Um lagarto corajoso do olho maior que a barriga

O lagarto Tropidurus torquatus, de ampla distribuição nas áreas abertas do Brasil (RODRIGUES, 1987), é um predador diurno que geralmente usa o comportamento de “senta-e-espera” para se alimentar de suas presas, indo algumas das vezes atrás da sua presa de forma ativa (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998)(FIGURA 01). T. torquatus se alimenta principalmente de formigas, mas também ingere frequentemente besouros, abelhas, cupins e aranhas, bem como flores e frutos (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998; CARVALHO et al. 2007).

Carlos Cândido - T. torquatus

Figura 01. Tropidurus torquatus, uma espécie de lagarto de ampla distribuição nas áreas abertas do Brasil. Fonte: Carlos Cândido, Biólogo.

Porém, em 2014, um Tropidurus torquatus de porte grande foi visto tentando se alimentar de uma falsa-coral (Phalotris matogrossensis), no município de Poconé, no estado de Mato Grosso (SANTOS et al., 2017)(FIGURA 02). Essa serpente possui hábitos noturnos e habita áreas abertas e galerias subterrâneas do sudoeste do Brasil ao oeste do Paraguai (LEYNAUD; BUCHER, 1999 apud LEMA; D’AGOSTINI; CAPPELARI, 2005; VANZOLINI, 1948 apud LEMA; D’AGOSTINI; CAPPELARI, 2005), e se alimenta de invertebrados, sapos, anfisbenas e lagartos (BERNARDE; MACEDO, 2006 apud SANTOS et al., 2017; SOUZA, 2014 apud SANTOS et al., 2017), justamente o tipo de animal que a levou a morte.

Pedro Guilherme - T. torquatus 2

Figura 02. O corajoso Tropidurus torquatus e sua predadora Phalotris matogrossensis, que praticamente virou sua presa. Fonte: Pedro Guilherme Alves Rodrigues, coautor da publicação original, presente no periódico Herpetology Notes.

Segundo Santos et al. (2017), o lagarto correu atrás da falsa-coral, que não percebeu sua presença, e a abocanhou e balançou vigorosamente até que a mesma falecesse. Porém, foi só depois disso que o lagarto notou que a mesma não seria um alimento adequado, e a soltou. Os autores sugerem que o lagarto possivelmente soltou a serpente porque percebeu que ela era grande demais e não conseguiria comê-la.

Apesar de ter sido a primeira vez que se é registrado formalmente que T. torquatus se alimenta de serpentes na natureza, já havia sido descrito que a espécie se alimenta de vertebrados de pequeno porte, como outros lagartos (TEIXEIRA; GIOVANELLI, 1998). Outra espécie de seu gênero, Tropidurus hispidus, também já foi observada se alimentando de pequenos vertebrados, como sapos (VITT et al., 1996), outros indivíduos de T. hispidus (SALES et al., 2011) e até mesmo pássaros (GUEDES et al., 2017). Por isso, Santos et al. (2017) supõem que seja possível que outras espécies de Tropidurus de maior porte também se alimentem de pequenas serpentes. Qual será o próximo lagarto corajoso que iremos encontrar?

Para saber mais detalhes sobre o fato, e para ver as imagens com melhor qualidade, você pode consultar o artigo original aqui.

Texto escrito por Thaís Abreu, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

REFERÊNCIAS

BERNARDE, P. S.; MACEDO-BERNARDE, L. C. Phalotris matogrossensis (False coral snake). Diet. Herpetological Review, v. 37, p. 234, 2006.

CARVALHO, André L. G. de; SILVA, Hélio R. da; ARAÚJO, Alexandre F. B. de; ALVES-SILVA, Ricardo; SILVA-LEITE, Roberta R. da. Feeding ecology of Tropidurus torquatus (Wied)(Squamata, Tropiduridae) in two areas with different degrees of conservation in Marambaia Island, Rio de Janeiro, Southeastern Brazil. Revista Brasileira de Zoologia, v. 24, n. 1, p. 222-227, 2007.

GUEDES, Thaís; MIRANDA, Fernanda; MENESES, Luciano; PICHORIM, Mauro; RIBEIRO, Leonardo. Avian predation attempts by Tropidurus hispidus (Spix, 1825)(Reptilia, Squamata, Tropiduridae). Herpetology Notes, v. 10, p. 45-47, 2017.

LEMA, T. de; D’AGOSTINI, F.; CAPPELLARI, L. Nova espécie de Phalotris, redescrição de P. tricolor e osteología craniana (Serpentes, Elapomorphinae). Iheringia, Sér. Zool., Porto Alegre, v. 95, p. 65-78, 2005.

LEYNAUD, Gerardo C.; BUCHER, Enrique H. La fauna de serpientes del Chaco sudamericano: diversidad, distribución geográfica y estado de conservación. Academia Nacional de Ciencias, v. 98, 1999.

RODRIGUES, Miguel Trefaut. Sistemática, ecologia e zoogeografia dos Tropidurus do grupo torquatus ao sul do Rio Amazonas (Sauria, Iguanidae). Arquivos de Zoologia, v. 31, n. 3, p. 105-230, 1987.

SALES, Raul Fernandes Dantas de; Jorge, Jaqueiuto da Silva; RIBEIRO, Leonardo Barros; FREIRE, Eliza Maria Xavier. A case of cannibalism in the territorial lizard Tropidurus hispidus (Squamata: Tropiduridae) in Northeast Brazil. Herpetology Notes, v. 4, p. 265-267, 2011.

SANTOS, Arthur de Sena; MENESES, Afonso Santiago de Oliveira; HORTA, Gabriel de Freitas; RODRIGUES, Pedro Guilherme Alves; BRANDÃO, Reuber Albuquerque. Predation attempt of Tropidurus torquatus (Squamata, Tropiduridae)on Phalotris matogrossensis (Serpentes, Dipsadidae). Herpetology Notes, v. 10, p. 341-343, 2017.

SOUZA, Dianne Cassiano de; MORAIS, Drausio Honório; SILVA, Reinaldo José da. Phalotris matogrossensis (Mato Grosso burrowing snake) diet. Herpetological Review, p. 712, 2014.

 TEIXEIRA, R. L.; GIOVANELLI, M. Ecology of Tropidurus torquatus (Sauria: Tropiduridae) of a sandy coastal plain of Guriri, São Mateus, ES, southeastern Brazil. Revista Brasileira de Biologia, v. 59, n. 1, p. 11-18, 1999.

VANZOLINI, Paulo Emílio. Notas sobre os ofídios e lagartos da Cachoeira de Emas, no município de Pirassununga, Estado de São Paulo. Revista Brasileira de Biologia, v. 8, n. 3, p. 377-400, 1948.

VITT, Laurie J.; ZANI, Peter A.; CALDWELL, Janalee P. Behavioural ecology of Tropidurus hispidus on isolated rock outcrops in Amazonia. Journal of Tropical Ecology, v. 12, n. 1, p. 81-101, 1996.

 

Uma grande surpresa – A adaga secreta das serpentes

As serpentes configuram-se como um grupo bastante diversificado, possuindo aproximadamente 3600 espécies catalogadas (UETZ, 2016). E de forma semelhante à sua grande diversidade, estes animais apresentam vários tipos de comportamentos de defesa demonstrados em situações naturais a partir da presença de um competidor ou predador.

Segundo Scudder & Brughardt (1983) e Carvalho & Nogueira (1988), ao se sentirem ameaçadas as serpentes podem:

  1. Buscar se esconder, ocultando a cabeça; fingindo-se de morta (tanatose) ou fugindo da ameaça.
  2. Quando o agressor se encontra mais próximo, as serpentes podem utilizar táticas de intimidação como, por exemplo, achatamento dorsoventral do corpo ou apenas da região do pescoço seguida ou não da elevação da cabeça.
  3. Retrair a parte anterior do corpo fazendo um “S” (armar bote), abrir bastante a boca, bufar ou desferir “falsos botes” (botes sem inoculação de peçonha).
  4. E por fim, se a ameaça ignorar esses comportamentos e ultrapassar certa distância de segurança da serpente, então ela irá picar ou morder.
Psomophis joberti - Samuel Ribeiro

Figura 01. Indivíduo adulto da Cobra-cadarço, Psomophis joberti. Fonte: Samuel Ribeiro, do blog Anfíbios e Répteis do Brasil.

Além desses já citados, um comportamento, no mínimo, peculiar foi observado em indivíduos de Cobra-Cadarço (Psomophis joberti) (FIGURA 01), serpente com ampla distribuição na região norte, nordeste e centro-oeste do Brasil (UETZ, 2016). O gênero dessa serpente é caracterizado por indivíduos pequenos e terrestres com corpo delgado, cauda curta e que termina em uma escama modificada na forma de espinho (FIGURA 02)(MYERS; CADLE, 1994).  Nos municípios de São Gonçalo do Amarante e Itapipoca, Ceará, indivíduos de P. joberti demonstraram um comportamento de defesa diferente após serem coletados, eles dobraram o seu corpo e pressionaram o espinho caudal contra a mão do coletor, causando dor leve, mas sem danos a pele (LIMA et al., 2010).

Psomophis joberti - Paula Hanna Valdujo

Figura 02. A Cobra-cadarço (Psomophis joberti) é uma serpente pequena, marrom pálida com coloração de cabeça escura contrastante. Note a ponta da cauda com formato de espinho. Fonte: Paula Hanna Valdujo, retirado de The Reptile Database.

Apesar de ser inusitado para essa espécie, a presença de espinho caudal e desse mesmo comportamento tem sido observado também em serpentes dos gêneros Typhlops (RICHMOND, 1955), Farancia e Carphophis (ERNST; ERNST, 2003 apud LIMA et al., 2010). Surpreendente, não é mesmo?! Isso demonstra que ainda conhecemos pouco sobre a ecologia das serpentes, e que ainda temos muito a aprender sobre os seus fascinantes hábitos comportamentais.

Texto escrito por Bruno Guilhon, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

CARVALHO, M. A.; NOGUEIRA, F. Serpentes da área urbana de Cuiabá, Mato Grosso: aspectos ecológicos e acidentes ofídicos associados. Cadernos de Saúde Pública, v. 14, n. 4, p. 753–763, 1998.

LIMA, D. C.; BORGES-NOJOSA, D. M.; BORGES-LEITE, M. J.; PASSOS, D. Psomophis joberti (Sand snake). Defensive behavior. Herpetological Review, v. 41, n.1, p. 96-97, 2010.

MYERS, C. W.; CADLE, J. E. A New Genus for South American Snakes Related to Rhadinaea obtusa Cope (Colubridae) and Resurrection of Taeniophallus Cope for the “Rhadinaea” brevirostris Group. American Museum Novitates, v. 3102, n. 3102, p. 33 pp, 1994.

RICHMOND, N. D. The Blind Snakes (Typhlops) of Bimini, Bahama Islands, British West Indies, with Description of a New Species. American Museum Novitates, n. 1734, p. 1–8, 1955.

SCUDDER, R. M.; BURGHARDT, G. M. A comparative study of defensive behavior in three sympatric species of water snakes (Nerodia). Ethology, v. 63, n. 1, p. 17-26, 1983.

UETZ, P. How many species?. The Reptile Database, 2016. Disponível em: <http://www.reptile-database.org/db-info/SpeciesStat.html >. Acesso em: 07 jul. 2017.

 

O primeiro registro de homem adulto devorado por serpente e ponderações necessárias

Python reticulatus Wikimedia Commons

Fonte: Wikimedia Commons.

A imagem de uma cobra gigante engolindo um ser humano adulto sempre esteve presente no imaginário popular e, por consequência, virou cena de diversos filmes de ampla circulação. Apesar de estar bem difundido entre as pessoas, este fenômeno nunca foi oficialmente registrado e até então era considerado impossível, ainda mais depois de que todos os registros fotográficos de serpentes abertas com humanos dentro foram comprovados como obras de charlatanismo.

Acontece que, em março de 2017, na região de Sulawesi, na Indonésia, o corpo do agricultor AkbarSalubiro foi encontrado dentro de uma Píton Reticulada (Python reticulatus (FIGURA 01)), após esta ser caçada e aberta pelos moradores da região. Um vídeo da situação foi gravado e disponibilizado na internet (FIGURA 02). A serpente possuía aproximadamente 7 metros de comprimento e já fora vista pelos agricultores no entorno da plantação de palma na qual o agricultor devorado trabalhava. A região de Sulawesi já era conhecida pela presença de pítons de grande porte, em especial porque as plantações geralmente se desenvolvem à custa da destruição do território dessas serpentes.

Python reticulatus Arkive.org

Figura 01. A Píton Reticulada, Python reticulatus, é uma serpente nativa do sudeste da Ásia e seu entorno. Fonte: Arkive.org.

As pítons dividem com as sucuris o título de maiores serpentes do mundo, pertencendo a uma píton o título de primeiro lugar com seus mais de 13 metros registrados e tendo como maior representante das sucuris um indivíduo registrado pelo Marechal Rodon com 11,63 metros. Esses animais não-peçonhentos levam suas presas ao óbito através da constrição. Devido ao seu grande tamanho, tanto as sucuris quanto as pítons são capazes de abater presas de peso considerável, como bezerros, porcos, cachorros e cabras. Animais silvestres também são alimento desses grandes répteis, como veados, capivaras, porcos do mato e até jacarés.

Essas gigantes, assim como todas as outras serpentes, podem abocanhar e deglutir presas que são de maior diâmetro que as próprias predadoras, isso devido a uma série de adaptações anatômicas. Essas especificidades das serpentes vão desde o dentário com sínfise tendinosa frouxa (ausência de queixo na mandíbula) e que se articula com o crânio através de cartilagens móveis, até a presença da proteína elastina em seus tecidos que por isso se esticam de forma notável. Essas adaptações dão às serpentes a sua singularidade no hábito alimentar, contudo, sem o contato direto com o animal predado, as serpentes são incapazes de dilatar seus tecidos e abrir muito a sua boca por conta própria. É necessário o contato progressivo com o corpo cilíndrico do animal para que o mesmo imponha às serpentes a força necessária para tais modificações. Essa é uma das principais razões que tira o ser humano da dieta das serpentes: A aguda transição do pescoço para os ombros impossibilita a dilatação progressiva da boca da serpente.

É nesse ponto que está a singularidade desta notícia. As invasões aos territórios das pítons pelas plantações de palma tanto deixam suas presas escassas quanto subtraem sua área de vida e expõem os agricultores à vulnerabilidade. A população da região de Sulawesi é particularmente de baixa estatura, o que pode ter contribuído para a deglutição da serpente. Já havia registro de homens adultos mortos por píton, mas pela primeira vez algum foi devorado.

Vídeo Python reticulatus

Figura 02. Momento do vídeo que mostra a píton sendo cortada por moradores do local para verificação do seu conteúdo estomacal. Fonte: BBC/West Sulawesi Police.

Muito nos toca a morte de AkbarSalubiro, mas é fundamental que ponderemos que incidentes como esse são o resultado de nossas atividades inconsequentes. Além de invadirmos os habitats desses animais e removermos suas presas dos ecossistemas, ainda matamos sistematicamente qualquer serpente que aparece em nossa vista por considerarmos elas perigosas. Episódios como esse aqui relatado, por mais que seja singular como registro histórico, gera uma série de assassinatos de serpentes em vários países. As serpentes são peça fundamental nas dinâmicas ecossistêmicas e a sua caça pode trazer sérios impactos ambientais.

Texto escrito por Gabriel Aguiar, bolsista de extensão do NUROF-UFC.

 

REFERÊNCIAS

National Geographic. How This 23-Foot Python Swallowed a Man Whole. Disponível em: <http://news.nationalgeographic.com/2017/03/python-snake-swallows-man-whole-indonesia >.

BBC. How did an Indonesian python eat a man? Disponível em: <http://www.bbc.com/news/world-asia-39427462 >.

É importante conservar as serpentes? Como a educação formal, contato prévio e percepção influenciam na interação do homem com as serpentes

Será que é eficaz pensar em conservação sem levar em conta as relações existentes entre as espécies animais e as comunidades humanas?  O estudo dessas relações parece ser um caminho cada vez mais importante na adoção de medidas efetivas de conservação (Alves 2012). A relação dos homens com alguns grupos de animais pode ser conflituosa, como exemplos desses grupos podemos citar aranhas, ratos, morcegos e serpentes. As serpentes têm sido historicamente perseguidas e mortas pelos homens em diversos países, chegando até mesmo a causar a diminuição de populações de espécies desse grupo em alguns locais (Figura 01). Recentemente, alguns estudos buscaram entender melhor a relação entre os homens e as serpentes no Brasil, focando seus esforços principalmente em aspectos descritivos dessa relação e em áreas rurais (Fernades Ferreira et al., 2011; Fita et al., 2010). Pouquíssimos abordaram essa relação testando hipóteses com as possíveis explicações para essa relação conflituosa.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Figura 01: O homem e a serpente. Philodryas olfersii, chamada popularmente de cobra-verde, cipó-verde ou cipó-listrada. Foto: Luan Pinheiro.

Recentemente, colaboradores do NUROF-UFC publicaram um artigo na revista cientifica internacional Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine e trouxeram contribuições no sentindo de entender melhor a relação entre os homens e as serpentes em um grande centro urbano do nordeste brasileiro. Nesse trabalho, foram colhidas informações de 1142 visitantes do NUROF-UFC, localizado em Fortaleza, durante quatro anos (2010-2013) através dos projetos de educação ambiental desenvolvidos no núcleo. Dentre as informações colhidas, estavam dados sociodemográficos, como idade, sexo e escolaridade, além de perguntas referentes à percepção das pessoas ao se deparar com serpentes, o nível de medo em relação a esses répteis e se os visitantes tinham tido algum contato prévio com esses animais, seja na natureza, em ambientes urbanos ou em zoológicos.

Entre os resultados da pesquisa, os cientistas encontraram que quanto maior o nível de escolaridade dos entrevistados menos percepções negativas eles tinham sobre as serpentes, demonstrando a importância da educação formal na maneira como as pessoas percebem esses animais (Pinheiro et al., 2016). Além disso, foi mostrado que a percepção negativa das pessoas em relação às serpentes está associada à importância que elas dão à conservação destes animais. O que quer dizer que pessoas com percepções negativas em relação às serpentes tendem a não considerar importante ações para a conservação desses animais. Outro resultado do estudo foi que pessoas com algum tipo de contato prévio apresentaram menos medo e menos percepções negativas das serpentes. Os pesquisadores também encontraram que mulheres apresentaram mais medo e percepções negativas em relação às serpentes do que os homens.

As conclusões do estudo são importantes para entendermos melhor a relação entre os homens e as serpentes. Além de servir de base para adoção de medidas conservacionistas e de educação ambiental tendo como possíveis alvos prioritários pessoas com baixos níveis de escolaridade através de atividades que levem o público a interagir com esses animais.

Para mais informações acesse o artigo completo (Acesso Aberto – Open Access) disponível no link:  https://ethnobiomed.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13002-016-0096-9

 

Por Luan Pinheiro, colaborador do NUROF-UFC.

Referências

Alves RRN. 2012. Relationships between fauna and people and the role of ethnozoology in animal conservation. Ethnobiology Conservation. 1:1–69.

Fernandes-Ferreira H, Cruz R, Borges-Nojosa DM, Alves RRN. 2011. Crenças associadas a serpentes no estado do Ceará, Nordeste do Brasil. Sitientibus. 11:153–63.

Fita DS, Costa-Neto EM, Schiavetti A. 2010. “Offensive” snakes: cultural beliefs and practices related to snakebites in a Brazilian rural settlement. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine. 6:13.

Pinheiro LT, Rodrigues JFM, Borges-Nojosa DM. 2016. Formal education, previous interaction and perception influence the attitudes of people toward the conservation of snakes in a large urban center of northeastern Brazil. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine 12: 25. DOI 10.1186/s13002-016-0096-9

 

 

Bonita, nadadora e cheirosa!

Thamnophis sirtalis

 

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Essa é a Thamnophis sirtalis (Serpentes: Colubridae), uma típica serpente de jardim nativa da América do Norte. Com hábitos diurnos, essas serpentes de até um metro e meio de comprimento podem ser encontradas em muitos ambientes, de florestas e pradarias a ambientes urbanos, embora prefiram áreas úmidas, como as margens de lagoas, pântanos e córregos.  

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Quanto à aparência, elas capricham! Extremamente variáveis e coloridas, sua região dorsal pode variar de preto, marrom ou cinza ao verde, azeitona ou vermelho, e há normalmente três listras claras ao longo do seu comprimento. Mas ela não é só um rostinho bonito não! A serpente de jardim é uma excelente nadadora e frequentemente caça nadando lentamente ao longo das margens de lagos, muitas vezes varrendo de boca aberta de um lado para outro, aproveitando aquela presa descuidada. E nessa dieta de atleta ela tem uma gama diversificada de refeições, incluindo peixes, anfíbios e seus girinos, minhocas, sanguessugas e outros invertebrados aquáticos e terrestres, além de pequenos mamíferos e aves. 

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A saliva da serpente de jardim é levemente tóxica, possivelmente ajudando a imobilizar presas, no entanto, a sua mordida é geralmente inofensiva para os seres humanos. Elas ainda possuem outra característica especial: ser tolerante ao frio, fato pouco incomum no grupo das serpente. É uma das últimas espécies de serpentes a entrar em hibernação em regiões mais frias e uma das primeiras a surgir novamente na primavera.

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As serpentes de jardim podem ser lindas e ter várias peculiaridades, mas nada se compara a sua vida sexual! Quando a fêmea sai da hibernação, libera um feromônio que atrai todos os machos das proximidades ao mesmo tempo (ver também: Anaconda), resultando em grandes ninhos de acasalamento com até 30.000 cobras ao mesmo tempo. E não bastasse a acirrada disputa pelo sexo com a fêmea, na qual apenas um macho irá fecundá-la, em meio ao grupo pode haver também alguns machos que mimetizam o tamanho, os comportamentos e os feromônios de fêmeas para poderem atrair outros machos e, assim, obter aquecimento e proteção, garantindo a esses machos maior sucesso reprodutivo.

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Texto por Jamile Lima, estagiária NUROF-UFC

REFERÊNCIAS:

Larsen, K.W., Gregory, P.T. and Antoniak, R. (1993) Reproductive ecology of the common garter snakeThamnophis sirtalis at the northern limit of its range. American Midland Naturalist, 129(2): 336-345.

Mason, R.T. and D. Crews. (l985). Female mimicry in garter snakes. Nature, 316: 59‑60. [PDF]

U.S. Fish and Wildlife Service (1985) Recovery Plan for the San Francisco Garter Snake (Thamnophis sirtalis tetrataenia). U.S. Fish and Wildlife Service, Portland, Oregon. Available at:  http://ecos.fws.gov/docs/recovery_plan/850911.pdf

U.S. Fish and Wildlife Service (2006) San Francisco Garter Snake (Thamnophis sirtalis tetrataenia). 5-Year Review: Summary and Evaluation. U.S. Fish and Wildlife Service, Sacramento, California. Available at: http://ecos.fws.gov/docs/five_year_review/doc774.pdf

SITES ACESSADOS:

Arkive.org

FlMNH

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NOTÍCIA: Artigo da Science descreve fóssil de cobra com patas encontrado no Brasil.

Cientistas descreveram o que dizem ser o primeiro fóssil conhecido de serpente com quatro patas. Os membros, tanto anteriores quanto posteriores (Fig.1), de 120 milhões de anos estão muito bem preservados, apresentam 20 cm de comprimento e terminam em cinco dígitos delgados. O fóssil foi batizado de Tetrapodophis amplectus, sendo que o gênero, em Grego, significa “Serpente com quatro patas” e o epíteto deriva do Latim e refere-se aflexibilidade da criatura e a capacidade presumida para agarrar firmemente suas presas.

Tetrapodophis (rear limbs shown), had delicate but functional limbs that may have been used for grasping prey or used during mating

Fig.1. Tetrapodophis (membros posteriores), tinha membros delicados, mas funcionais que podem ter sido utilizados para agarrar a presa ou utilizados durante o acasalamento.

Segundo os pesquisadores, a peça é originária da Formação Crato, na Bacia do Araripe, no Ceará. Detalhes de quando ela foi descoberta e como finalmente acabou no museu alemão,onde se encontra agora, permanecem um mistério. Esses detalhes são importantes paramuitos pesquisadores e especialmente para alguns do Brasil, visto que tem sido ilegal exportar fósseis do país desde 1942. A descrição foi publicada em artigo tendo como autores David M. Martill, paleontólogo da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, Helmut Tischlinger e Nicholas Longrich.

Este seria o fóssil de uma das primeiras serpentes, sugerindo que o grupo evoluiu a partir de precursores terrestres na Gondwana, o remanescente sul  do supercontinente Pangeia. Embora apresente plano corporal e outras características anatômicas semelhantes às serpentes atuais, alguns pesquisadores não tem tanta certeza da filogenia deTetrapodophis (Fig.2).

Tetrapodophis (artist’s representation) is the first known snake known to have four limbs.

Fig.2. Representação artística de Tetrapodophis mostrando uma das funções que poderia ter seus membros (segurar as presas). Foto: Reprodução/Science/Julius Cstonyu

Michael Caldwell, paleontólogo de vertebrados da Universidade de Alberta, Edmonton, no Canadá, admite que viu apenas imagens do fóssil, não o próprio fósseis. Mas alguns aspectos da coluna vertebral da criatura não coincidem com o de outras cobras e lagartos, observa. Em particular, as superfícies frontal das vértebras de cobras e lagartosconhecidos, exceto em geckos, são côncavas, e as superfícies posteriores são convexas; o que não parece ser o caso em Tetrapodophis (Fig.3), diz ele.

Tetrapodophis

Fig.3. Fóssil completo de Tetrapodophis (Coluna e costelas). Adaptado de Martill et al, 2015.

Tetrapodophis tem uma mistura muito interessante de personagens,” diz SusanEvans, uma paleobiolóloga da University College London. Embora os dentes da criatura pareçam com os de serpentes, ela admite, “Estou tentando sentar cuidadosamenteem cima do muro sobre se esse fóssil pertence, realmente, a uma cobra.Um alongamentoradical do corpo e redução no tamanho ou perda de membros ocorreu muitas vezes em outros grupos de répteis, observa ela. Outro enigma, acrescenta, são o porque dos ossos nas pontas dos dígitos da criatura serem tão longos. Longrich e seus colegas sugerem que os dedos das patas longos eram usados para agarrar presas ou possivelmenteusado durante o acasalamento. Mas Caldwell observa que essas características “são notavelmente incomuns, a menos que você é seja arborícula.”

FONTE: Science

DOSSIÊ ANACONDA

A Eunectes murinus (Linnaeus 1758), também chamada de Sucuri ou Anaconda (Fig. 1), é uma das serpentes mais conhecidas no mundo, principalmente por ser a antagonista dos filmes de terror da série Anaconda.  Mas será que filmes e até mesmo documentários estão apresentando esse animal de maneira correta, crível, do ponto de vista científico?

Fig. 1. Sucuri. Créditos: © 2003 John White

Fig. 1. Sucuri. Créditos: © 2003 John White

As sucuris pertencem à família Boidae, a mesma das Jiboias e Salamantas, e como todos os membros dessa família, são áglifas (ou seja, não são peçonhentas), matam por constrição, são ovovivíparas e ocupam uma diversidade de ambientes: terra, árvores, rios e lagos (CHARLES, 2007; POUGH, 1999).

Com certeza é a maior serpente das Américas com seus 9,6 metros descritos, mas normalmente chegando a menos de 6 metros – recentemente, a maior que acharam não passava dos 8,45 metros (BELLOSA, 2003). É a segunda maior serpente do mundo, perdendo apenas para a Píton Reticulada (Python reticulatus), uma serpente asiática que pode, de fato, atingir 10 metros na fase adulta – mas, novamente, o maior exemplar vivo tem apenas 7,6 metros (GUINESS, 2013).

Além disso, pode ser encontrada nas florestas tropicais da América do Sul, mas também já foi encontrada no Nordeste do Brasil. São animais semi-aquáticos que tem preferência por ambientes de água doce lenta, como lagoas (Fig. 2). Também é bem comum serem encontradas em mangues.

Fig. 2. Sucuri repousando no tronco de uma árvore. Créditos: © Joe McDonald / Animals Animals

Fig. 2. Sucuri repousando no tronco de uma árvore. Créditos: © Joe McDonald / Animals Animals

Diferente de outros répteis, como Tartarugas e Crocodilos, as Sucuris vivem pouco: cerca de 10 anos na natureza e até 30 anos em cativeiro (MILLER, 2004). Esse é um dado importante, pois mostra como esse animal cresce muito em tão pouco tempo.

Sua reprodução consiste na agregação de uma fêmea com até 13 machos (Fig. 3). O acasalamento pode durar semanas e nesse período a fêmea pode acasalar várias vezes com os machos que a cortejam – esses tentam procurar a cloaca da fêmea com o auxílio de suas caudas (RIVAS, 2001). Depois disso, a gestação dura 7 meses e a fêmea tem por volta de 29 filhotes – essa prole não receberá cuidado parental depois do nascimento (GRZIMEK, 2003; RIVAS, 1999).

Fig. 3. Acasalamento de sucuris. Créditos: © Francois Savigny / gettyimages.com

Fig. 3. Acasalamento de sucuris. Créditos: © Francois Savigny / gettyimages.com

Embora tenham as pupilas circulares, as Sucuris são mais ativas próximo à noite (GRZIMEK, 2003). Elas costumam se mover nas primeiras horas mais frias depois do pico de calor do dia.  Podem se alimentar de peixes, jacarés, antas, capivaras e outros animais de grande porte (Fig. 4). Já foi documentado canibalismo nessa espécie também (RIVAS et al., 2000).

Fig. 4. Sucuri engolindo jacaré. Créditos: © Tony Crocetta / Biosphoto

Fig. 4. Sucuri engolindo jacaré. Créditos: © Tony Crocetta / Biosphoto

Por sinal, nunca foram registrados casos de Sucuris devorando pessoas, em toda literatura científica. Ela simplesmente não iria conseguir engolir uma pessoa, devido à diferença de largura entre os ombros e a cabeça, mesmo ela possuindo proporções para matar e talvez até consumir um ser humano. Por isso que o programa Eaten Alive da Discovery Channel, no final de 2014, que prometia mostrar um homem ser engolido por uma Sucuri e depois sair ileso, simplesmente não iria acontecer (e de fato, não aconteceu).

Fig. 5. Naturalista Paul Rosolie segurando sucuri. Créditos: Dicovery Channel

Fig. 5. Naturalista Paul Rosolie segurando sucuri. Créditos: Dicovery Channel

Ao contrário do que filmes e documentários mostram muitas vezes, esses animais não são predadores insaciáveis que precisam matar constantemente para se alimentar, na verdade podem passar várias semanas sem comer nada, o que é bem comum na natureza.

Mesmo sendo enormes, as sucuris não causam graves acidentes a humanos, nem procuram caçar pessoas. Na verdade, já foi comprovado o contrário: sempre que existe contato, esses animais costumam ser atacados e até mesmo mortos, por humanos (BASTOS et al., 2003). Claro, muitos boídeos costumam reagir à presença humana ficando imóveis, emitindo sons da inspiração e expiração vigorosa (o ato de “bufar”) ou até mesmo simulando botes, na esperança de afastar a ameaça. Resumindo, elas não são como as serpentes do cinema, que não têm o menor problema em se aproximar de um grupo de pessoas e aniquilar todas elas (Fig. 6).

Fig. 6. Cena do filme

Fig. 6. Cena do filme “Anacondas: The Hunt for the Blood Orchid”, mostrando uma sucuri monstruosa. Créditos: Fox

A produção cinematográfica acerca dessa espécie pode ser de bom entretenimento para o público, mas suas consequências para a reputação da espécie e consecutiva conservação por parte da sociedade talvez não seja positiva. Com o aumento da ocupação humana nas florestas e o desmatamento, esses animais vêm perdendo seu espaço rapidamente (ATHAYDE, 2007; ALVES, 2007). Talvez seja por esses motivos que é cada vez mais difícil encontrar Sucuris com grandes tamanhos. Por ser um dos maiores predadores das florestas sul-americanas, a Sucuri tem papel-chave no equilíbrio natural desses ecossistemas e a perda de populações dessa espécie pode implicar em consequências incalculáveis.

Texto por: Lucas Araújo de Almeida, bolsista do Nurof-UFC

REFERÊNCIAS

1) ALVES, Rômulo Romeu; PEREIRA FILHO, Gentil Alves. Commercialization and use of snakes in North and Northeastern Brazil: implications for conservation and management. In: Vertebrate Conservation and Biodiversity. Springer Netherlands, 2007. p. 143-159.

2) ATHAYDE, Gustavo Castro. TRATAMENTO DE LESÕES TRAUMÁTICAS EM SUCURI (Eunectes murinus). 2007 BASTOS, Rogério P. et al. Anfíbios da floresta nacional de Silvânia, Estado de Goiás. Stylo gráfica e editora, Goiânia, 2003.

3) BELLOSA, H. Record Snake Fascination. Reptilia (GB), v. 27, p. 28-30, 2003.

4) CHARLES, H. A. Comportamento predatório de serpentes (Boidae) de diferentes hábitos e biometria de crescimento e ecdises de Eunectes murinus Linnaeus, 1758 em laboratório. CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM BIOLOGIA ANIMAL. 2007.

5) GRZIMEK, Bernhard et al. Grzimek’s animal life encyclopedia. Farmington Hills, Michigan: Gale, 2004.

6) GUINESS WORLD RECORDS 2013 – Medusa largest snake ever in captivity http://www.theworldslargestsnake.com/

7) MILLER, Debra L. et al. Cutaneous and pulmonary mycosis in green anacondas (Euncectes murinus). Journal of Zoo and Wildlife Medicine, v. 35, n. 4, p. 557-561, 2004.

8) POUGH, F. H.; HEISER, J. B. A vida dos vertebrados 2a edição. Editora Atheneu, 1999.

9) RIVAS, Jesús A.; BURGHARDT, Gordon M. Understanding sexual size dimorphism in snakes: wearing the snake’s shoes. Animal Behaviour, v. 62, n. 3, p. F1-F6, 2001.

10) RIVAS, Jesús. A. The life history of the green anaconda (Eunectes murinus), with emphasis on its reproductive biology. Unpubl. 1999. Tese de Doutorado. Ph. D. diss., University of Tennessee, Knoxville.

11) RIVAS, Jesús A.; OWENS, R. Y. Eunectes murinus (green anaconda): Cannibalism. Herpetol. Rev, v. 31, n. 1, p. 44-45, 2000.

FONTES

1) Anacondas Org

2) Discovery Channel: Eaten Alive

3) National Geographic – Green Anaconda 

4) Filme: Anaconda, 1997

5) Filme: Anacondas, The Hunt for the Blood Orchid, 2004

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