Hábito arborícola em hilídeos: cada perereca no seu galho


Os animais selecionam microhábitats que possibilitem se refugiar, evitar predadores, se reproduzir e conseguir alimento. Chamamos de microhábitat a parte específica do hábitat (Hicklefs, 2003), ou seja, sua porção em escala espacial mais reduzida, como se déssemos zoom para uma observação mais detalhada do ambiente em que esses organismos se encontram (Figura 1).

Figura 1. Dendropsophus gr. Microcephalus empoleirado sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Patrícia Gondim.

Figura 1. Dendropsophus gr. microcephalus empoleirado sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Patrícia Gondim.

Os anuros da família Hylidae, também conhecidos como pererecas, podem constituir o grupo com o maior número de espécies que possuem hábitos arborícolas. A maioria se empoleira sobre a vegetação graças à presença de discos adesivos ou ventosas nas pontas dos seus dedos (Cardoso et al., 1989; Prado; Pombal Jr., 2005). No entanto, esta adaptação não impede que elas procurem também outros locais como os demais anuros, tais como as rochas e a serrapilheira. A ocupação de diferentes microhábitats contribui para diminuir a competição por recursos, como alimento, parceiros para reprodução (Figura 2), territórios etc (Caramaschi, 1981).

Figura 2. Dendropsophus gr. microcephalus em amplexo sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Luan Pinheiro.

Figura 2. Dendropsophus gr. microcephalus em amplexo sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Luan Pinheiro.

A altura em que as pererecas se empoleiram sobre a vegetação, além de variar entre as diferentes espécies (Figura 3), pode variar até mesmo entre os indivíduos da mesma espécie, por exemplo, entre jovens e adultos (Eterovick et al., 2010; Gondim et al., 2013). Isso pode depender do tamanho e massa corpórea (Van Sluys; Rocha, 1998; Muñoz-Guerrero et al., 2007) ou fatores ambientais, como umidade relativa do ar, temperatura e vento (Melo et al., 2007; Prado; Pombal Jr., 2005). No trabalho de Gondim et al. (2013), realizado por membros do NUROF-UFC (acesso ao artigo),  esses motivos possivelmente expliquem a distribuição vertical em Dendropsophus gr. microcephalus também. Os jovens ocuparam alturas maiores do que os adultos sobre a vegetação, que pode estar relacionado a uma menor sobreposição no uso dos estratos verticais entre eles. Os autores afirmam que ainda são poucos os trabalhos científicos publicados que se dedicaram a fazer comparações na altura de empoleiramento dentro da mesma espécie. A realização de mais estudos sobre o tema poderá acrescentar novos conhecimentos à ecologia desse grupo de anuros.

Figura 3. Hypsiboas raniceps empoleirado sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Patrícia Gondim.

Figura 3. Hypsiboas raniceps empoleirado sobre a vegetação, no município de São Gonçalo do Amarante, Ceará. Fotografia de Patrícia Gondim.

Por: Patrícia de Menezes Gondim, membro do NUROF-UFC

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARDOSO, A. J.; ANDRADE, G. V.; HADDAD, C. F. B. 1989. Distribuição espacial em comunidades de anfíbios (Anura) no sudeste do Brasil. Revista Brasileira de Biologia, 49 (1): 241-249.

ETEROVICK, P. C.; RIEVERS, C. R.; KOPP, K.; WACHLEVSKI, M.; FRANCO, B. P.; DIAS, C. J.; BARATA, I. M.; FERREIRA, A. D. M.; AFONSO, L. G. 2010. Lack of phylogenetic signal in the variation in anuran microhabitat use in southeastern Brazil. Evolutionary Ecology, 24: 1-24.

GONDIM, P. M.; BORGES-LEITE, M. J.; PINHEIRO, L. T.; BORGES-NOJOSA, D. M.; CASCON, P. 2013. Microhabitat use (vertical distribution) by a population of Dendropsophus gr. microcephalus (Anura, Hylidae) in a forested area of coastal tableland of north-eastern Brazil.  Herpetology Notes, 6: 363-368.

HICKLEFS, R. E. 2003. A Economia da Natureza. 5º edição. Guanabara Koogan. 503 pp.

MELO, G. V.; ROSSA-FERES, D. C.; JIM, J. 2007. Variação temporal no sítio de vocalização em uma comunidade de anuros de Botucatu, Estado de São Paulo, Brasil. Biota Neotropica 7(2): 93-102.

MUÑOZ-GUERRERO, J.; SERRANO, V. H.; RAMÍREZ-PINILLA, M. P. 2007. Uso de microhábitat, dieta, y tiempo de actividad en cuatro espécies simpátricas de ranas hílidas neotropicales (Anura: Hylidae). Caldasia, 29(2): 413-425.

PRADO, G. M.; POMBAL JR., J. P. 2005. Distribuição espacial e temporal dos anuros em um brejo da reserva biológica de Duas Bocas, sudeste do Brasil. Arquivos do Museu Nacional, 63 (4): 685-705.

VAN SLUYS, M.; ROCHA, C. F. D. 1998. Feeding habits and microhabitat utilization by two syntopic Brazilian Amazonian frogs (Hyla minuta and Pseudopaludicula sp. (gr. falcipes). Revista Brasileira de Biologia, 58(4): 559-562.

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