi documentado canibalismo nessa espécie também (RIVAS et al., 2000).

Fig. 4. Sucuri engolindo jacaré. Créditos: © Tony Crocetta / Biosphoto

Fig. 4. Sucuri engolindo jacaré. Créditos: © Tony Crocetta / Biosphoto

Por sinal, nunca foram registrados casos de Sucuris devorando pessoas, em toda literatura científica. Ela simplesmente não iria conseguir engolir uma pessoa, devido à diferença de largura entre os ombros e a cabeça, mesmo ela possuindo proporções para matar e talvez até consumir um ser humano. Por isso que o programa Eaten Alive da Discovery Channel, no final de 2014, que prometia mostrar um homem ser engolido por uma Sucuri e depois sair ileso, simplesmente não iria acontecer (e de fato, não aconteceu).

Fig. 5. Naturalista Paul Rosolie segurando sucuri. Créditos: Dicovery Channel

Fig. 5. Naturalista Paul Rosolie segurando sucuri. Créditos: Dicovery Channel

Ao contrário do que filmes e documentários mostram muitas vezes, esses animais não são predadores insaciáveis que precisam matar constantemente para se alimentar, na verdade podem passar várias semanas sem comer nada, o que é bem comum na natureza.

Mesmo sendo enormes, as sucuris não causam graves acidentes a humanos, nem procuram caçar pessoas. Na verdade, já foi comprovado o contrário: sempre que existe contato, esses animais costumam ser atacados e até mesmo mortos, por humanos (BASTOS et al., 2003). Claro, muitos boídeos costumam reagir à presença humana ficando imóveis, emitindo sons da inspiração e expiração vigorosa (o ato de “bufar”) ou até mesmo simulando botes, na esperança de afastar a ameaça. Resumindo, elas não são como as serpentes do cinema, que não têm o menor problema em se aproximar de um grupo de pessoas e aniquilar todas elas (Fig. 6).

Fig. 6. Cena do filme

Fig. 6. Cena do filme “Anacondas: The Hunt for the Blood Orchid”, mostrando uma sucuri monstruosa. Créditos: Fox

A produção cinematográfica acerca dessa espécie pode ser de bom entretenimento para o público, mas suas consequências para a reputação da espécie e consecutiva conservação por parte da sociedade talvez não seja positiva. Com o aumento da ocupação humana nas florestas e o desmatamento, esses animais vêm perdendo seu espaço rapidamente (ATHAYDE, 2007; ALVES, 2007). Talvez seja por esses motivos que é cada vez mais difícil encontrar Sucuris com grandes tamanhos. Por ser um dos maiores predadores das florestas sul-americanas, a Sucuri tem papel-chave no equilíbrio natural desses ecossistemas e a perda de populações dessa espécie pode implicar em consequências incalculáveis.

Texto por: Lucas Araújo de Almeida, bolsista do Nurof-UFC

REFERÊNCIAS

1) ALVES, Rômulo Romeu; PEREIRA FILHO, Gentil Alves. Commercialization and use of snakes in North and Northeastern Brazil: implications for conservation and management. In: Vertebrate Conservation and Biodiversity. Springer Netherlands, 2007. p. 143-159.

2) ATHAYDE, Gustavo Castro. TRATAMENTO DE LESÕES TRAUMÁTICAS EM SUCURI (Eunectes murinus). 2007 BASTOS, Rogério P. et al. Anfíbios da floresta nacional de Silvânia, Estado de Goiás. Stylo gráfica e editora, Goiânia, 2003.

3) BELLOSA, H. Record Snake Fascination. Reptilia (GB), v. 27, p. 28-30, 2003.

4) CHARLES, H. A. Comportamento predatório de serpentes (Boidae) de diferentes hábitos e biometria de crescimento e ecdises de Eunectes murinus Linnaeus, 1758 em laboratório. CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM BIOLOGIA ANIMAL. 2007.

5) GRZIMEK, Bernhard et al. Grzimek’s animal life encyclopedia. Farmington Hills, Michigan: Gale, 2004.

6) GUINESS WORLD RECORDS 2013 – Medusa largest snake ever in captivity http://www.theworldslargestsnake.com/

7) MILLER, Debra L. et al. Cutaneous and pulmonary mycosis in green anacondas (Euncectes murinus). Journal of Zoo and Wildlife Medicine, v. 35, n. 4, p. 557-561, 2004.

8) POUGH, F. H.; HEISER, J. B. A vida dos vertebrados 2a edição. Editora Atheneu, 1999.

9) RIVAS, Jesús A.; BURGHARDT, Gordon M. Understanding sexual size dimorphism in snakes: wearing the snake’s shoes. Animal Behaviour, v. 62, n. 3, p. F1-F6, 2001.

10) RIVAS, Jesús. A. The life history of the green anaconda (Eunectes murinus), with emphasis on its reproductive biology. Unpubl. 1999. Tese de Doutorado. Ph. D. diss., University of Tennessee, Knoxville.

11) RIVAS, Jesús A.; OWENS, R. Y. Eunectes murinus (green anaconda): Cannibalism. Herpetol. Rev, v. 31, n. 1, p. 44-45, 2000.

FONTES

1) Anacondas Org

2) Discovery Channel: Eaten Alive

3) National Geographic – Green Anaconda 

4) Filme: Anaconda, 1997

5) Filme: Anacondas, The Hunt for the Blood Orchid, 2004

Avanços na produção de antivenenos no Brasil: notícias do MedTrop 2015

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A cidade de Fortaleza sediou durante o período de 14 a 17 de Junho de 2015 o 51º. Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop 2015), realizado no Centro de Eventos do Ceará. O evento reuniu especialistas e estudantes de temas diversos de medicina tropical, como doenças infecciosas emergentes, uso racional de antibióticos, enfermidades negligenciadas, novos métodos diagnósticos, e medidas empregadas pelos sistemas de saúde nacionais e internacionais.

Dentre as mesas redondas realizadas durante o evento destacou-se o tema “Acidentes por animais peçonhentos”, trazendo pesquisadores e gestores do Instituto Butantan (SP), Instituto Vital Brazil e Fundação Oswaldo Cruz (RJ). Os convidados proferiram palestras de 20 minutos de duração, discutindo as perspectivas modernas nos tratamentos para picadas de serpentes e artrópodes peçonhentos.

A primeira palestra foi ministrada pela Dra. Fan Hui Wen, médica infectologista e gestora de projetos de pesquisa e produção de antivenenos do Instituto Butantan (SP). Sua apresentação lembrou o histórico de mais de um século de produção de soros antiofídicos no Brasil, a crise do abastecimento de antivenenos nos anos 80, e as metas de autossuficiência na produção brasileira contemporânea. A palestrante destacou o impulso à automação industrial e a padronização na produção de soros nos laboratórios brasileiros a partir dos anos 2000, e os méritos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no controle de qualidade destes produtos. Segundo a Dra. Wen, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera os acidentes por animais peçonhentos como “doenças negligenciadas” e preocupa-se com o aumento da mortalidade em países da África e Ásia, devido à escassez de produtores de soros nesses continentes.

Em seguida, o Dr. Luiz Eduardo Cunha, médico veterinário e vice-diretor do Instituto Vital Brazil (RJ), falou sobre os avanços na produção de antivenenos. Primeiramente revisou as fases de produção tradicional, desde a (1) coleta dos venenos (Fig. 1), (2) injeção em cavalos para obtenção de plasma hiperimune, (3) purificação e formulação, e (4) envase e acondicionamento, e a necessidade de se garantir o bem-estar dos animais envolvidos no processo. Realçou o início dos estudos clínicos no desenvolvimento do soro antiapílico (contra picadas de abelhas), uma vez que os óbitos por picadas de abelha vêm se equiparando proporcionalmente aos óbitos por acidentes ofídicos nas recentes estatísticas epidemiológicas. Como novidade interessante neste cenário, citou pesquisas moleculares na produção de soros sintéticos, utilizando fragmentos de DNA e RNA, que excluiriam os cavalos da fase de produção. Dr. Cunha também destacou o desenvolvimento de kits de diagnóstico rápido para identificar a espécie de serpente envolvida nos acidentes atendidos, aplicando assim o soro específico, evitando falha de tratamento, efeitos colaterais e desperdício de soro.

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Fig. 1. Extração de peçonha de Cascavel (Crotalus durissus) realizada no Núcleo Regional de Ofiologia (NUROF-UFC).

Por fim, a Dra. Isabella Fernandes Delgado, vice-diretora do Instituto de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) do Instituto Oswaldo Cruz (RJ), explanou sobre a metodologia utilizada para o controle de qualidade dos antivenenos e demais produtos imunobiológicos da produção nacional, ressaltando a necessidade premente de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias que priorizem o conceito dos 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), reduzindo assim o uso de animais em fase de desenvolvimento e ensaios clínicos de qualidade de produtos do gênero.

Todos os palestrantes relevaram a qualidade dos soros brasileiros e a importância da produção nacional. A mesa redonda sobre o tema atraiu um público superior ao esperado e abriu importante discussão sobre o investimento na produção de soros e atualização constante do pool de venenos requerido para a atividade.


Texto por Roberta Rocha , Médica Veterinária , NUROF – UFC

SITE ÚTIL: Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde – INCQS

A Cobra-Cipó, Oxybelis aeneus

A Cobra-Cipó, Oxybelis aeneus (Wagler 1824) (Serpentes, Colubridae), é uma serpente arborícola, de coloração amarronzada, longa e delgada, características que a tornam bem semelhante a um galho seco, fazendo jus a seu nome popular (Fig. 1). Reforçando as características de um cipó, esse animal tem o comportamento de ficar parado e suspenso entre os galhos das árvores e se balançando com o vento que bate em seu corpo, o que lhe permite ficar bem camuflada a espera de uma presa desatenta. Sua alimentação é composta principalmente por lagartos, mas também pode comer sapos e pássaros (Mesquita et al. 2012; Keiser 1967).

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Figura 1. Detalhe do corpo delgado e da coloração amarronzada da Cobra-Cipó (Oxybelis aeneus). Fotografia de Paulo Mesquita.

A cobra-cipó é uma serpente bastante comum onde ocorre e tem ampla distribuição geográfica, ocorrendo desde o Arizona, nos EUA, até o sudoeste do Brasil (Goldberg 1998). Apesar de ser encontrada durante todo o ano, ela é mais abundante no período seco, quando as temperaturas médias são maiores e as chuvas mais escassas (Mesquita et al. 2012; Brown & Shine 2002). Essa serpente é diurna, com maior intensidade de atividade entre os 31°C e 35°C. Durante seu período de atividade, esses animais usam galhos mais baixos e mais lisos para forragear, trocando de preferência durante a noite, onde preferem descansar em galhos mais altos (provavelmente para aproveitar os primeiros raios de sol da manhã para se aquecer) e mais espinhosos (que conferem maior proteção contra predadores, evitando ataques-surpresa durante seu sono) (Mesquita et al. 2012).

Fêmeas dessa espécie são maiores que os machos, o que pode ser resultado da pressão seletiva de carregar os ovos, nas fêmeas, força essa inexistente nos machos (Mesquita et al. 2010b). Visto que as mamães dessa espécie podem produzir até nove ovos por ninhada (Mesquita et al. 2010a) dá pra imaginar mesmo porque as fêmeas são maiores!

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Figura 2. Cobra-Cipó (Oxybelis aeneus) exibindo comportamento de intimidação (boca aberta e palato preto). Fotografia de Daniel Passos.

Algumas histórias e crenças populares cercam esse animal. Uma delas diz que se você for mordido por uma Cobra-Cipó irá morrerá seco e esguio igual a ela! Com certeza uma crença muito exagerada para uma serpente que não é peçonhenta* e não representa perigo aos humanos. Mas talvez essa lenda tenha surgido por medo de sua boca muito escura e grande, a qual ela abre quando se sente ameaçada na tentativa de afugentar seus predadores (Fig. 2). O fato é que essa é uma das serpentes mais abundantes que pode ser encontrada nas Caatingas e, pelo menos em minha opinião, também uma das mais bonitas.

*Apesar de ser considerada não peçonhenta, a Cobra-cipó apresenta dentição opistóglifa e toxinas que são usadas na captura de suas presas (Vanzolini et al, 1980).

Por: Castiele Holanda Bezerra

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Brown, G.P. & Shine, R. 2002. The influence of weather conditions on activity of tropical snakes. Austral Ecology, 27: 596-605.

Goldberg, S.R. 1998. Reproduction in the Mexican vine snake Oxybelis aeneus (Serpentes: Colubridae). Texas Journal of Science, 50(1): 51-56.

Keiser, E.D. 1967. A monographic study of the Neotropical Vine Snake, Oxybelis aeneus (Wagler, 1824). Ph.D. (dissertation), Louisiana State University, 157 pp.

Mesquita, P.C.M.D., Borges-Leite,M.J., Borges-Nojosa, D.M. & Passos, D.C. 2010a. Oxybelis aeneus (Brown Vinesnake) reproduction. Herpetol. Rev. 41: 346.

Mesquita, P.C.M.D., Borges-Nojosa, D.M. & Bezerra, C.H. 2010b. Dimorfismo sexual na “Cobra-Cipó” Oxybelis aeneus (Serpentes, Colubridae) no Estado do Ceará, Brasil. Biotemas, 23(4): 65-69.

Mesquita, P.C.M.D., Borges-Nojosa, D.M., Passos, D.C. & Bezerra, C.H. 2012. Activity patterns of the Brown Vine Snake Oxybelis aeneus (Wagler, 1824) (Serpentes, Colubridae) in the Brazilian semiarid. Animal Biology, 62: 289-299.

Vanzolini, P. E., Ramos-Costa, A. M. M. & Vitt, L. J. 1980. Répteis das Caatingas. Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro.

Hábitos alimentares em serpentes

As serpentes são animais carnívoros que, de modo geral, se alimentam com uma frequência baixa, capazes de sobreviver até mesmo vários meses sem comer (leia também: “Como as serpentes suportam tanto tempo sem alimento?”). Suas presas são bem diversificadas, tais como: minhocas, moluscos, onicóforos, aranhas, quilópodos, insetos, crustáceos, peixes, gimnofionos, anuros, lagartos, outras serpentes, tartarugas, crocodilianos, pássaros, ovos, roedores, marsupiais, morcegos (Martins & Oliveira, 1998).

A dieta é um dos aspectos mais estudados na ecologia de serpentes, baseando-se principalmente no conteúdo encontrado no estômago de espécimes tombados em coleções científicas (saiba mais sobre coleções científicas em “Coleções Científicas“) As serpentes podem ter dietas generalistas (predam vários grupos animais) ou especialistas (alimentam-se de presas específicas). A composição dos itens alimentares pode ser influenciada pela disponibilidade de presas no local, ou seja, quando são encontradas em abundância são, consequentemente, mais predadas (Macedo et al., 2008).

É interessante compreender que os tipos mais freqüentes de presas na dieta de uma serpente pode ser, também, reflexo do seu substrato de forrageio (local de caça), relacionando-se ao hábitat onde suas presas estão em atividade. Espécies de hábitos aquáticos ou que vivem próximos a ambientes úmidos, como as dos gêneros Helicops e Liophis (cobras d’água) costumam ter presas associadas a ambientes aquáticos, como anfíbios, girinos e peixes (Silva Jr. et al., 2003; Pinto & Fernandes, 2004). Por outro lado, serpentes que forrageiam no chão predam principalmente espécies terrícolas, enquanto as que forrageiam sobre a vegetação, se alimentam de itens arborícolas em maior quantidade. Trabalhos como os de Bernarde & Macedo (2008), Albuquerque et al. (2007), por exemplo, relatam a maior ocorrência de anuros terrestres nos estômagos de serpentes que ocorrem sobre o solo, enquanto que anuros arborícolas foram maioria para aquelas que estavam sobre a vegetação.

Espécies dos gêneros Boa e Epicrates podem ser terrestres e semi-arborícolas e Corallus, arborícola. O cardápio varia desde aves e mamíferos, podendo se alimentar também de lagartos e anfíbios, presas imobilizadas geralmente por constrição (Scartozzoni & Molina, 2004). A jibóia (Boa constrictor), por exemplo, se alimenta especialmente de aves, padrão de dieta verificada também por Gondim et al. (2012),  trabalho realizado por membros do NUROF-UFC, ao publicarem o primeiro registro de predação de rouxinol (Troglodytes musculus) por essa espécie (Figura 1).

Figura 1 - Troglodytes musculus (Rouxinol) retirado do estômago de um juvenil de Boa constrictor (Jibóia). Fotografia de Patrícia Gondim.

Figura 1 – Troglodytes musculus (Rouxinol) retirado do estômago de um juvenil de Boa constrictor (Jibóia). Fotografia de Patrícia Gondim.

E as sucuris (Eunectes), aquelas serpentes que podem chegar a dez metros de comprimento, podem comer seres humanos? Conhecidas também como Anacondas, essas serpentes sul-americanas possuem hábitos aquáticos e se alimentam de peixes, anfíbios, quelônios, lagartos, serpentes, jacarés, aves e mamíferos. Não existe nenhum relato de ataque fatal a seres humanos que seja confiável e detalhadamente descrito na literatura, embora se reconheça que são potencialmente capazes de matar uma pessoa em casos muito raros. Há mais mitos e lendas do que verdade sobre essas histórias (Bernarde, 2002).

Por: Patrícia de Menezes Gondim, membro do NUROF-UFC

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALBUQUERQUE, N. R.; GALATTI, U.; DI-BERNARDO, M. 2007. Diet and feeding behaviour of the Neotropical parrot snake (Leptophis ahaetulla) in northern Brazil. J. Nat. Hist. 41(17-20): 1237-1243.

BERNARDE, P. S. 2002. Sucuris atacam seres humanos? Ad Litteram 1(1): 16-23.

BERNARDE, P. S.; MACEDO, L. C. 2008. Impacto do desmatamento e formação de pastagens sobre a anurofauna de serapilheira em Rondônia (Brasil). Iheringia, Ser. Zool. 98(4): 545-459.

GONDIM, P. M.; BORGES-NOJOSA, D. M.; BORGES-LEITE, M. J.; ALBANO, C. G. 2012. BOA CONSTRICTOR (Boa constrictor). DIET. Herpetol. Rev. 43(4): 654-655.

MACEDO, L. C.; BERNARDE, P. S.; ABE, A. S. 2008. Lagartos (Squamata: Lacertilia) em áreas de floresta e de pastagem em Espigão do Oeste, Rondônia, sudoeste da Amazônia, Brasil. Biota Neotrop. 8(1): 133-139.

MARTINS, M.; OLIVEIRA, M. E. 1998. Natural history of snakes in forests of the Manaus region, Central Amazonia, Brazil. Herpetol. Nat. Hist. 6(2):1-89.

PINTO,R. R.; FERNANDES, R. 2004. Reproductive biology and diet of Liophis poecilogyrus (Serpentes, Colubridae) from southeastern Brazil. Phyllomedusa 3(1): 9-14.

PINTO, R. R.; FERNANDES, R.; MARQUES, O. A. V. 2008. Morphology and diet of two sympatric colubrid snakes, Chironius flavolineatus and Chironius quadricarinatus (Serpentes: Colubridae). Amphibia-Reptilia. 29(2): 149-160.

SCARTOZZONI, R. R.; MOLINA, F. B. 2004. Comportamento Alimentar de Boa constrictor, Epicrates cenchria e Corallus hortulanus (Serpentes: Boidae) em Cativeiro. Revista de Etologia. 6 (1): 25-31.

SILVA JR, N. J.; SOUZA, I. F.; SILVA, W. V.; SILVA, H. L. R. 2003. Liophis poecilogyrus: diet. Herpetol. Rev. 34: 69-70.

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